sábado, 25 de fevereiro de 2017

SOS Racismo denuncia xenofobia e ameaças de morte contra ciganos em Sto. Aleixo da Restauração (Moura)


“Ku Klux Klan” regressa a Stº Aleixo da Restauração (Moura)


Ameaças de morte pintadas por toda a povoação (nos últimos dias) bombas lançadas para os quintais das casas da comunidade cigana, dando credibilidade às próprias ameaças (na noite passada, 23-2-2017).

Caixões colocados à porta, cavalo envenenado, Igreja incendiada, casas queimadas, carros a arder (de setembro a Novembro/2016).

Perante a inoperância das autoridades (quer policiais, quer políticas), a comunidade cigana de Stº Aleixo da Restauração, desde o fim do Verão, está a ser vítimas de situações que mais lembram a atuação do Ku Klux Klan de meados do séc. passado.
Algumas destas situações já vieram a lume (Jornal Tornado e Público, no final do ano). Inclusive uma cadeia de televisão esteve a acompanhar uma visita do SOS Racismo que a chamou para tentar alertar a situação (acabou por nada fazer). Alguns responsáveis políticos já por lá passaram (Alto Comissário) sem se dignar a falar com as vítimas destes atos de pura barbárie cujo objetivo é causar o medo, tentar que abandonem a aldeia, ou mesmo expulsar a comunidade cigana da zona.
Estas situações agravadas com a atuação intimidatória da GNR têm, de fato, levado a que algumas pessoas estejam a dormir fora da povoação, nomeadamente uma, que é invisual, pois uma das casas incendiadas foi a sua.
O SOS Racismo, que já tinha tomado conhecimento de algumas destas situações, ficou à espera que as autoridades atuassem, tendo em conta que eram do conhecimento das instituições. É verdade que a sanha incendiária racista e xenófoba parou com as deslocações, com as visitas que o SOS Racismo foi fazendo.






Mas a verdade é que, neste final de fevereiro, a cobardia e a violência racista voltou ainda com mais ódio e ameaças xenófobas de uma gravidade que se podem constatar pelas fotografias que acompanham esta denúncia.
As ameaças que aparecem escritas um pouco por toda a povoação, cemitério incluído, são reforçadas pelo rebentamento de bombas nos quintais dos elementos da comunidade cigana, talvez encorajados pela ausência de medidas das instituições, pela inoperância das autoridades policiais, pela impunidade das práticas racistas e xenófobas.
E isto, apesar de o presidente da Câmara ter afirmado que o assunto se estava a resolver com o reforço do policiamento…
A comunidade cigana de Stº Aleixo da Restauração recorreu uma vez mais ao SOS Racismo para que consiga chamar a atenção das autoridades tendo em conta a sua inércia criminosa e a gravidade das ameaças bem espelhadas nas paredes de Stº Aleixo.
As autoridades não podem continuar a olhar para o lado sem fazer nada, contribuindo para agravar o risco em que a comunidade cigana se encontra. Basta ver as fotografias para perceber o terror que se quer instalar nesta comunidade.
E criminosos não são apenas aqueles que estão tranquilamente a praticar estes atos hediondos.
Compete ao estado de direito, defender que todas as pessoas se sintam seguras na sua terra, nas suas casas. A população cigana está em risco, a viver momentos de terror.
A inoperância não pode persistir.
É altura de o governo, o Alto Comissário tomar medidas para que nada de grave venha a acontecer.
É altura destes crimes serem punidos

Pelo SOS Racismo
Piménio Teles / José Falcão / Mamadou Ba
24/2/2017

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Capa do Diário do Alentejo desta semana


O QUE É IMPORTANTE

No passado domingo fui surpreendido pela notícia que me recusei a esperar. Tinha morrido o Joaquim Soares, o homem que teimou em trabalhar o cante em Évora durante mais de três décadas.
Tentei escrever uma pequena nota na minha página de facebook e não fui capaz de dizer nada. Que poderia eu dizer, que outros já não tivessem dito, sobre o operário da cultura, sobre o mestre que dirigiu os Cantares de Évora, sobre o cidadão que foi presidente de junta e vereador, sobre o teimoso defensor da cultura popular, sobre o homem que, apesar de recusar mexer na tradição, arriscou cruzar o cante com a música dita erudita ou com outras formas de música popular, em trabalhos com a Ronda dos Quatro Caminhos, ou com Amílcar Vasques-Dias e Pedro Calado.
Tendo eu memória de tudo isso, reconhecendo o seu papel em tudo isso, percebendo que a sua ausência se reflectirá em tudo o que ficou por fazer, o que mais falta me fica a fazer é a existência de um homem bom, num mundo onde escasseiam cada vez mais as pessoas com essa qualidade, que leva à acção sem construções de reservas mentais, sem desconfianças de tudo e de todos, sem o mesquinho interesse no ganho pessoal, ou da inveja que destrói por dentro gente aparentemente decente.
Quando, durante as cerimónias fúnebres me pediram para dizer algo sobre o homem que ali jazia, o que estava presente na minha busca de palavras foi o percurso que fizemos juntos, durante quatro anos, como vereadores sem pelouro na Câmara Municipal e como em todos os momentos, em particular os mais difíceis, a lealdade do Joaquim Soares esteve presente.
Perdemos todos um mestre do cante, eu sinto que perdi um dos raros (muito raros) amigos cuja lealdade era inquestionável.
Com ele aprendi que uma simples moda pode ser um hino e que pode ficar debaixo da pele de tal forma que é inevitável chorar sempre que, depois de um petisco, os Cantares de Évora se juntavam naquele canto atrás do balcão e a voz clara do Soares dizia, com a força que só ele sabia emprestar a uma moda, “O Sol é que alegra o dia, Pela manhã quando nasce. Ai de nós o que seria, Se o Sol um dia faltasse!”
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na radio diana)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Zeca Afonso (2 de Agosto de 1929 — 23 de Fevereiro de 1987)



Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praia do mar nos vamos
À procura da manhã clara

Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.

ONDE NOS LEVA ESTE CAMINHO?

Vivemos tempos demasiados confusos e de difícil compreensão. A eleição do atual presidente dos Estados Unidos trouxe ao debate público matérias que há uns anos atrás eram impensáveis de sucederem. Refiro-me concretamente ao que é dito por alguma comunicação social a despeito da competência e da sanidade do Presidente Trump. Não sei se é verdade o que se publica, porque desconheço as razões dessas afirmações.
Com efeito, a ser verdade que o Presidente da maior potência mundial é um impreparado e “pouco normal”, para não usar alguns adjetivos utilizados pela comunicação social, talvez fosse de colocar uma pergunta que para mim é bastante óbvia: como é que chegou ao mais alto cargo de uma nação um individuo que não tem qualidades para o exercer, se o mesmo fora sujeito a um sufrágio universal e direto?
Partindo da premissa de que é verdade o que dizem os detratores do Presidente Trump, talvez possamos concluir que a esmagadora maioria dos seus votantes ou estava mal informada, ou no mínimo, é totalmente irresponsável. Duvidando que estas duas condições sejam reais, só poderemos concluir que a maior parte dos americanos sente-se defraudada com a anterior presidência.
Porém, o presidente Obama tinha uma grande aceitação na media internacional e europeia. Todos se devem lembrar do slogan da campanha do presidente Obama; “YES WE CAN”, nós podemos. Fora criado um sentimento de esperança e de mudança muito grande no mundo ocidental. Só que povo americano na sua maioria não sentiu nas suas vidas a mudança proclamada e por isso votou no candidato republicano.
Ora, há um aspeto que eu tendo a concluir: A opinião publicada rara vezes vai ao encontro das expetativas da maioria e, numa democracia são as maiorias que determinam o modo como realizar o futuro, sem obviamente o desrespeito dos direitos das minorias. Porém, temo que os poderes que interferem na formação da opinião pública, não querem ou ainda não perceberam. E, quando muitos começam a estar insatisfeitos, normalmente, e, aqui a história poderá ajudar-nos, sucedem inevitavelmente conflitos belicistas. Mais ou menos generalizados. É isto o que pretendem? Então continuem a caminhar no mesmo sentido.

José Policarpo (crónica na radio diana)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Na quinta e sexta-feira: José Afonso evocado em Évora nos 30 anos da sua morte



# 23 de Fevereiro, quinta-feira  - (no dia em que passam 30 anos da morte de José Afonso) Tertúlia sobre "Zeca Afonso e o canto de intervenção. Ontem e hoje", com os cantores A P Braga e Benjamim. Estará patente uma exposição alusiva a José Afonso da responsabilidade do fotógrafo eborense José Manuel Rodrigues. Na Sociedade Harmonia Eborense, às 22H,30.

# 24 de Fevereiro, sexta-feira  - Tertúlia sobre "O pensamento e os valores de José Afonso: a utopia, a liberdade, a cidadania", com a presença do prof. Silvério Rocha-Cunha, da Universidade de Évora. Actuação do grupo AJA Música. No Hall do Teatro Garcia de Resende, às 21H,30.
Aparece!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Assembleia Municipal de Évora aprova concursos para postos de trabalho camarários


A Assembleia Municipal de Évora, na sua sessão de 17 de Fevereiro, aprovou por unanimidade a abertura de procedimentos concursais destinados à criação de um conjunto de postos de trabalho, nomeadamente na carreira de assistente operacional, para assegurar o cumprimento de necessidades de prestação de serviço público em várias áreas municipais.
Trataram-se dos pontos para a constituição de relação jurídica de emprego público, por tempo indeterminado, para vários postos de trabalho, da carreira de assistente operacional; por tempo determinado, para 10 (dez) lugares de jardineiro; por tempo determinado, para 2 (dois) lugares de nadador-salvador; e por tempo determinado, para 30 (trinta) lugares de cantoneiro de limpeza.
A celebração de contratos interadministrativos com as Juntas/Uniões de Freguesias - ano de 2017; e de acordos de execução com as Juntas/Uniões de Freguesias - ano de 2017 mereceram aprovação unânime.
Um protocolo entre o Município de Évora e a EDP Distribuição - Alteração ao anexo I do contrato de concessão de distribuição de energia elétrica em baixa tensão mereceu também aprovação unânime. Esta alteração propiciará a instalação progressiva de equipamentos modernos nas redes de iluminação pública mais adequados às exigências da eficiência energética e da economia de custos, sem por em causa os níveis de iluminação aconselhados.
Foi aprovado por unanimidade, no âmbito do acordo de pagamento entre o Município de Évora e a Águas de Lisboa e Vale do Tejo, o pagamento de faturas em atraso, acumuladas à data de preparação do Plano de Saneamento Financeiro (por considerar que não se encontravam correctas) e acerca das quais, após negociação, foi possível chegar a acordo e assim chegar ao acerto do montante total em dívida. 
O ponto acerca do SITEE – Sistema Integrado de Transportes e Estacionamento de Évora, EM, Lda. - “em liquidação” – Relatório e Contas Finais - Encerramento da Liquidação foi aprovado por unanimidade.
O Presidente da Câmara Municipal deu conhecimento da atividade municipal nos meses de Novembro/Dezembro de 2016 e Janeiro de 2017. Entre os vários assuntos abordados, mereceu destaque a evocação feita relativamente ao recente falecimento do arquitecto Joaquim Tenreiro, justificando de resto que a Assembleia Municipal guardasse um minuto de silêncio pelo seu falecimento.
Informou ainda sobre a aprovação pela Associação Nacional de Municípios de parecer relativo à transferência de competências; a participação da Câmara em feira de aeronáutica francesa; a passagem da Volta ao Alentejo em Bicicleta por Évora ou a passagem do Museu de Évora a museu nacional, uma questão que a autarquia tem vindo a defender desde há muito tempo.
A intervenção de uma cidadã no período destinado ao público acerca da proposta sobre a proibição de circos com animais no concelho de Évora gerou um amplo debate entre os membros da Assembleia, tendo ficado acordado que cada grupo político deve indicar um membro à mesa da Assembleia para se constituir uma comissão que irá, junto com a Câmara, trabalhar no assunto.
Outros assuntos tratados
No período antes da Ordem do Dia foi aprovada uma resolução, uma recomendação e uma moção. A resolução sobre a candidatura Confluências para apoio à realização de um conjunto de eventos culturais em Évora foi lida por José Russo (CDU) e aprovada por unanimidade. Nela, a Assembleia aprovou uma resolução com o objectivo de fazer chegar à autoridade de gestão do Alentejo 2020 a sua manifesta incompreensão com esta decisão e apelar, junto desta entidade e de outros órgãos da administração do Estado, para que esta situação, profundamente injusta, possa ser, tão breve quanto possível, devidamente corrigida.
Mereceu aprovação unânime uma recomendação lida por Bruno Martins (BE) para que a Câmara Municipal de Évora “atribua a Medalha de Ouro da Cidade de Évora ao cidadão José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos”. A ideia -explica-se na recomendação - surgiu num espetáculo em 1984 no Rossio de S. Brás, mas como não foi concretizada, o Bloco de Esquerda veio propô-la agora “considerando que o trigésimo aniversário do desaparecimento físico do cantautor é um momento excelente para reparação deste lapso”.
Uma moção sobre transferência de competências, proposta pelo Grupo Municipal da CDU e apresentada por Duarte Guerreiro, foi aprovada por maioria, com a abstenção do PSD. Assim, a Assembleia Municipal deliberou “reafirmar a descentralização como condição essencial para o desenvolvimento local e regional; e reiterar a exigência de criação das regiões administrativas enquanto factor indispensável a um processo coerente de delimitação de responsabilidade entre os vários níveis de administração, a uma reforma democrática de administração, à defesa da autonomia dos municípios.
Exige igualmente a eliminação de todas as restrições à autonomia do poder local, em matéria financeira, orçamental, organizacional, material e humana; e rejeitar qualquer nova transferência de atribuições e competências sem a garantia comprovada da dotação das autarquias com os meios indispensáveis ao seu pleno exercício, presente e futuro”. (Nota de imprensa da CME)

ALTERNATIVA

Poderia voltar a falar de Trump e das eleições americanas para tratar a “alternativa” como um conceito que tantos procuram agora esvaziar do seu sentido próprio e dar-lhe um sentido que a inclui na postura da não-verdade, versão adocicada de mentira, outra palavra infelizmente já tão banalizada e gasta. Mas o que vou dizer aplica-se também, como uma luva, a situações de pré-eleições, e pode acontecer num concelho perto de si. Não é uma denúncia de situações largamente acompanhadas por gente “batida” nestes assuntos, longe de mim imiscuir-me em festas para as quais não fui convidada. E como todos sabemos, há ausências de que se faz parte previsivelmente desde o princípio em que as festas se organizam e que, inegavelmente de forma coerente, se mantêm até ao arrumar das cadeiras em cima das mesas. Não vale a pena recontar versões de uma história curta em que os intervenientes estejam por aí, e não tenham sido mortos e enterrados, nem que seja com uma “sentida homenagem” como soe dizer-se. E tudo sem tristezas, pois claro, porque como também diz o Povo deste país à beira-mar plantado: “há mais marés do que marinheiros”!
É tão somente minha intenção, aqui e agora, lançar, a quem queira ouvir-me, um alerta. É acima de tudo uma palavrinha que sendo breve tem muito a dizer, palavra da autora, para aqueles que, ainda sempre convencidos de que quem vive activamente no meio dos partidos políticos é “farinha do mesmo saco” (que só entendo e confirmo se a farinha forem os indivíduos da espécie humana, e o saco o caldo da cultura local em que estão metidos e de onde não querem sair). É um tentar fazê-los entender de que o todo pode ser melhor do que as partes, e que temos o direito de, consciente e criticamente, recusar o todo que começa a parecer-se demasiado com as partes com que menos nos identificamos e que não temos de “engolir” a qualquer preço. Falo evidentemente de preço como valor, ou melhor, valores pelos quais aceitamos conviver, discutir, trabalhar e produzir numa determinada equipa para um objectivo que até podem dizer que é comum mas que, nos casos para que alerto, são só individuais, próprios e, até admitindo que qualquer um de nós deva retirar de situações em que nos empenhamos vantagem, nem que seja no gosto e prazer na actividade em si-mesma, normalmente gente como esta usa para disfarçar vantagem de sacrifício.
Ora a palavra “alternativa”, mesmo quando usada na anglo-saxónica expressão TINA – there is no alternative – vem do latim alternativus, e significa, etimologicamente, “escolha entre duas opções”. Se, por um lado, a análise da palavra mostra que nela já existe um radical (alter) que, em latim, significa “outro”, podemos considerar que a expressão “outra alternativa” é uma redundância ou um pleonasmo. Não podemos, no entanto, esquecer que, quando se fala em alternativa, não se tem necessariamente uma dualidade, e se pode abrir um leque para uma multiplicidade delas. Ou seja, quando se fala em alternativas, pode não se estar em face de apenas duas, mas até mesmo de várias para escolher. É até, em democracia, sinal de vitalidade dos cidadãos na vida das instituições.
Já na tauromaquia, a alternativa é a profissionalização do praticante desta arte, o que me leva a perceber que há quem tenha como única opção de vida tomar a alternativa e tornar-se na única opção de alternativas com quem nunca disputou o lugar. Obviamente, por falta de comparência de outros ou de capacidade de evitar previamente a ascensão ao lugar de quem nunca percebeu, nem quis perceber de forma escorreita, da arte que se propõe a exercer. Felizmente, lá para outubro, poderemos exercer em liberdade a democracia, o que significa que há sempre a tal outra alternativa. 
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na radio diana)

DESCENTRALIZAÇÃO?

É confrangedor ver vários elementos do Partido Socialista de Évora defender o projecto de lei de transferência de competências para as autarquias proposto pelo Governo. É confrangedor, mas ao mesmo tempo muito esclarecedor que o primeiro partido que já lançou oficialmente a sua candidatura autárquica em Évora nos diga ao que vem e que visão política tem sobre a descentralização, a autonomia das autarquias e a democracia no poder local.
Ficamos a saber que o Partido Socialista no país e em Évora considera positivo este tipo de descentralização. Mas que fique claro: este projecto de lei não contêm qualquer proposta de verdadeira descentralização. Representa, antes, uma verdadeira desresponsabilização do Estado, lançando um enorme perigo para a democracia, pois permite a centralização no presidente de câmara de todos os poderes, além de abrir espaço a futuras privatizações dentro do Estado Social.
Tomemos como exemplo o nosso Distrito. Dos catorze concelhos do Distrito de Évora nove têm menos de 10.000 habitantes. O que é expectável que aconteça quando se municipaliza a educação, a saúde, a cultura, a segurança social ou as infraestruturas? O que é expectável que aconteça em municípios tão pequenos quando o presidente da câmara tem influência na escolha dos directores, professores e funcionários da escola, dos trabalhadores do centro de saúde ou na forma como são distribuídos os apoios sociais? Estaremos a reforçar a democracia ou a centralizar poderes e a abrir portas ao clientelismo, ao medo e ao tráfico de influências?
E nestes Concelhos pequenos, com estruturas naturalmente pequenas, como conseguirão ser geridas tantas competências? Terão capacidade para continuar a fornecer respostas públicas ou o caminho fácil de entregar a gestão a empresas privadas será o adoptado?
É óbvio que o Partido Socialista abandonou a ideia da regionalização que representa a única forma de termos uma verdadeira descentralização democrática. Até da eleição directa das áreas metropolitanas e CCDR’s desistiram. Propor que sejam os presidentes de Câmara a eleger os quadros directivos destas estruturas não é reforçar a democracia, mas perpetuar as lógicas instaladas.
Devemos exigir descentralização acompanhada de mais democracia. O Partido Socialista já escolheu o seu lado, e isso diz muito da sua política autárquica.
Até para a semana!

Bruno Martins (crónica na radio diana)

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Morreu Joaquim Soares



Actualização: o corpo de Joaquim Soares estará na Igreja de São Tiago, em Évora, a partir das 15 horas e será cremado esta segunda feira, às 11 horas em Elvas.

Morreu hoje Joaquim Soares, o homem forte do Grupo "Cantares de Évora". Homem de cultura, intimamente ligado ao cante alentejano, era também um homem bom, amante do Alentejo e dos seus costumes e tradições. Presidiu à MODA, associação de cante alentejano, foi presidente da Junta de Freguesia da Sé (Évora) e, durante um mandato, vereador da CDU, então na oposição, na Câmara de Évora. Natural de Beja, embora a viver em Évora há várias décadas, Joaquim Soares tinha 72 anos e estava doente já há algum tempo.
À familia enlutada o "acincotons" apresenta os seus mais sinceros votos de pesar e a mais sentida homenagem..

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

DE BURACO EM BURACO

No domingo passado quando me deslocava de carro entre a rotunda que dá acesso à estrada de Redondo e a outra que vai no sentido da “rampa” que, permite o acesso ao seminário, na avenida da Universidade, deparei-me com um buraco na estrada, na faixa de rodagem da direita. Para além do perigo que, um buraco, com cerca de 1 metro de diâmetro representa para quem aí circula, é absolutamente incompreensível o mesmo não estar sinalizado.
As estradas municipais, como é o caso da Av. da Universidade, são da jurisdição camarária. Por isso, cabe à Câmara Municipal cuidar do estado de conservação de todas as estradas municipais. Infelizmente são inúmeras as estradas do concelho de Évora que necessitam de intervenção, ao nível da manutenção e da reparação. Por serem muitas as estradas nestas condições, permito-me das não enumerar.
Com efeito, poderá a Camara Municipal invocar que não tem verbas para acudir às necessidades de manutenção do traçado rodoviário municipal. Mas uma coisa é certa, não é preciso verbas adicionais para que o departamento que gere as estradas municipais, pelo menos, esteja informado, no dia-a-dia, das ocorrências verificadas nessa rede viária.
Na verdade, e, voltando ao buraco que referi no inicio desta crónica, de duas, uma: ou os funcionários do departamento de trânsito da Câmara Municipal não estavam informados e, deviam, ou, então, fizeram de conta que não sabiam. Eu não quero acreditar que seja verdadeira esta última premissa.
Ora, automobilistas, motociclista e ciclistas o que pretendem é que as estradas estejam em condições que permitam uma circulação segura, por isso, se a Câmara ainda não teve oportunidade de proceder à reparação do buraco em questão, pelo menos, o mesmo devia estar sinalizado. E, para isso, bastava darem indicações aos funcionários para o fazerem. Se o fizessem, tantos os habitantes, como todos aqueles que circulam, diariamente, nas estradas municipais do concelho de Évora, estou em crer que agradeceriam.

José Policarpo (crónica na radio diana)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

DEMOLIDORAS

Assistimos na semana passada a várias cenas de televisão com demolições de um bairro clandestino de barracas no concelho da Amadora. Houve o caos óbvio, houve os espectadores participantes, houve as vítimas resignadas, houve as vítimas a choramingar por causa de outros que um dia poderão ser eles próprios. Houve relatos na primeira pessoa, houve diz-que-disse. E houve um pequeno coro de deputados da Assembleia da República que foram carpir aos microfones e câmaras da televisão.
Não é minha intenção subestimar a pobreza que se espelha nestes exemplos de pessoas que continuam a viver em condições sub-humanas. Não é minha intenção afirmar que, por magia, se resolvem agora problemas de décadas sobre a habitação social. Não é minha intenção isolar este problema da habitação dos outros problemas a ela associados, como o desemprego, a desestruturação de redes familiares e sociais, os comportamentos de risco, o descuidar da saúde. Não é minha intenção dizer que não se deva dar a conhecer aos telespectadores as realidades duras em que vivem sectores da sociedade, reflectindo uma inesgotável fonte de miséria desde há séculos, e que parecem ainda mais chocantes quando o caminho do progresso social até tem levado a que muitos destes ciclos de segregação social se tenha quebrado. Estas vidas são elas mesmo demolidoras da imagem de uma sociedade tão evoluída em tantas outras áreas.
Falo de toda uma cultura, como modo de estar, pensar e agir, que não escolhe sectores da sociedade para um “deixa andar”. Com a quantidade de associações, ONG, instituições que reúnem enormes esforços solidários em todos os concelhos e muitas freguesias, falo de uma cultura que aceita a miséria como uma inevitabilidade, a que a vitimização, própria ou também ela à sua maneira solidária, nada ajuda e que parece não levar a recorrer ao que está disponível, numa inércia incompreensível e que nos desperta sempre a desconfiança da ilegalidade e do crime, tantas vezes injustamente.
Falo de uma forma de fazer comunicação social que não procura o suficiente para nos dar a nós espectadores a informação de que se dizem especialistas. Ao ver aquelas imagens perguntava-me quando teria sido decidida a demolição, com que medidas adicionais, para além da natural e louvável acção de erradicar estas barracas a que alguns continuam a chamar casas, qual teria sido a posição de todos os vereadores sobre este assunto, o que constaria dos relatórios técnicos que levaram a esta decisão política… Bem sei que nem todas as Câmaras Municipais fazem rimar as formas de comunicar com a transparência a que estão obrigadas, mas estes assuntos constam normalmente de uma agenda pública e são discutidos e decididos em reuniões públicas. Demolidor da informação cabal, este tipo de tratamento noticioso.
Mas falo também de uma forma de fazer política que leva deputados da Assembleia da República a ultrapassar os eleitos locais, alguns até da mesma cor política imagino, protagonizando o dito coro de lamúrias e lembrando outra espécie de atitude, pertencendo ao tipo dos abutres que ficam à espera que uns matem, outros esfolem e eles tirem o seu proveito. É o tipo de maneira de fazer política só ultrapassada, na escala do bem-fazer-ao-mal-comum, à política do boato, essa sem dar cara nem voz e, só por isso, mais difícil de desmascarar. Mas que as há, há! E são demolidoras do que é Política a sério.
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na radio diana)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Elsa Teigão vai ser a candidata do PS à Câmara de Évora


Apresentação oficial vai ser feita hoje às 12,30h (aqui).

Segundo a Rádio Campanário, "Elsa Teigão é o nome escolhido pelo Partido Socialista, para encabeçar a lista candidata à Câmara Municipal de Évora.
O PS tenta assim com Elsa Teigão, voltar a conquistar a câmara da capital do Alentejo Central.
Elsa Teigão foi entre 1996 e 1998 responsável pela área da educação no Projeto Integrado de Luta Contra a Pobreza do Concelho do Alandroal.
Foi coordenadora do gabinete de Programas e Associativismos do IPJ entre 1998 e 2003, sendo que de 2007 a 2012 foi Chefe de equipa de Apoio à Modernização e Desenvolvimento Educativo no Ministério da Educação, no mesmo período esteve ainda na Coordenação do Plano Tecnológico da Educação da Região Alentejo.
A candidata é militante do PS hà cerca de sete anos e faz parte da Comissão Politica Nacional." aqui

Notícia da radio diana: aqui

CONFLUÊNCIAS SEM SAÍDA

No passado dia 9 de Fevereiro decorreu em Campo Maior a cerimónia de assinatura dos termos de aceitação de vários projectos no âmbito do Alentejo 2020. Estava na expectativa de ver a Câmara Municipal de Évora presente a assinar o termo de aceitação do projecto “Confluências”, mas a verdade é que não esteve. Não esteve porque o projecto foi recusado.
Para os ouvintes e leitores mais desatentos irei recuar 5 meses. Em Setembro de 2016, a Câmara Municipal de Évora anunciava com pompa e circunstância, através do Vereador da Cultura, que o município havia feito uma candidatura ao Programa Operacional Alentejo 2020 intitulado “Confluências”. O projecto resultava do encontro com 10 agentes culturais que reescreveram, em conjunto com o município, a lógica de 10 eventos âncora do território (de que são exemplo a BIME ou a Escrita na Paisagem).
Na altura critiquei a escolha a dedo de alguns agentes culturais em detrimento de outros. Mais uma vez a Câmara foi pouco transparente na escolha e, provavelmente, a existência de um Plano Estratégico para a Cultura construído de forma aberta e colectiva, tivesse ajudado, mas essa promessa central da campanha CDU não viu a luz do dia passados quase quatro anos. Na altura, vários cidadãos e cidadãs alertaram, também, para o facto de não fazer qualquer sentido a Câmara apostar num projecto cultural a uma linha de financiamento que era clara: só seriam financiados projectos inovadores que apostassem na criação de novos públicos, e nunca projectos já existentes. Ainda assim, o executivo municipal dizia esperar a aprovação do projecto “Confluências” no início do Outono. Estamos em Fevereiro de 2017 e depreendemos que tal projecto foi recusado. Há 5 meses atrás serviu para fazer notícias, vídeos e afins. Tenho pena que não tenham sido tão céleres na prestação de contas aos munícipes como o foram na propaganda.
Mas já que não vê os seus projectos aprovados, o executivo municipal não hesita em fazer passar por seus projectos de outras entidades. Não acredita? Basta ver o título do comunicado da última reunião pública da Câmara: “Câmara de Évora com duas candidaturas na área da Cultura aprovadas”. Não, não se tratam de candidaturas da Câmara Municipal de Évora, mas sim da Entidade Regional de Turismo que envolvem vários municípios, entre os quais o de Évora.
O projecto “Confluências” não foi aprovado, mas ainda vão a tempo de confluir para uma maior transparência e seriedade.
Até para a semana!

Bruno Martins (crónica na radio diana)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

"É neste país" festeja sétimo aniversário este sábado


É Neste País há 7 anos!
Sábado . 11 de Fevereiro de 2017

11:30 Com quantos pontos se conta um conto?
Com Mafalda Milhões

15:30 Workshop de ilustração
com Renata Bueno
Inscrições até dia 10 de Fevereiro

18:00 Apresentação do livro
"O que se passa por lá?"
de Antonieta Félix, Alexandra Charrua e Cristina Ardisson

20:00 Jantar aniversário
Inscrições até dia 10 de Fevereiro

22:00 Música com
Nuno do Ó e Antonio Bexiga

Para inscrições e mais informações:
É Neste País - Associação Cultural
Rua da Corredoura 8 . Évora
e-mail: nestepais@gmail.com

Hoje às 22h no Armazém 8


DA desta semana


A PRECARIEDADE, UM CAMINHO FEITO DE CEDÊNCIAS

A precariedade nas relações laborais foi colocada na ordem do dia. Como podemos considerar que foi colocado na ordem do dia algo que faz parte do dia-a-dia de milhares de trabalhadores, ao ponto de ser considerado “normal” por toda a gente?
Lembremo-nos de como se tornou um lugar-comum a afirmação de que o “emprego para vida” já não fazia sentido e de como muitos abanaram as orelhas em sinal de concordância?
Lembremo-nos de como a ideia de “carreira profissional” foi ridicularizada, contrapondo-se o conceito de “projecto”, coisa muito mais moderna, como se sabe.
Lembremo-nos de como era fixe utilizar o termo “outsourcing”, para falar de substituição de trabalhadores com contrato sem termo, por empresas que contratavam de forma precária, mal paga e sem direitos, trabalhadores para a mesma função.
Lembremo-nos de quando passou a ser normal as empresas e instituições públicas contratarem trabalhadores para funções permanentes, em regime de subordinação hierárquica, com horário de trabalho, através de contratos de prestação de serviços (os famosos recibos verdes) mandando às malvas os conceitos jurídicos inerentes aos dois tipos de relação contratual.
Lembremo-nos de quando foi permitida a instalação de empresas de trabalho temporário, que alugam mão-de-obra a empresas do sector dos seguros e das telecomunicações, cobrando a estas o dobro do que pagam aos seus trabalhadores, que mantêm presos a contratos mensais, nalguns casos durante anos.
Lembremo-nos de quando os governos instituíram as figuras dos contratos de emprego e inserção, dos estágios profissionais e de outros mecanismos que proporcionam às instituições públicas mão-de-obra barata, que se vai sucedendo na execução de tarefas permanentes.
Lembremo-nos do impedimento de contratação para a administração local, empurrando as autarquias para a utilização da precariedade laboral como única forma de suprir as necessidades de mão-de-obra e que muitos aplaudiram como forma de “emagrecer” o Estado.
Ainda se lembram que tudo começou com aquela modernice de que o emprego para a vida já não fazia sentido?
Foram décadas de desvalorização do trabalho e dos trabalhadores, de diminuição de rendimentos, de perda de direitos e normalização da intensificação da exploração, que passaram, muitas vezes, pela estratégia de colocar trabalhadores em regime de precariedade contra trabalhadores com alguma estabilidade laboral.
Quantas vezes ouvimos o argumento de que a facilidade de despedimento ou, eufemisticamente, a flexibilidade da legislação laboral, era o caminho para garantir o emprego aos mais novos, segundo princípio de que o melhor é despedir os pais e contratar os filhos por metade do preço e, já agora, presos pela linha frágil da precariedade?
Ontem, no debate na Assembleia da República, muitos dos que contribuíram para aqui chegarmos pareciam um coro de anjinhos preocupados com as relações laborais precárias e o efeito que tal pode ter no futuro do país, mas a história do trabalho precário tem protagonistas, desde a proliferação dos contratos a prazo, fora do então quadro legal, nos anos oitenta, até aos eternos estagiários de hoje.
A exigência de hoje é igual à exigência dos tempos em que nos começaram a convencer que essa coisa do “emprego para a vida” era um conceito vetusto e sem sentido: a cada posto de trabalho permanente, um contrato de trabalho efectivo.
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na radio diana)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

SÍNDROME DO SACO-DE-PLÁSTICO

Todos sabemos já que o plástico é uma substância que resulta do progresso tecnológico. Também sabemos que a tecnologia, graças à investigação científica e à inteligência humana, tende a evoluir e a aperfeiçoar os seus produtos. Por isto é necessário esclarecer desde já que o tema desta crónica, ao falar de plástico e sacos-de-plásticos tem o seu quê de regresso ao passado. É que o que digo refere-se ao tempo em que pululavam aqueles sacos-plásticos barulhentos, tanto mais barulhentos quanto mais espesso era o plástico, o que se por um lado lhes reforçava a resistência, já que os fininhos dificilmente chegavam do supermercado a casa inteiros, por outro lado feriam como lâminas as mãos de quem os transportava.
Importa também esclarecer que se define síndrome como um conjunto de manifestações ou condições clínicas de uma ou várias doenças. Uma síndrome pode, por isso, revelar vários problemas e não apenas um específico a quem dela padeça. Também me parece que a investigação e terapêutica das síndromes são cada vez mais, o que também faz, felizmente, com que muitas delas passem despercebidas ao olhar comum nas sociedades saudavelmente diversas e integradoras.
Mas a síndrome de que falo hoje é de sentido mais figurado do que a do campo da medicina, e refere-se a sintomas ou sinais de comportamentos em sociedade, o que pode ser interessante ter em conta quando nos interessamos por questões de Cidadania ou Política, dois níveis de uma mesma matéria. Neste sentido figurado, a síndrome surge como uma situação crítica e causadora de receio ou insegurança. Infelizmente, mais do que episódios agudos, há síndromes destas que parecem tornar-se cada vez mais crónicas.
Ora a principal característica desta que chamo “síndrome do saco-de-plástico” manifesta-se em seres humanos que, numa definição curta e bastante grosseira mas também certeira, fazem muito barulho mas não prestam para nada. De acrescentar que o muito barulho pode estender-se para lá do mundo dos decibéis e resultar em marcas físicas mais evidentes da violência. Podemos falar de bullies, de fanfarrões, de provocadores, o que até acaba por ser um diagnóstico muito mais rotulador do que a ligeira classificação de sofrer da “síndrome do saco-de-plástico”.
De qualquer modo, fica o alerta para o caso de o caro ouvinte/leitor se cruzar com quem pretende mudar e melhorar o mundo, ou pelo menos aquele mundo em que vive, e o que até é muito de louvar, mas o faz esbracejando e gritando muito, prometendo alterações profundas, que normalmente não explica de forma cabal como, caso estivesse nas suas mãos mudar o estado das coisas. Parece-se muito e só aparentemente com uma cidadania activa, mas é apenas uma táctica para convencer todos de que se irá continuar a caminho do caos se não forem elas ou eles próprios a tomar conta da situação. O problema é que, vai-se a ver, quando passam para o lado de meter mãos-à-obra esse vento de mudança sai do saco de fininho e deixa tudo na mesma, se não for pior.
Curiosamente, a língua inglesa tem no seu ousado e rude dicionário de calão urbano uma expressão que talvez se possa aplicar a casos muito graves de quem demonstra ter certos sinais desta síndrome, e que também usa o saco como metáfora. São os chamados douchebag, que eu não vou traduzir mas que os interessados encontrarão se procurarem num qualquer motor de busca da Internet, está bem? Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na rádio diana)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

SALVAR O MUSEU DE ÉVORA

As transferências de competências do Estado para as autarquias locais nos últimos anos, sem alocação de meios e recursos, têm-se revelado, em muitos casos, um atentado à autonomia do poder local, porque as autarquias se veem estranguladas com competências que não deveriam ser suas tornando-se incapazes de prestar respostas eficazes e úteis aos cidadãos, ao mesmo tempo que revelam uma profunda desresponsabilização do Estado.
Gostaria que ficasse claro que considero que as autarquias desempenham um papel fundamental na nossa democracia, e que deverão ser estas a decidir sobre os destinos dos seus territórios em conjunto com as populações, mas a transferências de competências de sectores públicos nacionais desvirtuam o propósito para o qual as autarquias existem e colocam à mercê da política de cada Concelho aquilo que deve ser de domínio público nacional.
A mais recente transferência de competências enviada pelo Governo transfere para os órgãos municipais a gestão e conservação de museus não classificados como museus nacionais. É o caso do Museu de Évora que passa assim a poder ser gerido pela Câmara Municipal de Évora. Tal facto, desvirtua totalmente o propósito do Museu e desvaloriza a sua riqueza. Um Museu que inclui coleções patrimoniais representativas de várias partes do território nacional que, apesar de não classificado como museu nacional, não é, de todo, apenas representativo do nosso concelho. Porque deverá ser a autarquia do Concelho de Évora a gerir este património?
Mais, atribuir esta competência a um município endividado e com escassos meios é condenar o Museu de Évora a um definhamento mais do que certo.
Valorizemos as competências dos municípios, saibamos respeitá-las e não nos deixemos iludir com supostos empoderamentos das gestões municipais que não são mais do que a total desresponsabilização do Estado Português.
Até para a semana!

Bruno Martins
(crónica na radio diana)

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Grupo Pro-Évora contra passagem do Museu para a Câmara Municipal


A proposta de lei de transferência de competências para as autarquias locais, datada de 9 de Janeiro de 2017, enviada pelo governo aos municípios e demais entidades envolvidas, estabelece, no artigo 14º, relativo à Cultura: «É da competência dos órgãos municipais: … b) Gerir, valorizar e conservar os museus que não sejam classificados como museus nacionais; …».
Face a este articulado, o Museu de Évora, que não está classificado como museu nacional, poderá vir a ser tutelado pela Câmara Municipal de Évora, situação que se afigura ao Grupo Pro-Évora como inteiramente desajustada, sem que se compreenda quais são as vantagens que uma tal eventualidade pode proporcionar.
O acervo do Museu de Évora é composto por valiosas colecções de pintura, escultura, arqueologia, azulejaria, ourivesaria e joalharia, paramentaria e alfaias litúrgicas têxteis, mobiliário, constituindo um conjunto patrimonial que ultrapassa em muito as dimensões local e regional, e que é representativo da arte e da cultura nacionais, nos seus diversos períodos históricos. A Sul do rio Tejo, é o único com estas características.
A gestão, a valorização e a conservação deste acervo público, pelas exigências técnicas e financeiras que envolvem, de modo continuado no tempo, só podem ser asseguradas por uma entidade que disponha dos recursos adequados, o que apenas é garantido por serviços sob tutela governamental. O município de Évora, por muito boa vontade que possa ter, não dispõe dos meios necessários que garantam continuadamente aquelas exigências.
O Estado Português não se pode desresponsabilizar das suas obrigações culturais e patrimoniais, sob pena de provocar a degradação e a destruição de bens identitários nacionais de modo irreparável.
Évora, cidade caracterizada pelo seu património histórico e cultural, integrado na lista do Património da Humanidade da UNESCO, não deve ficar indiferente a esta proposta governamental, que ameaça o futuro do seu Museu. O Grupo Pro-Évora, cuja fundação, em 1919, está directamente relacionada com a instalação condigna do Museu de Évora, desenvolverá as iniciativas necessárias à defesa desta instituição e ao reconhecimento do seu estatuto.
Évora, 1 de Fevereiro de 2017.
A Direcção do Grupo Pro-Évora



Comunicado do SOS Racismo: "É a PSP ou o executivo da Câmara que dirige o Concelho de Évora?"



Esta manhã, por volta das 9h, a PSP dá ordem de expulsão a uma família cigana (mãe, irmão e 5 crianças) de um terreno cujos vizinhos, também ciganos, não se importavam com a sua permanência, após esta ter sido enxotada 2 dias antes dos terrenos que ocupavam anteriormente.
A insensibilidade da atuação da PSP é bem evidente não deixando sequer que 4 das crianças pudessem ter ido à escola. A outra criança, por ter saído mais cedo, conseguiu escapar a esta crueldade.
Mas passemos a contextualizar:
Em meados do mês de Janeiro a Câmara Municipal de Évora deu autorização a cerca de dez famílias de etnia cigana para acamparem no Bairro da Malagueira em Évora, junto às Piscinas Municipais. Algumas destas famílias constam aliás, de uma lista de quinze famílias que o município elaborou autorizando expressamente a permanecerem no Concelho de Évora dado que têm crianças inscritas e a frequentar escolas no Concelho de Évora.
A 30 e 31 de Janeiro a PSP, após instrução do município de Évora, mandou levantar acampamento a todas estas famílias alegando que a autorização havia sido retirada na sequência de queixas de moradores deste Bairro (alegaram a existência de furtos e de que havia muito lixo na zona). De salientar que o município apesar de ter dado autorização para acampamento na zona não providenciou qualquer condição (nenhum ponto de água, nenhum caixote de lixo, ….).
As famílias foram todas, sem exceção, expulsas do local, não tendo sido dada qualquer opção de local onde estas podiam acampar. Na sequência desta expulsão, várias crianças ficaram privadas de ir à escola, uma vez que as famílias estavam desesperadas sem saber para onde deviam ir, encontrando-se a vaguear pela cidade.
A PSP extrapolando (ou não?) as instruções da própria Câmara exigia mesmo que abandonassem a cidade e o concelho. 
Ora estas famílias, como a referida ao início, têm as crianças nas diferentes escolas de Évora (Malagueira, Almeirim, Stª Clara...) e, como bem sabe quer a PSP quer a Câmara, se deixarem de ir à escola, podem perder as magras verbas dos subsídios que possam ainda usufruir.
Sabendo o próprio SOS Racismo (por contatos diretos que fez) que a Câmara diz que não tem alternativa e sabendo também que já há dois anos que foi criado um grupo de trabalho para procurar resolver esta questão e que passados já quase dois anos continua sem se ver resultados, cabe tentar perceber o que pretende a Câmara e para onde se poderão dirigir estas famílias com as suas carroças.
Também fomos sabendo que a questão da comunidade cigana que se encontra em Évora foi já suscitada no Conselho Municipal de Segurança, depois de ter sido tomado conhecimento de que as forças policiais expulsavam sistematicamente estas famílias quer da cidade quer das freguesias rurais sem que tenha sido manifestada vontade efetiva de serem encontradas soluções.
15, 20 famílias a vaguear de um lado para o outro, sem abrigo, sem acesso a água e saneamento mais elementares, sem poderem sequer colocar os seus filhos na escola. É essa a solução?
Queremos pensar que, em ano de Eleições Autárquicas, os mais elementares direitos humanos, em Évora, ainda se sobreponham às aritméticas eleitorais muito dependentes de pressões racistas e xenófobas.

Pelo SOS Racismo

José Falcão

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Exposição sobre a discografia de José Afonso é hoje inaugurada em Évora


CONVITE 

Galeria do INATEL, Évora, sexta-feira, 18 horas

O Núcleo de Évora da AJA convida-o/a a estar presente na inauguração da exposição sobre a obra discográfica de Zeca Afonso “Desta Canção que Apeteço” que terá lugar na sexta-feira, dia 3 de Fevereiro, pelas 18 horas, na Galeria do INATEL, em Évora, inserida nas comemorações que, a nível nacional, assinalam os 30 anos da morte de José Afonso e da criação da AJA.
A sessão contará com a actuação do Grupo AJA MÚSICA.
Esta exposição é uma iniciativa conjunta da Associação José Afonso e da Câmara Municipal de Évora, com o apoio do INATEL.



“Desta Canção que apeteço”, de 3 de Fevereiro a 4 de Março na Galeria do Inatel


A obra discográfica de José Afonso, com trabalhos editados ao longo de mais de três décadas, é revisitada numa exposição que pode ser vista de 3 de Fevereiro a 4 de Março na Galeria do INATEL, Palácio do Barrocal, Rua de Serpa Pinto, 6, em Évora. A exposição insere-se no âmbito dos 30 anos da Associação José Afonso (AJA), coincidindo com a evocação do 30º aniversário do seu falecimento, que ocorreu a 23 de Fevereiro.
Da edição do primeiro registo fonográfico, em 1953, nos estúdios da Emissora Regional de Coimbra, até ao último disco, em 1985, intitulado “Galinhas do Mato”, a exposição apresenta ao público uma perspectiva global de um dos mais marcantes registos da história da música popular portuguesa.
“Desta canção que apeteço – Obra discográfica de José Afonso 1953//1985”, reúne um conjunto de elementos únicos e diversificados que destacam a riqueza musical, poética, histórica e cultural do cantautor português, que morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987 – faz agora também 30 anos.
A par de capas de discos, entre as quais constam originais cedidos pelo designer e artista José Santa-Bárbara, os visitantes têm oportunidade de ouvir temas de Zeca Afonso editados no estrangeiro e que não estão disponíveis no circuito comercial português.
Livros relacionados com a vida e obra do autor, como “A música tradicional na obra de José Afonso”, de Mário Correia, e partituras de José Mário Branco, António Carrilho e Fernando Couceiro integram a mostra documental, assim como outros objectos do ‘universo’ pessoal de José Afonso.
A exposição integra também um documentário realizado por Tiago Pereira, com o testemunho de instrumentistas e de técnicos que trabalharam ao longo de vários anos com Zeca Afonso.
Vários instrumentos musicais, fotografias e equipamentos como um gira-discos, um gravador e o prémio “Disco de Ouro” estão igualmente presentes nesta exposição organizada pela AJA e pela Câmara Municipal de Évora, com o apoio do INATEL.
“Desta canção que apeteço – Obra discográfica de José Afonso 1953//1985”, está patente na Galeria do INATEL, em Évora, no seguinte horário: de terça a sexta, das 10h às 20h; sábados e domingos das 11h às 20h (encerra às segundas-feiras)

Associação José Afonso / Câmara Municipal de Évora

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

QUANDO AS BOAS NOTÍCIAS NÃO SÃO NOSSAS!

Uma rádio local sediada no nosso distrito noticiou que vários municípios do distrito de Évora pagam a fornecedores num prazo superior a sessenta dias. O município de Évora figura nesse prestigiado ranking. A mesma rádio identifica como fonte desta notícia, a direção geral das autarquias locais, por isso, este número é oficial.
Na verdade, há muito que sabíamos que o município de Évora é um péssimo pagador. Houve alturas, e, não há muito tempo, em que o prazo médio de pagamentos a fornecedores, andava muito perto dos dois anos. Porém, a informação noticiada pelo Senhor Presidente em que refere que a Câmara de Évora não tem dívidas a fornecedores, foi desmentida pela tutela. De duas, uma: A DGAL tem informação desatualizada, ou a Câmara de Évora, passou cá para fora uma informação incorreta. Assim, ambas as instituições têm o dever de repor a verdade.
Infelizmente, para os agentes económicos os incumprimentos são geradores de problemas das suas tesourarias. Na atual situação em que a obtenção de crédito está dificultada, quanto maior for o atraso nos pagamentos, pior será a saúde financeira dos prestadores de serviços ou dos fornecedores de bens. Por isso, a câmara municipal tem o dever de prover a esta situação, se ainda não fez, terá de o fazer.
Dito isto, a economia local necessita de uma câmara municipal bem gerida e com as suas contas em dias. De contrário, como agente económico de peso na economia local, passa de parceira, a cangalheira.
Como nota final, sem deixar de reconhecer uma certa melhoria na atual gestão financeira do município, até porque os números expressam essa realidade, o facto relevante que contribuiu para esta melhoria está no aumento dos impostos sobre os eborenses. E, o IMI teve um peso positivo na ainda muito debilita saúde financeira do município.
Ora, a câmara municipal de Évora arrecadou nove milhões de euros em receita fiscal com origem nos impostos pagos pelos eborenses, no de ano 2013. Diretos e indiretos. No ano de 2016 esta receita passou para quase 13 milhões de euros. Uma subida de 30%. Assim é muito fácil de dar boas notícias.

José Policarpo (crónica na radio diana)

MACHADINHAS

A distopia é um conceito filosófico que se aplica a uma sociedade imaginária controlada por meios extremos de opressão, normalmente criando condições de vida insuportáveis aos indivíduos e que tem como modelo a realidade da sociedade, idealizada num futuro que, por definição, é incerto. São não-lugares povoados por seres e coisas de lugares. De uma forma mais simplificada, e saindo até do domínio da ficção literária e cultural que é bastante rica em distopias, poderíamos aplicar o termo àquilo que é feito fora de um contexto real e previsível de uma norma de costume, e num contexto apenas imaginável num mundo de fantasia. Olhem, como o PSD votar contra a diminuição da TSU para as empresas, por exemplo.
Suponho que situações distópicas possam ter acontecido em circunstâncias várias ao longo da história da Humanidade. Umas por razões tácticas, mais do que por ideologias políticas, e que revelam sobretudo atitudes e posturas éticas pouco recomendáveis. Outras porque a realidade é tão obviamente insuportável para determinados colectivos por opressão de tácticas de cúpula de petits comités, e que saltam fora de qualquer solução dentro do que é então o comum pensar-se que aconteceria. As distopias tornam sempre o mundo um lugar surpreendente e, como está bom de ver, as surpresas nem sempre são todas boas.
Alguns traços característicos de uma sociedade distópica ficcionada, e que podemos estender (não sem alguma liberdade de cronista de opinião sempre boa quando discutível) para momentos delimitados e contextualizados de uma real sociedade são: o poder político totalitário, mantido por uma minoria, e o consequente desespero do colectivo que tende a tornar-se, por instinto de sobrevivência, corruptível. Estou certa que cada um dos ouvintes/leitores já terá passado por este tipo de colectivo, até inadvertidamente, por julgar tratar-se de um grupo de gente de bem onde a quase trissecular liberdade-igualdade-fraternidade serviriam de farol de orientação.
Ora tudo isto só, e mais algumas coisas que entretanto se vão passando – talvez até influenciada pelo regresso dos musicais de Hollywood ao top dos mais premiáveis – trouxe-me à memória a canção infantil da Machadinha. Aquela que serve às crianças para fazerem, em grupo, uma rodinha que lhes permite escolher parceiros, gerando tantos ciúmes como fugazes relações eternas (uma humana contradição, como terão percebido). Tudo gira como no poema Autopsicografia de Fernando Pessoa “nas calhas de roda”, “a entreter a razão, /Esse comboio de corda /Que se chama coração”.
Na cantilena infantil, do coro de vozes, sempre puerilmente efeminadas, ouve-se por entre as várias repetições típicas do seu paralelismo, dois pares de versos que nos últimos dias me têm preenchido os silêncios das rotinas. E dizem assim, os marotos: “Sabendo que és minha, também eu sou tua, /Salta machadinha, lá p’ró meio da rua”, “No meio da rua não hei-de eu ficar,/Eu hei-de ir à roda escolher o meu par.” Às vezes isto tudo da vida que é para se levar a sério parece-me mesmo uma brincadeira de recreio. O defeito será provavelmente meu e assim, hoje, termino por aqui.
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na radio diana)