quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Truz-truz avestruz!

Antes de mais, os meus votos de um bom 2017, ano que será muito marcado, directa ou indirectamente, pelas eleições autárquicas lá mais para o Outono, mas onde seguramente muitos outros assuntos, episódios e casos se levantarão a implicar a sociedade e a suscitarem a opinião pública.
Entenda-se esta não apenas como aquela que alguns proferem em público, mas como a que um conjunto de pessoas que se empenharão, por motivações naturalmente pessoais ou de grupo, em ter uma opinião e convencer os outros dela. É este o funcionamento de uma sociedade que se mexe. Ainda que, como disse, por vezes segundo interesses próprios que, para quem tem por dever cuidar do interesse de todos, serão válidos quando servirem para, não só melhorar a vida de uma parte, mas da maior parte. Peço desculpa aos meus benévolos ouvintes (ou leitores) mais assíduos pela insistência nesta tecla, mas cada vez me convenço mais de que, se em alguns casos, o que corre mal a um pode correr mal a todos, o que corre mal a todos corre seguramente mal a cada um. O remédio é, como todos deviam ser, preventivo. Já o disse de muitas maneiras, mas pormo-nos na pele dos outros parece-me um dos melhores exercícios de saúde pública para a cidadania.
Há actualmente, e desejo que assim se mantenha, muitas formas de emitir opinião que faça opinião pública. Umas mais reguladas e arbitradas, outras aparentemente mais saudáveis que se auto-regulam com a intervenção de muitos de opinião diversa. E ainda outras, as oficialmente clandestinas que normalmente se confundem com as anteriores e normalmente têm como objectivo destruí-las e levar a sua avante. Cada um escolhe o ambiente onde se sente mais confortável para nelas participar. Mas para escolher é preciso conhecer.
Por esta altura hão-de estar a perguntar-se se terei algum caso concreto em mente. Tenho vários, muitos, demasiados, que sem tempo nem espaço para discutir como deve ser poderiam confundir-se com aqueles que, isso sim, quero criticar. O caso mexe com valores humanos, com a ética e a política. Trata-se da questão da educação sexual formal num sentido geral e não no apenas feio tema do aborto, tão apetecível por certos grupos que, em posições extremas e em extremos opostos, gostam muito de o trazer, lá está, à opinião pública. E é aqui que, independentemente de quem ocupe o cargo nos Ministérios da Educação e da Saúde, fico descansada quando se tratam estes assuntos e se definem os limites destes dois campos que se cruzam. São normalmente medidas tomadas com consulta a técnicos que permitem aos políticos tomar decisões. As ideologias estarão, sem dúvida, presentes em cada um das centenas de técnicos que formem no trabalho que realizam uma qualquer opinião. Isto é a democracia. E também é democracia saber quando se pode falar em nome próprio ou em nome de outros. Quando os filhos frequentarem a escola na idade dos porquês difíceis, que sim são já aos 10 e 11 anos, seguindo programas homologados, as respostas baseadas no juízo moral não serão na sala de aula. Na escola básica o espaço é o da informação. E o quanto mais completa e variada for melhor os preparará para, individual ou restritamente em grupos que se formam por outros e importantes afectos, emitirem, com conhecimento, opinião por temas que não são consensuais. Permitir-lhes este percurso, com espaços e intervenientes próprios é bater-lhes à porta da consciência e retirar-lhes uma tendência que grassa por aí tanto de fazer-se como a avestruz. Eu cá prefiro que os professores saibam, e o mais cedo possível, até onde podem ir em determinados assuntos difíceis, do que não haver limites que, para um lado ou para o outro, não tenho dúvidas nenhumas, não resistirão quando incitados por mais do que o seu profissionalismo a dar o seu, chamemos-lhe assim, bitaite. Isso fica para outros campeonatos. Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na radio diana)

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