quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

De braços abertos

Foi sem surpresa que li os resultados de mais um inquérito aos portugueses em que a maioria se diz disponível para receber refugiados mas não imigrantes.
Os portugueses são, entre os europeus, aqueles que aceitam melhor a vinda de refugiados, com preferência para alguns credos em detrimento de outros, e são também dos que mais se opõem à entrada de imigrantes por razões económicas. Foi sem surpresa, mas com tristeza. Aquela que suplanta qualquer ponta de orgulho que não costumo alimentar, embora não lhe seja imune, por exemplo até quando toca o hino.
Sem surpresa porque costumo ouvir as opiniões e comentários das pessoas na rua, seja a rua da capital ou da província. E porque frequento as redes sociais. Com tristeza porque discordo profundamente desta postura. E, sobretudo, porque as oiço nas vozes da geração a seguir à minha, o que atinge o meu capital de esperança nas futuras gerações. Ou não me passassem pelas salas de aula às dezenas, todos os anos, o que me leva a várias situações em que me olham desconfiados com o meu discurso que lhes contraria esta e outras posturas que roçam a intolerância.
Julgava que haveria um certo pudor, neste país que tem um Cristo a receber de braços abertos quem chega à sua capital, em expor assim o seu medo. Porque é de medo que se trata. Medo que nos tirem os diversos lugares que julgamos cativos ou para os que “são de cá”, ou dos que os querem muito e temem a concorrência dos mais capazes. E são eles próprios incapazes de incluir, repartindo “deves e haveres”, nas suas equipas. Às tantas são os mesmos que andaram a indignar-se em público com os discursos de Trump mas levantam assim o seu próprio muro. Que tratam uma nação como um clube privado em que é reservado o direito de admissão pela casta e não pelo cumprimento das regras que todos, de dentro ou de fora, têm de cumprir. Ou que rejubilam quando algo de seu se transforma em património da humanidade.
E depois há uma questão de memória colectiva. Parece-me que aqui somos, paradoxalmente ou talvez não, um conjunto de cidadãos que com a mesma inchada recordação de enaltecimento do que fomos no mundo em expansão há cinco séculos, esquecemos as vagas migratórias de um passado mais recente. E ao medo junta-se assim um novo-riquismo colectivo, o de quem esquece o período humilde da sua vida e rapidamente o substitui pela soberba de quem está bem na vida e mais ninguém a seguir poderá alcançar este bem.
Finalmente, e porque o exercício de me pôr na pele dos outros que costumo praticar me leva a tal, só será compreensível que se justifique esta inospitalidade se, ao medo que nos torna mesquinhos e pequeninos, se juntar a instabilidade crónica de um país economicamente débil. É que quem não tem para si, por muito bonzinho que se apregoe, por uma questão de sobrevivência deixa sair de si os instintos mais básicos e animalescos. Escusava era de andar-se a apregoar o impraticado. Mais vale cruzarem-se os braços e continuarem a queixar-se de que ninguém nos liga. Talvez um dia, como colectivo, neste dever de cidadania cresçamos. Porque, felizmente, vamos tendo indivíduos que se destacam, também neste aspecto, deste colectivo.
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na radio diana)

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