sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Natal, de novo

Esta é a minha décima primeira crónica de Natal para a DIANAFM. Ao longo destes anos a minha perspectiva sobre esta época do ano tem vindo a alterar-se no sentido inverso ao que habitualmente se verifica para a generalidade das pessoas.
Sendo uma época de comemorações diversas, de cariz religioso, profano, comercial, familiar nunca me senti muito bafejado pelo espírito natalício.
Também porque toda a gente gostava muito da época, eu fazia questão de afirmar que não gostava dela e que não me parecia fazer sentido.
Tenho vindo a perceber que nesta época cada um comemora o que mais jeito lhe dá e só dessa forma faz sentido que a maioria das pessoas se sinta diferente nesta época. Só assim é possível que o Pai Natal se cruze com Jesus Cristo à porta de um qualquer centro comercial.
Este ano apetece-me comemorar o Natal, como momento de encontro, como forma de reduzir o ritmo e de encontrar tempo para reflectir e é neste sentido que acho que estou a ficar cada vez mais infantil e a afastar-me da amargura crescente que tendencialmente se vai acumulando à medida que vamos envelhecendo. Espero não voltar ao tempo em que acreditava no Pai Natal.
Hoje existe outra tendência que se manifesta nas redes sociais e que começa a assumir o peso das maiorias moralmente perfeitas: a condenação da hipocrisia que se manifestaria preferencialmente nesta quadra festiva.
E, como saberão os que me conhecem, não sou muito de acompanhar as tendências maioritárias, menos ainda quando embrulhadas em moralismos da moda.
Sendo verdade que esta é a época de todas hipocrisias, ou melhor, é a época em que as hipocrisias de todo o ano se tornam mais luminosas, não é menos verdade que não faz muito sentido os hipócritas de todo o ano clamarem contra as hipocrisias de um mês.
Já não vou a tempo de colocar a coroa natalícia na porta de casa, ou o Pai Natal a subir uma escada de corda pendurada na janela. Também já não consigo apanhar o musgo necessário para fazer o presépio nem vou a correr para as lojas para comprar tudo o que a minha disponibilidade financeira me permitir.
Também não tenciono participar em nenhuma celebração religiosa ou telefonar a familiares com quem não falei durante todo o ano.
Mas este ano vou celebrar o Natal, porque é a forma de não acompanhar aqueles que condenam sazonalmente a hipocrisia que praticam durante todo o ano.
Desejo-vos a todos um Natal de reflexão sobre o que dizem, escrevem e manifestam, lembrando que, até no presépio, as ovelhas têm papel meramente decorativo 
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na radio diana)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Espíritos da época

As épocas que se impõem festivas são um bom exemplo do que como muito do que é feito em nome de um interesse comum acaba por provocar tanto adeptos como dissidentes, gerando loas ou críticas, aplausos ou vaias, empenho ou indiferença.
Os consensos são, pois, virtudes que implicam sacrifícios (como, aliás, tantas outras virtudes que se conquistam com dores de crescimento) e o mais bonito é quando estes se distribuem por entre as partes. Além disso, em nome de determinados princípios, os inabaláveis, consensualizar pode e deve ser, em várias circunstâncias, impossível. Por vezes acontece tropeçarmos em quem mascara, com a alegação de uma finalidade comum, percursos completamente enviesados em comportamentos que são só por si reveladores de princípios bem diferentes. Há até um dito que joga com os sentidos destas palavras e vaticina que quem não tem bom(s) princípio(s) não tem bom fim…
Do espírito de Natal confesso que só acredito nos que se declinam no plural, os de Dickens, os três espíritos que visitam o avarento Scrooge nessa noite mágica. O primeiro é o espírito do Passado que lhe devolve uma infância dourada e que é, no fundo, o que evocam tantos dos que se reúnem com aqueles com quem conviveram nesses tempos, sejam familiares ou amigos. O espírito do Presente alerta para a miséria e para a ignorância, para o que se faz no colectivo e se reflecte no percurso individual de quem o faz, chamando-nos à razão para uma vida social a não descurarmos, apesar de haver nalguns tendências misantrópicas. O do Futuro mostra a Scrooge a solidão, até como consequência de um Presente que se esquece do Passado, e revela a morte inevitável. É com a ajuda desses espíritos que ultrapassamos tantas vezes a pouca vontade de festejar entrando, precisamente, no espírito do Natal, o tal que será, então, quando um homem quiser.
Além destes, que nos chegam mais exacerbados por esta época, há outros quatro espíritos que valorizo muito. O espírito crítico, atitude intelectual que não admite nenhuma asserção sem reconhecer a sua legitimidade. O espírito de equipa, sentimento de união partilhado pelos elementos de um grupo. O espírito de finura que Pascal, matemático e filósofo francês do século XVII, define como uma aptidão intuitiva, uma sagacidade e perspicácia que abençoam e ocupam alguns. E, finalmente, o espírito geométrico, que só admiro se for o papel de embrulho que contém os outros três, e que revela a aptidão discursiva e demonstrativa, num encadeamento lógico das ideias.
Se estes espíritos nos fossem concedidos talvez não atingíssemos a felicidade plena ao vivê-los em sociedades plurais e diversificadas, mas se nos rodeássemos de gente bafejada por eles era mais provável que conseguíssemos transformar alguma coisa nessa sociedade. Seriam bons presentes no sapatinho, alimentando uma semana depois a esperança de um novo começo ao passarmos de ano. Não sendo assim, fiquemo-nos por deixar passar, naturalmente como na vida, o Passado, o Presente e o Futuro, ou seja o Tempo, e juntemo-nos aos felizes comensais, ainda que às vezes para alguns um bocadinho contrariados. É só às vezes. E a desculpa não somos nós, mas um alguém que alguns acreditam andar a tratar de nós. Como a família e os amigos. Bom Natal, boas festas e até para o ano!

Cláudia Sousa Pereira (cronica na radio diana)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Este sábado em Évora

Às 11,30h no "é neste país"



Às 16h no INATEL



Às 16h no Museu de Évora



Às 17h na Igreja de S. Francisco



Às 21,30h no Armazém 8

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https://www.facebook.com/events/1148891701873155/

1ª página do Diário do Alentejo


O valor do trabalho e a desvalorização dos trabalhadores

Lá fora estão sete graus negativos. Lá dentro estão milhares de trabalhadores a trabalhar debaixo de uma intensa pressão, condicionados a ritmos e horários de trabalho quase desumanos.
Estamos em Dunfermline, na Escócia, e alguns dos trabalhadores, quando sairem do local de trabalho irão descansar em tendas instaladas na floresta que rodeia as instalações da empresa.
A razão é simples, com o salário que a empresa paga aos seus trabalhadores semanalmente, não compensa pagar o transporte diário para casa, que é fornecido pela própria empresa.
A notícia, divulgada pelo jornal britânico The Courier, revela um mundo de relações laborais cada vez mais desequilibradas e desreguladas, onde a intensificação da exploração dos trabalhadores é a regra, em função da obtenção do máximo lucro.
A empresa em questão, um gigante mundial do comércio electrónico, emprega naquela unidade cerca de 1400 trabalhadores de forma permanente e 4000 trabalhadores temporários, contratados para estas últimas semanas do ano.
Para os trabalhadores que aceitaram, sob anonimato, prestar declarações ao jornal britânico, as condições de trabalho são miseráveis e os salários indignos. Para o representante da empresa os salários dos “colaboradores” são competitivos.
Os horários de trabalho, que chegam a atingir as 60 horas semanais, por pouco mais que o salário mínimo, não permitem aos trabalhadores ter vida para além da mera sobrevivência.
É assim na Amazon, na Escócia, mas também é assim nalgumas empresas em Portugal, onde a normalidade é pagar o salário mínimo, contratar a meio tempo, exigir horários de tempo inteiro e atirar o pagamento do diferencial para um banco de horas que raramente é usado.
A exploração como normalidade, a competividade assente em salários de miséria e horários de trabalho elásticos em função das necessidades de lucro das empresas, a precariedade como instrumento de pressão, é um caminho que alguns assumem ser um mero sinal dos tempos.
Não há sinais nem marcas dos tempos. Os ganhos nesta desequilibrada contenda conquistam-se através da luta diária, sem concessões a taticismos de ocasião.
Só assim, os tempos mudarão de sinais e de marcas.
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na rádio diana)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Évora: É apresentado hoje livro sobre Vergílio Ferreira


Hoje, dia 15, quinta-feira, pelas 15h, na sala 131 do Colégio Espírito Santo da Universidade de Évora, realiza-se uma sessão de lançamento do livro "Vergílio Ferreira em Évora: Entre o silêncio e a palavra total" (Âncora Editora, 2016).Apresentam a obra a escritora Lídia Jorge, também ela autora de um dos muitos textos que integram o volume, e José Alberto Machado, Professor Catedrático da Universidade de Évora e ex-aluno de Vergílio Ferreira. O livro é constituído por um conjunto de duas dezenas de ensaios, numa edição da responsabilidade de Rosa Maria Goulart, Elisa Nunes Esteves, Cristina Firmino Santos e João Tiago Lima e que inclui textos de Rosa Maria Goulart, Eunice Cabral, Fernanda Irene Fonseca, Isabel Soler, Maria Lúcia dal Farra, Isabel Cristina Rodrigues Jorge Valentim Luci Ruas José Luís da Câmara Leme, João Tiago Lima Miguel Filipe Mochila António Cãndido Franco Maria Teresa Santos Maria Helena Saianda Olga Gonçalves Cláudia Sousa Pereira Madalena Vaz-Pinto Maria Antónia Lima Isabel Roboredo Seara Agnés Levècot Nuno dos Santos Sousa Ana Seiça Carvalho Leonardo Barros Sasaki Nuno Rafael Costa Maria do Carmo Cardoso Mendes Samuel Dimas e Emanuel Oliveira Medeiros.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Sessão do BE hoje na Universidade de Évora


A manteiga da polémica cinéfila e outras histórias

Bertolucci, um dos monstros do cinema mundial, esteve debaixo de fogo recentemente, na opinião pública que fala agora mais alto do que nunca, por ter revelado com alguns equívocos como foi filmada a famosa cena de sexo entre Maria Schneider e Marlon Brando em «Último Tango em Paris». Um clássico da Sétima Arte que, já agora, aconselho.
Maria Schneider teve, como tantas outras estrelas famosas e alguns cidadãos comuns, uma vida emocionalmente instável, já fora dos palcos ou do ecrã, e que em 2007 parece ter-se justificado com esta história de não consentimento prévio de todos os detalhes de rodagem de uma cena de sexo. E a polémica - que no relato de Bertolucci diz ter sido uma intenção de espontaneidade ao não dar previamente a conhecer a Schneider o uso, chamemos-lhe assim, criativo de uma barra de manteiga nessa dita cena de sexo - cresceu para uma cena de autêntica violação grupal em que esta Maria virou cordeiro sacrificial de figuras maiores da Sétima Arte. A mim, a história destas três pessoas e os seus factos, verdadeiros ou recriados, interessam-me tanto como a vida sexual do próximo, o que quer dizer zero. O que me aguçou a curiosidade foi a manteiga enquanto metáfora, e perceber que o que tanto parece ser altruísmo, neste caso em prol da Arte e dos seus praticantes, pode, por vezes, transformar-se em, chamemos-lhe isso mesmo, sacanice nos vários possíveis significados que tem o termo. Procurei então referências a este besunto, ainda que apressadamente, e encontrei uma historieta edificante que partilho convosco.
“Conta-se que certa vez duas moscas caíram num copo de leite. A primeira, forte e valente, nadou até à borda do copo, mas como a superfície era muito lisa e ela tinha as asas molhadas, não conseguiu sair. Acreditando que não havia saída, desanimou, parou de nadar e afundou. A outra, apesar de não ser tão forte, era tenaz. Continuou a debater-se por tanto tempo que, aos poucos, o leite ao seu redor, com toda aquela agitação, se transformou num pequeno nódulo de manteiga. A mosca conseguiu, com muito esforço, subir e dali levantar vôo para um lugar seguro.” Se a história parasse aqui, esta seria seguramente um elogio à persistência que leva ao sucesso. No entanto, assim não é. “Tempos depois a mosca tenaz, por descuido ou acidente, caiu novamente num copo. Com a experiência adquirida, começou a debater-se na esperança de que, no devido tempo, se salvaria. Outra mosca, ao passar por ali e vendo a aflição da companheira, pousou na beira do copo e gritou: "Há uma palhinha ali, nada até lá e sobe". A mosca tenaz não lhe deu ouvidos, continuou a debater-se até que, exausta, se afundou no copo cheio... de água.”
Ficaríamos muito mais dos que os aproximadamente três minutos de uma crónica a discutir as diferentes lições a retirar da historieta. Poderíamos ainda gastar muito mais tempo a substituir as moscas e os copos por pessoas e situações (auto)biografáveis. E podíamos, talvez, voltar a Maria Schneider, Marlon Brando e o “deus” Bertolucci, não sem algum picante-vintage completamente enevoado por uma atenta contemporaneidade à violência doméstica como crime público. Ou até, esticando mais a conversa, sobre a possível e discutível conflitualidade entre a estética e a ética, e o quanto para apreciadores das Artes é preciso conhecer bem as suas “gramáticas”.
O que eu vou lendo nesta historieta é que circunstâncias diferentes pedem reacções e atitudes diferentes, o que não contribui para uma suposta coerência primária, mas pode constituir-se um excelente quebra-cabeças de dois sentidos: para quem tem as atitudes e para quem, usando as celulazinhas cinzentas, as saiba interpretar. Dá trabalho, mas também dá muito mais gozo.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na radio diana)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Para onde nos levam?

Há várias semanas que, neste espaço, nada escrevo sobre a política nacional. Mas antes de o fazer, quero deixar aqui a minha singela homenagem, porque no dia 4 de Dezembro, passaram 36 anos sobre a sua morte, ao homem que na minha opinião foi o maior entre os maiores. Refiro-me a Francisco Sá Carneiro, fundador do Partido Social Democrata.
Porventura, se ainda estivesse vivo, interrogar-se-ia, certamente, se as lutas que travou contra a sovietização do país, teriam tido algum sentido. Na verdade, a vontade do atual governo, apoiado pelos acólitos da extrema-esquerda, não deixam de todos os dias de nos surpreender, pois, a vontade de tudo controlar parece insaciável.
Com efeito, a demissão de António Domingues da administração da Caixa Geral de Depósitos é disso um exemplo. Fica a pergunta: Demitiu-se por sua livre iniciativa, ou, pelo contrário, foram-lhe criadas a circunstâncias para o próprio achar que não tinha condições para levar a cabo o projeto que apresentou para desenvolver o banco público? Por se tratar do dinheiro de todos nós, há explicações que tardam em chegar, e, que, num regime, verdadeiramente, democrático, há muito que teriam sido apresentadas por quem tem o dever de as fazer. O governo do país.
Acresce que o primeiro-ministro radia de felicidade por ter encontrado um caminho que todos conseguem caminhar e de mão dadas. O seu governo e os partidos que o sustentam. Porém, na entrevista que deu ao canal público, não sendo novidade para a maioria dos portugueses, ontem com todas as letras, afirmou que tudo corre bem, excetuando os números da dívida pública. Só para os distraídos, para a pagarmos, durante 16 meses, não poderíamos realizar uma única despesa. Agora aplique esta receita as vossas casas. È muito mau, não é? Assim vai o nosso país.
Isto dito, para um entendedor mediano, como é o meu caso, será inquestionável que, o que disse o senhor primeiro-ministro, é que desfazer as reformas que o anterior governo levou a cabo, a velocidade com que realizou a reposição dos rendimentos dos portugueses, terá uma inevitável consequência: Não conseguiremos paga a nossa dívida.
Por isso, não sei se virá o diabo, ou não. Mas que este senhor e os seus acólitos da extrema-esquerda estão a conduzir o país para o inferno, disso não me restam grandes dúvidas. E, caros ouvintes e leitores, obviamente, porque não sou masoquista, o meu desejo é que, estes senhores, venham a ter sucesso para o bem de todos nós.

José Policarpo (crónica na radio diana)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Esta quarta-feira, dia 7, uma série de actividades previstas para o final da tarde/noite


18,00H - Livraria Ler Com Prazer


Ciclo do Pensamento Libertário.  Esta quarta-feira, dia 7 de Dezembro, regressam as conversas sobre vários autores libertários. Desta vez vamos conversar sobre Proudhon na 'Livraria Ler com Prazer', em Évora, pelas 18 horas. 

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18,00H - Câmara Municipal



Apresentação do livro "Poemas daquém e dalém-mar", de José Rodrigues Dias, na Sala dos Leões, Câmara Municipal de Évora.

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18,30H - Junta de Freguesia da Malagueira


Entre as várias pinturas de António Couvinha que estiveram recentemente exposta na sede da Junta de Freguesia da Malagueira, a União de Freguesias da Malagueira e Horta das Figueiras decidiu escolher uma e fazer uma serigrafia (cem exemplares) que será apresentada e posta à venda às 18h30, na sede da Malagueira, com entrada livre. Será feita uma apresentação da obra e haverá um momento musical por dois alunos da Academia de Música (viola e clarinete).

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21,30 H - Teatro Garcia de Resende


No Salão Nobre do Teatro Garcia de Resende terá lugar uma sessão do Bloco de Esquerda com Francisco Louçã. Integrado no ciclo de À Conversa com, Francisco Louçã falará sobre o livro "10 dias que Abalaram o Mundo" de John Reed e a Revolução Russa.

De braços abertos

Foi sem surpresa que li os resultados de mais um inquérito aos portugueses em que a maioria se diz disponível para receber refugiados mas não imigrantes.
Os portugueses são, entre os europeus, aqueles que aceitam melhor a vinda de refugiados, com preferência para alguns credos em detrimento de outros, e são também dos que mais se opõem à entrada de imigrantes por razões económicas. Foi sem surpresa, mas com tristeza. Aquela que suplanta qualquer ponta de orgulho que não costumo alimentar, embora não lhe seja imune, por exemplo até quando toca o hino.
Sem surpresa porque costumo ouvir as opiniões e comentários das pessoas na rua, seja a rua da capital ou da província. E porque frequento as redes sociais. Com tristeza porque discordo profundamente desta postura. E, sobretudo, porque as oiço nas vozes da geração a seguir à minha, o que atinge o meu capital de esperança nas futuras gerações. Ou não me passassem pelas salas de aula às dezenas, todos os anos, o que me leva a várias situações em que me olham desconfiados com o meu discurso que lhes contraria esta e outras posturas que roçam a intolerância.
Julgava que haveria um certo pudor, neste país que tem um Cristo a receber de braços abertos quem chega à sua capital, em expor assim o seu medo. Porque é de medo que se trata. Medo que nos tirem os diversos lugares que julgamos cativos ou para os que “são de cá”, ou dos que os querem muito e temem a concorrência dos mais capazes. E são eles próprios incapazes de incluir, repartindo “deves e haveres”, nas suas equipas. Às tantas são os mesmos que andaram a indignar-se em público com os discursos de Trump mas levantam assim o seu próprio muro. Que tratam uma nação como um clube privado em que é reservado o direito de admissão pela casta e não pelo cumprimento das regras que todos, de dentro ou de fora, têm de cumprir. Ou que rejubilam quando algo de seu se transforma em património da humanidade.
E depois há uma questão de memória colectiva. Parece-me que aqui somos, paradoxalmente ou talvez não, um conjunto de cidadãos que com a mesma inchada recordação de enaltecimento do que fomos no mundo em expansão há cinco séculos, esquecemos as vagas migratórias de um passado mais recente. E ao medo junta-se assim um novo-riquismo colectivo, o de quem esquece o período humilde da sua vida e rapidamente o substitui pela soberba de quem está bem na vida e mais ninguém a seguir poderá alcançar este bem.
Finalmente, e porque o exercício de me pôr na pele dos outros que costumo praticar me leva a tal, só será compreensível que se justifique esta inospitalidade se, ao medo que nos torna mesquinhos e pequeninos, se juntar a instabilidade crónica de um país economicamente débil. É que quem não tem para si, por muito bonzinho que se apregoe, por uma questão de sobrevivência deixa sair de si os instintos mais básicos e animalescos. Escusava era de andar-se a apregoar o impraticado. Mais vale cruzarem-se os braços e continuarem a queixar-se de que ninguém nos liga. Talvez um dia, como colectivo, neste dever de cidadania cresçamos. Porque, felizmente, vamos tendo indivíduos que se destacam, também neste aspecto, deste colectivo.
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na radio diana)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Hoje na "Fonte de Letras"


Hoje às 16.30h, na Fonte de Letras, Hugo Cruz apresenta o seu novo livro "Arte e Cidadania em Contexto Prisional" e ainda a recente reedição do seu livro anterior "Arte e Comunidade", evento inserido no ciclo Teatro e Comunidade 2016.

Juntos Conseguimos?

Estamos quase no final de 2016. Completámos três anos de governo municipal em Évora por parte da CDU, um mandato com maioria absoluta na Câmara e ampla maioria na Assembleia Municipal.
Infelizmente, e passados 3 anos, uma parte muito considerável do Programa da CDU encontra-se por cumprir:
* Prometia a CDU defender os “postos de trabalho e valorizar os trabalhadores”. Infelizmente, ao fim de 3 anos de gestão, continuamos a encontrar dezenas de postos de trabalho que deveriam ser de carácter permanente, ocupados por formas precárias de contratualização;
* Prometia a CDU “envolver as populações e as instituições na construção dos orçamentos municipais”. Chegámos ao momento da apresentação do último orçamento municipal do mandato, sem perceber que metodologia de auscultação foi feita e quais os efeitos práticos da mesma;
* Prometia a CDU “definir e concretizar um programa anual de animação do centro histórico”. Ao fim de 3 anos, apesar de algumas melhorias a este nível, não existe qualquer programa concreto, assumido, e com a participação de TODOS os agentes culturais;
* Prometia a CDU “criar um programa de valorização patrimonial e turístico do Cromeleque dos Almendres, Anta Grande do Zambujeiro e do Povoado Pré-Histórico do Alto S. Bento”. Chegaremos a 2017 sem nada feito;
* Prometia a CDU “revitalizar o Mercado 1.º de Maio com os operadores e pequenos produtores”. Até ao momento tal revitalização não ocorreu;
* Prometia a CDU “inventariar os bens patrimoniais do Concelho, criando um museu virtual para Évora”. Alguém conhece tal museu?;
* Prometia a CDU “definir um Plano Estratégico Cultural”. Continuamos à espera de tão importante Plano Estratégico, e corremos o risco de continuar à espera;
* Prometia a CDU “reabilitar e dinamizar a ludoteca do Jardim de Évora”. Até ao momento nada;
* Prometia a CDU “lançar um grande debate público sobre o futuro da Feira de S. João”. Esse grande debate surge mencionado nas Opções do Plano de 2017 da seguinte forma: a Câmara “concluirá a discussão pública estruturada sobre a Feira de S. João”. É positivo que o conclua, mas já que é um grande debate público seria conveniente que tivéssemos conhecimento que ele começou e está em curso;
* Prometia a CDU “rever o plano de circulação e trânsito da cidade, facilitando a mobilidade, o tráfego e o estacionamento”. Em 3 anos não se sentiu qualquer melhoria;
* Prometia a CDU “criar um plano concelhio para a mobilidade que dê a prioridade à circulação e acessos a cidadãos com mobilidade reduzida”. Infelizmente os cidadãos com mobilidade reduzida só encontram barreiras na nossa cidade;
* Prometia a CDU “reconstituir uma bolsa municipal de solos”. O que aconteceu com esta promessa?;
* Prometia a CDU “melhorar e gerir de uma forma mais eficaz a iluminação pública”.Quero acreditar que a iluminação pública está a ser gerida de forma mais eficaz. Mas melhorias não encontro;
* Prometia a CDU “definir um plano concelhio de preservação e promoção ambiental”. Não conheço tal plano e não o vejo plasmado em lado nenhum;
* Prometia a CDU “criar um programa carbono zero que contribua para minimizar as alterações climáticas”. Era bom, não era?;
* Prometia a CDU “retomar a Agenda XXI Local, garantindo a participação e respeitando os projectos selecionados pela população”. Pena não ter sido retomada, e muito menos se prevê que se respeite as escolhas da população;
* Prometia a CDU “elaborar um plano estratégico para o desenvolvimento desportivo”. Até ao momento nada;
* Prometia a CDU “dinamizar a organização de Fóruns da Juventude”. A ideia ainda não chegou a ver a luz do dia;
* Prometia a CDU “criar percursos pedonais ao longo de todo o Concelho”. Objectivo exigente e ambicioso. Nem ao longo de todo o Concelho… nem em parte…;
* Prometia a CDU… E prometia ainda mais… Prometia que juntos conseguiríamos… pouco se conseguiu e pouco se prevê conseguir.
Até para a semana!

Bruno Martins (crónica na radio diana)

"Colar de Contos", novo livro de Maria Barradas é apresentado hoje


"É com enorme prazer que anuncio e vos convido para o lançamento do meu novo livro "Colar de Contos", editado pela Ambiguae Edições, cujos textos o António Couvinha me deu a honra de ilustrar com magníficos desenhos e a Margarida Morgado a honra de prefaciar. 
A apresentação que ocorrerá na Sala dos Leões, da Câmara Munipal de Évora, na Praça do Sertório, no dia 5 de Dezembro pelas 18.30h, contará com a presença da editora, do Vereador da cultura da CME, Eduardo Luciano, e será feita por Margarida Morgado. 
Na sessão haverá leitura de alguns excertos por Rosário Gonzaga e Margarida Morgado e será servido um Alentejo de honra a todos os presentes.
Muito nos honraria a vossa presença!
Maria Barradas"


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

As ondas do populismo

A polémica em torno da administração da Caixa Geral de Depósitos e as posições que foram sendo assumidas e publicitadas sobre o assunto, deverá tornar-se num caso de estudo sobre como o populismo bem manipulado pode levar a consequências negativas, parecendo que se está a perseguir um objectivo de justiça.
Como nos livros policiais, aqui também é necessário descobrir a quem aproveita o crime, para se perceber quem são os suspeitos mais prováveis.
É óbvio e evidente que o liberalismo reinante nunca engoliu a existência de um banco público. Só alguém muito distraído poderá não perceber que o principal objectivo de PSD e CDS com a questão da declaração de rendimentos é a fragilização do banco público para abrir caminho à sua privatização.
Imaginam o PSD preocupado com a promiscuidade entre gestão pública e negócio privado? Imaginam o CDS preocupado com o valor do salário de um banqueiro? Claro que não. Seria necessária demasiada imaginação.
O governo cometeu erros de palmatória, o banqueiro esteve-se nas tintas para o interesse público e entendeu que a defesa da sua posição pessoal era mais importante e os justiceiros anónimos foram atrás de frases incompletas, meias verdades e sentimentos de injustiça.
Li e ouvi, gente que não admite que se metam na sua vida (e bem) a querer conhecer os rendimentos e os interesses dos administradores da Caixa. A questão deixava de ser a entrega da declaração para passar a ser a publicidade da mesma.
A onda foi crescendo, alimentada convenientemente pela comunicação social do costume, até se tornar tão grande que a tentação de a cavalgar se tornou, para alguns, impossível de resistir.
Que fique claro, entendo que os administradores deveriam ter enviado as declarações de interesses e rendimentos ao Tribunal Constitucional e acho indecoroso o salário negociado com o banqueiro que preside ao conselho de administração.
Mas alinhar numa campanha de desestabilização do banco público com o objectivo de cavalgar uma onda de popularidade imediata, parece-me não fazer qualquer sentido.
O resultado está à vista, com a Caixa passar por maiores dificuldades e alguns a salivarem perante a possibilidade de abocanharem os restos do banco público.
Muito se fala de populismos crescentes por esse mundo fora, que a eleição de Trump parece ter ajudado a multiplicar.
Lamentam-se e não aprendem nada com o que vão observando, continuando a guiar a sua acção pelo que parece um ganho político imediato alicerçado na exploração de um sentimento generalizado de injustiça.
Esquecem-se que quem forma as ondas onde gostam de surfar, são os donos deste mundo, que vão manipulando os surfistas da “popularidade” enquanto deles precisarem.
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na radio diana)

1º de Dezembro em Évora (anos 40), pelo prof. Galopim de Carvalho


"Nesta fase da minha vida escolar, em que, concluída a primária, ainda tinha bem presente a História de Portugal e o destaque dado à independência, em 1640, e à defenestração do infeliz Miguel de Vasconcelos, no Paço da Ribeira, em Lisboa, contactei com outro 1º de Dezembro, o da nossa festa no Liceu que o meu pai frequentara, a começos do século XX, nos anos em que Florbela Espanca também por lá passou.
Mesmo antes de ali entrar, eu estava a par deste que era o seu maior acontecimento festivo. Conhecia-o através do meu irmão mais velho, Francisco José, entretanto saído para a Universidade, em Lisboa, e, também, pela minha irmã Maria de Lourdes, a frequentar o 5º ano. Por eles eu sabia da grande noitada da véspera, iniciada com o ensaio geral da récita do dia seguinte, no Teatro Garcia de Resende, e continuada com as tradicionais ceias dos estudantes mais velhos. As raparigas não tinham essa liberdade e nós, rapazes mais novos, iríamos esperar que chegasse a nossa vez de homenagear, dessa forma, os heróis da restauração.
No desconforto e no frio de uma garagem, de um armazém ou de um qualquer barracão, estes estudantes, muitos deles a experimentarem a primeira noite fora de casa, comiam e bebiam, dando largas à sua condição de adolescentes libertos das balizas da escola e da família. Tocados, uns mais, outros menos, pelo efeito do álcool, a que não estavam habituados, acabavam por sair para a rua em grupos, cantando, correndo e gritando “efe-erre-ás”, enchendo a madrugada de animação para uns e de desassossego para outros. Nessa noite a vigilância policial era reforçada, não para os reprimir, mas sim para os controlar e minimizar os excessos, que sempre havia.
Ao nascer do dia, roucos de tanto gritarem, reuniam-se no Liceu, de onde saíam com a Tuna Académica (Fundada no 1º de Dezembro de 1902), dando cumprimento à tradicional alvorada, percorrendo a cidade, tocando e cantando o Hino da Restauração e o do Liceu, e soltando mais e sempre mais “efe-erre-ás”, lançando capas ao ar. A primeira paragem era na rua do Conde da Serra, frente à casa do Reitor. Da janela do 1º andar, em roupão, o Dr. Gromicho ouvia os dois hinos em posição de respeito, e, depois, acenando os braços, sorria aos “efe-erre-ás”, que eu também gritei quando chegou a minha vez. Nessas manhãs ele fechava os olhos à irreverência dos seu pupilos que, àquela hora, mais mortos do que vivos, curtiam a ressaca, caídos de sono.
Naquele tempo um Reitor de liceu tinha de ser um homem da confiança do regime e o Dr. Gromicho era-o, não só como membro da União Nacional, mas também, como deputado à Assembleia Nacional, de partido único. Não obstante este comprometimento político, o nosso Reitor sempre apoiou o uso da tradicional capa e batina, fazendo orelhas moucas às directrizes, vindas de Lisboa, no sentido de incrementar o uso da farda da Mocidade Portuguesa. - "Quem tem capa, sempre escapa" - dizíamos, repetindo uma frase corrente nessa época, e era assim, de negro, como os corvos, que nos movimentávamos em qualquer ambiente, desde jogar à bola, calças arregaçadas, capa e batina no chão, fraldas de fora e meio empoeirados, à presença nos salões, onde a gala ditava as vestes e a compostura.
Um parêntesis para lembrar que o traje de capa e batina, um privilégio radicado na tradição de uma imposição aos alunos deste liceu, por Portaria do Ministério do Reino, de 27 de Outubro de 1860, ao tempo de D. Pedro V. Até então este traje académico fora exclusivo dos estudantes da Universidade de Coimbra.
Depois do almoço do dia 1, refeitas as energias, tínhamos a Tarde Desportiva no campo de jogos do liceu. O professor Mariano, atlético e de voz bem timbrada, conduzia a exibição e as evoluções das suas classes de ginástica, ensaiadas à perfeição. Mas o melhor da festa eram as competições de voleibol e basquetebol, nas quais os nossos colegas mais crescidos defrontavam as habituais turmas adversárias, quase sempre as da Escola Comercial e Industrial Gabriel Pereira (Gabriel Victor do Monte Pereira, historiógrafo nascido em Évora em 1847).
Nessa tarde distribuía-se “O Corvo” em edição especial da efeméride e em cuja feitura participavam professores e alunos. Semelhante a qualquer um dos muitos que sempre se fizeram e fazem no seio das escolas, “O Corvo” com a figura da ave, de capa e batina, na primeira página, era o nosso jornal e o jornal do 1º de Dezembro (o primeiro número de “O Corvo” surgiu no dia 1 de Dezembro de 1921).
À noite tinha lugar a récita, por tradição no Teatro Garcia de Resende e, anos mais tarde, no grande salão do Ginásio, depois deste novo edifício ter vindo ampliar as instalações do liceu. Preparada e ensaiada ao longo dos meses de Outubro e Novembro, a récita incluía actuações da Tuna e do Orfeão Académico, uma pequena peça de teatro, via de regra, uma comédia em um acto, e um espectáculo de variedades com recitação de poesias, canções a solo, a dois ou a três, danças e cantares do folclore nacional, sob a direcção, nesse tempo, da dona Maria do Carmo, senhora de volumosa estatura, mas de uma leveza e de uma alegria contagiantes, que tinha artes de dar voz e pôr a cantar os mais desafinados.
Num camarote central, em lugar de destaque, o Reitor assistia à totalidade da récita, ladeado por alguns professores. A dona Maria do Carmo e o senhor Gasparinho, o ensaiador da peça de teatro, permaneciam nos bastidores, dando as últimas instruções e fazendo recomendações. 
A começar, sempre com atraso, as luzes esmoreciam, e um aluno dos mais antigos, iluminado por um círculo de luz, vinha à boca de cena, dizia umas breves palavras de apresentação e de cumprimentos, findas as quais o pano subia, lentamente, abrindo o palco ao público, com a Tuna Académica já perfilada. E ali estava eu, o mais pequeno do grupo, vestido de capa e batina feitas à medida pela minha mãe, de pandeireta na mão, repleta de fitas, caídas até ao chão. Aos primeiros acordes do Hino do Liceu, as fitas, brilhantes de seda e de todas as cores, esvoaçavam entre cotovelo, mão, cabeça, joelhos e pontas de pé, marcando o ritmo. A seguir ouvia-se o Hino da Restauração e, por último, os “efe-erre-ás”, particularmente sonoros lá em cima, nos “galinheiros” (lugares mais baratos, por cima dos camarotes mais altos, frequentados pelos espectadores de menores posses) em gritos que enchiam e quase deitavam abaixo a sala. 
A programação ia-se cumprindo, sempre prolongada noite adentro, com pausas intermináveis para mudar cenários, alegradas por animadores de ocasião, dizendo versos, contando anedotas e sempre, sempre, pedindo compreensão para os atrasos. Nestas idades, o maior gozo era prolongar o serão o mais possível e, tanto o Reitor como os nossos pais, que ali estavam como espectadores, sabiam que assim era.

No último intervalo, altas horas, uma comissão de alunos, à semelhança do que sempre se fizera e sabendo antecipadamente a resposta, dirigia-se respeitosamente ao Reitor, solicitando-lhe tolerância de ponto para as aulas da manhã que surgiriam daí a meia dúzia de horas. De seguida, com expressões nos gestos e nos olhares que confirmavam o que todos já esperávamos, subiam ao palco e anunciavam:
- Amanhã não há aulas da parte da manhã!
- Viva o senhor Reitor! Viva!
- Viva o 1º de Dezembro! Viva!
- Efe-erre-á! Fra!, Efe-erre-é! Fré!..."

António Galopim de Carvalho (aqui)

Estaremos à altura da classificação?

No passado dia 25 de Novembro comemorou-se o 30.º aniversário desde que o centro histórico teve a mais alta classificação da UNESCO, no que ao património diz respeito. Ficando o nosso centro histórico, por isso, a pertencer à Humanidade.
Na verdade, desde a classificação como património da humanidade que a cidade de Évora tem vindo a ter uma procura turística sem par na nossa história. Para termos uma ordem de grandeza a Capela dos Ossos, no ano passado, teve mais de duzentos mil pagantes. A procura de dormidas em Évora subiu consideravelmente. A restauração também teve um comportamento razoável.
Com efeito, o turismo é um sector proeminente da atividade económica no nosso concelho, sendo esta realidade incontornável. Por isso, deverá ser preservada e acarinhada por todos. Tanto pelas instituições públicas e privadas, quer pelos eborenses e por todos aqueles que aqui residem ou estudam.
A notícia dada lela TVI no início desta semana, que, passo a citar: “Metade da cidade património precisa de obras”, é uma realidade que todos conhecemos, mas que ainda não foi enfrentada por quem tem, na linha da frente, de liderar o processo. Refiro-me, como não podia deixar de ser, ao executivo camarário.
Compete, também, às câmaras municipais zelar pela segurança e pela aparência dos prédios urbanos. Tendo o centro histórico a qualidade de património da humanidade, mais essa obrigação ganha dimensão. E não se trata só de um dever resultante da Lei. Há, também, uma obrigação moral com aqueles que amam esta cidade.
Portanto, o executivo camarário terá de liderar o processo que vise a inversão da degradação do património existente no centro histórico. E, para isso, deverá chamar à solução para este problema, as entidades públicas e privadas, direta ou indiretamente, ligadas à propriedade do mesmo.
Por que se nada for feito, para além dos problemas de segurança que possam estar envolvidos, a classificação de património da humanidade compreende também deveres e obrigações, e, assim, poderá ser retirada com consequências incalculáveis para a cidade e para a nossa economia.

José Policarpo (crónica na rádio diana)