sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um dia como qualquer outro

Seria inevitável falar do dia ontem, pela agitação mediática que provocou e pelas manifestações de indignação que os diversos comentadores, profissionais ou amadores, foram deixando ficar por aqui e por ali.
A primeira observação que se me oferece é que não percebo os motivos de tanta agitação. Não é a primeira vez que os americanos, pelo seu estranho processo eleitoral, elegem uma figura que não lembra ao diabo, que substitui o discurso político pela frase curta que toda gente é capaz de produzir, e que por isso tem garantida a adesão dos menos disponíveis para essa coisa da reflexão.
Os mais novos e os mais distraídos já não se lembram da primeira eleição de um actor medíocre de filmes da série B e do que se disse acerca da impossibilidade dos americanos elegerem tal figura.
Esqueceram-se também que os mesmos eleitores colocaram na Casa Branca não um, mas dois elementos da mesma família (pai e filho) que não primavam propriamente pelo brilhantismo intelectual e que deram os primeiros passos, decisivos, para mergulhar o mundo nas frentes de guerra que hoje estão abertas e lançaram as bases do terrorismo à escala mundial.
Mas mesmo aqueles que pareciam figuras menos sinistras não fizerem mais do que continuar, por outros meios e usando outros discursos, a mesma política. É da natureza da coisa.
É bem possível que a figura eleita ontem venha carregar de novos perigos um mundo já de si posto a ferro e fogo pela política externa dos seus antecessores, mas a eleição da sua oponente traria exactamente os mesmos perigos.
Percebo e partilho das preocupações, mas não é nada que não seja comum aos diversos ocupantes da Casa Branca. Lembremos o simpático e elegante actual ocupante que, apesar do seu inegável sentido de humor, fomentou durante os seus mandatos múltiplas acções de ingerência externa que acabaram em guerras generalizadas e na desestabilização de várias regiões do mundo.
Uma guerra promovida por um lunático, misógino, racista e mais outros epítetos que queiramos somar, tem as mesmas consequências que uma guerra promovida por alguém a quem aparentemente não se lhe pode atribuir a mesma carga negativa.
A eleição de Trump é, de facto, algo de extraordinariamente negativo para os norte-americanos e para o mundo, mas não é a abertura da caixa de Pandora. A muito afamada caixa já foi aberta há muito tempo pelo agudizar crescente das crises sistémicas do capitalismo que estão a empurrar os povos para becos de onde a saída aparente parece ser seguir o primeiro louco que aponte um qualquer caminho até ao precipício mais próximo.
O embaixador José Cutileiro, admirador confesso dos Estados Unidos e das suas políticas, procurava, na manhã de ontem, encontrar uma justificação para a eleição de Trump e, às tantas, afirmou que tal resultado não seria assim tanto de espantar num país em que um em cada quatro adultos ainda acredita que o Sol gira à volta da Terra. Talvez devesse ter acrescentado, parafraseando o marido da candidata derrotada, é a cultura… estúpido.
Salvou-me o dia o magnífico concerto de uma menina chamada Dom LA Nena que terminou com uma interpretação muito pessoal da famosa canção de Violeta Parra, Gracias a la Vida.
Não há Trump nem Clinton que consigam matar o sonho, embora seja verdade que podem mandar matar o sonhador.
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na rádio diana)

7 comentários:

  1. Senhor viajante os políticos colocam-se a jeito destes lunáticos com politicas são uma vergonha,viagens festas e muita orgia a conta do povo que os elegeu,quando o povo olha em Évora vê lixo imóveis em ruína famílias acampadas no espaço publico etc...observando o deboche que se passa na autarquia como ficam?????No pais é igual,ficamos a mercê dos Trumps a das Le Pen !!!

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  2. Disseram-me que este cromo não vai entrar na lista da CDU para as próximas eleições autárquicas. É a sorte grande para Évora!

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  3. Caro Eduardo Luciano, com todo o respeito que tenho por si, não posso deixar de dar-lhe conta que não consegui ir além das primeiras linhas do seu texto, quando refere que «Não é a primeira vez que os americanos, pelo seu estranho processo eleitoral, elegem uma figura que não lembra ao diabo,...».
    Diz bem e imagino que o seu sub-consciente não tenha notado essa contradição do seu íntimo, que os americanos elegem ....
    Bem dito, bem constatado, embora do foro do inconsciente ...
    Porque, na ex-URSSS que tanto admirava, ou noutro regimes latino-americanos que continua a bajular, nunca se levantaria a hipótese de os eleitores poderem errar na escolha de alguém que lembraria ou não a deus ou ao diabo...
    Como pode você escrever estas coisas e depois andar por aqui na rua a defender os regimes mais trucidadores dos direitos humanos e da palavra democracia, que desconhecem?
    É preciso cara de pau para fazer esse frete....

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    1. Estranhas eleições em que a candidata que teve mais 230 mil votos perdeu e o candidato que teve menos 230 mil votos ganhou.

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  4. Mas não te pronuncias sobre as eleições em Cuba... porque será?

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  5. Então e as eleições em Angola, esse país tão democrático e amigo dos comunistas portugueses?
    Lá também não elegem uma figura que não lembra ao Diabo, até porque lá é a mesma figura corrupta e gatuna há décadas. Uma figura que você, Eduardo, muito admira e aprecia. Diz-me com quem andas...
    jmc

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