quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Eufemismos

Recentemente um dos muitos especialistas em economia (daqueles que sabem exactamente como resolver uma crise, embora nunca tenham resolvido nenhuma) afirmou, perante a indignação geral, que “500 mil euros não é uma fortuna. É o mínimo que um casal responsável da classe média tem de ter acumulado para complementar a parca reforma que vai receber na velhice.”
Muita da indignação suscitada tem a ver o facto de muita gente que ganha mil euros por mês se considerar da “classe média”, fugindo do estigma da palavra pobreza, que se colará aos que ganham quinhentos euros.
Por sua vez, os que ganham quinhentos euros também se reclamam da classe média fugindo dos parâmetros dos que sobrevivem com salário de part-time, com rendimentos sociais de inserção, pensões de sobrevivência e outras prestações sociais.
Claro que para todos estes é, no mínimo, insultuoso dizer que “um casal responsável” da “classe média” poderá acumular durante uma vida de trabalho qualquer coisa como meio milhão de euros, tendo pago a educação dos filhos, a casa, a alimentação, a cultura, o desporto e todas as despesas que lhes batem à porta todos os dias.
O homem disse várias alarvidades ao longo do texto, mas a que incomodou mais a “classe média” foi aquela que a fez olhar ao espelho e perceber que, afinal, são todos da “classe baixa” com diferentes graus de proximidade com a indigência.
Foi um mau serviço que o consultor financeiro prestou aos que lhe pagam. Se há coisa que o sistema precisa de garantir, para que não haja convulsões, é a existência dessa maioria de pessoas que se sentem no meio de uma inventada escala social, culpando os que estão abaixo pela sua condição de pobreza. Não é por acaso que os mais acérrimos detractores da existência de prestações sociais do género do Rendimento Social de Inserção, são os que se julgam num qualquer ponto de equilíbrio entre os ricos e pobres.
Nada disto é novo e os que se lembram dos tempos do fascismo têm seguramente presente que, apesar da imensa pobreza, toda a gente se dizia remediada.
O anterior governo, com as suas políticas de empobrecimento de quem vive do rendimento do trabalho, acabou por trazer à evidência que a denominada “classe média” não passa de uma ficção, de um certo conforto moral, para aqueles cujo rendimento lhes permite viver acima da indigência. Temos por isso hoje coisas estranhíssimas, como protestos contra a possibilidade de impostos agravados sobre quem tem património imobiliário acima do meio milhão de euros, porque é um ataque à classe média, e temos protestos contra a recuperação de rendimento do trabalho dos que têm salários mais altos, porque se irá favorecer os que menos precisam.
A “classe média” é isto e dá para tudo. Até para que se consigam obter resultados de referendos como na Hungria ou na Colômbia.

Eduardo Luciano (crónica na radio diana)

3 comentários:

  1. 500 mil? O sr deve ter estado a favor do veto do sigilo bancario? O amor ao dinheiro ....

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  2. O vereador viajante,nunca na história da autarquia houve igual,ainda fala da classe média?olhe se espelho!

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  3. Algumas dessas viagens patrocionadas pelos grandes Fornecedores da CME. Prendas superiores a 150 euros. Investigue se tambem

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