sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Esta noite no Armazém 8


1 comentário:

  1. “História de uma lata de sardinha” ou ” A menina Hurria nunca viu um peixe”


    Aproximam-se as datas festivas em que sempre se fazem recolhas de alimentos e onde os apelos por enlatados se multiplicam às portas dos supermercados.

    Este ano serão também feitos apelos em nome dos refugiados, é bom não esquecer quem são os refugiados, donde veem e onde estão.

    O ciclo de ajudas humanitárias são um negócio mais numa cadeia sem fim da exploração do ser humano, neste caso dos refugiados.

    “História de uma lata de sardinha” ou ” A menina Hurria nunca viu um peixe”

    Era uma vez uma lata numa longa fila de latas, pouco a pouco foram cheias com sardinhas, fechadas e etiquetadas. E aí estavam arrumadas em paletes e paletes aos milhares numa empresa no Sahara Ocidental ocupado.

    As sardinhas e as latas não sabem onde estão, nem que o Sahara Ocidental foi roubado e ocupado, primeiro pelos espanhóis e agora pelos Marroquinos. Não sabem que a poucos metros do armazém onde estão, são torturados saharauis, não sabem que os territórios ocupados são uma prisão aberta com um muro de 2720km a separa-los dos territórios libertados e dos campos de refugiados no sul da Argélia.

    A nossa latinha foi posta num camião e começou a sua viagem para a Europa. Passados dias chega a outro armazém, mais fresco, mais limpo, mais moderno e aí fica entre o corredor 203 e o 204.

    Passadas algumas semanas volta a fazer viagem desta vez para um hipermercado numa cidade grande e barulhento. A nossa latinha nunca viu o hipermercado porque estava na ultima palete do armazém.

    Veio o calor, um calor insuportável e com ele veio a consciência de muitas pessoas que foram a correr num sábado comprar tudo o que é bom e uma latas de sardinhas para colocar no carrinho da associação que estava a pedir comida para os campos de refugiados do Sahara Ocidental.

    Muitas semanas depois chegou a Tindouf e a outro armazém, este de terra batida sem ar condicionado e cheio de areia. Na palete ao seu lado estava a lata que estava na fila atrás da nossa lata quando foram cheias de sardinhas.

    Perguntou a amiga lata onde ela tinha andado. Pois a amiga da nossa latinha fez também ela uma longa viagem esteve numa armazém do governo espanhol uma coisa importante, e depois foi para um armazém da União Europeia, ainda mais importante, estava toda inchada porque achava que era muito importante.

    No entanto outra lata que estava a ouvir a conversa disse logo que ela sim que era importante porque foi enviada pelas Nações Unidas, pela ACNUR assim ficaram a conversar até ao dia em que foram distribuídas pelas famílias dos campos de refugiados.

    Hurria estava a aprender a cozinhar com a mãe que lhe mostrava como se podia alimentar 6 pessoas com 1 lata de atum e uma mão cheia de arroz, e ao mesmo tempo contava-lhe donde vinham as sardinhas que não nasciam em latas, mas sim no atlântico que banhava a costa do Sahara Ocidental, a pátria que Hurria nunca tinha visto. Explicou a mãe que essa sardinha fora roubada pelos marroquinos aos saharauis e em seguida os marroquinos vendem-nas aos Europeus e depois os Europeus “oferecem” as latas aos donos das sardinhas roubadas como caridade.

    Hurria nunca viu uma sardinha inteira, nunca colocou os pés na areia da praia do seu país, não sentiu o vento fresco ao fim da tarde a brincar com os seus cabelos, nunca abraçou o seu avô que vive nos territórios ocupados, nunca beijou a sua avó que morreu a fugir das bombas lançadas pelos marroquinos.

    Mas Hurria não esquece o que nunca viu, Hurria não esquece o futuro que roubaram à sua mãe. Hurria nunca vai desistir da sua pátria.

    Isabel Lourenço, colaboradora de www.porunsaharalibre.org

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