sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O regresso dos que não foram

Cá estamos de novo para iniciar mais um período de crónicas que se irá prolongar até ao Verão de 2017.
Regressado de onde não fui, tive tempo para olhar de forma mais distante a realidade que nos cerca e perceber melhor que este mundo onde vivemos está cada vez mais perigoso.
Nestes últimos dois meses os partidos arredados do poder tudo têm feito para manter e aprofundar a teoria da legitimidade da solução governativa que resultou das últimas eleições legislativas, combatendo tudo o que sai das opções governativas, em particular a recuperação de rendimentos do trabalho, ainda que insuficiente.
A comunicação social dominante continua dominada pelos que construíram a teoria do “ajustamento inevitável”, em particular a rádio e televisão públicas que continuam a tratar o ex-primeiro ministro como se ainda o fosse.
No Brasil consumou-se o golpe de Estado que destituiu Dilma e colocou no poder um homem que representa tudo o que há de mais negativo na sociedade brasileira. De repente, aos olhos da comunicação global, o país que tinha casos de corrupção que espantavam o mundo passou a não ser notícia por essas razões. O papel estava cumprido e era preciso mudar de alvo.
O próximo alvo é a Venezuela, vítima de uma guerra económica sem tréguas que leva o povo às ruas a exigir a queda do presidente eleito. Não importam as razões da escassez de bens de consumo, o que importa é acabar com a experiência de governo que permitiu retirar da miséria milhões de venezuelanos.
Na Turquia, um suposto golpe de Estado permitiu ao presidente no poder limpar tudo o que era oposição, prendendo milhares de pessoas e afastando outros tantos dos cargos que exerciam, atrevendo-se mesmo a propor a restauração da pena de morte.
Em Calais, constrói-se um muro para impedir a passagem de migrantes para a território inglês. A dramática ironia da construção deste muro vem mostrar como é visível o cinismo dos que medem a bondade dos muros em função dos seus interesses económicos e políticos.
A memória continua a ser curta (diria que cada vez mais curta na voragem das redes sociais) quando vemos gente que ganha quinhentos euros por mês a achar-se “classe média” e sem se lembrar que foram o alvo preferencial de um governo que provocou um dos maiores retrocessos civilizacionais da nossa história.
Parecem ter razão os que afirmam que a maior obra do capitalismo é criação de pobres de direita. Talvez não seja a maior obra, mas que é uma forte garantia de continuidade do sistema, parece não restar dúvidas.
Mas nada de desesperos, que o caminho é sempre em frente e o futuro radioso. Razão tinha Goethe quando colocou o diabo a dizer ao pobre Fausto:
“Mas de costume és bastante endiabrado.
Não acho nada mais inepto no mundo
Do que um diabo desesperado.”
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na radiodiana)

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