quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Metaforizar

É um prazer voltar às crónicas em que, da letra à voz, a Rádio Diana me vai dando a oportunidade de emitir opinião e, talvez até, fazer opinião junto daqueles que me ouvem ou lêem com toda a paciência.
Tenho seguido uma norma, pessoal e possivelmente intransmissível, de submeter as séries de crónicas a um motivo constante, à volta do qual surgem os temas, ou assim os suscitam as circunstâncias, e que me vão levando a partilhar a minha opinião. Já o fiz com ditados populares, com verbos, com estrangeirismos, com citações de Vergílio Ferreira. Nesta série pensei na metáfora como pólo agregador de ideias, argumentos, lógicas discursivas. E talvez seja por isso interessante começar por ajustar o vastíssimo “mundo da metáfora”, muito conhecido e esmiuçado para os relativamente poucos que trabalham as teorias e a filosofia da linguagem, ao mundo dos cidadãos que entre as ondas hertzianas e os bytes vão apanhando as palavras de que são feitas estas, e quaisquer outras, crónicas de opinião.
A metáfora é talvez o recurso expressivo que a linguagem humana mais utiliza. Por vezes até inconscientemente e, pasme-se, por falta de vocabulário próprio para precisar uma ideia ou uma definição. Isso acontece muito com as crianças que, com o seu ainda pequeno dicionário, lançam mão de imagens que parecem até poesia a sério, intencional. É que a metáfora consiste, num sentido lato, em usar-se um termo, ou uma expressão, ou até mesmo uma ideia – quando o nível de elaboração do discurso é mais estável e consolidado – com o sentido de outro termo, expressão ou ideia. Obviamente que se mantém uma relação de semelhança, fazendo-se o transporte de um sentido para o outro – num sentido para a criar, no outro para a decifrar - ainda que por vezes difícil de descobrir, gerando verdadeiros quebra-cabeças a quem queira entender exactamente o que se está a querer dizer. Aliás, começamos por aprender que a metáfora é, e simplificando, uma comparação sem o “como”. O que a partir daqui se pode fazer é que vai complicando a identificação de vários recursos expressivos que se podem distinguir com base nesta relação simples ou que simplificamos. Uma metáfora é uma imagem e nós sabemos como ela é tão importante.
Mas o que é verdadeiramente interessante para aqui, em meu entender, é o facto de a metáfora ser sempre uma representação simbólica de alguma coisa. E como tal, ela representa, nas dinâmicas próprias de todas as culturas, formas de regular atitudes e comportamentos próprios de grupos, dos mais locais aos mais globais. Muitas vezes, em diferentes línguas mas em contextos e referências semelhantes, utilizam-se expressões metafóricas muito diferentes, que até se tornaram expressões idiomáticas, completamente intraduzíveis, pelo menos à letra. De tão banalizada a sua utilização este e outro tipo de metáforas podem até considerar-se metáforas mortas, uma vez que a intenção do uso como recurso estilístico já lá não está. Mas normalmente contam histórias muito interessantes, também.
Ao longo desta série de crónicas que nos levarão até às próximas eleições autárquicas, a propósito de temas desta e de outras actualidades, não haverá com certeza falta de metáforas, mais ou menos óbvias, que se aplicarão a várias circunstâncias. Como estamos, por exemplo, a assistir a esta da “geringonça”. O tempo, sempre o tempo acima do que nós fazemos, se encarregará de dizer se a metáfora, inicialmente tão negativa, não se transformará, quem sabe, em sinónimo de “coisa que funciona bem”. Ou se palavras que nada têm de metafórico, como informação por exemplo, não estão cá no lugar de propaganda e não deva ser lida como nos estando a “atirar-nos areia para os olhos”. E isto para arranharmos desde já uma metáfora, ainda que com uma imagem sensorial um tanto dolorosa que, de certa forma, nos alerta para uma atitude defensiva.
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na radio diana)

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