quinta-feira, 23 de junho de 2016

Três tiros, sete facadas, dois lobos e um referendo

Esta crónica vai para o ar a dois dias da consulta à Grã-Bretanha sobre a permanência na União Europeia, e depois de 53 americanos e uma deputada inglesa terem sido assassinados por quem se convencionou chamar “lobos solitários”.
Matar parece ser mais fácil do que morrer. Não é de agora, é de sempre. Só parece mais fácil morrer se for para se matar, num ajuste de contas macabro. E sob a égide de ideologias, logo praticado por quem pensa, ainda que mal, sobre o que é o sentido da vida em sociedade. Nada, pois, mais impróprio do que chamar lobo a gente como esta. Compreensível apenas na perpetuação do conto do Capuchinho Vermelho, quer nas versões que acentuam a sua voracidade resultante da fome, quer na branqueada e misógina versão que o faz ser quase-vítima da sedução feminina, o que era bom que fosse assunto revisto para não permitir certos disparates quando se ouve por aí sobre violência doméstica e crimes sexuais. Confesso-vos que, depois de tantas leituras, já tenho para mim que este conto serve apenas e só para ensinar às crianças a obediência perante quem se encarrega da sua educação. Mas enfim, sendo a literatura e a ficção o lugar próprio das muitas possibilidades de leitura, só há que discuti-las não as fechando.
Os que chamaram lobos, mas são só mesmo é assassinos, representam como nesses lugares de ficção o medo que vence. Eles representam o poder descontrolado do indivíduo sobre o colectivo. Eles representam a culpa que não se apura mas que se procura sempre para explicar o que não se entende, seja uma diferente orientação sexual ou uma militância política. Eles representam o pior da Humanidade, a sua parte doente que tantas vezes se alastrou a colectivos em regimes totalitaristas. Eles são a ameaça em estado puro porque se parecem e se misturam com os restantes mortais e fazem-nos desconfiar uns dos outros. Eles representam a maçã podre de um lado e rosadinha do outro, como a de outra história. Os lobos não se matam uns aos outros, matam para comer. E se sim, simbolicamente, o lobo tem sentidos antagónicos, porque representa o mal, a crueldade, a luxúria e a ambição, é no que ele simboliza do bem, com a astúcia, a inteligência, a sociabilidade e a compaixão que percebemos que lhe queira vestir a pele, para se disfarçar de bicho, o homem que se transforma num assassino.
Destes crimes recentes, que chocam tanto mais porque se deram em cenários que não são de conflitos mas lugares onde qualquer um de nós poderia ser apanhado, podemos dizer que são terrorismo. Os crimes terroristas misturam dois lugares-comuns únicos à espécie humana de qualquer cultura ou latitude – o Amor e o Medo – manipulados por quem queira espalhar ideologias de forma programática e sistemática, sejam religiosas, políticas ou financeiras.
Voltando ao contexto político de hoje, tratando-se a União Europeia de uma forma de organização que lida precisamente com as diferenças nestas áreas, e com a decorrente dificuldade de as compatibilizar em nome de uma união, já só a hipótese de pôr em causa, dividindo um dos seus membros interinamente, muito diz da pouca saúde dessa relação. Como afirmava o Vergílio Ferreira sobre estas dúvidas no indivíduo: «Perguntar se se é feliz é começar a ser infeliz, como perguntar se Deus existe é começar a ser ateu.».
Ora, na organização das sociedades, a democracia permite-nos discordar entre nós e resolver conflitos e discordâncias, com instrumentos equivalentes e equidistantes, encontrando soluções não bélicas. Estes actos criminosos em nome de causas sociais e políticas são os eternos resquícios de uma Humanidade que prioriza a resolução do conflito com a guerra armada e não segundo as leis do civismo. E isso já não se usa, embora ainda os usem. E também o fazem porque não suportam perceber que, depois de partirem, a vida continua. Como continuará a Europa, com ou sem Grã-Bretanha, com ou sem União. Pode é ser pior, pois pode. O Tempo, e o que as mulheres e os homens fizerem com ele, se encarregará de o demonstrar.
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na rádiodiana)

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