quinta-feira, 16 de junho de 2016

Esta é uma crónica pessoal e em defesa de um serviço público

Esta poderia ser uma crónica baseada em números, estatísticas, demonstrações de eficácia e eficiência. Poderia também ser um exercício político em defesa do Serviço Nacional de Saúde, público, de acesso universal e gratuito.
Poderia ser tudo isso se não fosse pessoal, esperando ainda assim que possa ser tudo isso.
Parece que está em discussão pública uma proposta para a nova rede nacional de referenciação materna e da criança que, a ser aprovada tal como se encontra, implicaria o encerramento da unidade de neonatologia do Hospital de Évora.
Tenho quatro filhos (cinco se alargar o conceito de filiação para lá da biologia), três nasceram em Évora e os dois mais novos começaram a sua luta pela sobrevivência na unidade de neonatologia do Hospital de Évora.
Para quem está num qualquer gabinete a fazer contas de número de nascimentos e quilómetros de distância em boas estradas, para concluir da racionalidade do encerramento da neonatologia, não faz seguramente a mais pálida ideia do serviço que é prestado.
Olha e vê, incubadoras, tecnologia, medicamentos, instrumentos médicos, camas e chama-lhe recursos. Aos profissionais que todos os dias dão o seu melhor para fazer sobreviver crianças a lutarem contra probabilidades estatísticas, chama-lhe recursos humanos.
Aos pais e mães divididos entre a ansiedade, a esperança e o desespero chama-lhes utentes ou clientes conforme a sua orientação ideológica está mais para cá ou para lá.
Apesar de ver e contabilizar isto tudo, não vê nada do que é importante, porque nunca sentiu uma mão sobre o ombro que, sem palavras, lhe diz “está tudo bem”. Nunca ouviu um pediatra de sorriso bonacheirão, perante o ar preocupado e cansado de um pai, afirmar “oh homem já cá está outra vez? Temos que fazer um workshop para apender a fazer filhos que não sejam apressados”.
Não faz ideia do conforto que é saber que o nosso filho ou filha está entregue a cuidados de excelência, próxima dos meios onde vivemos que lhes permite, para além dos cuidados de saúde dos nossos “pacotes de açúcar”, uma eficaz gestão emocional da relação com os pais e mães.
Colocar em discussão pública o encerramento de um serviço como a neonatologia ou a cirurgia pediátrica, em Évora, é como colocar em discussão pública se um prematuro deve ter menos possibilidades de sobreviver na região Alentejo, em comparação com o litoral, apenas porque no litoral nascem mais crianças.
Seguramente que esta ameaça não irá ser cumprida porque, ainda acredito, que à racionalidade fria dos números, se sobreporá o bom senso e a capacidade de perceber o que apenas pode vislumbrar quem nunca teve o privilégio de se saber protegido em serviços como a neonatologia ou a cirurgia pediátrica do Hospital de Évora.
Dir-me-ão, mas nos hospitais centrais também. Acredito que sim, se tivermos tempo de lá chegar.
Esta é uma crónica pessoal porque convivi de perto com os serviços que agora se pretendem transferir, Mas, mesmo que assim não fosse, estaria aqui a defender a existência destas valências que prestam um serviço essencial à região Alentejo. O que não seria capaz, era de sentir o que sinto enquanto digo estas palavras e isso faz toda a diferença.
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na rádiodiana)

9 comentários:

  1. Já que és a favor do interesse público vê lá se mandas cortar as ervas da estrada para o Bairro de Santa Luzia. A estrada é um perigo em alguns pontos não dá para 2 carros se cruzarem tal é a savana que se instalou no que era a estrada.

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  2. Para esta gentinha que diz que nunca tem dinheiro para nada a vida é um passeio. O vereador viajante e o seu secretário partidário lá foram outra vez de viagem. Desde vez para as terras do frio, Estocolmo. Deve ser cá um sacríficio em nome do povo e da cultura. Diga-se que os milhares de euros desta passeata justificam-se uma vez que foram tratar de um altíssimo e relevante assunto para cidade: a rede europeia de teatros históricos. Valha-nos o santíssimo Karl Marx e mais o iluminado Lenine. Se isto não é sofrer, o que é sofrer?

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  3. Para quando a próxima passeata? Ai aguentam, aguentam!!

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  4. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

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    1. Nota: o administrador controleiro do lápis azul da tribo, óbvio!

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    2. Olhe que não. O comentário foi publicado, mas referia, em tom insultuoso, no plano pessoal, o nome de duas pessoas conhecidas na actividade política de Évora. Se o comentário estivesse assinado, teria todo o nosso apreço e consideração - e manteríamos a sua publicação. Assim, decidimos retirá-lo, até por que como se refere no topo direito do blogue: "O acincotons reserva-se ainda o direito de eliminar qualquer comentário anónimo ou não identificado, que contenha ataques deliberadamente pessoais, que em nada contribuam para o debate de ideias ou para a denúncia de situações menos claras do ponto de vista ético."
      Por isso, caro Machede - quem não ousa dar a cara pelos comentários que escreve poderá acusar os outros de utilizarem o tal lápis azul?
      Abs.

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    3. Da redacção do último parágrafo infere-se que quem não dá a cara e eu somos um só, certo? Acontece que eu sempre dei e darei a cara!

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    4. DE maneira alguma. O comentário em causa, que foi removido, é que era anónimo. E por isso foi removido. O último comentário não se refere a ti - era o que faltava! - mas sim ao autor do comentário que se deve estar também a interrogar (?) sobre as razões de termos removido o seu comentário.

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  5. Tá-se bem a comer do Público!
    Tá-se, tá-se.

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