terça-feira, 12 de abril de 2016

O Panama Papers e a Mulher de César

Impossível não falar do caso mundial que vai servir para, daqui a muito tempo, se explicar como era o mundo no tempo em que havia um deus-dinheiro de pelo menos duas caras, como numa moeda, o bom e o mau, e que o fazia girar.
Como era quando quem mandava no nosso dinheiro, aquele que dávamos para um bem-comum que servia a priori para todos, eram os políticos que elegíamos, na melhor das hipóteses; como eram os interesses privados que ditavam o valor desse dinheiro, num mercado dependente de várias energias para o nosso próprio conforto e de armas para que os que mandavam no nosso dinheiro pudessem ser ainda mais poderosos; mas também como havia os que não tinham poder nenhum sobre os nossos destinos, mas até os usavam, e viviam era mesmo empenhados em tratar dos seus; e, finalmente, como era com quem não aproveitasse para fazer, à escala do mundo em que vivia, o seu negociozinho tantas vezes disfarçado de se tratar do melhor negócio para todos os outros. (Chama-se a isso burla, parece-me.)
Digo-vos que não tenho pena nenhuma de não estar cá para ver. Mas tenho uma espécie de vergonha alheia futura. Isto não é herança que se apresente a ninguém, mesmo não sendo, ó crédulos, nenhuma novidade. É porque parece mesmo que voltámos atrás no caminho do jovem sistema democrático, que vigora apenas ainda numa parte considerável do Mundo mas não em todo, em que a luta de classes que acompanhou a evolução civilizacional trazida, com boas intenções e resultados, pela evolução técnica, se transformou numa festança de copos entre todas as classes que, inebriadas por tanta coisinha boa, gozam à tripa-forra. Ou é como se todos se armassem em peritos e desatassem a abrir e a desfazer a máquina de que mais dependem para viver melhor em sociedade e a quisessem remontar à sua exacta medida, borrifando-se na medida de outros a que também serve.
«Toda a explicação pressupõe o conhecimento do inexplicável, ou seja, do que seria mais interessante explicar» diz o Vergílio Ferreira, e é também por isso que as explicações já não me servem de nada. Sento-me em frente às notícias, como no cabeleireiro com as revistas, a saber o Who’s Who desta história toda e a fazer os julgamentos morais que outros já fazem do escândalo do jetset, a partir de outros valores como os da família, do pudor, da intimidade. Já não me interessa como é o esquema, já só me interessam as pessoas e, por isso, começo a perceber que estou no limite de continuar a acreditar tanto como tenho acreditado neste Homem (com maiúscula) feito à imagem e semelhança de um ou mais Deus(es).
E perceber que os comportamentos de quem devia ter em conta a sua exposição pública e ser sério, para generalizar aquela expressão, até um pouco machista, de comparar quem o devia ser à mulher de César, replicam a de quem vive na lama e faz de tudo, literalmente, para sobreviver, ou seja por necessidade, deixa-me assim. É como a má moeda que dá cabo da boa moeda. Ou a necessidade que aguça o engenho e, pelos vistos, a “chicoespertice”, para não dizer pior.
Já agora, como as explicações também já não me interessam, sabem a mais do mesmo e sabem mal, aproveito para partilhar convosco esta história da mulher de César, que tem um nome, Pompeia, e não devemos confundi-la com as outras duas que também foram mulheres de César. Numa história em que, está bom de ver, o importante era o todo-poderoso não passar por marido-enganado, uma história que ficou para a História mesmo não sendo seguro de ter mesmo acontecido, conta-se que Pompeia vivia muito sozinha, enquanto o poderoso marido passava meses fora e que nesse cenário perfeito surge um nobre admirador de Pompeia que, numa noite, para conseguir aproximar-se dela, entrou no palácio disfarçado mas acabou por se perder pelos corredores e ser descoberto e preso. Levado a tribunal, e sendo o próprio César convocado para prestar esclarecimentos, este declarou ignorar o que se dizia sobre a sua mulher e julgou-a inocente. O penetra foi absolvido (pois a ocasião é que faz o ladrão, não é verdade?) mas Pompeia não se livrou da fama e, dizem, do repúdio do marido. Para quem o acusava de ser contraditório, ao defender a mulher no tribunal e a condená-la em casa, ele teria usado a dita expressão de que não bastava que a mulher de César fosse séria, era preciso que parecesse séria. Enfim, as aparências contam há já muito tempo e com elas a arte de as forjar. Não precisamos de mais explicações.
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na rádio diana)

12 comentários:

  1. O quê? Não há Virgílio esta semana?!? Que desilusão...
    Enfim, se não há na crónica, deixo eu uma frase desse senhor:
    "Afirma com energia o disparate que quiseres, e acabarás por encontrar quem acredite em ti."

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  2. "Habitantes de Évora vão ter comboios a passar junto á cabeceira da cama"

    Titulo do Jornal Publico.

    O troço Sines-Espanha ficou delineado no governo de Sócrates,Passos esteve de acordo,a gestão socialista da cãmara de Évora aceitou o traçado,na altura alguns Cidadãos criticaram o traçado na zona que atravessa a Cidade.

    A extinta Assembleia de Freguesia da Senhora da Saúde numa das suas reuniões, a oposição (CDU)criticou o traçado (ver ata).
    Fico supreendido com a posição atual de alguns dirigentes políticos,durante anos em que o partido deles era governo e maioria na cãmara estiveram calados,só por pura hipocrisia ou campanha eleitoral( autárquicas 2017).

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  3. Atenção da CME

    alguns troços da cidade necessitam Urgentemente de ser repavimentados.

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    1. A CME deve saber muito bem que "alguns troços da cidade necessitam Urgentemente de ser repavimentados".

      Tu é que parece não saberes que o estado em que a que chegou a câmara em 2013, com uma dívida de 90 milhões para pagar e um parque de máquinas velho e pronto para se enviado para a sucata (ao que parece as máquinas que lá andam ainda são do tempo do Abílio, porque do tempo do Ernesto nem uma máquinazita foi comprada ou substituída...).
      A não ser que penses que a repavimentação será feita por obra e graça do espírito santo...

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    2. Porra, daqui a pouco estão na Câmara há um mandato e quase a serem corridos e ainda andam com a pesada herança. Com as artimanhas financeiras que andam a fazer para passar todo o ónus da dívida para a futura gestão PS ainda se queixam que não têm dinheiro? Propaganda, propaganda, só propaganda.

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    3. A Estrada dos Canaviais está com buracos. É só tapar.

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    4. 90 milhões de dívida, parque de máquinas arruinado e próximo da sucata, são factos comprováveis por qualquer um.
      A verdade dói, mas é a verdade.

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  4. A prova do traçado estar já defenido foi a construção de uma passagem para peões junto as instalações da Somefe.

    Senhores Policarpos,Patinhos e outros não atirem poeira para os olhos dos Eborenses.

    Querem ser candidatos a cãmara tudo bem,não sejam é Demagogos.

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    1. Nas próximas eleições autárquicas em Évora o Patinho ganha e o Policarpo fica em 2º.

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  5. Viva a Florinda ,candidata do Povo.

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  6. Quem também devia responder em tribunal é a Florinda Russo pelas trafulhices que cometeu na junta de s.Manços. Tudo boa gente estes fulanos xuxialistas . Por onde passam deixam rasto de incompetência e de aproveitamento dos cargos para negociatas , neste caso diz-se por aí que o marido da ainda presidente de junta é um dos beneficiados com as negociatas. Para bem de nós todos a mulher devia ir a tribunal esclarecer tudo

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    1. @15:09
      Tempo para tudo. Tudo neste mundo tem seu tempo, cada coisa tem sua ocasião. Há um tempo de investigar e um tempo de condenar. Resta, esperar! A auditoria externa elaborada ao mandato de Florinda Russo, entre 2013 a 2015, foi denunciada pelo departamento juridico da CME, à Inspecão Geral de Finanças, ao Departamento de Investigação e Ação Penal de Évora (DIAP) e à Direção Geral das Autarquias Locais (DGAL). Apesar dos esforços da presidente em intimidar, obstruir e influenciar alguns responsáveis pelo documento, não conseguiu evitar a denúncia... VIVA, O POVO DA VENDINHA!

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