sexta-feira, 1 de abril de 2016

As palavras e o terror

Perante os actos terroristas que vitimaram dezenas de pessoas na Bélgica, no Iraque e no Paquistão, muito se escreveu e disse nas últimas semanas.
Escreveu e disse de forma desigual, como se o preço de uma vida fosse diferente em função das diversas proximidades com quem escreve. Como se a morte de um iraquiano, de um paquistanês ou de um sírio fosse mais suportável do que a de um europeu, ou um ataque terrorista fora desta nossa caixa fosse algo cuja normalidade nos resignássemos a aceitar.
As intervenções na comunicação social andaram entre a miserável exploração do sentimento de medo e a as explicações e justificações mais básicas para o sucedido, colocando o acento tónico no presente e na condenação, sem explicação, da mortandade absurda de gente cujo único “crime” foi estar à hora errada no sítio errado.
Sempre que alguém lembrava as origens e os financiadores, ou recordava a hipocrisia dos que choram hoje os mortos quando ontem criaram, armaram e financiaram os grupos que aparentemente deixaram de conseguir controlar, logo surgiam vozes que, de forma manipuladora, entendiam aquelas análises como justificativas destes actos de terror.
O facto de nada justificar os cobardes ataques terroristas em qualquer parte do mundo, não pode significar que se deixe de destapar o véu sobre as suas origens, os seus chorosos cúmplices e mesmo aqueles que ingenuamente acreditaram em fantasias, como a existência de armas de destruição em massa no Iraque, na bondade da destruição da Líbia, ou em heróis da resistência na Síria.
Preocupam-se agora os nossos “especialistas” em terrorismo em encontrar formas de cooperação policial, em descobrir e sugerir novas formas de controlo de fronteiras ou, os mais atrevidos e xenófobos, em transformar qualquer homem ou mulher, de aspecto vagamente árabe, em potencial suspeito, mas se lhes sugerirmos que o caminho passa pelo fim do financiamento directo ou indirecto das redes que tanto jeito dão aos exportadores de “democracia”, para zonas onde as matérias-primas são mais apetecíveis à voragem do capital, logo assobiam para o lado e fingem não entender.
Apostam tudo no reforço da segurança, no aumento de constrangimentos à circulação de pessoas e bens, parecendo não entender que o hipotecar da liberdade é o primeiro objectivo do terror.
Além disso, por mais segurança que seja instalada, haverá sempre forma de a furar e tornar inútil, como ficou demonstrado pelo desvio de um avião para Chipre, por um homem desarmado que afinal apenas pretendia juntar-se à ex-mulher.
É preciso ir ao fundo da questão. É preciso revisitar o financiamento da guerra civil no Afeganistão, revisitar a fotografia daqueles quatro mentirosos nas Lages, a invasão do Iraque e da Líbia, o treino e financiamento da “resistência síria” e outras tantas aleivosias em nome de algo que já nem nos lembramos.
Derrotar o terrorismo não passa por lamentar mortos ou pôr bandeirinhas nas redes sociais. Isso apenas serve para aplacar a nossa indignação.
Para derrotar o terrorismo é preciso pôr fim à hipocrisia que chora os mortos enquanto vende as armas que os executam.
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na rádio diana)

4 comentários:

  1. Nos outros tempos os membros do PCP depois de julgamento vergonhosos iam para as cadeias do regime fascista. Participei em acções da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos na altura.
    mais de 40 anos depois, o PCP junta-se ao CDS e ao PSD na rejeição de uma Moção de apoio aos presos politicos angolanos. A acusação é a mesma que o regime fascista fazia: SUBVERSÃO DA ORDEM ESTABELECIDA E ASSOCIAÇÃO DE MALFEITORES!
    SINTO UMA REPUGNÂNCIA INAUDITA PELA ATITUDE DO PCP!
    SERÁ QUE NÃO HÁ UM POUCO DE VERGONHA?

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  2. E eu sinto uma repugnância inaudito por este senhor

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  3. Este senhor também sente uma repugnância inaudita por criptofascistas

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  4. Eduardo Luciano:

    Conversa da treta----------20.

    Melhoria da cidade----------0.

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