terça-feira, 19 de abril de 2016

A outra face

Agora que estão apaziguados os ânimos daquelas figuras mais ou menos públicas a quem deu para prometer uns tabefes virtuais ou fazer queixinhas do chefe, online e urbi et orbi, parece-me que voltar ao tema da comunicação social em modo democrático é uma matéria que se impõe a quem se ocupa de dinâmicas sociais e educa, a vários níveis, para a cidadania.
O Facebook®, para além de um imenso negócio proporcionado por milhões e que enriquece poucos, é uma aparentemente simpática rede social que permite, na era das tecnologias ao serviço de (quase) todos, manterem-se as pessoas em contacto e comunicarem. Passámos muito depressa de uma sociedade em que se dizia que os valores individualistas também se deviam à falta de comunicação entre as pessoas, para uma sociedade em que a toda a hora podemos estar a comunicar os pormenores mais íntimos com todos, ou com aqueles com quem escolhemos criar uma rede. Não tenho dúvidas que, por exemplo, muitos de nós que a utilizamos já por lá reencontrámos amigos de infância, de juventude ou de trabalho que a vida se encarregou de afastar, e que temos podido acompanhá-los com som e imagem ou desabafos, nos momentos que queiramos partilhar uns com os outros.
O que se passa, então, é que para nessas comunidades que criamos acabarmos por ter as companhias que merecemos isso dá-nos o trabalho de termos de filtrar, sem estratégias de censura de má memória, aqueles com quem não nos apetece conviver, nem virtualmente. Isto não quer dizer que não haja quem use precisamente esses métodos, em versão caseira da espionagem, e crie os chamados perfis falsos para, simulando dar a cara, “sacar” informações sem o fazer. E “sacar” informações já é quase só uma brincadeira de meninos, porque há quem o faça para achincalhar, difamar, enfim perturbar e influenciar os ainda crédulos ou, pronto, mais preguiçosinhos (e sim, penso nos jornalistas que se dão a pouco trabalho de investigação e se limitam a ser megafones daquilo que têm disponível numa rede social, apesar de poucochinho e obviamente longe da imparcialidade da informação que uma boa notícia tem). E os mais crédulos, o chamado público em geral, tendem tantas vezes a julgar que “onde há fumo há fogo”, e muitos utilizam os sinais de fumo para levar a sua avante ou trazer a água ao seu moinho. Uma prática muito pop, para usar uma simpática abreviatura aplicada a comportamentos de grandes colectivos ou massas.
As atitudes, mais chocantes para uns do que para outros, que se têm em perfis ditos públicos, ou seja abertos a todos, são por definição alargados para fora do nosso círculo de amigos e todos os cuidados, quer connosco quer com os outros, devem ser por isso muito levados em conta. E como em tudo, há que conhecer e reconhecer as circunstâncias em que as grandes declarações escancaradas ou os innuendos mais matreiros são expostos nestas novas plataformas de comunicação por indivíduos às massas. E os indivíduos que as produzem, sem os media a tratar do assunto para o bem e para o mal, devem saber, e muitos até sabem, reconhecer-se como principal alvo de avaliação dos outros, para além da vontade que têm que os que os leiam avaliem aqueles de quem dizem coisas.
É também por isso que quando conhecemos as pessoas, porque fazemos efectivamente parte da sua rede social ou porque já lhes conseguimos tirar a pinta, muito do que vamos lendo não nos ofende, choca ou espanta. A alguns até podemos elogiar como coerentes, com ou sem ironia. Nada, no entanto, colide com o facto de que, quando se assumem diferentes cargos e ser nesses cargos que somos avaliados por outros em público, ser também assim que, em público, devemos perceber que representamos muito mais do que aquilo que somos, tornando-nos um exemplo alargado, ou seja uma parte que qualifica um todo. O nosso autor dá um conselho, não aos que sabem exactamente o que estão a fazer e querem continuar, mas aos que pensam que se pode dizer tudo, ou talvez nem pensem que aquilo que dizem é o que acaba por defini-los. Diz o Vergilio Ferreira: «Uma forma de o medíocre convencido imitar a grandeza é não dizer mal de ninguém.» O espaço público, digo eu, seria muito mais seguro e sério, mas também muito menos divertido. Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na rádio diana)

5 comentários:

  1. Ora cá temos o nosso Vergilio de volta... E ainda por cima, com uma tirada bastante pertinente sobre o Facebook! Muito bem! Dos textos mais pertinentes e importantes que já li aqui. Com tanta coisa sem importância que vai acontecendo na nossa cidade, ao menos o Facebook é algo com que podemos contar todos os dias. Nem que seja só para ir tirar umas fotocópias, ou para limpar o pó da sala...

    ResponderEliminar
  2. No PS e BE há uma "nata" de gente, que se diz de esquerda, mas que a par e passo demonstram preocupações de gente de direita, preocupações de quem não tem que lutar pela vida, preocupações de quem não sabe sequer o que é a vida.
    Volta e meia, no meio da maior tempestade nacional, lá vêm eles invocar os direitos das minorias, a liberdade e a igualdade de tudo, a solidariedade com as vítimas das catástrofes que eles próprios alimentaram.

    Agora querem mudar Cartão de Cidadão, para Cartão de Cidadania, em nome da igualdade de género. Em que mundo é que vive esta gente? Quem é que lhes dá acesso ao poder?

    Os meios de comunicação têm os braços abertos para estes palhaços. Enchem páginas de jornais e tempos de antena com os seus disparates.
    Uma canalha de comentadores e croniqueiros, ao serviço da extrema direita. Uma cortina de fumo que esconde a delapidação do país.

    ResponderEliminar
  3. Confesso que não percebi o alcance do que aqui foi escrito mas pensei logo no vereador viajante, o tal que dá pelo nome de Luciano, que passa a vida a queixar-se no facebook sobre a falta de tempo ou sobre o modo como é maltratado por quase todos com quem convive, presumo que deva ser por não corresponder às expetativas que criou enquanto esteve na oposição, prometendo-nos mais cultura, mais diálogo, mais participação, mais «fazer acontecer«, como os comunistas gostam de dizer. Hoje vemo-nos como há 6 ou 7 anos , ou pior porque perdemos a esperança. A vereadora que hoje aqui escreve era então a vereadora da cultura e deve lembrar-se bem da oposição que o agora especialista em viagens e em aparecer no facebook lhe fez. É pena que passado este tempo o atual vereador da cultura se preocupe mais em aparecer em carradas de fotografias, captadas por um amestrado gabinete de comunicação, do que em reuniões que facilitem o «fazer acontecer« e onde a imagem é muito menos importante do que o trabalho que urge fazer por esta cidade. Uma desilusão para os agentes das área da cultura e não só, estou certo

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ou não percebeu patavina, ou faz-se despercebido, para poder caluniar e ofender quem, pelo contrário, e com toda a clareza, denuncia os crimes da extrema direita.

      Eliminar
  4. A cena das bofetadas tem, a meu ver, muito mérito, num ambiente político em que a desfaçatez só é ultrapassada pela ambiçãozinha dos percevejos de corredores. Eis um político desbocado, que prometeu há já bastantes anos (acho que foi em 1999) um par de tabefes a dois figurões que desopinam sobre tudo e todos, um, corroído por maus hábitos de higiene alimentar, o outro sem diagnóstico preciso, um aleivoso normal. Não sei (sabemos?) se eles mereciam pêros, bolachas ou bofetadas, ou simplesmente nada, o que é certo é que temos um político ao que parece experiente, nomeado para um cargo de ministro - deixo aos milhentos e diversíssimos critérios de todos o saber se era (já não é)ou não a pessoa indicada para o cargo. Mas é raro que um político da nossa praça envie para a estratosfera das redes uma promessa de bofetadas a dois figurões deste calibre mediático, o mesmo é dizer, duas abentesmas de cuja honra ninguém se preocupa nem aliás eles próprios. Era claro que a coisa ia explodir. Não sei se o ex-ministro, que é da era do papel e dos livros e não das redes virtuais, entendeu o sentido da palavra aborígene "bumerangue": uma coisa que faz "Bum!" e acerta na cara de quem a atira. O que é certo é que ele devia saber que, um, um ministro não pode falar assim, e dois, que os vitimados estariam interessados em gozar plenamente das suas dores. Mas apesar de não ignorar estas coisas elementares, confirmou a promessa das ditas lamparinas, e declarou-se impaciente por aplicar o sinapismo aos dois. Não se sabe se a um de cada vez, ou aos dois, por grosso. Ora, digam-me lá se conhecem muitos políticos da nossa barra dos parlamentos, ministérios, gabinetes, gestores de sociedades mistas e imiscuídas, que estariam prontos a renunciar ao chofer, à carripana a cem mil euros, ao salário, às custas de múltiplas e desvairadas idas e viravoltas, copos, almoços, jantares e sabe-se lá ainda a que tipo de prestações de serviços(*ver nota)? Falar português tornou-se "ramalhiano" ou seja próprio dos bandarilheiros, ou "queirosiano", como alguns o qualificaram, enaltecendo o literato ou o treinador. Prometer porrada a uns gambusinos mal barbeados tornou-se crime. No fundo, era de políticos assim que precisávamos: que mais do que o tacho, valorizam a vontade de mandar certos malandros a partes incertas, mas contundentes. Todos à chapada, já. É de salvação da classe política que se trata. Portugal, segundo a fórmula famigerada, merece.
    *Nota. Não foi este ex-ministro que disse que "Portugal não se safa porque são todos tão incompetentes que até as putas se vêm?" Não, nada inventado, nem mesmo o vernáculo. O homem tinha visão, sim senhor. JRdS

    ResponderEliminar

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.