quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Nos 100 anos do nascimento de Vergílio Ferreira


Se eu soubesse a palavra

Se eu soubesse a palavra,
a que subjaz aos milhões das que já disse,
a que às vezes se me anuncia num súbito silêncio interior,
a que se inscreve entre as estrelas contempladas pela noite,
a que estremece no fundo de uma angústia sem razão,
a que sinto na presença oblíqua de alguém que não está,
a que assoma ao olhar de uma criança que pela primeira vez interrogou,
a que inaudível se entreouve numa praia deserta no começo do Outono,
a que está antes de uma grande Lua nascer,
a que está atrás de uma porta entreaberta onde não há ninguém,
a que está no olhar de um cão que nos fita a compreender,
a que está numa erva de um caminho onde ninguém passa,
a que está num astro morto onde ninguém foi,
a que está numa pedra quando a olho a sós,
a que está numa cisterna quando me debruço à sua borda,
a que está numa manhã quando ainda nem as aves acordaram,
a que está entre as palavras e não foi nunca uma palavra,
a que está no último olhar de um moribundo, e a vida e o que nela foi fica a uma distância infinita,
a que está no olhar de um cego quando nos fita e resvala por nós,

– se eu soubesse a palavra,
a única, a última,
e pudesse depois ficar em silêncio para sempre…

Vergílio Ferreira

in Uma Esplanada sobre o mar (Difel, 1986)

3 comentários:

  1. Morreram mais Americanos em tiroteios que em guerras.


    De 1968/2014 terão morrido mais de 1,5 milhões de americanos em tiroteios,suicidios e mortos pela policia.

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  2. Mas o que é que o BE tem a ver com o Virgílio Ferreira?
    Nicles batatóides. Zero!

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    Respostas
    1. Teria a ver se o Virgilio fosse comunista e esganiçado. Não era uma coisa nem outra.

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