quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O Riso

Muito se riu na Assembleia da República no final da semana passada. Eu que mais uma vez fui de encarregada de educação levar uns jovens à Comic Con Portugal, na Exponor, quase achei que os astros se tinham conjugado com os diferentes calendários levando a que vários grupos societais, como agora se diz, ficassem “apanhados do clima”, que é como se diz há muito tempo. Falo do calendário do firmamento, do da cultura Pop e do do Parlamento.
Até me podia parecer saudável esta nova dimensão de tratar a Política e que não é exclusiva dos Políticos eleitos pelos Cidadãos. Ou então estaria a entrar em contradição comigo mesma, já que faço um esforço para matizar com “proto-larachas” esta e outras crónicas que fiz e farei. A moda de pôr o Povo bem disposto a propósito de coisas muito sérias é velha e teve mestres, do qual Gil Vicente é exemplo maior e conhecido. Mas nos dias corriqueiros de hoje, a função do que se quer hilariante vai desde os comentadores espirituosos da Rádio e da TV que a rir, ou para fazer rir, lá vão dizendo das suas, acertando daqui e dali. O que pode ser útil para manter o cidadão comum desperto mas só muito remotamente contribuir para que, neste campo, exerça melhor o seu direito de eleitor. E vai também até às notícias que recorrem a um estilo estranho e utilizam-no sobretudo nas parangonas mais ou menos discretas, e sim falo nesse aparentemente novo politicamente correto modo de se chamar as coisas por uns nomes, como se “chamar os bois pelos nomes” fosse outra coisa mais do que falar claro e sem subterfúgios. Se não fosse trágico para a profissão dos comunicadores até seria cómico.
Mas ainda mais me convenci do alinhamento astral quando me dei conta das novas metáforas usadas pela galhofeira oposição ao novo governo, recorrendo precisamente à linguagem em siglas próprias e pops das redes sociais em voga. Do BFF ao LOL os deputados estão no bom caminho para entrar no mainstream da linguagem cibernauta e estarem como peixinhos nas águas mais doces e fáceis da cultura pop. É um bradar dos céus (eu sei que é “aos céus” mas como as expressões vêm da nuvem informática, apeteceu-me dizer assim), o que revela bem o nível a que se chegou em matéria de já toda a gente dizer tudo em qualquer lugar, indistintamente. Enfim, o “meu” Vergílio Ferreira tinha, na minha opinião, toda a razão quando dizia a este propósito e destes propósitos: «Rimos francamente, se a piada vem de um tipo do nosso nível. Rimos com deferência, se de um nível superior. E só por condescendência sorrimos, se vem de um tipo de nível inferior. É que o riso é uma concessão e nós somos muito ciosos da nossa importância.»
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na rádio diana)

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