sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Será a Cidade que habito mais lugar de imagens do que de pessoas?


Escrevo porque sinto necessidade de alertar: As cidades, ou o lugar onde os humanos vivem não são suportáveis, nem sustentáveis, apenas como lugares-imagem. Têm de ser espaços de encontros, quer isto dizer, espaços de manifestações múltiplas de humanidade. Sob pena de deixarmos de ser pessoas e nos revelarmos apenas sombras, ou quando há mais luz, reflexos de gente.
Ontem, pelas 3h da tarde foi a enterrar no cemitério dos Remédios em Évora o corpo do jornalista José Frota.
No momento em que os primeiros torrões de terra caíam sobre o seu caixão estavam a testemunhar o ato 40 pessoas. Incluindo os funcionários do cemitério e da funerária.
Não sou assídua de funerais. Interpreto o momento da morte como de recolhimento e discrição. Mas ontem, gritaram demasiado alto as ausências.
José Frota foi professor, explicador, jornalista. Tinha 69 anos vividos em Évora. 69 anos relacionados com muitas instituições, com diferentes poderes, inúmeras pessoas que com ele se relacionaram dos mais diversos modos. Os seus textos, conversas, ações, geraram conflitos, criaram ânimos, passaram mensagens, imagens, ideias. Umas vezes José Frota aproximou-se mais do cerne das coisas, outras ficou distante. Umas vezes foi amado, muitas foi odiado. Mas, inequivocamente, foi um homem intimamente relacionado com o espaço público de Évora e do Alentejo. E no momento da sua partida, apenas alguns (muito poucos) espaços privados se manifestaram.
Será este um sinal de que em Évora o espaço público é apenas uma miragem, ou uma irrealidade em que alguns julgam mover-se?
Se Évora é uma cidade que apenas reconhece imagens, papeis e estatutos sociais, e que repele,ou seja, não identifica como seus, nem valoriza as pessoas que nela vivem (com as suas especificidades, virtudes e defeitos) não será nunca Cidade de pessoas, nem poderá almejar forjar encontros. Resumir-se-à, sim, a um lugar de imagens. Ou seja, um sítio onde logo que a luz se apaga, quando falta energia, tona-se evidente que não existe como espaço de humanidade, no sentido de que está/é ausente o reconhecimento, a valorização, a identificação das pessoas enquanto tal.
José Frota alertou-me no momento da sua partida, por via dos silêncios e das ausências, para a aflitiva fragilidade ou gritante exiguidade do espaço público em Évora.

Dores Correia (aqui)

7 comentários:

  1. Grande texto e homenagem da Dores Correia ao Frota. Mas é, ao mesmo tempo, uma opinião ousada acerca da, e cito, aflitiva fragilidade ou gritante exiguidade do espaço público em Évora.
    Não sei se a Dores Correia é de Évora mas não deve ser ou saberia que Évora nunca teve luz acesa. Se algum dia teve foi há muitos anos atrás, nos tempos áureos do velho dinossauro, ex edil da nossa cidade. Nos tempos áureos!
    Ao escrever estas palavras a também jornalista, mas acima de tudo mulher de coragem e sensibilidade, foi buscar o que o Frota tinha de melhor, ou seja, a capacidade que ele tinha de se aproximar do cerne das coisas. Mas essa capacidade, como outras como ser direto, meticuloso e frontal, têm um preço que se paga caro numa cidade como Évora, pejada de espíritos mesquinhos e amargurados, incapazes de discutir ideias além de nomes.
    Mas foi quase sempre assim. E o poder político, autárquico, teve sempre a maior responsabilidade. Dividir para reinar! É por isso que aprecio a frontalidade da Dores Correia que fazendo parte da estrutura dirigente da Câmara não deixa de apontar, indiretamente, culpas a si própria pela falta de energia e pela extinção do espaço de humanidade na cidade. É claro e visível que está ausente o reconhecimento, a valorização e a identificação das pessoas enquanto tal.
    Frota coordenou uma magnífica publicação municipal - a Revista Mosaico. Quem se lembra da polémica levantada pelos vereadores da CDU numa reunião de Câmara da altura sobre o contrato? Chamaram-lhe "antigo jornalista" e acusaram-no de não ter "qualificação" na área do património.
    O que mudou desde essa altura? Nada!
    Dores Correia, tiro-lhe o chapéu! Até sempre Frota!

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  2. caro anómino das 11.59, esta cidade tem muralhas que limiita o espirito critico e pior ainda é comandada por tribos (partidos) QUEM ESTA FORA OU NÃO EXISTE OU SE OUSA POR EM CAUSA É UM ALVO A ABATER, TRISTE MUITO TRISTE ESTA ALDEIA

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  3. A seguir ó 25 de Abril de 1976 grupos de esquerda moderada e extrema esquerda tomaram conta da cidade através da autarquia ,conseguiram acabar com iniciativa privada e travar o desenvolvimento.
    O efeito a nível social e económico foi brutal,os melhores fugiram,ficaram os piores alimentado o seu clube partido comunista e muitos tiveram direito a ir para a câmara para o pé do padrinho e camarada Abílio o sonho de muitos.
    Hoje a cidade esta morta e seca a nível social e humano imperando grupelhos políticos que vivem da carcaça podre do estado.
    Os turistas perguntam o porque de tanta degradação versus abandono,eu digo os filhos abalaram da casa dos pais por falta de oportunidades!

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  4. Hoje, que olho Evora à distância, fico sempre triste quando percebo o quanto é conservadora, pequena, hipócrita e muitas vezes despojada da tal humanidade. Em Évora vale muito mais parecer do que ser.
    Este texto da Dores merecia ser lido por muitos pseudo-intectuais que por aí estão.

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  5. Não conheci o José Frota. Nem pessoalmente, nem a obra.
    Leio pouco. Culpa minha.

    A imagem que tenho do jornalismo, nacional e de Évora, vem-me pelas televisões e pelos títulos dos jornais na tabacaria.
    Cansei-me de ler jornalismo de lambe botas, de caninos ao serviço do dono.
    Cansei-me dos jornais ao serviço do Capital.

    Agora que o PS está em negociações com o PC e o BE, para finalmente viabilizar um governo de esquerda, que defenda os portugueses da roubalheira da banca, o que nos mostram a televisão e as primeiras páginas dos jornais?
    1
    Que o mercado vai cair e que as taxas de juro vão subir.
    2
    Que o capital vai fugir.
    3
    Que vai ser o fim do mundo.
    4
    Recordam o debate de há 40 anos entre o Soares e o Cunhal.
    5
    Recordam e inventam tudo o que possa opor PS, PC e BE.

    Com jornalismo deste, que querem que a gente leia?
    Que fazem os jornalistas pelo jornalismo?

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  6. Não é nada, estimada amiga Dores, que não me tivesse ocorrido quando, na passada quinta, vi entrar o carro funerário no cemitério de Évora. Juro que estava à espera de encontrar por ali uma multidão, numa última homenagem ao nosso Frota. Mas não. Apenas um punhado de pessoas, boa parte familiares. Então e as instituições? Então e os nossos camaradas de profissão? O Frota, por cultivar as suas próprias ideias e pelo seu estilo muito particular, deve ter aborrecido muita gente aí por Évora. Mas tanto ao ponto de o renegarem à indigência? Sinceramente, fiquei triste pelas ausências. Como estou por fora, deixo a análise a ti e aos da casa. Embora ache que os eborenses deveriam refletir bastante sobre o pensamento que aqui nos deixas. Um beijinho do
    Paulo Barriga

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  7. Exemplo de um texto: "em como se diz tão pouco em tantas palavras"
    É um excelente exemplo do pseudo-intelectualismo que assola esta cidade e dos falsos humanistas com lágrimas de crocodilo! Vão pregar para a Síria!!! Hipocrisia pura...!
    Será que esta senhora presenciou o funeral da sua colega de trabalho, falecida este ano, que essa sim, durante anos se dedicou a sua vida à causa pública e ao enobrecimento desta cidade?
    Todos sabemos separar o trigo do joio! Só que fazemo-lo consoante a nossa própria essência é trigo ou joio!

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