terça-feira, 17 de novembro de 2015

A morte que nos separa

A chacina voltou ao lugar que lhe é estranho: a cidade contemporânea da civilização ocidental. E foi também isso, naturalmente, que consternou talvez mais de meio mundo. Não quero com isto dizer que haja outros lugares onde a chacina não seja condenável.
Ou outros tempos em que, por serem Passado, se tentam (e como tentam) que se perdoe. Quero hoje apenas sublinhar um facto que facilmente comprovo na minha condição de cidadã portuguesa, a viver na Europa, ligada por interesses próprios e profissionais a outras culturas tão ocidentais como a minha. É daqui o meu posto de vigia. É daqui que consigo sentir melhor os que estão em condições semelhantes à minha. Em Paris podia ter sido eu. Em Beirute, nem por isso. E a mão que matou foi a mesma, o que acontece é que não está nos meus planos, de momento, ter Beirute como destino.
Os que nasceram em civilizações que parecem ter no seu ADN um gene beligerante também têm direito a, um dia, um ano, um século destes, a fartar-se. Cansados da guerra que, como cidadãos comuns que ali nasceram, não conseguem interromper porque a guerra se institucionalizou. Porque ainda não houve força suficiente por parte de alguns que arrastam muitos para se mudar o rumo. Talvez porque os métodos são os mesmos e, naturalmente, se declarar guerra à guerra. Talvez. E partem para outros lugares, os mais próximos daquele que considero o meu lugar.
O sentido inverso também acontece. E há os que nasceram no mesmo cenário que eu e que partem para lá. Vão aprender a matar e a morrer em nome de algo que lhes é apresentado como maior do que o que tiveram à nascença. O que falha nisto tudo? O ser humano, bem entendido. E aqueles que tão seres humanos como os outros se disponibilizam e entregam a governar em nome dos outros. Solução difícil e não à-vista.
Se a dor da morte dos que estão mais perto de nós se imagina igual à dor dos outros mais longe o que falta é que o acesso a esse valor da Vida também se globalize. Como no campo do dinheiro e dos negócios, a Coca-Cola ou a Pepsi, a Nike ou a Adidas, a Apple ou a Microsoft. Palpita-me que seja o Amor, a resposta. Mas o Ódio anda-lhe tão próximo…
O Beatle John Lennon pediu-nos para imaginar, cantando a Esperança. O meu Autor, protagonista desta série de crónicas , escreveu-o assim com um pensamento que partilho (e que por vezes, tantas e demais, descamba para o pessimismo cínico):Imaginemos que toda a gente tinha a mesma política, religião, etc. Nem por isso se viveria mais em paz. Porque logo se descobririam diferenças naquilo que a todos unia. E paralelamente surgiriam as discordâncias, invejas e ódios subsequentes. Porque não é a ideologia que no fim de contas divide. A ideologia é apenas um bom pretexto. O que nos divide é a importância da nossa pessoa e o grupo extensivo a que nos recolhemos. O que nos divide é a individualidade que não tem misturas ou só as tem com quem prolongar a pessoa que somos. (Vergilio Ferreira)
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na rádio diana)

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