quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Meritocracia

Enquanto andam pelas casas e pelos corredores da Democracia a decidir quem há-de fazer o quê para governar o País nos próximos quatro anos – que foi para isso que nos chamaram a nós, cidadãos eleitores, às urnas –, vou falar hoje de meritocracia.
Parece-me ser este o mais temível sistema de opção e escolha que, no patamar abaixo da hierarquia que põe no topo a eleição democrática pelo voto, poderia ser considerado, com bondade, o garante para o sucesso da atuação dos eleitos, ou em sistemas mais fechados e menos públicos, dos escolhidos. Devolver-se-ia à escolha, e às eleições, o papel de uma atividade que me é tão cara: a avaliação. (Os meus alunos sabem bem o que para mim significa – em trabalho, em estímulo, em aprendizagem, para mim e para eles – isto da avaliação, mas adiante.)
Digo temível, isto da meritocracia, porque impõe princípios que visam eliminar as falhas, os erros, os experimentalismos, os jeitosos, num caminho para a eliminação dos possíveis telhados de vidro de quem é escolhido, já que se as “saraivadas” podem ocorrer por circunstâncias exteriores, quem com elas leva deve conseguir resistir-lhes. Afinal o jogo do poder, em qualquer nível, mede forças, ainda que forças de campos tão díspares como a real e frágil condição humana, a capacidade de trabalho, os limites de resistência e, último mas não menos importante porque se pode confundir com muitas outras características muito mais relevantes para se ser candidato à escolha pelo mérito, a vontade.
É muito curioso o que se pode ler lá pelo meio, na entrada da mais popular enciclopédia contemporânea, falo da Wikipedia naturalmente, com todas as reservas que só o nomeá-la suscita ao mundo académico, e que diz alguma coisinha a propósito da associação que vos faço de eleições, e respetivas consequências, e da meritocracia. Diz-se, e mesmo desconhecendo o ou a responsável por tal observação tendo a concordar, que numa «democracia representativa, onde o poder está, teoricamente, nas mãos dos representantes eleitos, elementos meritocráticos incluem o uso de consultorias especializadas para ajudar na formulação de políticas, e um serviço civil, meritocrático, para implementá-los.» E tocando no que considero ser o cerne da questão, acrescenta: «O problema perene na defesa da meritocracia é definir, exatamente, o que cada um entende por "mérito". Além disso, um sistema que se diga meritocrático e não o seja na prática será um mero discurso para mascarar privilégios e justificar indicações a cargos públicos.» Eu sei que é a Wikipedia! Mas precisamente porque é a Wikipedia e dá a volta ao mundo, retira qualquer interesse particular no nosso caso, o português e caseiro estado do momento presente.
O Vergílio Ferreira, que muito escreveu, quer em ficção quer em ensaio e reflexão, mais sobre os méritos e desméritos dos insondáveis comportamentos do indivíduo ao longo da vida e perante as realidades que a definem, faz no seu diário, entre 1984-85, uma paródia a um adágio popular que estende ao comportamento coletivo, em sociedade portanto, o que considero um retrato de quem, nos quais me incluo, começa a descrer de alguma vez ver acontecer em tempo de poder assistir a implantação da meritocracia como princípio orientador. Escreveu ele que «Num mundo de cegos quem tem um olho é aleijado.» Felizmente, digo eu, que as muito minhas descrenças não me impedem de acreditar nas gerações futuras e ir tentando abrir alguns olhos no tempo que a mim me resta.
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na rádio diana)

2 comentários:

  1. Cara Cláudia Sousa Pereira, permita-me discordar de duas ideias que exprime...
    1. A Wikipédia, que muitos académicos desprezam, é uma iniciativa de primeiríssima ordem, útil, inovadora. Sugiro que consulte alguns artigos que se refiram à sua área de especialidade (tenho-o feito no que me diz respeito): verá que existem óptimas informações, artigos bem documentados e, é verdade, erros. Mas sendo um projecto colaborativo, nada a impede de se inscrever e melhorar o que existe: completar, corrigir, etc. Uma "comunidade" de intelectuais, aberta, na qual as suas altarações serão examinadas, avaliadas e eventualmente, se bem fundamentadas, validadas.
    2. "Meritocracia" não se opõe (eu diria mesmo: de modo nenhum) à democracia. Na verdade, a democracia electiva é um processo de avaliação dos méritos dos candidatos. Quem vota num candidato e não noutro, está a avaliar os méritos comparados de ambos. O que fica implícito na ideia artificial de "meritocracia" quando se opõe a democracia, é que os "méritos" de cada um devem ser avaliados por colégios restritos, eventualmente por círculos de detentores de poderes grandes e pequenos, e não por aquel@s cujo bem-estar e até cujas vidas dependem de quem governa...
    Um abraço.
    JRdS

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  2. Os Socialistas da nossa cidade segue o padrinho Costa para o precipício,onde o partido socialista se encaixa no perfil do partido comunista ou do bloco,só mesmo em cabeças saloias ou na cegueira do poder.
    Jerónimo de Sousa e o comité central nunca irão permitir cortes despesa no estado,com a divida que temos somos obrigados a isso logo ai caie o governo socialista dando uma maioria a direita. Não acordem!

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