sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Viva o José do Telhado! (VII)

José Palminha Silva










VII

           
Preso a 31 de Março de 1859, foi julgado e condenado a cumprir degredo perpétuo. José do Telhado seguiu para a Costa Ocidental de África. Rodeado pela escolta que o conduziu ao navio, o homem que tivera o “dinheiro dos ricos”, antes de embarcar teve de mendigar um vintém para cigarros.

Panorâmica de Luanda nos meados do século XIX

Mais uma vez, a “sociedade” do Poder e do Capital, aproveitou o que sobrou do José do Telhado bandoleiro social e, novamente transformado em José Teixeira da Silva, vivendo radicado em Malange uma liberdade controlada pelas autoridades, veio a ser solicitado pontualmente para “pacificar” revoltas dos negros, naturalmente autorizado a chacinar sempre que necessário, porém desta vez com a “Lei” a seu favor… Entretanto, deixaram-no negociar borracha, cera e marfim, emprestando-lhe a ilusão de que prosperava economicamente…
Sobre esta actividade de “pacificador” e batedor colonial, parece que não menos espectacular que a do bandoleiro social na serra do Marão, o romancista Camilo Castelo Branco, perspicaz, diz-nos nas suas Memórias do Cárcere: «Os jornais têm contado façanhas de José do Telhado contra a negraria. O comércio de África deve-lhe muito, e espera muito daquele braço de ferro, e sede de sangue. Os pretos é que pagam os agravos que os brancos lhe fizeram cá». O escritor dizia bem… De facto, o ódio à “sociedade” do Poder e do Capital, que ainda vivia no peito do José do Telhado, foi habilidosamente canalizado pelos “militares” coloniais e comerciantes abastados, de forma a satisfazer a sua sede de vingança na luta sangrenta contra os povos do interior de Angola. Há “pormenores” nas campanhas de África, na 2ª metade do século XIX, que extravasaram os aspectos militares, para percorrerem os caminhos da chacina selvática praticada por civis, armados pela força militar quando esta não queria sujar as mãos em “demasia”…
Desta actividade inglória de José do Telhado, houve mesmo um escritor de algum sucesso nos jornais do princípio do século XX que tirou uma segunda biografia, pouco fiável é certo, mas com edições sucessivas…


O Diário de Notícias de 16 de Setembro de 1875 dava esta informação: «José do Telhado, o célebre bandido que agora faleceu em Malongo, tinha rasgos de virtude e generosidade no meio do crime…». O ciclo real e o desempenho lendário de José do Telhado encerrou-se.

                                                                                                                   (Fim)

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