quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Viva o José do Telhado! (VI)

Joaquim Palminha Silva












VI


            Como os romanos com Viriato, a técnica de corromper os seguidores do bandoleiro, capazes de trair pelas “moedas de Judas”, foi posta em acção com persistência. José do Telhado sabia que tinha a cabeça a prémio e o papel de «repartidor público», excessivamente perigoso pela frontalidade e desafio ao Poder político e económico, não poderia durar muito…


            Pensou numa retirada estratégica, embarcando de novo para o Brasil. A mesma embarcação que o havia conduzido ao Brasil da primeira vez, o veleiro «Oliveira», encontrava-se ancorada no Porto… Porém, foi traído e seguido o seu percurso pela tropa, que o prendeu no porão do navio, enrodilhado. Conduziram-no à cadeia da Relação do Porto, algemado de pés e mãos, entre trinta baionetas. Cansado, manietado e desarmado, ainda metia medo à bisonha soldadesca do Poder.
            Porém, quis a História, que a realidade social escreve ao acaso, que José do Telhado “devia” continuar a fornecer novos elementos para alimentar a sua personagem mítica, quer o aceitasse ou não. Desta vez, era o “destino” que, emboscado, lhe preparava lances romanescos inesperados. Na prisão fazia o que podia para aliviar os presos mais desesperados: - Gastou os 600 mil réis que tinha consigo a aliviar o sofrimento dos degredados que iam para África.
            O dinheiro, é claro, acabou rápido. A mulher e os filhos arrastavam-se indigentes, sem socorro. Por fim, nem tinha dinheiro para as custas do processo e os honorários do advogado. O Dr. Marcelino de Matos defendeu José do Telhado gratuitamente.
            Mas o “destino” prepara-lhe uma surpresa especial, talhada à sua medida: - O escritor Camilo Castelo Branco que estava então também detido por aquilo que à época era considerado “crime”, isto é, o “adultério”, escutou a história do bandoleiro pelas suas próprias palavras.

Prisão da Relação do Porto.

Como seria de prever, José do Telhado afeiçoou-se ao escritor. Através do seu relacionamento e prestígio entre os presos, veio a saber que um recluso, denominado Cruz, fora contratado para assassinar o romancista na prisão, a soldo do ex-marido ofendido. Com o olhar aceso de ira contra o atrevimento, garantiu ao escritor: «-Se lhe tocarem, não chegam três dias e três noites para enterrar os mortos!». Fosse como fosse, o facto é que ninguém “tocou” no escritor…
Quem sabe se a História da Cultura portuguesa não deve a vida do autor de «Amor de Perdição» ao José do Telhado?
Camilo Castelo Branco fez justiça ao bandoleiro, ao sintetizar a sua vida na obra Memórias do Cárcere, que é livro do mais patético e humano que já se escreveu sobre prisões e “delinquentes” em Portugal. Cada um a seu modo (Camilo e José do Telhado) foi vítima das convenções morais do seu tempo, e de uma “classe” de gente que se alçava na política e nos negócios, a troco de trapaças e corrupções.


                                                                                          (Continua)


2 comentários:

  1. As Imagens que vemos a toda a hora dos migrantes, envergonha-me como ser humano e residente no dito mundo "civilizado" Europa e EUA grandes causadores da desgraça que levaram aos povos do Iraque, Líbia e Síria.
    Começou com o Bush(Durão) a querer impor a democracia á bomba causa o mal 1000 vezes maior do que pretendia remediar. A saga da inépcia politica continua há que fomentar a "primavera" árabe para impor democracia ai houve mãozinha de nobel da paz - versus guerra Barack Obama, Nicolas Sarkozy David Cameron e outras sumidades ajudando com armas e logística e sem terem pensado no que iam ocasionar. E agora lavam as mãos atiram gás Gás lacrimogêneo, muros de arame farpado sobre as pessoas que se não fossem estes titãs estavam em paz nos seus países.
    Estes criminosos que causam milhões de vitimas continuam a pavonear-se deviam ser presos perpetuamente.

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    1. Mas vê lá se os refugiados escolhem paises comunistas ou socialistas popularuchos. Querem logo Alemanhas, Inglaterras, etc. Até choram quando lhes falam em Portugal. Que culpa tem a Europa se na Siria está um ditador oligarca apoiado pelos corruptos Russos, que juntos têm devastado o país. A mim o que me da nojo, é a cegueira da esquerda comuna em Portugal

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