quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Viva o José do Telhado!

Joaquim Palminha Silva






(Durante as próximas semanas iremos publicar diversos textos de Joaquim Palminha Silva  sobre Zé do Telhado, que a história e a lenda consagraram como aquele que "roubava aos ricos para dar aos pobres". Este é o primeiro desses textos que, no final, constituirão um pequeno opúsculo)



 I


«O Zé do Telhado morava, ali perto:
A triste Viúva
A nossa casa ia pedir, era certo,
Em noites de chuva…».

- António Nobre, in .

            Regista a História que a sociedade o viu nascer um “Zé-Ninguém”, aproveitou-o como José Teixeira (durante a guerra civil) e, paulatinamente, empurrou-o para a marginalidade, donde ele se veio a “libertar” como José do Telhado!
            José Teixeira da Silva, nasceu em 1816 na Freguesia de Castelões de Recezinhos, a cerca de 12 km de Penafiel, sede do Concelho. Estou em crer que “Zé-Ninguém” não seria, pois a alcunha que veio a tomar, José do Telhado, atesta que a situação económica dos seus progenitores se diferenciava do comum dos pequenos proprietários e jornaleiros do lugar. Na verdade, a sua casa era coberta com telha, o que a diferenciava das demais cobertas com colmo, demonstrando-se assim uma pequena “soberania” económica que, no dizer dos rurais, deu origem a expressão «a casa do telhado», daí a alcunha José do Telhado.
            Aos 14 anos de idade, José foi morar com um tio em Sobreira, no vizinho Concelho de Lousada, de forma a aprender o então lucrativo ofício de castrador. Até aos 19 anos aí se manteve, acabando por se prender de amores por sua prima, Ana Lentina de Campos. O tio parece que entendeu quanto o sobrinho não era bom partido para a filha. Contrariado no amor, o jovem resolveu «assentar praça» em Lisboa, no Quartel de Cavalaria 2 (Calçada da Ajuda), denominado Lanceiros da Rainha.
Camilo Castelo Branco, que o conheceu e com ele conviveu de perto, diz-nos que José do Telhado era espécie humano filho de uma genealogia de bandoleiros da serra. Seu pai, Joaquim do Telhado, fora salteador de estrada, e um tio de nome Sodiano, praticara mais de um roubo e alguns assassinatos, nas bravas asperezas da Serra do Marão. De acordo com a História (que o mito acrescenta!), José do Telhado era mancebo esbelto, alto, sempre loução no trajar, a jaqueta alamarada de prata, as botas de polimento bem apresilhadas nas pernas musculosas que, com facilidade inaudita, domavam a galgadeira dos cavalos mais bravos. Enfim, dava nas vistas este José do Telhado, pelo garbo e pela valentia de que portador, tudo com um ar tão natural como o ar que se respira.


         Em Julho de 1837 deflagra a Revolta dos Marechais, com o objectivo de restaurar a Carta Constitucional, opondo-se portanto aos partidários da Revolução de Setembro, mais radicais. Os cartistas sofrem vários reveses e retitam as suas forças militares para o norte do País. Porém, desbaratados em Ruivães, procuram o exílio, internando-se em Espanha.
            O regimento de Lanceiros da Rainha tomou partido pelos “marechais”, e José do Telhado teve oportunidade de exibir a sua bravura em combate. Lutando às ordens do general Schwalbach, barão de Setúbal, ordenança deste oficial na difícil retirada que as tropas empreenderam em direcção à Galiza, fizera-se notar no recontro de Chão da Feira, à vista do barão de Setúbal e do marechal Saldanha. Aconteceu que, entretanto, num dos ataques que sofriam os revoltosos em retirada, o general Schwalbach disse-lhe no mais aceso do tiroteio: « - Chovem balas, meu rapaz!», e ele, com galhardia, terá respondido: «- Deixe chover, meu general!… Cá vou abrir o guarda-chuva!», retorquiu José do Telhado, alteando a lança e empinando o cavalo. Lançando-se à carga destemido, sorrido à morte, acabou assustando os atiradores furtivos…
            Seguiu emigrado para Espanha e, à volta, casou com a prima, que lhe levou em dote umas jeiras de terra e umas moedas de ouro. Aconteceu isto após a Convenção de Chaves, a 20 de Setembro de 1837, que pôs oficialmente fim à guerra civil.

José do Telhado (segundo desenho da época)

            Construiu o seu lar em Castelões de Recezinhos, e criou fama de justiceiro, pronto a defender os fracos e desamparados. Ia às Feiras e Romarias dos lugares vizinhos escanchado em bons e vistosos cavalos. Às vezes sentia-se obrigado a desmontar, quando as conversas e atitudes dos fanfarrões azedavam, varria então a Feira à paulada, exímio batalhador no jogo do pau!


(continua)

6 comentários:

  1. Caro Joaquim Palminha

    Por considerar que é tão importante manifestarmo-nos no elogio como na critica (tem sido no domínio desta última que me tenho dirigido a si em algumas das suas crónicas), decidi deixar-lhe esta mensagem de reconhecimento e agradecimento pelo trabalho de investigação histórica que faz e que nos vem revelando mosaicos deste nosso País. Não comungando da sua forma de ver o mundo, encontro, contudo, neste seu registo um espaço de convergência.
    Obrigado, pelo sentido de missão que empresta à história do nosso País.

    Luís Pereira

    Luís Pereira

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  2. Hoje os governos do ordoliberaismo , coelho e paulette são dignos representantes, fazem o contrário roubam aos pobres(nomeadamente pensões, saúde ensino) para dar os ricos (bancos que jogam no casino) ás sawps e PPPS contratos leoninos em que o estado(nós) arcamos com rentabilidades doidas e isso é crime

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  3. Cópia daqui e dali, textos e imagens rapados da internet e das velhas enciclopédias, mais uns pozinhos de lendas a fantasias nacionais e está feita uma "investigação"!
    Anda tudo ao desbarato nesta terra e dos mais velhos é que às vezes vem o pior exemplo! E depois ainda se queixam dos mais novos!

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  4. joaquim palinha silva25 agosto, 2015 04:16

    «Cópia daqui e dali» diz um(a) anónimo(a) algo pusilânime... Efectivamente, o texto de Joaquim Palminha Silva é uma pequena síntese de parte de conjunto de ensaios publicados na extinta revista «História» no ano de 1990, respectivamente nº 124; 125; 126;127; 128;129;130... Isto é, "quem não sabe é como quem não vê", e a pessoa que fez o comentário escrever à toa! Na prática JPS resolveu "plagiar" Joaquim Palminha Silva e, para piorar tudo, assina esta observação com o seu próprio nome ...

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  5. Pois sem dúvida ilustre Sr. Palminha "...publicados na extinta revista «História» no ano de 1990, respectivamente nº 124; 125; 126;127; 128;129;130..." e já então por si copiados e recopiados!.
    Mas não se amofine tanto! Basta que cite as fontes e a coisa já ficará mais limpa e aceitável porque tudo que então escreveu e agora repete já foi dito e redito por muitos outros!
    Investigação é que não pode dizer que é ou consentir que outros o digam por si!

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  6. Gostava de ver quem critica trabalhar tanto como JPS. Sou testemunha do seu labor e empenho na busca e tentativa de divulgar História e histórias. Têm estas histórias que ver com todos nós, mais ou menos próximas ou conhecidas, e podemos sempre colher algo naquilo que escreve ou reescreve ou transcreve , sendo que nada disso é vergonha, porque não rouba nada a ninguém. Por vezes é incómodo ah pois é! Mas em época tão amorfa quanta falta temos de quem incomode! E depois, doente como ele está, muitos outros estariam quietos e calados, moribundos! Ele é de outra estirpe. Não faltarão encómios quando morrer da parte dos detractores do costume.
    Aviso a navegação de que ninguém - muito menos JPS - me encomendou nenhum recado. Vivo em Lisboa e raramente vou a Évora. Leio sempre os blogues da cidade. Como o anonimato é apanágio dos comentadores faço o mesmo.

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