segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O capitão José Sabino Gonçalves (1836-1909)

Joaquim Palminha Silva













O 1º piloto do Canal do Suez?

I

José Sabino Gonçalves

Nos últimos 70 anos escreveu-se bastante sobre o Canal do Suez e, condicionalismo tradicional, a opinião pública imobilizou-se sobre a denominada “história imediata”, esquecendo ou ignorando as peripécias que surgiram um dia na aridez desértica, que então mal consentia a afirmação da vida humana. Eis que agora, mais uma vez, a imprensa nacional, referindo a inauguração (Agosto de 2015) do renovado Canal do Suez, torna a olvidar algumas “curiosidades” sobre a inauguração da primeira versão do canal no século XIX (1869). De resto, podemos compreender perfeitamente o esquecimento, pois esta obra gigantesca foi determinada pelo novo déspota do Egipto, o general Abdel Fattah al-Sisi, responsável directo pelo assassinato à queima-roupa de 800 manifestantes num só dia, e a condenação à morte de centenas de opositores… Enfim, tudo dentro da “tradição” histórica!
Livros e artigos de” revistas ilustradas” têm-se encarregado de nos elucidar, às vezes com pouco rigor, sobre a magnífica realização do engenheiro francês Ferdinand Lesseps. O canal nasceu na segunda metade do século XIX, num Egipto atulhado de interesses europeus e, naturalmente, encravando o imperialismo francês com inglês, e este com o alemão que por sua vez… e assim de seguida. Tudo anunciava uma imensa e continuada guerra…
Entre nós, o primeiro a “embarcar” no espírito da época foi o escritor Eça de Queirós. Com o entusiasmo e a ironia que caracterizam a sua prosa, debita-nos a melodia da “civilização” europeia sobre esse Médio Oriente, “bárbaro” sem remorsos e sem vergonha, num artigo nas Notas Contemporâneas e, postumamente, na obra O Egipto. Porém, em nosso entender, o autor do Primo Basílio não se apercebeu de alguns pormenores importantes. Para os apanhar teremos que ler o escritor Ferreira de Castro (in As Maravilhas Artísticas do Mundo, vol. I), pois são dele as mais fiáveis informações: - O deserto foi escavado por 120 mil trabalhadores; todos os dias se abriam sepulturas sob o olhar “zangado” dos abutres, para enterrar as vítimas da cólera, do paludismo, da febre tifoide, da disenteria, das más condições de alojamento e alimentação; segundo o Instituto Pasteur de Paris pereceram 1.394 trabalhadores egípcios e 1.314 trabalhadores franceses… a morte a forçar a igualdade?!
A 17 de Novembro de 1869, o Canal do Suez foi inaugurado com “pompa e circunstância”… Não, não estamos a fazer retórica. Eis o que nos descreve Eça de Queirós no artigo «De Porto Said a Suez», (in Notas Contemporâneas).

«Estavam ali as esquadras francesas do Levante, a esquadra italiana, os navios suecos, holandeses, alemães e russos, os yachts dos príncipes, os vapores egipcios, a frota do paxá, as fragatas espanholas, a “Aigle”, com a imperatriz, o “Mamoudeb” com o quediva, e navios com todas as amostras de realeza, desde o imperador cristianíssimo Francisco José até ao caide árabe Abd el- Kader»

                                                                                                                                                      
II

          Atento ao efeito mágico dos reais convidados, das comitivas e das esquadras, das gentes e manifestações feéricas, o escritor Eça de Queirós deixou que lhe escapasse um apontamento tipicamente “lusitano”, nesse dia 17 de Novembro de 1869. “Apontamento” paradigmático, desses que dizem mais sobre Portugal e os portugueses que todos os estudos sociológicos…
            Descuidado e confiante, o governo de Lisboa, oficialmente convidado para o acontecimento do século, resolveu mandar o “melhor” vaso de guerra ao Egipto, a corveta «Estefânia», de forma a representar Portugal. Porém, em pleno Mar Mediterrâneo, numa zona denominada «gata», desencadeou-se uma daquelas tempestades que só acontecem aos «lusíadas». A deficiente acção dos marinheiros e a frustrante surpresa que a tempestade provocou, acrescidas de alguns pormenores técnicos, deve ter “inibido” bastante o vaso de guerra que, desconjuntado, não pode figurar a tempo nas cerimónias oficiais em Port Said. Enfim, se este era então o melhor vaso de guerra da Armada portuguesa… estamos conversados!
            Não oficialmente, Portugal estava “representado” pelo escritor Eça de Queirós e seu amigo, o conde de Resende, Luís de Castro Pamplona… Foi então que surgiu o acaso, sem que o escritor o tenha visto, a moldar a História…
            Tinha largado do Tejo, com a antecedência de dois dias da corveta «Estefânia», a galera «Viajante» embarcação mercante pertença da firma «Bessone & Barbosa», comandada pelo capitão José Sabino Gonçalves que, às suas ordens, tinha vinte marinheiros. A galera dirigia-se a Macau e, muito próxima do navio de guerra, sofreu o mesmo temporal, mas bem manobrada conseguiu entrar em Port Said galhardamente. Era o dia de inauguração do Canal de Suez…
            No meio daquela azáfama inaugural, parece que não se encontrou um piloto que assegurasse, como “batedor”, a segurança da travessia do canal pelas embarcações oficiais. Então, José Sabino Gonçalves, talvez pensando que reluzia a sua hora de glória, ofereceu-se para a tarefa, que desempenhou com eficácia. A glória, se assim posso dizer, foi pois arrebatada duplamente por um capitão da marinha mercante (civil!) e, através dele, para o Portugal país, e não para o “País do governo”…
            A crónica avulsa deste sucesso que escapou ao “snobismo” do escritor Eça de Queirós que, assim, perdeu a oportunidade de escrever umas belas páginas, veio publicada, assinada por «Abranches» e muito resumida, na revista Ocidente (32º ano, XXXII, vol. nº1098, 30/7/1909). A origem da notícia prendeu-se então com a comunicação do falecimento, a 25 de Maio de 1909, de José Sabino Gonçalves (aos 73 anos), natural da bela localidade marítima S. Martinho do Porto, onde havia iniciado a sua actividade de homem do mar com apenas 9 anos de idade!
A veracidade deste sucesso do velho “lobo-do-mar” parece tem sido contestada no decurso de vários anos. Não se percebe porquê… Por fim, nos anos 90 deste século, alguém colocou na “Internet”, sob o nome do capitão, sem referência alguma fiável a notícia de que havia aparecido o «diário de bordo» da galera «Viajante», onde era mencionada a travessia do canal… mas nove dias depois da inauguração… Enfim, todas as notícias até então conhecidas seriam portanto pura fantasia! – Mas há aqui (continuo sem saber porquê?) “gato escondido com rabo de fora”…
É que a galera «Viajante» foi abatida ao largo de Porto Santo, a 2 de Outubro de 1917 por um submarino alemão, salvando-se a muito custo os doze homens da sua tripulação… Presume-se, pois, que o «diário de bordo», que sempre acompanha a sua respectiva embarcação, deve ter feito companhia aos doze marinheiros, “nadando” com enérgicas braçadas, e sem desbotar a escrita, a caminho do salvamento!

Galera «Viajante»



10 comentários:

  1. realidade,a triste realidade em que se enraíza a actual tragédia humana, cuja origem remota é o esclavagismo absoluto, baseado em relações humanas de domínio absoluto de uma classe social absolutamente dominada- os escravos absolutos - por outra, absolutamente dominante - os selvagens absolutos esclavagistas- a que sucedeu e se mantém, o esclavagismo relativo baseado em relações de competição , socialmente discriminatórias, ainda de natureza selvática, as quais subvertem os conceitos de Economia e de Politica e, consequentemente, de Civilização, servida por uma canalha de oportunistas e mediocres sem ética nem valores humanos., representativos de uma selva humana.Ainda falta civilizar essa e outra canalha, e pessoas pouco esclarecidas. Para isso, basta instituir os conceitos indissociáveis de Economia e de Politica de uma comunidade civilizada, baseada em relações humanas de cooperação solidária e de complementaridade de aptidões e de competências individuais com uma finalidade social, em que o interesse colectivo se sobrepõe a qualquer interesse individual, à semelhança do que acontece com as comunidades familiares, as primeiras desde os primórdios da Humanidade, ainda, actualmente dominantes e são representativas do autêntico conceito de Democracia, que veio a ser conceptualizado, mas nunca rigorosamente aplicado ás comunidades mais expressivas, porque os esclavagistas de todos os tempos, sempre fortemente armados e militarizados o não têm permitido.
    Manuel Gomes Alexandre

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  2. EU RADICAL ME CONFESSO
    7.8.15
    09:16 (JPP)
    Por entender que a liberdade é o mais precioso e frágil dos bens.

    Por entender que a liberdade quando se tem em plenitude não se dá por ela, quando se começa a perder os homens e as mulheres que a amam percebem-no de imediato: "Onde liberdade não há, abuso dela não pode haver."


    A liberdade pertence a todos e exige a igualdade para se realizar: "O valor essencial da liberdade sem a igualdade torna-se aristocrático privilégio de uns quantos."


    A liberdade não é uma dádiva, nem uma concessão: "Eu considero que uma liberdade dependente de poder discricionário do Governo não é uma verdadeira liberdade; fica à mercê do poder."


    Entendo que a liberdade exige a possibilidade da propriedade: "Defendemos a propriedade privada, na medida em que impõe o respeito da pessoa." Mas não chega: "Em nome da mesma pessoa combatemos os abusos da propriedade, a concentração da riqueza, o domínio do poder económico."


    Não há "crescimento" económico numa sociedade fora do contexto das liberdades: "Adoptando-se o modelo de desenvolvimento capitalista sem instituições democráticas, sem liberdade política, caminharemos para um despotismo violento que nem por ser dourado por melhores condições económicas deixará de ser menos insuportável."

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  3. Continuação
    Entendo que não há paz sem justiça social e não o contrário porque: "A paz engloba a justiça social." Sem ela toda a "estabilidade" é fictícia.


    Também entendo que nos dias de hoje "A igualdade de oportunidades, independentemente dos meios de fortuna e da posição social, é cada vez mais um mito, designadamente em sectores como a saúde, a habitação e o ensino, onde tudo se degrada a um ritmo alucinante."


    Entendo que o poder político se deve sobrepor ao poder económico e não o contrário: "O que há é que impor uma disciplina de actuação do poder económico e dos investimentos, para que ele seja feito com proveito de todos nós e não apenas para os detentores desse poder."


    Não reduzo a sociedade e a política aos critérios de "eficiência" tecnocrática: "O desenvolvimento do económico e a aplicação crescente da técnica a todos os ramos geram a obsessão da eficiência."

    Entendo que uma boa política social-democrática exige ao mesmo tempo um papel activo do Estado e o combate aos seus abusos. Reconheço a necessidade do investimento público: "O Estado deverá garantir suficiente capacidade humana, técnica e financeira para poder intervir como investidor, realizando projectos de grande dimensão em sectores estratégicos da actividade económica nacional.


    Sou contra o abuso fiscal: "É indispensável que o poder de compra seja também defendido pela redução dos impostos."


    Entendo que é vital haver uma reforma do Estado que não seja degradar serviços públicos e despedir funcionários ou baixar-lhes salário. "Nós vivemos num País de inutilidade pública, inutilidade pública que custa caríssimo e que afinal, agora, querem que continue a proliferar, obrigando os particulares a suportar todo o peso da crise económica."


    Entendo por isso que "o que não posso, porque não tenho esse direito, é calar-me, seja sob que pretexto for".


    Se isto é ser, nos dias de hoje, radical, sou radical.
    Estou bem acompanhado no meu radicalismo visto que todas as frases entre aspas são de Francisco Sá Carneiro.

    São frases com principio, meio e fim. Com ideias, contexto e substância. Não são soundbites .

    Como ele, não tenho feitio para vítima, por muitas campanhas que se façam. Como ele "nunca me senti tão sozinho e nunca tive tanta certeza de estar tão certo". Certo estava, sozinho é que não.

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  4. Sá Carneiro se fosse vivo teria vergonha da sua foto figurar nas sedes da PAF(psd) anti-social democrata antes pró-monetarista ou mesmo braço armado da Goldman Sachs, pior do que isto só hitler

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  5. Junto ao novo hotel da rua do raimundo ( obra aprovada pela gestão ps) ruiu a fachada de uma casa ,depois da Igreja isto prova os graves erros de gestão socialista.

    Admiro-me o acincotons não ter colocado foto deste caso.

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  6. "socialistas" avançam com a candidatura de Maria de Belém,dizem eles que é mulher de consensos e defende muito os pobrezinhos,está ligada a instituições de caridade,mais do mesmo .

    O Combate faz-se por novas politicas,erradicar a pobreza e não a defesa da caridade,Maria de Belém não é uma candidatura de rutura com estas politicas neo-liberais.

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  7. Sampaio da Nóvoa não se coaduna com a ala direitista do PS.

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  8. Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa fracturam PS.


    (jornal I).

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  9. Alemanha ganha 100 MIL MILHÕES de Euros com a crise Grega.

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  10. A condecoração do antigo presidente de cãmara pelo Presidente da Républica,passou despercebida,o próprio ps ignorou tal feito.

    Prova do DESCALABRO da gestão PS nos 12 anos.

    Divida 90 Milhões de Euros

    Negociatas.....................................

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