sexta-feira, 24 de julho de 2015

A “cultura” da denúncia!

Joaquim Palminha Silva
            Aquele que anuncia a verdade, e a aponta com seu dedo, nada tem que ver com Judas Iscariote que apontou e mostrou Jesus Cristo aos soldados, na noite mais amarga de todas.
            Apontar, esse gesto aparentemente tão “natural”, deu início a uma cultura moral que recaiu sobre a Humanidade (especialmente portuguesa) a partir do próprio Judas que, roído de remorsos, se enforcou. Temos, pois, de aceitar esta conclusão cruel: - É “criminoso” apontar!
            Porém, o nosso desgraçado mundo está superpovoado de contradições. Assim, de dedo indicador em riste, como cano de uma pistola, apontar o prevaricador, o ladrão ou o falso mensageiro de uma “novidade” de suposta de justiça social, tem dois fundos interpretativos.
            1º) – Quando uma vez o meu avô perguntou ao jantar a nós dois (eu e minha prima Teresa): «Quem ratou a marmelada que está na despesa, no tabuleiro de barro vidrado?». A minha prima, que já era insinuante, apontou o dedo rosado sobre mim, o culpado: - «Foi o Joaquim!». Para reprimir a “natural” tendência denunciadora da prima Teresa, o meu avô resolveu punir a menina, privando-a de sobremesa e, a seguir, embora zangado comigo, debitou-nos um discurso sobre a abjecção que é o denunciante. Pouco ou nada entendi na altura. O meu avô explicou então que, quando perguntou, esperava que eu respondesse, assumindo com coragem a culpa, ainda que pagasse tudo depois com língua de palmo, como se costumava dizer.
            Graças a este acontecimento doméstico, deixei de apontar com o indicador fosse o que fosse. Isto estimulou a minha busca de adjectivos para situar, sem ter de o apontar, um objecto, uma pessoa, etc.. Enfim, enriqueci os meus conhecimentos na língua de Luís de Camões e, por isso, repito ainda hoje: - É feio apontar!
Um dia, já jovem com alguma consciência política, a “lição” do meu avô veio a ser inesperadamente “actualizada”, sem mais nem menos…pelo ditador: - A determinada altura de um discurso, a cinzenta personagem Prof. Oliveira Salazar apontou o seu dedo indicador para o vazio, como um cano de uma pistola!
Fiquei esclarecido até aos dias de hoje: - É obsceno apontar!



2º) – A coragem de confessar a culpa, de assumir que errámos, acabou sendo uma raridade, uma vez que se tornou “moralmente” condenável apontar/denunciar a dedo o culpado. Pareceu-me, então, que a “culpa” passava a ter uma boa couraça protectora, pois na verdade, só em grandes aflições os culpados confessam os seus erros. Por exemplo, para salvar a pele, garantir a manutenção do seu estatuto socio-económico e, em última instância, conseguir absolvição para a alma.
De forma que, com os dedos indicadores contraídos, o denunciante que há em cada um, mantinha-se longe do “pecado”, naturalmente à custa de cerzir a vida em todos os seus velhos rasgões, olhando em redor, desconfiado até do azul do céu, não fosse alguém reparar no seu desejo de denunciar, mesmo subterrâneo.
Mas o regime da ditadura necessitava de denunciantes como de ar para respirar, fez pois constar que nem sempre o silêncio é de oiro. Assim, quem o guardava corria o perigo de deslizar para a suspeita de traidor à Nação, de subversivo. E o «Não se aponta que é feio», acabou caindo em desuso.
Então, o regime legitimou mesmo um certo tipo de «apontadores» … Foi mais longe, tornou-os profissionais e integrou-os, de forma não declarada, no âmbito do Decreto-Lei nº35046 (de 22 de Outubro) de 1945, que criou a Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE). Como os ventos da História já haviam mudado, invocou-se na criação desta polícia política o modelo da Scotland Yard… A acção vigilante de «defesa do Estado», além da administração pública e da organização para-militar «Legião Portuguesa», ficou a contar com um “exército” de «informadores» civis, pagos à tarefa ou mensalmente, com direito a bónus segundo a “qualidade” da denúncia…  
A lição do meu avô, de teor «democrático», se assim posso dizer, estava pois condenada ao imbróglio, desde o dia em que o ditador pagou aos que apontavam a dedo os anti-fascistas deste País.
E o País mergulhou de novo, de forma sistemática, na “cultura da denúncia”… De novo? Sim! – Quando em 1760, o Marquês de Pombal criou a Intendência da Polícia da Corte e do Reino, municiou logo esta com uma «rede de espias e informadores»! Portando, o Prof. Oliveira Salazar seguiu de perto uma “tradição” inaugurada pelo Marquês de Pombal! De resto, isto é paradoxal, pois o terrível marquês foi personagem “muito querida” de uma parte substancial dos “democratas” anti-salazaristas!  
Enfim, a “cultura da denúncia”, mesmo após a democratização do País, veio para ficar?- Não sei…
O facto é que ganhou terrenos novos e, invadindo o jornalismo com a “mania” de revelar a verdade, “toda a verdade”, colou-se à mentalidade corrente do cidadão. Pelo que ninguém estranha a existência de tanto dedo apontado à direita e à esquerda e, ainda mais aberrante, há mesmo meios de comunicação social que pagam as informações que os «apontadores» (denunciantes anónimos) lhes indicam…Enfim, nada escapa, nem vida privada nem «segredo de justiça» …
Por fim chegamos a este patinhar na lama: - Quem denúncia pode mesmo arredondar o seu orçamento, desde que a informação valha os “trinta dinheiros” de Judas!



Soldados do MFA no acto de prisão de um “informador” da PIDE, de Abril de 1974.

2 comentários:

  1. Portugal Não existe, é uma colónia da Alemanha.

    Cavaco,Portas,Passos e Costa são os capatazes.

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    1. Antes Colônia da Alemanha do que da china ou coreia do norte

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