terça-feira, 23 de junho de 2015

O Romântico Jardim Público de Évora


Joaquim Palminha da Silva
III


Gravura do Rossio de São Brás cerca de 1846, antes da edificação do Jardim Público e do palacete do lavrador «Ramalho». Pode-se observar a porta de entrada para a cidade, então ainda existente no Rossio.

O mecenas do «Passeio Público» de Évora, hoje denominado Jardim Público, tem vindo a ser esquecido pela moderna historiografia da cidade o que, não sendo justo, dá a tudo o que se escreveu sobre este espaço um recorte de negligência ou má-fé dos “investigadores” locais, licenciados ou “mestres” da tesoura e cola. Não entra nesta “galeria” Túlio Espanca, o único que em breve parágrafo de um seu escrito menciona a paternidade do Passeio Público, se assim posso dizer.
            Foi mecenas do Jardim Público o abastado lavrador José Maria Ramalho Dinis Perdigão (falecido em 1884).

            O «Livro nº 66 das Actas da Câmara Municipal de Évora , 1854-1856», dá-nos conta de troca de terrenos entre o citado lavrador e o Município, nas imediações do Rossio de São Brás. De facto, na acta da sessão de Câmara de 12 de Maio de 1856, registou-se que essa troca tinha por objectivo possibilitar a edificação de residência (um palacete neo-romântico) do lavrador no perímetro do Rossio, para cujo projecto e sua execução prática fora contratado um cenógrafo de origem italiana, com vocação de arquitecto, comissionado na Ópera de Lisboa (S. Carlos), então muito solicitado pela aristocracia do tempo.
            Após esta troca de terrenos, o lavrador José Maria Ramalho Dinis Perdigão entendeu doar à Câmara Municipal de Évora terrenos localizados face à fachada do palacete em construção, para aí ser construído um «passeio público», cuja edificação e desenho era do mesmo autor da sua moradia, o artista Giuseppe Luigi Cinatti. Palacete e «passeio público» ficaram assim “tablados”, e com tal acinte, que passaram a marcar de forma original, e monumental, a entrada da cidade pelo Rossio que era, na época, a entrada da urbe na “modernidade” na viragem do século XIX para o XX.
            O facto é que «passeio público» de Évora, no dizer dos contemporâneos, desenhado-edificado-plantado pelo artista italiano, chegou a ultrapassar em imaginosas e ultra-românticas evocações, o «passeio público» junto à basílica da Estrela (Lisboa), então a última aquisição da nova urbanidade, que se plantava na capital do Reino!
            



                                                                                                                  (continua)


1 comentário:

  1. Ai que saudades que eu tenho
    dos "lavradores" que davam a camisa à cidade.
    Que faziam o palacete de novo rico
    e ofereciam a "paisagem" envolvente
    para o município tratar da coisa.

    Ai que saudade que eu tenho
    da cidade construída pelos lavradores.
    Ai que saudade que eu tenho
    das migalhas que caiam da mesa do latifúndio.

    (agora, quando o governo democrático tenta fazer um Parque Urbano, no local apropriado, valorizando o Jardim Público, dizem que a coisa não faz falta, porque rende mais com imobiliário; que o município compre o terreno, que pague o dízimo à especulação, e a percentagem aos corruptos do bloco central)

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