domingo, 21 de junho de 2015

O Romântico Jardim Público de Évora (*) - I/II

Joaquim Palminha Silva
(Introdução)

Pelo lugar material e cultural que desempenha no tecido urbano da cidade, o Jardim Público, talvez com mais acerto intitulado na segunda metade do século XIX «Passeio Público», merece um destaque muito especial como património vivo da urbe e, nesse sentido, aqui lhe registamos a breve história e a interpretação que nos inspira.
*

A génese do Jardim é complexa. As referências históricas apontam sempre o Jardim como o lugar privilegiado para a meditação religiosa e filosófica. Por conseguinte, desde a mais remeta antiguidade clássica, o Jardim é considerado, depois do Templo, como um dos lugares sagrados da Humanidade. O Rei Salomão no «Cântico dos Cânticos» faz a apologia dos jardins que plantou e de onde se exalavam os perfumes do sândalo e da mirra. Na língua hebraica, a palavra jardim contém a ideia de Éden, isto é, do bíblico «Paraíso Perdido» pelo Homem…


Na Grécia clássica, como refere Xenofonte, o Jardim era um lugar aprazível onde se podia filosofar tranquilamente. Por sua vez, os romanos tinham do Jardim a ideia de local agradável e útil, onde se deveria ligar, de forma harmoniosa, a arquitectura à vegetação natural. Nasceram então as pérgolas, os terraços, os muros de vegetação, as fontes e lagos, pelo que os romanos devem ser responsabilizados pelo nascimento do modelo de jardim que ainda hoje perdutra no ocidente latinizado. No Oriente (China e Japão), o Jardim é obra suprema para servir a velhice no repouso e na meditação que proporciona.
Estes exemplos servem para esclarecer, apesar das diferentes estruturas e formas que o Jardim tomou ao longo do tempo e em diferentes espaços geográficos, que ele assenta num ideal comum: a sua sacralidade e o seu serviço em favor da paz e da meditação.
Em Portugal, desde os séculos X e XII, a Ordem Beneditina, a Ordem de Cister, assim como os monges Agostinhos e os Franciscanos, estabeleceram nos terrenos anexos às suas “casas“ vários tipos de Jardim, às vezes sob a forma de pomares, como foi o caso dos franciscanos de Évora, no seu Convento vizinho do Paço Real.
Com o século (XVII) do barroco, o Jardim português atingiu a sua maioridade, adaptando-se melhor à terra evidenciando uma escala mais humanizada. Há mesmo exemplos de aquisições de carácter intimista. Entretanto, a matriz clássica romana ganha entre nós uma nova dimensão, nomeadamente com a introdução do azulejo, dos canteiros com geometrias, sendo introduzida a plantação de flores e arbusto da época, que se passam a “esculpir” e “desenhar”, de forma a ganharem formas ao gosto do tempo.


Jardim do Palácio de Queluz (pormenor)

O nosso século XIX adopta o Jardim-paisagem (Parque da Pena e Parque de Monserrate), isto é, estamos pois na presença dos Jardins sem tempo, no dizer deslumbrado de Lorde Byron, ao referir-se a Sintra!
As lutas civis e militares pelo estabelecimento da monarquia liberal em toda a Europa, com o seu democratismo romântico e defensor das independências nacionais, após a queda do império napoleónico, tiveram um impacto muito especial nas formas de existência do Jardim. Começou-se então a desenhar em todas as grandes capitais europeias o Jardim-Passeio Público, ganhando a sua existência um espaço nunca imaginado.
Da privacidade e recato das mansões de aristocratas e alta burguesia nascente, acompanhando a “revolução” cultural que se ia alastrando por toda a Europa, e a mudança de mentalidades, no encalço das vitórias do liberalismo democrático, o Jardim surgiu como espaço privilegiado da nova urbanidade.
O Jardim transformou-se, pois, em centro colectivo de animação cultural, social e cívica da cidade democrática, gerido pelo Município para usufruto dos cidadãos. Com espaço próprio (coreto) para concertos de bandas filarmónicas locais, cultivo e venda de flores da época, observatórios com telescópios, espaço de leitura “ao ar livre” (serviço proporcionado pela Biblioteca Pública e/ou Municipal), o Jardim ganhou uma nova personalidade, mas diga-se que, entretanto, não tendo perdido a “sacralidade” da época clássica, adquiriu características colectivas, implicando a instalação de mobiliário urbano nos seus espaços verdes e, através de jardinagem e vigilância atenta, foi paulatinamente instalando nas mentalidades correntes das populações princípios de estima e civismo pela conservação do espaço público.


Coreto do Jardim Público de Évora, segundo projecto de Manoel de oliveira e Silva, inaugurado em 20 de Maio de 1888, com concerto pela «Banda da Real Casa Pia de Évora».

Na nova fisionomia do Jardim democrático, abundam as cascatas, os rochedos fingidos, os lagos com cisnes, as cenografias românticas, teatrais, inspiradas no teatro ou nas “lendas e narrativas”, as ravinas, árvores simbólicas (oliveira/árvore da paz), engalanados miradouros sobre os campos vizinhos ou sobre a cidade, plantas exóticas, recantos discretos para os apaixonados, bem como instalação de mobiliário mais resistente ao tempo.

Ruinas fingidas do Jardim Público de Évora

Enfim, este derradeiro modelo de Jardim, parte integrante da nova ideia de cidade. Nascido nos meados do século XIX, conserva um romântico exemplar em Évora: - O Jardim Público, aberto a toda a população num verdejante abraço fraternal, democrático, a partir de 1863!


Entrada principal do «Passeio Público» de Évora nos finais do século XIX ou início do século XX (de uma carta-postal).

(continua)

*Este trabalho foi publicado na sua 1ª versão na «Monografia da Freguesia da Sé e S. Pedro». O texto agora presente apresenta algumas alterações.

7 comentários:

  1. António Costa em Évora,terá afirmado se um ministro do seu governo tiver um caso com a justiça é DEMITIDO.

    Camarada Costa em Évora tal afirmação, é pura provocação ao 44.

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  2. Mais um ano em que o PC voltou a meter o Jardim na Feira. Para além do perigo que a escadaria representa (será que a ASAE já investigou?), a feira de Évora não passa de uma feira de tascas e tasquinhas e pouco mais. A Feira está morta e bem que a poderiam tirar dali porque de Feira nada tem. Melhor, em termos de diversidade, é qualquer mercado de terça-feira. Aliás, basta ver o video promovido pelos serviços de informação (?) da Câmara para ver quais são os objectivos que a Câmara tem para a feira: propaganda e só propaganda. O vídeo tem logo como imagem fixa o presidente e os vereadores. Será que à falta de circo são eles os palhaços de serviços?

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    1. Essa do perigo da escadaria (que a ASAE devia investigar...) é para rir ou é apenas o efeito da estupidez natural?

      A julgar pelas restantes baboseiras do comentário, estou inclinado para a estupidez natural.

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  3. A feira de S João está cada vez pior, uma vergonha. Este ano quase não há ,mudaram para o rossio o viveiro da câmara. E a relva,que ninguém pisa, porque ninguém percebeu o que está ali a fazer. Pobres arquitectos, perdoa lhes Senhor que eles não sabem o que fazem. E o Pinto de Sá esse nem se fala....


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  4. A escadaria é um atentado ao património !
    Alterações estéticas !

    Contudo , nem foram capazes de fazer ainda um acesso com rampa para deficientes ou cadeiras de bebes para acesso ao jardim infantil vindos do Palácio D. Manuel , é preciso sempre dar a volta !

    Depois , levam o ano a cuidar do jardim mais de 20 pessoas ou mais ... e em uma semana é tudo migado !

    Depois , tem espaço para meter o palco virado para a Epral lá no estacionamento , mas não , carregam para lá uma pouca de terra , para ?

    Depois , meteram um tipo de barro que parece café no chão !

    Depois , carregam stand´s de viaturas e uma quantidade de tascos de bifanas , para ?

    Onde ficou o circo para as crianças ?

    A arena serve para ?

    O Salão Central para ?

    Só restam do Estado Novo as piscinas , senão ainda restava o Xarrama !

    Jorge

    ( ciclista )

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  5. Farto-me de rir com o que para aqui vai de azia e despeito mal disfarçado. A feira está a ser um sucesso, as pessoas estão a frequentar em grande número e a divertir-se, e com isso é que esta gentinha não aguenta. Temos pena. Voltem a ganhar a Câmara e lá poderemos voltar a ter uma feira pindérica como vocês gostam. Aliás de pindéricos o que outra coisa seria de esperar?

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  6. Esta feira é tão pindérica como a feira de há três ou quatro anos. Não conseguem olhar-se a um espelho e verem isso? A propaganda distorce a realidade e encafua os seus protagonistas em guetos em que apenas se olham e se ouvem a eles próprios-. A feira tem um espaço próprio que resiste aos comilões de todas as horas. Resistiu a anos de fascismo (já ninguém se lembra dos seus nomes), resistiu a anos de abilismo, depois de ernestimo, vai resistir, sem dúvida, a estes novos Kamikazes para quem a propaganda é tudo e a obra não vale nada. Deixem-na estar, à feira, destruam-na o menos que puderem (sempre hão-de destruir algo) desfilem por ela, apanhem "banhos de multidão", como qualquer político que se preze, mas sabendo que ela ficará e os novos reizinhos do templo irão fazer tijolo como os outros também foram. O que vai ficar é a feira e esta história contada pelo Palminha. O resto é quase nada. Apenas floreados e pequenas vaidades pessoais que não aguentam um espirro da história.

    Lúcio

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