domingo, 10 de maio de 2015

José Dias sobre a Assembleia Municipal de Évora: “munícipe castrado nunca”


(José Dias é um conhecido democrata eborense que tem demonstrado por inúmeras vezes o seu elevado sentido cívico. Assíduo entre o púbico nas reuniões da Assembleia Municipal – neste e em anteriores mandatos – acusa o actual presidente da AM de Évora de comportamento “autoritário e antidemocrático” e diz que não voltará a usar do seu direito a participar, enquanto público, nas reuniões desta Assembleia Municipal.)

(Este é o texto que li na AM de 5 de Maio de 2015)


LIBERDADE


Digníssimos representantes do Povo do concelho de Évora o incidente que ocorreu nesta Assembleia no período concedido para intervenção ao chamado público não pode passar em claro.
Quando comemoramos os quarenta e um anos do 25 de Abril, data em que um punhado de capitães restituiu ao Povo a LIBERDADE e em particular a LIBERDADE DE EXPRESSÃO, recordo um acontecimento que me marcou profundamente como cidadão.
Antes do 25 de Abril realizou-se na Sociedade Joaquim António de Aguiar uma sessão cultural (penso que de poesia) com a presença do poeta Ary do Santos, o apresentador Igrejas Caeiro e o ator Rui Mendes. A sala estava completamente cheia de opositores ao regime e, como era hábito nestas sessões públicas, estavam também presentes três elementos da PIDE. O poeta Ary dos Santos iniciou a sua intervenção com uma frase que me arrepiou “ Aviso esses senhores que estão sentados ao fundo do lado direito que não temos medo deles, não nos calaram nem àqueles que lutam pela LIBERDADE”. Percebi então que quando se luta por uma causa justa não há medo, há a força da razão que, neste caso, era a luta pela liberdade de pensamento.
Este sentimento fez aumentar o meu empenho na luta contra a ditadura fascista.
Lembrando o poeta não me calei quando um pide me agrediu e gritei abaixo o fascismo. Não me calei quando um pide quis que lhe entregasse um gravador à saída das comemorações do 31 de Janeiro e gritei viva a liberdade.
Felizmente deu-se o 25 de Abril. 
Aproveito para saudar o Capitão Cardoso um dos capitães de Abril.
Já em regime democrático, não me calei quando fui detido pelo MFA, por fazer parte de um comité de greve dos trabalhadores do comércio. Não me calei quando no meu sindicato se lutava pela liberdade sindical. Não me calei quando um grupo de oportunistas quis alterar a decisão tomada pelos moradores no movimento de ocupação de casas devolutas. Não me calei quando um grupo ligado a um partido tomou conta de uma Cooperativa de consumo que ajudei a fundar. Não me calei quando tão difícil era no Alentejo sair à rua e gritar “nem fascismo nem social-fascismo, independência nacional”. Mais uma vez em todos estes acontecimentos lembrei-me do poeta.
Em 30 de Abril de 2015, na Assembleia Municipal de Évora, estando a intervir como munícipe no período concedido ao chamado público, fui inopinadamente interrompido pelo seu presidente, sem que tenha cometido qualquer crime (injuria, insulto, ofensa, provocação ou outro). Quando tentei manifestar a minha posição, fui impedido de continuar a falar.
Calei-me por respeito para com o órgão. 
Depois de ouvir intervenções de diversos elementos sobre o incidente, quero enaltecer todos aqueles que colocaram o princípio que prevaleceu no grupo de trabalho de alteração ao regimento de funcionamento no sentido de serem criadas condições para a intervenção dos munícipes, através da introdução de um período de 15 minutos antes da ordem de trabalhos, ao contrário de outros que a pretexto de minudências burocráticas tentaram justificar o comportamento do presidente.
Não tendo visto reprovado devidamente o comportamento do presidente e tendo este reiterado a sua convicção no mesmo, jamais aceitaria falar naquele período.
Mais uma vez lembrando o poeta não me vou calar.
Como cidadão e munícipe fui candidato AM nas primeiras eleições. Voltei trinta anos depois a assistir a AM ainda no anterior mandato. Não fiz qualquer intervenção nas mesmas por motivos que já referi numa assembleia anterior.
Concorri à AM pelo BE nas últimas eleições. Não fui eleito, entendi contudo que, poderia dar um contributo como munícipe preocupado com o futuro do Concelho. O exercício da democracia não se esgota na representação, deve ser participada.
Neste sentido participei de uma forma que, penso, empenhada em várias assembleias expondo problemas que conheço ou que me são transmitidos por outros municipes. 
Este comportamento é igual ao que tenho na minha freguesia.
Tenho procurado incentivar e motivar os munícipes com quem me relaciono ou que me procuram no sentido de participarem eles próprios na vida do município. Felizmente o número de participações tem aumentado e já não estou só no chamado público.
A propósito quero mais uma vez agradecer aos digníssimos representantes do concelho, tal como fiz na intervenção que foi interrompida, a possibilidade que é dada ao público de intervir antes da OT.
Fui eleito pela AM para o Concelho Municipal de Segurança no qual tenho participado, não faltando a qualquer sessão até hoje realizada, ao contrário de outros que ainda não tive a oportunidade de conhecer.
No seguimento deste meu comportamento procurei mais uma vez intervir nesta AM no período que está regulamentado. Não me foi permitido.
Lamento e repudio o comportamento autoritário e antidemocrático do presidente da AM.
Autoritário porque inopinadamente, sem consultar os outos membros da mesa, abusou dos seus poderes e interrompeu a minha intervenção sem que nada o justificasse.
Recordo que me foi concedida a palavra, porque foi chamado a atenção pelos colegas, que eu tinha levantando por duas vezes o braço para esse efeito, enquanto outra munícipe intervinha.
Reconheço que as condições visuais e auditivas não serão as melhores, tal como as dadas ao público para intervir (não existe um espaço próprio, tem que ser um deputado a ceder o seu espaço físico), mas isso não justifica tudo. Mas sobre a competência não posso fazer nada uma vez que não sou deputado.
Antidemocrático porque quando procurei contraditar o seu comportamento ameaçou e concretizou o mesmo com o corte da palavra.
Como corolário desta situação não usarei mais da palavra na AM. Farei chegar os assuntos através dos representantes eleitos.
Parafraseando o poeta “poeta castrado não”, aqui “munícipe castrado nunca”.
Viva o 25 de Abril, viva a LIBERDADE.


José Manuel Dias

12 comentários:

  1. Pois é Zé...para muita gente da Esquerda "pura e dura" infelizmente o 25 de abril foi apenas sinónimo de queda do fascismo e fim da guerra ultramarina. Quanto à liberdade deixam tudo a desejar. E se és militante do Bloco de Esquerda tás ferrado.
    Lembras-te perfeitamente do comportamento deplorável e fascizante do PCP relativamente à UDP, MRPP e afins....
    As coisas não mudaram 1 milímetro lá no PCP, até porque ainda hoje nunca se redimiram dos crimes do Estalinismo. A massa deles é mesmo ruim.

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  2. Por aqui vê.se a razão porque uma aliança com o PS , para uma solução governativa é sempre inviável. Só eles se acham os detentores da verdade. Não deixam falar as pessoas quando acham que o assunto em causa pode ser interpela-los, nomeadamente a forma abusiva como estão a cobrar TOS(taxa de ocupação de Subsolos) e a passar as culpas para a Galp, foi esse o motivo pelo qual o DR Jara te não deixou falar. Acho que lançaram uma amiga para ocupar os 15 minutos antes da OT para ler um texto de várias páginas para esgotar o tempo dos tias 15 minutos e sobre o assunto da monda com químicos das ervas que leva muitas vezes ao envenenamento de animais domésticos. Tudo isto foi consertado até porque depois assistiu-se já na OT de assuntos sem interesse ou seja que esta AM não tem competência para resolver e que serve só para esgrimir os argumentos dos speakers do costume discutem os sexo dos anjos, uma tristeza.
    Assistir aquilo e sem poder intervir é um exercício muito fraco de cidadania . Resumo trocar galhardetes entre a sobranceria do PC e os caceteiros de serviço do PSD lamentável

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    1. «Assistir aquilo e sem poder intervir é um exercício muito fraco de cidadania »

      E qual era a solução? Deixar falar toda a gente, eleita e não eleita, durante o tempo que quisessem?

      Acaso seria melhor para a "cidadania" o regimento aplicado durante os 12 anos PS, em que o direito de intervenção do público só acontecia no final das AM, quando já ninguém tinha tempo ou paciência para ouvir?

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  3. O partido comunista não consegue dominar a gestão da autarquia, os problemas dão lhe volta a cabeça limpeza e acampamentos no espaço publico demonstram que a equipa era fraca, e agora disparam com má disposição revolta por todo o lado.
    Pinto de Sá é pouco e curto para tantos incompetentes, hoje tesoureiros vogais secretários e outros mandam e desmandam fazendo e criando autênticos problemas, assim é impossível !!

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    1. O seu comentário revela duas coisas:
      - Ignorância completa sobre o que é uma autarquia, sua forma de gestão e respectivas competências.
      - Ignorância sobre as implicações da declaração de "falência técnica" feita há cerca de 2 anos...

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    2. O Problema é incompetência. Governar Montemor, cujo povo é pouco exigente e a esmagadora maioria dos serviços da autarquia é dominada de lés a lés pelo Partido Comunista é uma coisa; Governar Évora, cujo habitantes têm pensamento próprio e que podem à mínima eleição correr com eles, é outras coisa completamente diferente.

      A Cidade de Évora merecia muito mais que estes incompetentes que o Partido Comunista decidiu enviar.

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  4. O PCP só prometeu "Amplas Liberdades", pois se não sabia fica a saber que liberdade é um conceito burguês. O sr Dias pode falar mas não pode exceder as amplas liberdades que o Sr Presidente da AME lhe concedeu. Isso já lhe foi explicado pelo anónimo das 9.55. E depois o que você diz ia maçar muita gente que não tem " tempo ou paciência para ouvir".

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    1. Bom era no tempo do PS, campeão da "Liberdade", em que o sr. Dias nem um minuto tinha para falar no início da AM.

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  5. O anonimato não me convence. Dei-em a cara, porra.
    José Dias

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  6. Os maiores revolucionários de 75,rapaziada da UDP,FEC,MRPP,AOC.....são hoje gestores ,analistas políticos,militantes do Centrão................................João Carlos Espada(diretor da Voz do Povo),actualmente prof.da Católica um grandeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee Neo-Liberal.....................

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  7. A Verdade, sendo um conceito subjectivo, encalha, todavia, muitas vezes, com procedimentos demasiado claros para o comum cidadão, de modo a não se duvidar dela.

    O PCP, em Portugal teve um papel fundamental na denuncia da podridão em que este país vivia antes do 25 de Abril.É Verdade.

    O PCP, no Alentejo, procurou , instruído pela política soviética, colocar em Portugal essa política.E como os protagonistas dessa Vontade ainda são os mesmos, a Verdade democrática continua, para eles, a ser aquela a que todos assistimos diariamente: Estaline e Nikita Ktutchof,continuam a ser os seus orientadores ideológicos e as Intenções de restauração de uma politica ditatorial «a favor do povo» continuam presentes.

    Muitos de nós os seguimos, acreditando na utopia, que é típica da Vontade das pessoas. Depressa se foi percebendo e muitos de nós esmorecendo, perante a ignóbil hipocrisia política do PCP em Portugal.

    Hipocrisia,onde o PCP, umas vezes se traveste de partido democrático perfeitamente integrado no regime,combatendo-o embora, na forma de gestão do sistema. Onde outras vezes se revela claramente antagónico com o regime, desligando-se completamente da possibilidade de integrar um governo de esquerda em coligação,combatendo o PS,como não combate a Direita.

    Ou seja, o PCP, desilude-nos na sua acção, nos tempos modernos, que é o tempo dos homens que tomaram posse de uma grande parte da Utopia, que a democracia apesar de tudo tem proporcionado a este país.

    Ninguem entende este PCP, embora se perceba que pela honestidade dos seus líderes, todos merecíamos melhor.

    Os órgãos autárquicos actualmente em exercício no nosso concelho,são já o reflexo do desgaste que infelizmente o PCP está a sofrer pela sua teimosia.

    À senilidade, dos actuais dirigentes, sucede o oportunismo partidário de muitos outros protagonistas,a maioria sem perfil para tais desempenhos.

    Espero que esta crítica seja construtiva, que junto a muitas outras que se vão manifestando por aí,para bem da nossa terra e do nosso país.

    Emanuel

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    1. Muito bem visto Emanuel.

      Apenas um apontamento.
      Comunismo, com ou sem Estaline/Nikita, não encaixa no mundo atual. Onde é que está o comunismo "bom" por esse mundo fora?

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