domingo, 24 de maio de 2015

Confiança

Joaquim Palminha Silva
            O que é hoje a confiança?
Será mais uma fantasia no meio de muitas outras, pelo que escrever sobre ela é um trabalho quase imaginativo, idêntico a uma história infantil com fadas, gnomos e castelos no ar, onde repousa adormecida a “bela” confiança, tal princesa encantada?…
            Sobre a dificuldade em encontrar, guardar e conservar a confiança de que todos precisamos para viver neste vale de lágrimas, está repleta a nossa História contemporânea. A raridade com que ela se apresenta é tal que o tradicional rifoneiro popular não guardou muitas memórias directamente, relacionadas com a confiança de que, por exemplo, recordamos o ditado: «Confiar no futuro, mas pôr a casa no seguro.».
            Confiantes, entregamos a nossa saúde nas mãos dos médicos e demais especialistas dos Hospitais públicos. Os nossos filhos são confiadamente entregues às escolas públicas. Os nossos salários, a reforma, as poupanças (quando as temos), confiadamente as depositamos nos Bancos. Após eleições legislativas, nós confiamos que do partido mais votado será formado um governo preenchido por cidadãos idóneos, isto é, pessoas comprovadamente honestas, sejam elas da “direita”, do “centro” ou da “esquerda”… - Porém, nos últimos anos, a verdade é que temos visto a nossa confiança ser traída por muitas destas entidades, serviços e pessoas.…  
É, pois, imenso o rol para o que nos é solicitada confiança que, entretanto, resulta num crescimento da nossa desconfiança, todos dias e a toda a hora.
Mesmo assim é forçoso que pensemos que seria a nossa vida numa sociedade sem a prática da confiança? Como será possível viver numa sociedade donde se pode ausentar a confiança, ainda que seja por determinado tempo e apenas nalguns sectores da vida política, social e cultural? – Posso responder já! Será como viver em Portugal, onde o “sistema” de confiança tem sido atacado em várias frentes, e corroídos os seus alicerces seculares!
            Prevenindo a ausência de confiança que deve ter existido no passado mais remoto, o rifoneiro popular apresenta-nos esta curta lista de ditados ou anexins:
            «Não te deves fiar senão daquele com quem já comeste um moio de sal»;
            «Não te fies em água que não corra nem em gato que não mie.»;
            «Não te fies em cantigas»;
            «Não te fies em céu estrelado nem amigo reconciliado»;
            «Não te fies em mulher que não fala nem em cão que não ladra»;
            «Não te fies em quem uma vez te enganou»;
            «Não te fies em vilão nem bebas água de charqueirão»;
            «Não te fies se não queres ser enganado».
            Entretanto, pela doentia convergência do estado mental da maioria dos cidadãos, a sociedade actual fez da confiança uma prática a evitar, um tanto pelo seu cheiro a pia outro tanto pelo hálito que transporta, denunciando a cebola do péssimo refogado democrático nacional. Porém, acontece que, traçando a perna numa intimidade canalha, o cidadão comum ainda gosta que a confiança se venha sentar sobre os seus joelhos e lhe peça, entre caricias de demagogia, um pouco da sua benevolência para esta ou aquela questão e, dependendo das ocasiões, apesar de tudo o cidadão não sabe como se lhe negar, deixando-a tomar conta da sua vontade com uma simplicidade trágica… - E vota em partidos que não lhe deveriam merecer confiança, pela soma de dirigentes políticos que habitualmente “abastecem” os tribunais e, depois, as cadeias, enquanto “especialistas” na prática dos mais variados crimes!
            A confiança não se decreta nem acontece como fruto do acaso, pelo contrário, obedece a um projecto de construção, e uma instala-se na sociedade a um ritmo vertiginoso («clima de confiança»; «confiança em si próprio»; «confiança na condução»; «confiança no investimento»; «confiança dos accionistas»; «confiança na qualidade da água da rede pública»; confiança nas instituições», etc.). Nesta ordem de ideias, alicerce da segurança social num país civilizado, a perda paulatina de confiança do cidadão nas instituições e nos políticos, acaba arrastando consigo as estruturas fundamentais do regime democrático e, ao criar um ambiente de desconfiança continuado, faculta a germinação de todo o tipo de “miasmas pantanosos” que levam ao autoritarismo, à ditadura, mesmo até ao golpe de Estado de coloração fascista!
            Dir-se-á que a confiança, ao desparecer da sociedade, deixa o português nu, sem nenhuma ilusão! – Todavia, à medida que as condições sociais e políticas se degradam, que as aparências de honestidade de Bancos, Empresas e chefes políticos deslizam comprovadamente para a fraude e, portanto, para o crime, perdendo-se assim a confiança nas suas raízes institucionais, somos levados a constatar com surpresa que o português tem horror à nudez (da verdade) social e política, preferindo entregar o seu voto, confiadamente (?) aos mesmos focos de infecção que o desiludiram anteriormente!
            Por tudo isto, mas também por uma gritante carência de educação cívica e evidente ausência de cultura democrática do cidadão eleitor, com a soma de casos provados de corrupção ao mais alto nível político (com o suplemento de provado nepotismo, abuso de poder, fraude fiscal e mentira sistemática, bem como outros crimes), Portugal não conhece um clima generalizado de desconfiança, apesar de todos os indicadores nos assegurarem que tal deveria acontecer desde há algum tempo a esta parte!
            Com Governos, que têm como uma das suas actividades principais mentir aos cidadãos, seria de encarar a limitação do domínio da confiança por parte de uma população que está sendo abandonada…
            Consequentemente, a permanência da estabilidade política tem sido muito fácil de assegurar, pese embora o descalabro geral, não por mérito dos partidos e seus quadros profissionais, mas sim graças à preguiça mental do cidadão anónimo, e à deficiente condição em que se encontra a cultura democrática de grande parte da população. Há códigos muito resistentes para exprimir ou assimilar uma influência ou situação de facto: - A palavra confiança, apesar de já não estar muito ligada à experiência vivida no Portugal dos nossos dias, representa uma referência de tranquilidade demasiado forte, nas mentalidades correntes, para ser abandonada pela sua contrária (desconfiança), que todos associamos a um mecanismo social de insegurança… Que é afinal de contas àquele que se vive, mas que poucos aceitam olhar bem de frente!   


                        

7 comentários:

  1. Está muito corrosivo,mas terrivelmente verdadeiro. Continuamos a dar o voto a quem nos engana há 30 anos e ser serve desse voto para orientar a sua vidinha e dos seus corregilionários, como dizem os brasileiros me engana que eu gosto

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    1. Modelo que nos governa há 41 anos!!
      Não esquecer que a 1ª vinda do FMI foi logo pouquinho depois do forrobodó da revolução Comunista/Socialista de 1974.

      Hoje está tudo mal a começar pela Constituição da República que é obsoleta e castra qualquer sonho aos jovens.
      Ironia das Ironias, o Partido Comunista, um dos partidos mais reacionários de toda a Europa Ocidental, há 20 anos era absolutamente contra esta constituição, e hoje é um dos seu acérrimos defensores (juntamente com o PS que acelerou a queda do país no abismo da bancarrota)

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  2. E, portanto, propõe o quê? Que desenterremos o Salazar e em esqueleto o punhamos em S. Bento a governar?
    Ou propõe que sorteemos à sorte, mediante rifas, um qualquer dos que ainda não governaram?
    Ou prefere simplesmente a facilidade e o gozo de dizer mal de tudo e de todos a eito como fazem todos os frustrados e ressabiados na vida e contribuir para o descrédito da democracia como é próprio dos anti-democratas de esquerda e de direita?

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    1. O problema é que a classe politica é tão má, fraca e incompetente, que não se vislumbra nada de bom. Por, venha o diabo e escolha e no mínimo que sejam escolhidos aqueles que possam defender a Liberdade, que afinal de contas é o bem mais preciso que foi parido com o 25 de Abril.

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  3. @08:25
    "A classe política é tão má, fraca e incompetente"
    Quando se manda uma demagogia destas está-se a atingir todos por igual, com a mentira e a ofensa.
    Nem todos são iguais, nem todos são maus.
    Dizer que os partidos do bloco central são associações de criminosos, de onde os honestos são marginalizados e expulsos, restando os criminosos e os néscios, já corresponde à verdade, havendo provas mais do que suficientes para provar que é verdade.
    É preciso dizer e repetir, com clareza, que nem todos os partidos são gatunos como os partidos do bloco central, PS/PSD/CDS.

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    1. @12:13
      Está engando

      O mesmo sucede com COMUNISTAS E BLOQUISTAS. Todos eles foram criados no aviário, e depois de receberem a cassete são lançados para a vida partidária!
      NUNCA mas mesmo nunca, sentiram na pele as agruras do dia à dia. Trabalhar a sério numa empresa que precisa de produzir para lhes pagar salários ou terem feito um sacrifício monumental para estudar e trabalhar ao mesmo tempo, era bom!
      Em especial estes da esquerda, estão convencidos que se produz alguma coisa com retórica.
      É por isso que a Esquerda não presta. Leva o tempo a descartar responsabilidades no Bloco Central, sem que nunca tenha querido assumir qualquer alternativa com responsabilidade e credível aos olhos do Povo.

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    2. trabalhar e assumir responsabilidades? isso é muito penoso! é muito melhor fazer oposição, e ganha-se o mesmo

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