domingo, 26 de abril de 2015

Gil Vicente e o Paço Real de Évora

Joaquim Palminha Silva
       


      Os salões do Paço Real de Évora, «a par de S. Francisco», de D. Manuel I a D. João III, assistiram a várias encenações de autos e farsas de mestre Gil Vicente, presumindo-se que aí tiveram lugar o Auto Pastoril Português, o Auto de Mofina Mendes, a Floresta de Enganos além da penúltima peça da carreira do autor, Romagem dos Agravados (1533).

O próprio Gil Vicente, em cena no Palácio Real d’Évora,
segundo uma aguarela do pintor Roque Gameiro.

            No decurso de cerca de trinta anos de representações em Évora, pelo menos desde 1502, a Romagem dos Agravados, que se presume tenha sido levada à cena na cidade, é a obra mais ousada de Gil Vicente. Segundo cremos, a partir de 1536 deixa de haver registo sobre a existência de Gil Vicente, porque entretanto deve ter falecido no mesmo Paço Real «a par e S. Francisco», desconhecendo-se em que parte do Palácio ou da igreja foi efectivamente sepultado.
            Na Romagem dos Agravados, em vez de fazer a crítica às figuras da sociedade exteriores ao Paço Real, Gil Vicente faz entrar na peça as figuras que estavam sentadas muito próximo do Rei, personagens até então intocáveis. A sua crítica vai mesmo mais longe, pois cita-os pelos nomes verdadeiros, demonstrando-lhe que não eram imunes.
            Mais de um investigador aponta a existência desta obra como tendo sido a causa do silêncio de Gil Vicente, pois os visados terão feito actuar as suas “capacidades” para silenciarem o “atrevido”, que se estava a tornar inconveniente.
            O Paço Real de Évora era então o local onde residia, em permanência, um corpo de gente insinuante e inatingível. Gil Vicente começa logo por nos dizer que esse perímetro é, pois, o espaço da intriga, portanto, despido de nobreza d’alma. Frei Paço, personagem simbólico da instituição real, vê concentrar-se em sua volta uma roda de figuras tocadas profundamente pela prática de todo o tipo de injustiças. Todavia, Frei Paço não está ali para investigar razões e levar a bom porto que justiça seja feita, pois sabe os seus limites. Frei Paço está ali para anotar o sucedido, registar as queixas dos que se sentem molestados pela injustiça.
            O Paço Real de Évora acolhia um número significativo e qualificado de servidores, desempenhando funções mais ou menos importantes na gestão diária do imenso e diversificado espaço. Tinha aqui, portanto, de forma definitiva ou provisória, cama, mesa e dormida um pequeno “exército”. Os que não desempenhavam funções consideradas nobres e importantes aposentavam-se em camaratas colectivas (implicando a separação dos sexos, nem sempre rigorosamente vigiada), possuindo cada qual arca própria para guardar os seus pertences. Os que desempenhavam funções mais elevadas na Corte tinham alojamentos individuais (desembargador, escrivão da Fazenda, tesoureiro-mor, confessor, camareiro, vedor, etc.), e podiam ter ao seu serviço um ou mais criados.
Pela data de produção da peça de teatro, proximidade da morte de Gil Vicente, o Paço Real que aparece nesta obra satírica, bem como no desempenho dos personagens, não nos deixa muitas dúvidas: - A fonte de inspiração da obra foi o Paço Real de Évora «a par de S. Francisco»!
Entretanto, devemos aceitar que a liberdade das expressões e conceitos empregues por Gil Vicente, não terá sofrido grandes restrições, pois o Tribunal do Santo Ofício só veio a instaurar-se no Reino, por vontade de D. João III, no ano de 1457.
Nos tempos que correm, vale a pena recordar parte (mínima) das palavras de Frei Paço:

O auto que ora vereis
Se chama, irmãos amados,
Romagem dos Agravados,
Inda que alguns achareis
Que se agravam de abastados.

Na realidade, a sua veia satírica não poupou ninguém, as “vítimas” de Gil Vicente são tão numerosas que, para as identificar social e profissionalmente, será necessário estabelecer linhas de investigação que levem a um ensaio específico.
O mais importante neste desaparecido Paço Real de Évora, de que só resta pequena parte no Jardim Público da cidade (Galeria das Damas), a que erradamente se chama «Palácio de D. Manuel», reside no facto dele ter servido de inspiração a um dos autos menos representados de mestre Gil Vicente, e não por este edifício poder ser objecto de comemoração este ano (2015), dado supostamente ter 500 anos de existência…
Pensa-se que Gil Vicente faleceu ainda ao serviço da Corte, no Paço Real de Évora (m. depois de 1536). O jornalista alentejano João Rosa (vd. Alentejo a Janela do Passado, Lisboa, 1940) garante-nos que na Igreja de S. Francisco existiram árias sepulturas de figuras notáveis e, como tal, reconhecidas na época. Segundo este autor na igreja de S. Francisco deveriam repousar os restos mortais do fundador do Teatro em Portugal e de sua mulher, Branca Bezerra. No entanto, na altura em que se fundou a denominada «capela dos ossos» (constituída provavelmente no reinado filipino), as obras terá determinado a perda da sepultura de Gil Vicente, ficando desde então desconhecido o seu paradeiro.
Diogo Barbosa Machado, na sua «Biblioteca Lusitana» (1741-1759), garante-nos que a sepultura de Gil Vicente (que dá como falecido em 1539) terá existido no corredor que liga a igreja à «capela dos ossos» …
Com obras monumentais neste momento, será útil investigar o que for possível no corpo interior da igreja de S. Francisco, tendo em vista encontrar o que resta da sepultura de Gil Vicente…

Entretanto, para além da estapafúrdia efeméride (500 anos?) do dito “Palácio de D. Manuel”, a Câmara Municipal de Évora bem poderia “convocar” o CENDREV (se não é “sobrecarregar” de “muito” trabalho este agrupamento teatral!) para levar à cena a Romagem dos Agravados, já que a cidade, para não destoar da sua desmemória tradicional, nunca se lembrou de erguer monumento (estátua) a Gil Vicente!

10 comentários:

  1. Boa lição de História.

    Quanto `"convocação" do CENDREV...coitados devem estar cheios de trabalho!
    Palpita-me que a câmara do PCP já se teria antecipado à sugestão caso o assunto fosse a "conquista da cidade de Évora pelos Mouros"

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  2. Anda uma mulher, funcionaria da camara,na Praça do Giraldo com um ASSOPRADOR COM MOTOR DE MOTORIZADA, a assoprar o lixo e pó e beatas de cigarro para cima fas pessoas como é óbvio. Eu îa a passar e tive de me desviar à pressa para não levar com terra e poeira nos olhos. Pude reparar que as esplanadas cheias de turistas estrangeiros, eram varridas com poeira e lixo para cima dos turistas. Os turistas estavam com ar estupefacto e indigandos ( via- se bem nas caras deles) e tapavam os ouvidos e os olhos para se protegerem do barulho ensurdecedor e da poeira que lhe entrava nos olhos. Eu acho que isto é uma péssima imagem para Évora e um cartao de visita que é dado aos que visitam Évora, assim como para os eborenses que não podem ter uma janela aberta ou circular sem serem agredidos com este varrer de ruas pouco ortodoxo. Limitam-se a empurrar e espalhar o lixo pelas ruas e pelo meio ambiente. Acho que quem gere a limpeza das ruas està a prestar um mau serviço à cidade. A quem de direito que proìba a utilização destas màquinas que são um martirìo para as pessoas. Obrigado.

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    1. São burros...as máquinas elétrica conduzidas com aspiração e limpeza ainda não chegaram aos serviços da câmara...aliás, com as 35 horas por semana de trabalho, as chefias não têm tempo para se inteirarem das tecnologias...

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    2. Se limpam, é porque limpam. Se não limpam, é porque não limpam...
      Quem pode ser prior numa freguesia destas?...

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    3. Oh 14.31 Chamas a isso limpar? Assoprar a porcaria para onde calha é limpar ? Entao deve ser assim que limpas a tua casa? Achas bem estarem pessoas a comer e beber numa esplanada e aparecer uma fulana com uma maquina que faz um cagaçal infernal e que levanta o lixo pelo ar,para te cair na bebida que estàs a beber ou na empada que estàs a comer ? É de uma falta de respeito impressionante para com as pessoas. Mas tu na tua parca educação achas bem. Devias ter as janelas da tua casa abertas e aparecer uma fulana destas e enfiar-te o lixo todo pela casa adentro. Assim talvez percebesses...

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  3. Évora vai ficando deserta de gente e o Palminha quer povoá-la de estátuas! Não há semana em não reclame uma para alguém por pouco que tenha a ver com a cidade! Basta que tenha passado por cá!
    E aí entra Gil Vicente que, imprevidente, se esqueceu de deixar retrato!
    E ainda bem! Para nós é uma sorte porque muito facilitará no orçamento: - deve haver por certo nos armazéns da camara alguma esquecida figura em pedra, madeira ou barro, com barba ou sem ela, na qual depois de bem escovada e limpa se possa escrever por baixo: GIL VICENTE.
    E pronto: a cidade povoa-se e o Palminha ficará contente!
    (Convém que a estátua tenha uma gola de folhos para não deixar dúvidas que é Gil Vicente ou parente dele pelo menos)

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  4. Quem acusa o CENDREV de não representar Gil Vicente, ou é ruim da cabeça, ou doente do pé.
    Neste caso é manifestamente da cabeça.
    Faz cá falta uma barca que os leve pró Inferno.

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    1. O amigo não quis ler o que o senhor escreveu.

      Falou a voz do dono

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  5. Évora està deitada ao abandono. Fingem que limpam...para inglês ver. Mas a atirarem com o lixo para cima dos camones...não os devem ter cà durante muito tempo. Mas serà que a camara se importa muito com isso? Minha rica Cidade de Évora desgovernada por gente de Montemor. Só um aparte...se o pinto de sa pouco ou nada fez por montemor que é a terra dele, como farà alguma coisa por Évora? Estamos a ter o que merecemos??? Eu não, que não votei nele!!!

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  6. O pó que atiram para cima dos turitas, faz parte de um programa da camara em atrair turistas a Évora. O pó é património mundial e os turistas ainda ficam agradecidos, pois a camara oferece-lhe esse valioso património como souvenir gràtis para levarem para os seus paises,e se forem bafejados pela sorte, ainda levarão cócó de cão nos sapatos,também muito valioso, por ser também património mundial. Também levam tudo a mal...parabéns à camara pelo excelente trabalho de atrair turismo á nossa região.

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