quinta-feira, 30 de abril de 2015

Ser Poeta…

     Joaquim Palminha Silva







(In Memoriam de Federico Garcia Lorca)


*
                  Ser poeta é viver num estado de santidade pagã!
            Não importa que tipo de poeta se seja. Desde os simples e espontâneos poetas populares, até aos sofisticados e intelectualizados “poetas de livraria e estante”: - Todos vivem esta “santidade”!
            Tal e qual os santos, os poetas não mergulham no quotidiano da mesma forma que as demais pessoas. Há neles uma certa deformidade na visão do mundo e das vidas humanas que os faz adivinhar no real a fantasmagoria, o impensável, o paradoxo e a deformidade que há na beleza convencional, e a alegria que há na tristeza…
            Todos os poetas dormem com a porta da alma aberta, sem medo dos ladrões que vivem na proximidade das letras, prontos a furtarem palavras inéditas, imagens douradas, metáforas de luz cristalina… Mas pergunte-se, fazem-no inconscientemente? – Na verdade, ninguém pode roubar a um poeta o “desastre” da sua santidade! Ninguém o inveja a tal ponto que lhe queira roubar as proximidades do abismo em que vive, da agonia que lhe é indispensável, da insegurança que lhe serve de abrigo.
            O poeta, normalmente, morre do muito uso que dá de si, poema a poema. A santidade cobra-lhe uma exorbitância de tempo de vida, dando-lhe em troca uma protecção inquietante!
            Ninguém escolhe ser poeta, tal como ninguém escolhe ser santo. – Acontece!
            O poeta nasce impregnado de poesia e envolvido nela vive, tal doença incurável que o encaixilha no mundo, desenhando-lhe sobre os olhos um véu transparente… Véu que ensopa, com o seu colorido, a paisagem que o circunda, que o faz ver o que outros não vêm.
            Desenhando-se palavra a palavra, o poeta leva algum tempo a esvair-se, porque agarrado à sua condição cismática, entorpecido pelos rasgões de luz que só ele avista na rotina deslavada, e o golpeiam em profundidade e em dor.
            Todas as cambiantes autoriza o véu, fazendo do olhar do poeta uma mágica de explosões, um desgrenhamentos de ideias, uma série de êxtases imprevistos. Há na vida do poeta um cenário irreal que a realidade admite, mas que só aos santos é possível alcançar!
            O poeta é capaz de intuições para lá da intuição dos sábios. O poeta vive na “outra banda” do mundo, e vem para o meio de nós pregar os gritos que ninguém ouve, narrar as sofridas agonias que ninguém vê, falar do futuro que ninguém sabe. O poeta aparece para nos apontar a luz amorosa que entre nós se suspende, com receio de penetrar nas entranhas da alma humana, pois esta engrossou a sua ferocidade…
            Tal qual os santos, o poeta não cessa de bater nas vidraças da banalidade, até que a noite trágica do mundo o silencia, quando por fim consegue assassinar-lhe a palavra e o canto!
            Porém, a sua voz nunca mais acaba, nasce de novo! E, num dado momento, outro poeta surge com o mesmo véu sobre os olhos para ver o que ninguém vê. – E o poeta diz outra vez tudo com um som original! – As fisionomias do amor e da morte, os objectos, a cor, a luz… A sua voz e o seu canto crescem, sem que seja culpado de aborrecer à sua volta! O que foi eco quase extinto aumenta, tornando-se clamor, chamando os homens e as mulheres para a alegria da vida…
            Ser poeta é estar possuído por uma santidade pagã… E, em vida, pagar caro por isso!

Federico Garcia Lorca (1898-1936)

Preso e assassinado (18 de Agosto de 1936) pelos falangistas do ditador Francisco Franco, durante a guerra civil espanhola (1936-1939), o seu desaparecimento tem sido objecto de inúmeras especulações, pois nunca foi encontrado o corpo do poeta e dramaturgo. Bastante embaraçado com o trágico acontecimento, certa vez, o próprio general Franco (1936-1975), apenas admitiu que o escritor havia morrido «misturado com os revoltados», acrescentando, com a hipocrisia que o caracterizou, que tal não passou de um dos «acidentes naturais da guerra».
Oficialmente nada se sabia sobre os últimos momentos de Federico Garcia Lorca, o que não obstou que historiadores e biógrafos especulassem sobre o que deverá ter sucedido. Por esta razão, no passado dia 23 de Abril, após anos de apertos e angústias adensando o mistério, o «site» de grande informação eldiario.este e a rádio «Cadena SER» revelaram a existência de documentação, até então conservada secreta, onde o regime de ditadura de Francisco Franco “confessa” a autoria do crime!
Entre outras declarações, o documento secreto diz com crua frieza (conservamos a ortografia espanhola) : «Sacado por fuerzas del Gobierno Civil en las immediaciones de lugar conocido como “Fuente Grande”, fue passad por lar armas después de haber confessado, siendo enterrado en aquel paraje», lugar vizinho de Granada. Adiante, o texto da comunicação secreta do governo franquista, avança com as razões que estiveram na origem do assassínio (por fuzilamento) do autor de Romanceiro Cigano (1928), «Estaba tildado de prácticas de homosexualismo [sic] y estaba conceptuado como socialista».
Entretanto, iniciaram-se buscas arqueológicas para encontrar o corpo do poeta que, estou em crer, a Espanha honrará dando-lhe por fim o descanso eterno!   


quarta-feira, 29 de abril de 2015

À atenção dos consumidores de gás Natural, domésticos ou industriais.


Há uma reunião da Assembleia Municipal de Évora (dia 30 de Abril, às 21 horas) se comparecermos em peso na dita reunião Poderemos perguntar a razão sobre o aumento de 500% da TOS (taxa de ocupação de subsolos). A Galp diz-nos que isso depende da diretiva 12/2014 que impõe esse valores brutais e que foi aprovado pela assembleia Municipal de Èvora. Será uma oportunidade de confrontarmos os nosso eleitos sobre a verdade.
Compareçam todos os que (se) sentem lesados.

Anónimo28 abril, 2015 22:11

terça-feira, 28 de abril de 2015

Nova exposição de cerâmica é hoje inaugurada no Museu do Artesanato e do Design de Évora


Évora: hoje na Soir, às 21,30H


Há lobos sem ser na serra
Cantares do Sul e da Utopia

Hoje na S.O.I.R em Évora pelas 21h30, apareçam... — com Buba Espinho, Cristina Viana, David Pereira e Tó Zé.

Recordar António Gancho esta terça-feira na Sociedade Harmonia Eborense


3.ª feira 28 Abril. 22h15. 


Hoje, 3.ª feira, estão de volta à Sociedade Harmonia Eborense as Tertúlias de Sofá.
A conversa fluída e informal volta aos sofás da SHE.

Em Abril é um poeta eborense que nos dá as palavras – António Gancho, reconhecido como "revelação sólida da poesia". O homem enigmático que viveu quase toda a sua vida em instituições psiquiátricas e dizem, morreu a rir.
Para aguçar o apetite - o primeiro parágrafo de "As dioptrias de Elisa":
«Elisa não podia casar. As dioptrias de Elisa eram muito grandes. Na vista esquerda tinha 16 dioptrias e na direita 13. Tinha miopia e astigmatismo. Era míope. Mas esbelta, gorda, no entanto engraçada. Luís é que a pretendeu, andou atrás dela e casou com ela. Mas toda a gente dizia que Elisa não podia casar, era muito míope. Só Luís conhecia os seus sentimentos, a sua esbelteza em mulher gorda e forte, a levou para a cama e casou com ela. Luís dizia enquanto namoraram - «Eu quero-te Elisa, porque te amo muito.» Elisa aceitava e respondia, - «Luís, mas sou muito míope.» (...) Era em Évora que se passava a acção, era em Évora que isto se dava».

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Tiago Cabeça sempre de resposta afiada...

PCP convida Zé Pevide para falar de Cultura(*).


aumentar para ler

*Autarca não pode ir mas manda representante com telegrama:

"Bom dia
O convite é muito simpático teria muito gosto em participar.
Mas estou aqui ocupado a tentar evitar que, pela Vossa mão, se afunde este projecto, classificado de interesse cultural, que a fazer daqui a mês e meio 4 anos e a custo zero para o município, apesar da crise (e bastante custo profissional e pessoal para mim) trouxe a uma vila de 4 mil habitantes mais de 40 mil visitantes (Que pagam entrada! Originalidade casmurra e única que impus no artesanato de autor português) e que desde a falta de estacionamento, sinalética, taxas de esgotos, proibição de colocar cartazes e canalizar mais visitantes e olímpica indiferença do município…
- Vezes que nos telefonaram em quatro anos a perguntar se precisávamos de alguma coisa? Zero.
- Referências na informação institucional e turística do concelho em quatro anos? Zero.
- Respostas às nossas propostas de promoção e divulgação conjunta em quatro anos? Zero.
… cá se vai aguentando.
E aguentar-se-á… Até que termine o prazo da fidelização. Depois a gente logo vê…
Mas não quero parecer mal agradecido: Obrigado pelas 8 manilhas, que nós tivemos de colocar na via publica para desviar as chuvas, e pela caixa de folhetos que distribuíram no Posto de Turismo de Arraiolos.
Entretanto vamos mantendo este nosso naco de Cultura como vocês (e todos os outros como vós, aliás) gostam:
Pobrezinha e agradecida.
Cumprimentos:


Zé Pevide

Presidente da Junta de freguesia da Aldeia mais contestatária de Portugal

(Pela mão de Tiago Cabeça, o porteiro)"

* A Câmara de Arraiolos é CDU desde o 25 de Abril.

domingo, 26 de abril de 2015

Gil Vicente e o Paço Real de Évora

Joaquim Palminha Silva
       


      Os salões do Paço Real de Évora, «a par de S. Francisco», de D. Manuel I a D. João III, assistiram a várias encenações de autos e farsas de mestre Gil Vicente, presumindo-se que aí tiveram lugar o Auto Pastoril Português, o Auto de Mofina Mendes, a Floresta de Enganos além da penúltima peça da carreira do autor, Romagem dos Agravados (1533).

O próprio Gil Vicente, em cena no Palácio Real d’Évora,
segundo uma aguarela do pintor Roque Gameiro.

            No decurso de cerca de trinta anos de representações em Évora, pelo menos desde 1502, a Romagem dos Agravados, que se presume tenha sido levada à cena na cidade, é a obra mais ousada de Gil Vicente. Segundo cremos, a partir de 1536 deixa de haver registo sobre a existência de Gil Vicente, porque entretanto deve ter falecido no mesmo Paço Real «a par e S. Francisco», desconhecendo-se em que parte do Palácio ou da igreja foi efectivamente sepultado.
            Na Romagem dos Agravados, em vez de fazer a crítica às figuras da sociedade exteriores ao Paço Real, Gil Vicente faz entrar na peça as figuras que estavam sentadas muito próximo do Rei, personagens até então intocáveis. A sua crítica vai mesmo mais longe, pois cita-os pelos nomes verdadeiros, demonstrando-lhe que não eram imunes.
            Mais de um investigador aponta a existência desta obra como tendo sido a causa do silêncio de Gil Vicente, pois os visados terão feito actuar as suas “capacidades” para silenciarem o “atrevido”, que se estava a tornar inconveniente.
            O Paço Real de Évora era então o local onde residia, em permanência, um corpo de gente insinuante e inatingível. Gil Vicente começa logo por nos dizer que esse perímetro é, pois, o espaço da intriga, portanto, despido de nobreza d’alma. Frei Paço, personagem simbólico da instituição real, vê concentrar-se em sua volta uma roda de figuras tocadas profundamente pela prática de todo o tipo de injustiças. Todavia, Frei Paço não está ali para investigar razões e levar a bom porto que justiça seja feita, pois sabe os seus limites. Frei Paço está ali para anotar o sucedido, registar as queixas dos que se sentem molestados pela injustiça.
            O Paço Real de Évora acolhia um número significativo e qualificado de servidores, desempenhando funções mais ou menos importantes na gestão diária do imenso e diversificado espaço. Tinha aqui, portanto, de forma definitiva ou provisória, cama, mesa e dormida um pequeno “exército”. Os que não desempenhavam funções consideradas nobres e importantes aposentavam-se em camaratas colectivas (implicando a separação dos sexos, nem sempre rigorosamente vigiada), possuindo cada qual arca própria para guardar os seus pertences. Os que desempenhavam funções mais elevadas na Corte tinham alojamentos individuais (desembargador, escrivão da Fazenda, tesoureiro-mor, confessor, camareiro, vedor, etc.), e podiam ter ao seu serviço um ou mais criados.
Pela data de produção da peça de teatro, proximidade da morte de Gil Vicente, o Paço Real que aparece nesta obra satírica, bem como no desempenho dos personagens, não nos deixa muitas dúvidas: - A fonte de inspiração da obra foi o Paço Real de Évora «a par de S. Francisco»!
Entretanto, devemos aceitar que a liberdade das expressões e conceitos empregues por Gil Vicente, não terá sofrido grandes restrições, pois o Tribunal do Santo Ofício só veio a instaurar-se no Reino, por vontade de D. João III, no ano de 1457.
Nos tempos que correm, vale a pena recordar parte (mínima) das palavras de Frei Paço:

O auto que ora vereis
Se chama, irmãos amados,
Romagem dos Agravados,
Inda que alguns achareis
Que se agravam de abastados.

Na realidade, a sua veia satírica não poupou ninguém, as “vítimas” de Gil Vicente são tão numerosas que, para as identificar social e profissionalmente, será necessário estabelecer linhas de investigação que levem a um ensaio específico.
O mais importante neste desaparecido Paço Real de Évora, de que só resta pequena parte no Jardim Público da cidade (Galeria das Damas), a que erradamente se chama «Palácio de D. Manuel», reside no facto dele ter servido de inspiração a um dos autos menos representados de mestre Gil Vicente, e não por este edifício poder ser objecto de comemoração este ano (2015), dado supostamente ter 500 anos de existência…
Pensa-se que Gil Vicente faleceu ainda ao serviço da Corte, no Paço Real de Évora (m. depois de 1536). O jornalista alentejano João Rosa (vd. Alentejo a Janela do Passado, Lisboa, 1940) garante-nos que na Igreja de S. Francisco existiram árias sepulturas de figuras notáveis e, como tal, reconhecidas na época. Segundo este autor na igreja de S. Francisco deveriam repousar os restos mortais do fundador do Teatro em Portugal e de sua mulher, Branca Bezerra. No entanto, na altura em que se fundou a denominada «capela dos ossos» (constituída provavelmente no reinado filipino), as obras terá determinado a perda da sepultura de Gil Vicente, ficando desde então desconhecido o seu paradeiro.
Diogo Barbosa Machado, na sua «Biblioteca Lusitana» (1741-1759), garante-nos que a sepultura de Gil Vicente (que dá como falecido em 1539) terá existido no corredor que liga a igreja à «capela dos ossos» …
Com obras monumentais neste momento, será útil investigar o que for possível no corpo interior da igreja de S. Francisco, tendo em vista encontrar o que resta da sepultura de Gil Vicente…

Entretanto, para além da estapafúrdia efeméride (500 anos?) do dito “Palácio de D. Manuel”, a Câmara Municipal de Évora bem poderia “convocar” o CENDREV (se não é “sobrecarregar” de “muito” trabalho este agrupamento teatral!) para levar à cena a Romagem dos Agravados, já que a cidade, para não destoar da sua desmemória tradicional, nunca se lembrou de erguer monumento (estátua) a Gil Vicente!

sábado, 25 de abril de 2015

sexta-feira, 24 de abril de 2015

DA desta semana


Parece a propaganda do governo a dizer que o país está melhor...


Em reunião pública de 22 de abril
Câmara de Évora aprovou Prestação de Contas de 2014

O Executivo do Município de Évora aprovou os documentos de Prestação de Contas referentes a 2014 e respetiva Aplicação do Resultado Líquido do Exercício e o seu envio à Assembleia Municipal com quatro votos favoráveis (CDU), uma abstenção (PSD) e dois votos contra do PS, que justificou o seu voto por alegadas discrepâncias e imprecisões nos documentos que não foram alvo de análise posterior como solicitado.
Nesta Prestação de Contas - a principal documentação técnica e política que sintetiza e descreve a atividade desenvolvida pelo Município - destaca-se, entre outras melhorias, a diminuição da dívida global e a redução do déficit nos resultados operacionais.
Não obstante a existência de um conjunto de condicionantes que incluem o agravamento da crise económica e social do País; a situação de falência técnica em que a gestão atual encontrou o Município de Évora; as imposições do PAEL; e a retirada ao Município de verbas e restrições impostas pelo OE/2014, na Prestação de Contas/2104 verificam-se já vários indicadores bastante positivos de que o Presidente da Câmara Municipal, Carlos Pinto de Sá, deu conta nesta reunião.
Tais indicadores estão relacionados com o início do reequilíbrio económico e financeiro do Município, que apresenta as seguintes reduções: dos compromissos globais (em 2,644 milhões de euros); do prazo médio de pagamento (em 120 dias); da dívida global (em 10,8 milhões de euros); do desequilíbrio orçamental (em 47,8%) e do saldo negativo (em mais de metade, 53,9%); dos resultados operacionais negativos (em 40,5%) e dos resultados líquidos negativos em (42,3%).
Destacam-se ainda investimentos de significativo valor só possíveis devido a intervenção camarária como a requalificação da Escola André de Resende; a incubadora de empresas Évora Tech; e a disponibilização de 40 novos fogos de habitação social. Outros investimentos cuja Câmara ajudou a implementar são a expansão da EMBRAER; a construção do Hotel Vila Galé e do hotel no antigo Centro Comercial Eborim; a conclusão do parque fotovoltaico da GLINTT; o PCTA (já com 28 empresas) e a instalação da CAPGEMINI.
Na sua intervenção sobre a Prestação de Contas, o Presidente recordou ainda uma série de realizações concretizadas a nível das opções programáticas, concluindo que foram atingidos os principais objetivos apresentados para 2014, finalizando com uma palavra de agradecimento a todos os envolvidos neste trabalho.(nota de imprensa da CME)

25 de Abril na Praça do Giraldo com Uxia e João Afonso (às 22HH)


Programa completo em www.cm-evora.pt

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O regresso da barrasquice?


Joaquim Palminha Silva
  Não quisemos agredir a gestão política da Câmara Municipal de Évora (CME), dando-lhe a camaradagem das tabernas… Antes pelo contrário. - Na quadra festiva que se avizinha (Santos populares e Feira de S. João), gostaríamos de lhe sugerir a convivência das festividades salutares e do renovado carinho pelo património construído, “coisas” que podem alimentar princípios cívicos no seio da alegria colectiva, deixando espaço para o desfrute de novas e originais ideias… Porém, torna-se-nos inútil insistir…
        Publicado na imprensa local, entre outras informações, diz o comunicado da reunião da CME de 15/4/2015, referindo-se às tabernas que chama de “tasquinhas”, talvez para as tornar mais aceitáveis e menos besuntas face ao público: «O Espaço das Tasquinhas funcionará na Horta das Laranjeiras, no Jardim Público e no Espaço Muralhas […]», e adiante informa-nos que a CME criou um «grupo de trabalho que reúne técnicos de vários serviços» … com o objectivo de «aumentar o número de tasquinhas» … Por isso, quem procura a camaradagem das tabernas é a CME, cujo número promete aumentar, não somos nós que empurramos a Autarquia para os braços de Baco… nem promovemos o retorno da anedótica boutade, tão usada pela “direita” nos tempos “gloriosos” do PREC que, gracejando para denegrir, falava da “esquerda” e da sua “via alcoólica para o socialismo”!
                A decisão da CME de acamaradar com um “auspicioso” aumento do número de tabernas é de uma desmesurada insignificância… - Podem dizer-me…
Mas eu pergunto: não são desventurosas as provas que o executivo da CME dá da sua ilustração, promovendo a invasão do Jardim Público por hordas de ébrios, proporcionando a rega das plantas com o vomitado dos trogloditas; numa palavra, reduzir o pobre Jardim, já de si tão abandonado e de empedrado destruído aqui e ali, a um vazadouro de lixo e dejectos humanos?
Não pode ser sina desta cidade ver-se publicamente ultrajada por todo o político de profissão, mais ou menos desatinado e sem “maneiras” que, encontrando uma maioria favorável ao desvario, desata a maltratar o património construído, a pretexto de que as “tasquinhas” servem para «apoio do movimento associativo»!
Prodigalizada a venda abundante de álcool, “tasquinha” a “tasquinha”, com maior ou menor petisco, está garantida a “salutar” vida associativa, sem obscenidades e com abundância de civismo por uma pá velha: - E quem disser o contrário é mentiroso!
E entramos nos finalmente, como dizem os nossos irmãos brasileiros… Para rematar o conjunto festivo de S. João, a jovialidade autárquica irá providenciar, de certeza absoluta, à dependura da parede granítica do Jardim Público, a monumental e escusada escadaria… Enfim, se tudo isto não é o retorno da barrasquice, para nos conservarmos no campo das exagerações e dos desarrazoamentos, só falta pedir emprestada a Valverde a estátua terrífica do Giraldo e, numa decisão “histórica”, voltar a coloca-la à entrada da Feira, onde já esteve nos anos 40/50 do séc. XX! Alea jacta est !


Carta aberta a Beatriz

(A propósito do Sony World Photography Awards, ganho por uma jovem eborense)

Cara Beatriz, hoje é o dia em que uma multinacional te vai entregar um prémio por uma fotografia que conseguiste num momento particularmente feliz.
Como a coisa tinha um carácter internacional, eram muitos os concorrentes e tu apenas tens 15 anos, cá pelo burgo deram visibilidade ao teu feito com entrevistas, reportagens e convites para participares em programas de televisão.
Gostei de ler e ouvir o que foste dizendo acerca de como congelaste aquele pedacinho de tempo, de como viste para além do enquadramento, da luz, da cor, da velocidade e de outros pormenores técnicos,
Gostei da forma como não te esqueceste de referir o papel do teu pai e a herança do teu avô, de como fugiste de expressões como sucesso ou orgulho e como colocaste a tónica num futuro que passa por coisas diferentes, quando o mais fácil seria o encantamento pelo momento e lá te sairia a expressão, “quando for grande quero ser fotógrafa”.
Num mundo em que há quem venda a alma ao diabo por cinco minutos de fama e em que milhares de jovens fazem fila para participar em concursos televisivos de conteúdos inenarráveis, foste capaz de afastar respostas óbvias, considerações que todos esperam e projecções de futuro igualmente óbvias.
Mal te conheço e não me deveria atrever a sugerir-te seja o que for, mas ainda assim deixa-me lá dizer-te que gostaria que olhasses para este momento, que pode ser irrepetível, como um espaço temporal de reflexão sobre como nos queremos relacionar com os outros, como queremos contribuir para a luta por um outro mundo.
Gostaria que fosses capaz de entender que aquele momento que registaste e que te permitiu este reconhecimento público, só foi possível pela argúcia do teu olhar, pelos conhecimentos técnicos que foste adquirindo, pela ambiência familiar e pela sorte de estares no sítio certo e porque fotografaste o Alentejo.
Não o Alentejo das paisagens bucólicas ou do património construído, mas o Alentejo da memória do trabalho, da solidariedade, da coragem e tenacidade que permitiu resistir à exploração, cantando em colectivo.
Gostaria que, quando mais tarde olhasses para esta fracção da tua vida, sentisses orgulho por teres sabido captar aquele momento único e tivesses consciência de que até o gesto mais individual, como fazer disparar o obturador de uma máquina fotográfica, resulta da conjugação do trabalho colectivo,
Sei que logo à noite, em Londres, quando receberes o prémio que reconhece um momento genial, não te irás lembrar de nada disto, mas tenho a esperança que te lembres mais tarde.
Poderia dar-te os meus parabéns pelo prémio alcançado, mas seria vulgar. Prefiro dar-te os parabéns pelo facto de teres dito a quem representa um programa de televisão “a essa hora não posso, porque tenho aula de matemática”.
É que a cerimónia de hoje à noite tem a ver com algo que fizeste, a tua resposta à produtora televisiva tem a ver com o que és.

Eduardo Luciano (crónica na rádio diana)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

E se?....


1. A CME cobra uma taxa (global) à Dianagás, cujo cálculo julgo ser feito em função da extensão das redes na via pública.
2. A Dianagás subdivide essa taxa global, cobrando a cada consumidor um valor parcial, cuja fórmula de cálculo desconheço.
- Será que divide a taxa da câmara de forma igual pelos consumidores?
- Será uma proporção do consumo?
- Será função da extensão dos ramais de cada um na via pública?

Pelos vistos nenhum consumidor sabe...

6. E, se a Dianagás construir redes sem consumidores ou se perder clientes, serão os consumidores que ficam a pagar toda a factura?
7. Acaso sabe que critérios usa a Dianagás para fazer o cálculo da TOS que inclui na factura?
8. Acaso sabe quanto recebe a Dianagás de todos os consumidores e quanto paga à CME? Serão valores iguais, ou a Dianagás está a ganhar dinheiro com a "taxa"? Quem controla estas contas?...

Não sabe, pois não?
Ora tente perguntar-lhes ou peça que lhe mostrem as contas... Vai ver que resposta obtém.

Quer um conselho: queixe-se da Dianagás e/ou CME, para a Provedoria da República, já que a Entidade Reguladora (que devia ser a entidade de controle dos procedimentos e de defesa dos cidadãos) não passa de uma palhaçada... paga pelas empresas!...

Anónimo

Gás natural: Câmara de Évora e Governo, é hora do saque meus senhores.

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Recebi hoje, como recebo todos os meses, a factura do gás natural e o roubo é cada vez mais descarado. Numa factura em que o gasto em gás é de 30,81 euros a Taxa de Ocupação do Subsolo, cujo valor reverte na íntegra para o município de Évora, é de 10,94 euros. Ou seja, cerca de um terço do valor do gás efectivamente consumido. Eu já pago um IMI exorbitante cujas receitas vão para a Câmara, pago as taxas municipais de saneamento e de recolha de lixo, a conta cada vez mais aumentada da água e sou obrigado a pagar a passagem das canalizações de gás nas ruas da minha cidade. Sou o "pato" que depenam em vida e a quem dizem que estão a cortar nas "gorduras".
Percebo que a Câmara de Évora (como o estado português) esteja sem um centavo e que queira arrecadar todo o dinheiro que seja possível. Mas assim, deste modo, apenas à custa do cidadão contribuinte, não é possível. A força política que está na Câmara (PCP) acusa o Governo (PSD/CDS) de estar a fazer um saque sobre os contribuintes. Eu acuso a Câmara de Évora por ter a mesma atitude e por tentar branquear este facto simples: bastava anular a cobrança da TOS para que todos deixássemos de pagar (é o que fazem dois terços das Câmaras deste país com gás canalizado).
Este é dinheiro que vai directamente para a Câmara e é um absurdo. Não estamos a falar de tostões: todos os meses a Câmara de Évora extorque aos seus munícipes, consumidores de gás canalizado, dezenas  (centenas?) de milhar de euros. O que a juntar aos impostos que o governo nos extorque faz com que todos sejamos vítimas de uma dupla extorsão: da parte da Câmara por essa taxa iníqua (que se devia repercutir sobre as empresas e que atinge apenas o cidadão) e da parte do Governo pelo IVA que onera em 23 por cento o gás que é um bem de primeira necessidade para milhares de portugueses e eborenses.
Bem pode a Câmara de Évora fazer comunicados a dizer que a culpa é da GALP (também tem devido ao elevado preço a que vende o gás, mas isso são contas doutro rosário), quando todos sabemos que é ela, a CME, que arrecada o dinheiro. E que quanto mais parte tiver no “bolo” melhor será para ela e, melhor ainda, se o “odioso” recair em alguém. Mas neste caso é, por demais óbvio, que quem vai arrecadar a minha taxa de TOS (e a de todos os eborenses) é a Câmara de Évora, a quem bastaria decidir que no concelho não há TOS para ninguém ou que a taxa iria para o mínimo.
Assim, está demais à vista do que trata: Câmara de Évora e Governo, estamos aqui mesmo a jeito, por isso, é hora do saque meus senhores.


Joaquim Augusto Matos (por email)

Fragmentos…

Joaquim Palminha Silva
Em tempos recuados, foi sentido como nunca aquilo que Pico della Mirandola (1463-1491) chamava dignitas hominis, enquanto agora o impulso bárbaro e inclassificável, mais baixo do que todas as maldades que envergonham a Humanidade, surgiu inesperadamente no estreito da Sicília, a bordo de uma arruinada embarcação carregada de pobres e miseráveis norte-africanos, que clandestinamente demandavam a Europa. – Um grupo desses miseráveis, a quem o fanatismo de raiz islâmica roubou a paz de espírito, atirou às águas do Mediterrâneo, com o objectivo de os assassinar por afogamento (o que foi conseguido), um grupo de outros miseráveis que os acompanhava, pela simples razão de que eram cristãos!
Se isto não tivesse acontecido, talvez os indiferentes que dominam a União Europeia, os comissários impassíveis e astuciosos, os ateus praticantes, sobre quem a nossa sofrível indulgência costuma recair; dizia, talvez continuassem a praticar o seu materialismo triunfador sem peso na consciência… - Mas agora, depois deste testemunho sobrevivente de séculos bárbaros e de misérias sem classificação, o exercício do Poder político na União Europeia tornou-se cúmplice indirecto, por negligência calculada e por todos os países consentida, destes testemunhos sobreviventes de passados séculos de escravidão sangrenta e de civilizações renegadas, anti-cristãs.


*
            O Rei Lear (de Shakespeare), velho e completamente demente, fala à filha da existência de vigias de Deus, o que só prova a sua loucura dado que Deus, tendo criado o Universo e sendo omnividente, não precisa de enviar vigias para o planeta, para que depois lhe façam o relato de como na Terra, os seus habitantes, lhe procuram desfazer a obra!

*
            Todavia, há pessoas que revelam aos distraídos e aos indiferentes aspectos inobservados da realidade, bem como a relação misteriosa entre seres, pensamentos e acontecimentos, tanto benignos como malignos. Neste sentido, estas pessoas podem ser consideradas «vigias do mundo». Às vezes, podemos imaginar surpreender aqui e além um pormenor, um facto que julgávamos para sempre recolhido na petrificada barbárie de passados milénios…
            Não é verdade que tudo já tenha sido dito; que tudo o que havia a escrever tenha sido escrito; que todas as imagens que convinha guardar tenham já sido registadas pela pintura, pela fotografia e pelo cinema. Na Natureza e na História da Humanidade há ainda muitos ângulos por iluminar, muitas questões por esclarecer, muita indiferença por explicar…

            O carácter fragmentário do mundo, apesar da globalização, apresenta muitas correspondências de diversos egoísmos, que nem sequer são vizinhos… Os «vigias do mundo» não descobrem tudo quanto desejariam para emenda dos homens, mas sobre a essência e a aparência da barbárie actual, que encarcera no mal e suja de iniquidade o século XXI, isso tem sido revelado todos os dias… 

terça-feira, 21 de abril de 2015

O 'comboio do cante' leva mais de 600 cantadores da zona de Lisboa para a Ovibeja


A 32ª Ovibeja vai ser de homenagem ao Cante Alentejano sendo que, das mais de duas mil pessoas que vêm cantar à feira, mais de 600 vão chegar no “Comboio do Cante”.
Sob o lema “O Nosso Cante” vão ocorrer várias iniciativas durante todos os dias da feira, de 29 de Abril a 3 de Maio. O ponto alto da homenagem ao Cante acontece no dia 2 de Maio, sábado, em que vão entrar na Ovibeja mais de dois mil cantadores, de 105 grupos corais, para ecoarem em uníssono 5 modas. Os cantadores provenientes da zona da grande Lisboa vem no “Comboio do Cante” que vai transportar entre Lisboa e Beja mais de seis centenas de pessoas numa parceria entre a CP – Comboios de Portugal e a Comissão Organizadora da Ovibeja. O Comboio é fretado exclusivamente para o Cante na Ovibeja e parte da primeira estação, Lisboa Oriente, às 07h50, vai parando nas várias estações e tem chegada prevista a Beja por volta das 11h00.
O cante partilhado entre todos os homens e mulheres com raízes no Alentejo acontece às 16h00, no Pavilhão Multiusos, e tem como alinhamento “Alentejo, Alentejo”; “Dá-me uma gotinha de água”, “Ao passar a ribeirinha”, “Castelo de Beja”, e “Alentejo és nossa terra”. (Nota de imprensa)

Pergunta de algibeira (tipo 'onde está o wally?'): qual vai ser a decisão da CME? Venda ou não dos terrenos? Aceitam-se apostas!




Empreendimento Comercial na Porta de Aviz: Câmara reúne com população

A Câmara Municipal de Évora promoveu esta segunda-feira à noite, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, mais uma audição sobre a intenção de um empreendimento comercial na zona da Porta de Aviz, desta vez com a população, na sua grande maioria residentes na zona
Cerca de cinco dezenas de pessoas marcaram presença e manifestaram apreensões e concordâncias.
Durante a sua intervenção, o Presidente da Câmara Municipal de Évora, Carlos Pinto de Sá, fez uma breve explicação sobre o que estava em causa, referindo-se especificamente à parcela de terreno cuja propriedade pertence à edilidade e que a câmara terá de decidir se vende ao promotor, viabilizando ou não, a edificação neste local.
O autarca referiu, no entanto, que caso a “Câmara decida pela não venda, tal não inviabiliza a possibilidade do promotor concretizar o projeto noutro terreno”. A vantagem, esclarece o autarca, prende-se com o facto de “se vendermos poderemos impor algumas condições no caderno de encargos e a cidade tirará mais dividendos, se a decisão for no sentido contrário a câmara perde a pouca capacidade de intervenção que já tem nesta matéria”.
A decisão a tomar pela Câmara deverá ser anunciada no final do mês de Abril. (nota de imprensa da CMÉvora)

The show must go on

Foi uma semana difícil, a que passou, porque eu perdi uma amiga e nós, na cidade de Évora, perdemos alguém que era detentora de um imenso saber. Não me era nada familiarmente, nem sequer íntima ou até “chegada” no relacionamento fora do contexto de trabalho em que tantas vezes, fora de horas, nos encontrámos. E por isso, também, me sinto à vontade para exteriorizar o que sinto, assim de forma tão pública.
A Ludovina foi a pessoa que me apresentou à carta ética da administração pública. Até porque a tinha afixada, para quem a quisesse ler, no serviço em que trabalhava. Fazia-o com essa certeza de quem cumpre e nada tem a esconder. E também porque a queria ver cumprida por todos quantos ali entrassem nessa condição, que também era a sua e que tão exemplarmente desempenhou, de funcionária pública.
E depois partiu o meu Ministro, o que também me voltou a entristecer. Sou de opinião que foi dos governantes que durante a minha vida enquanto estudante e depois professora e investigadora de facto assumiu, na área da educação e da ciência, essa função de servir, que é o que significa literalmente um ministério, o interesse público. Como lho ouvi dizer, “quis levar a ciência para a rua, a experimentação para a escola e a argumentação científica para os debates da sociedade e para a política”.
Estas perdas lembraram-me a expressão the show must go on, popularmente imortalizada por quem, com uma morte anunciada, ainda cantou as palavras àqueles amigos que já se preparavam para chorar a sua partida. Uma expressão que é um alento para que quem sobrevive aos que partiram continue a viver a vida, e não apenas a sobreviver, até em sua memória. O Shakespeare também disse, mais ou menos assim, que o mundo inteiro era um palco e que todos os homens e mulheres não passavam de meros actores, que entram e saem de cena. A fama, sabiam-no eles os famosos, não leva à imortalidade. Mas a memória, digo-o eu, honra os que partiram e nós amamos, nas diferentes formas de amar que a amizade conjuga.
Choramos os nossos mortos e nesse chorar não estão eles mas estamos nós. Choramos e isso alivia-nos, ou não, mas a eles, aos que partiram, já de nada lhes serve. Ainda assim continuemos a chorar, sim, porque isso é de Homem, com maiúscula. Mas depois de chorar, teremos de continuar a rir, a lutar, a exigir, a zangarmo-nos, a aprender, a ensinar, e a amar a vida que é o que eles, os que partiram, já não podem fazer.
Hoje vou ficar-me por aqui e vou ali respirar. E faço-o hoje, também, não só porque tenho de o fazer para viver, mas também pela minha amiga. The show will go on.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na Rádio Diana)

O Centro Comercial junto às Portas de Avis


Os Centros Comerciais para mim são um "Não Lugar". Não sou fã de cidades perfeitas, com temperatura perfeita, pavimento perfeito, estacionamento perfeito, com todas as lojas iguais umas às outras e onde se cruzam milhares de seres embonecados que participam na feira das vaidades, como se as suas vidas fossem também elas perfeitas! Não sendo por isso adepta de Centros comerciais (admito já que também já entrei em meia dúzia) pareceu-me que deveria assistir às reuniões à volta da construção do Centro Comercial às Portas de Avis. Estava quase certa da minha oposição a esta construção, mas pelo sim pelo não fui escutar o que tinham a dizer os autarcas, os comerciantes e os cidadãos desta cidade. Poderia ser que alguém me desse um argumento que fizesse mudar a minha opinião. 3 reuniões depois continuo a pensar o mesmo. Évora, não vai conseguir sobreviver a um Centro comercial às portas da cidade. Porque essa coisa de me dizerem que se irão fazer ligações entre o centro comercial e o centro histórico e com isso o dinamizar, não cola. Quem vai ao Centro Comercial vai passear, esgota ali as horas de passeio e terminada a visita pega no carro e vai embora, não vai depois à Praça do Giraldo. Esqueçam lá isso! Mas também, não pega a questão dos empregos que vai trazer para o concelho, também este argumento cai por terra, os centros comerciais tem emprego precário, com contratos mínimos e rodam as pessoas como se fosse um rodízio, sem horários, sem horas extras, sem direitos. Um tipo de emprego que não posso defender! A questão das lojas ancora, razão apontada por muitos para a construção do Centro Comercial, sendo a que melhor se aguenta, só o faz se der lucro. Para estas grandes cadeias o dinheiro é que manda, se um semestre for mau, fazem as malas e rumam para outro lado. Não tem ligações afectivas, nem se importam de deixar elefantes brancos para trás! Por isso também esta cai por terra! Por fim, a questão dos eborenses, esses que se existisse um referendo sobre o tema iriam em grande numero votar no Centro Comercial, por acharem que precisam dele para as suas compras, depois de construído continuariam a ir ao Montijo e a Almada, arranjando uma outra desculpa para não o fazerem na cidade, é uma questão cultural já velha e que dificilmente se resolve. É uma espécie de síndroma que afecta esta cidade em quase todas as áreas, bom mesmo é o que existe nas terras lá perto de Lisboa ou mesmo na capital. Por tudo isto e umas coisas mais, que deixarei para uma próxima altura, continuo convencida que um Centro Comercial, às portas de Avis, na Zona Industrial ou em qualquer outro lugar desta cidade é um erro grave, que nos sairá muito caro um dia mais tarde. O que posso fazer contra isso? Nada, mas aqui fica o registo de que não concordo! Só para terminar...nesta altura por toda a Europa se estão a fechar os Centros Comerciais e as lojas, as ancora e as outras, estão a regressar aos Centros das Cidades, talvez seja bom pensar um pouco nisto e deixar de pensar que o Centro Comercial é uma inevitabilidade, se calhar não é!

Lurdes Nobre (aqui)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Centro (Comercial ou Histórico?)

Hoje, pelas 20h30, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Évora decorrerá uma audição aberta a toda a população sobre a intenção da construção de um empreendimento comercial, vulgo Centro Comercial, na zona da Porta de Aviz. Convido todos os ouvintes a estarem presentes e a procurarem esclarecer as suas dúvidas.
Julgo que todos teremos muitas… Apesar de já ter sido promovida uma primeira ronda de reuniões com os partidos e uma audição aos comerciantes e empresários locais, continuam a persistir muitas dúvidas. Procurarei, nesta crónica, expor os dados que foram possíveis recolher, mas também deixar algumas questões.
Porque se coloca a questão da possibilidade da construção de um Centro Comercial na Porta de Aviz? Segundo o executivo, porque um conjunto de promotores propôs à Câmara Municipal de Évora a compra de terrenos municipais, naquela zona, para a execução da obra.
Pode a Câmara Municipal proibir a implantação de um Centro Comercial? Não. O poder de licenciamento não está nas mãos do poder local. Ainda assim, sobre este empreendimento em específico a decisão de não vender os terrenos inviabilizará o projecto. Além de que, caso o executivo tome a decisão política e conclua que a promoção deste tipo de empreendimentos choca com a sua estratégia para o concelho, pode opor-se publicamente. Não conheço promotores que perante estas condições decidam avançar.
A Câmara Municipal tem de decidir a venda ou não destes terrenos até ao final de Abril? Só o tem de fazer porque os promotores assim o exigiram. O executivo está apenas a seguir uma data-limite imposta por investidores privados e não por qualquer motivação estratégica própria.
A viabilização deste projecto na Porta de Aviz impedirá o eventual avanço da construção do empreendimento comercial na zona industrial? Não. A licença desse espaço está válida, pelo que se os investidores decidirem avançar nada pode ser feito contra. Assim, a decisão de venda dos terrenos junto à Porta de Aviz pode abrir espaço à existência de dois centros comerciais, ou se a coisa correr mal, à existência de duas obras inacabadas.
Isto leva-me à próxima questão: que garantias são dadas pelos promotores? Que se saiba nenhuma. Nada de concreto foi, ainda, apresentado.
E que impacto terá um eventual empreendimento às portas do Centro Histórico? Ninguém sabe. Não foi feito qualquer estudo de impacto. O município de Évora não seguiu os exemplos de outras cidades e não encomendou qualquer estudo que procurasse avaliar objetivamente o impacto deste empreendimento no comércio local, no turismo e nas dinâmicas do Centro Histórico.
Os promotores garantem a ligação harmoniosa do Centro Comercial ao Centro Histórico? Têm essa intenção, mas não especificam a forma, afirmando que só se comprometem após a decisão de venda dos terrenos. E o executivo aceita esta decisão dos promotores? Pois, parece que sim. Não se vislumbra qualquer preocupação em garantir algumas condições antes da tomada de decisão sobre a venda dos terrenos.
O executivo já tomou alguma decisão? Oficialmente não. Dizem ainda estar a avaliar. Ainda assim, Carlos Pinto Sá lá vai dizendo que não tem como impedir a existência de Centros Comerciais e que a Câmara não tem dinheiro para executar no Centro Histórico aquilo que pretendia: um empreendimento comercial a céu aberto. Também afirma que o dinheiro proveniente da venda dos terrenos daria muito jeito à autarquia.
A verdade é que se nota claramente que o Carlos Pinto Sá tem emprestado muita da sua energia em torno deste projecto comercial. Quem nos dera que emprestasse essa energia para elaborar um verdadeiro plano estratégico para o concelho e para o Centro Histórico, para acabar com os contratos emprego-inserção no município, para denunciar de vez o contrato com as Águas do Centro Alentejo ou para impor um fim aos termos abusivos do PAEL.
Em relação ao empreendimento comercial na Porta de Aviz, só espero que não seja tomada nenhuma decisão precipitada que possa trazer consequências trágicas para a nossa cidade.
Até para a semana.

Bruno Martins (crónica na rádio diana)

Évora: sessão aberta sobre a intenção de um empreendimento comercial nas Portas de Avis


domingo, 19 de abril de 2015

Horizonte

Joaquim Palminha Silva
   O País é pequeno, as ambições dos seus “donos” desmesuradas, e o povo fez-se uma turbamulta matreira e dispendiosa, naturalmente para se salvaguardar dos habilidosos que mandam. Na prática, já não se sabe onde acaba a roupa lavada e começa a roupa suja!
 Verifiquei este fenómeno social, mas não me peçam explicações… Não pretendo dispor de conhecimentos detalhados para satisfazer a curiosidade de algum impertinente. Coleciono factos e classifico-os, pois é este o primeiro estádio da ciência sociológica… Entretanto, seguem-se as teorias e só depois, se estas forem confirmadas pela experiência, as explicações… Assim, apenas reúno facos e, por vezes, relaciono-os e tiro deles simples generalizações plausíveis… Continuando…
            Entre nós e o futuro erguem-se cristalizações de privilégios tribais poderosos. Entre a maioria esmagadora dos patuleias e o futuro perfilam-se, na acção administrativa do Poder, os partidos políticos. Ente nós e o futuro estão inúmeros calendários, com datas sempre inoportunas para as nossas urgências, tal como portas que se seguem a portas…
            Por tudo isto, obrigam-nos a ter apenas estreitos objectivos: – Nunca poderemos ter largos e vastos horizontes!
            Portugal é, pois, uma nação sem horizonte (no sentido de representação mental de todo um povo), sem projecto societário, sem qualquer forma especifica de mentalidade colectiva, de utopia capaz de tentar impor a ordem do deve ser à manutenção da ordem do é o que temos!
            Estabelecido ao “Deus dará”, o País subsiste erguendo o dia-a-dia como ideário absoluto e, assim, sobrevive doentiamente à sua própria podridão, alimentando-se das pústulas da lepra que o vai corroendo.
            Na verdade, desfizeram-se os laços que atavam esta terra minúscula à fé das origens, às aspirações ora singelas ora brutalmente engrandecidas do passado… Santuários e túmulos, muralhas e palácios, objectos e medalhas, livros e poemas, erguidos sobre escassa base de passado, que a penúria de memória abandonou, trazem à luz da actualidade a ferrugem e o bafio que preludia o desmembramento fatal… - Afinal, de que serve tudo este arrazoado, pois só temos objectivos, medíocres, besuntas, como uma antiga conta de mercearia, escarafunchada em folha de papel pardo!
            Ter objectivos é procurar preencher o vazio com expedientes de ocasião, afogando o nada em intrigas limítrofes, disfarçando a futilidade no efémero luxuoso a baixo custo (de preferência com o dinheiro do Estado), fazendo do ressentimento um programa de acção política e social: - Ressentimento contra o partido A ou B; ressentimento contra os prestamistas estrangeiros; ressentimento contra o povo; ressentimento do povo contra os que “mandam”; ressentimento contra a chuva e contra o calor “exagerado” do Estio; ressentimento de todos contra todos!
            Nesta ordem de deias, somos um povo (patrões e empregados, burgueses e proletários, pobres e ricos) com colecções preciosas de ditos, de frases-feitas, de palavras-de-ordem, de máximas e epigramas supostamente capazes de explicar tudo sem contentarem ninguém. Por fim, temos diariamente o “banho-maria” da Cultura, como xarope para a tosse… - Mas não temos horizonte!
            A História das últimas quatro décadas é a narrativa pelintra, sabuja e passa-culpas do regime democrático de vulgata, repetitivo, mentalmente deficiente, enfadonho, com medo da sua própria sombra… - Os seus objectivos são banais, ora de calendário ora de teimosia e boçalidade… Não queremos nada que se prepare para ultrapassar a capacidade do nosso estômago nem a circular estreiteza do nosso umbigo. – Somos pequeninos em tudo. A nossa felicidade é apertadinha, tal e qual uma lata de sardinhas em conserva!
            Não temos horizonte. – Temos metas! Procuramos cumprir etapas, saldar minuciosas dívidas ao estrangeiro, contraídas pelo nosso jogo democrático. Encolhemos…
Uma vez caída a ditadura, ficamos desempregados de ideal, tal como os partidos que nos “saíram na rifa” ficaram a chocalhar por dentro, despojados de ideologia…
            Pobres pensionistas do passado, vivemos da caridade estrangeira e da venda de bilhetes-postais ilustrados com «as armas e os barões assinalados», e desta forma subsistimos à conta de termos sido!
            Somos o realejo mecânico das ruas da Europa do Norte: - Uma moeda na ranhura, e a manivela roda, roda! Mexem-se então as figurinhas ocas do realejo, ao som duma música de fado!
            Aguentamos tudo! A pouca vergonha e as humilhações!
Cospem-nos no prato da sopa que nos dão, e sofremos isso com um sorriso estúpido! – Porque não temos a consciência limpa? Porque sabemos que vamos morrer? – Sobretudo, porque entre nós e o futuro erguem-se os imperativos dos penhoristas, os planos dos armazenistas, os contratos dos negreiros e dos corsários!
Sabemos tudo o que explica a nossa fala de horizonte, como sabemos quanto nada o justifica ou desculpa. – A paralisia mental toldou-nos o pensamento. Não sabemos quem nem quando nos injectaram no sangue a linfa do seguidismo, a droga envenenada do sossego, o tóxico gás da apatia…
Por tudo isto, caminhar em direcção ao horizonte assusta-nos mais que o terramoto de 1755… - Evitamo-lo, desviamo-lo para o esquecimento, para o rol das anomalias perniciosas à Europa!
            Só uma terra livre da “nação”, que subsiste a chupar o sangue ao nosso presente para nos debilitar o caminho do futuro, nos poderá descartar desta gaiola, destes objectivos mutilantes, e abrir-nos o horizonte.
O horizonte não nos envelhece, porque sobre ele não se acumula aquele peso de loucura colectiva onde germina a apatia que, com o tempo, acaba por provocar a ruína dos povos e a decadência das nações.   

Precisamos de horizonte, como o céu precisa do arco-íris após a tempestade!