terça-feira, 24 de março de 2015

Paciência

Joaquim Palminha da Silva
   A paciência vive no mundo social onde predomina o respeito da autoridade, seja ela o que for, a ordem das coisas consumadas e estratificadas, as maneiras convencionais, o papel do requerimento e o do deferimento das Secretarias e Repartições de Finanças. A paciência vive à custa dos regulamentos, passeia-se com as rotinas e, venerável, útil e “humanitária” como uma corporação de bombeiros, de tudo e de todos se ocupa com amarga prontidão… ao serviço dos poderosos, dos autoritários, dos prepotentes, dos neo-pagãos endinheirados. Normalmente, estes últimos aconselham a paciência aos outros. Para eles não serve, que têm pressa. De facto, a paciência só serve aos resignados, que são quem tem mais “vagar”, pois vivem sem reclamar, murchando dia a dia. Exceptuando os que são “obrigados” à resignação, que são a esmagadora maioria, quem é que tem vagar, não me dizem?!

  

            Às vezes, a população golpeada e ferida nas lâminas aguçadas da vida, aguenta-se de tal forma que parece impregnada de paciência. Às vezes, o trabalhador, estabelecido no solo maninho da injustiça social e do desconforto de inumeráveis carências, parece conformado a subsistir numa atmosfera de martírio, disposto a esperar pacientemente por melhores dias…
            A paciência foi um arquétipo temático que os poderosos, autoritários, déspotas & associados transformaram em prática societária, para pedirem, digo, exigirem ao povo do trabalho tréguas sociais perpétuas no seio da sua velhaca injustiça, de forma a dispor a seu minoritário favor, sem contestação, da maior parte dos recursos naturais e do produto do trabalho.   
            Na sua origem, a paciência não habitava um território definido no consciente colectivo, mas a sua utilização continuada tornou-se num monótono estado de espírito, assente em terrenos que possibilitam, a diversos níveis, a ilusão “suspensão” da História.
            A paciência, uma vez manipulada politica e socialmente acabou por entregar todos e cada um ao lento apodrecimento da vontade e, praticando-se com forte convicção a difusão do espaço do conformismo, criou-se finalmente uma atmosfera de submissão esclavagista, um retorno aos séculos das desumanidades e das impunidades.
            A ideia de que existe uma paciência social, pronta a utilizar pela política (quando ela é, na sua essência, apenas produto de aprendizagem individual), ganhou uma tal força no decurso do tempo que o próprio adagiário popular, de forma nítida e clara, reflecte esta experiência da submissão, sob a capa de paciência: «A paciência abranda a dor»; «A paciência é amarga mas o seu fruto é doce»; «A paciência é boa para a vista»; «Paciência e cebo de grilo, é bom para aquilo»; «A paciência é unguento para todas as chagas»; «Paciência excede sapiência».           
            Seguindo a tese do historiador francês F. Braudel, a visão dos “grandes” acontecimentos históricos faz-nos esquecer a longa duração e, na torrente das mentalidades dos povos, aquilo que fica em suspenso (os seus sussurros, os seus ais), a que apressadamente chamamos de paciência colectiva, quando na verdade o que se recorta no horizonte é um gritante conformismo, a par do subdesenvolvimento cultural e da ignorância cívica.
Mas, diga-se, também, que a maior parte das pessoas é paciente, em virtude da “lei” do menor esforço… - É sempre menos trabalhoso esperar que aconteça. Mesmo quando se está a ver que nada de bom vai acontecer. Depois, mergulhados na dor e no pior da vida, como trapos esfarrapados, recorremos à paciência, para nos conformarmos com o inaceitável… - A paciência em termos económicos e sociais é uma doença incurável, um verdeiro cancro político… só possível de eventual apagamento com a radioterapia da revolução social !

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 Na imagem: Zé Povinho e a mulher, Maria Paciência, segundo Rafael Bordalo Pinheiro.

9 comentários:

  1. Lembrou-me "Fé, Esperança e Caridade", as virtudes que a igreja católica martela na cabeça dos fiéis, para ajudar os ricos e poderosos a dominar os escravos.
    Lembrou-me "Pedro pedreiro, esperando o trem", do Chico Buarque.
    Mais um belo texto do JPS.

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    1. "Mais um belo texto do JPS" - quem mais pode achar isto senão o próprio JPS seja lá quem for?

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    2. Os brutos acham-se os melhores do mundo, e que todos os outros são uns brutos.
      Não conseguem ver mais longe do que a distancia a que conseguem cuspir.
      O seu mundo é tão pequenino, que o horizonte está ali mesmo, na biqueira da bota.

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  2. Na semana passada a JAE limpou o espaço do Baluarte(portas de Avis),trabalho que podia e devia ser mais amplo,já que o portão de acesso não foi arranjado,a barraca em tijolo não foi demolida.

    Espaço que devia ser aberto ao publico.

    (o bloco de esquerda podia recolocar o otdoor noutro espaço,está a tapar o baluarte).

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  3. E a paciência que é precisa para os chatos? Os chatérrimos que têm solução para tudo à força de radioterapia... nos outros, é bom de ver!

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  4. Abrir o espaço do baluarte é uma excelente ideia.

    derrubar a barraca de tijolos,iluminar o espaço.

    Numa cidade Património Mundial e numas das entradas nobres do centro histórico não se justifica o abandono do espaço.


    O BLOCO deve retirar o Outdoor de fronte ao baluarte.

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  5. A JAE é responsável pelo Baluarte ?

    Como é possível numa Cidade Património Mundial aquele espaço estar abandonado,ter construções (barracas) em tijolos,uma cerca mais apropriada para guardar gado,tudo isto numa das entradas do Centro Histórico.

    A dir.reg. de cultura,o Pró-Évora e a cãmara nada tem a dizer sobre este ATENTADO ao Património?

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  6. Sr. Presidente da CME
    Afinal a aplicação do Pael é obrigatório só em impostos ou também em taxas?
    Sendo assim porque foi aprovado em Julho a aplicação do pael também em taxas em assembleia municipal.
    Isto quer dizer que a CME aplicou a taxa máxima não por obrigação , mas porque precisa de dinheiro e os valores que aparecem na diretiva 12/2014 da ERSE são valores enviados pela CME.
    A Hipocrisia é um defeito muito grave, passar para os outros a responsabilidade do que fazemos é Falsidade.
    Pagamos assim o IMI mais caro, a águia mais cara a Derrama mais elevada Èvora é mesmo uma cidade onde apetece viver. Assumam e não deixem as pessoas andar a fazer figuras de tolos

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    1. Onde andavas tu, quando 'suas excelências' amarraram a Câmara e os eborenses, durante 20 ANOS (!!!) ao PAEL?
      Essa teria sido a altura certa para fazeres todas as perguntas sobre as consequências do PAEL. Agora, é tarde...

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