terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O Desterro dos Heróis!

Joaquim Palminha Silva
           
            No remoto ano de 1880, Évora aparece-nos menos deprimida e triste do que a cidade que hoje se nos apresenta, talvez por “excesso” de “vitamina” patriótica… Talvez porque havia então muita esperança no próximo século XX, com a previsível queda do regime monárquico e instauração de uma República Democrática”, não muito burguesa e pouco autoritária, supunham idealistas e  ingénuos…
            As comemorações do tricentenário da morte de Luís de Camões agruparam um conjunto de intelectuais de grande projecção nacional (Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Pinheiro Chagas, Jaime Batalha Reis, Magalhães Lima, Luciano Cordeiro, etc.), bem como dirigentes republicanos de gabarito, a que se associaram agremiações artísticas, associações populares e representações profissionais de todo o País. O cortejo cívico que desfilou em Lisboa deixou bem patente, face ao rei D. Luís e ao Poder político (Partido Progressista), um desses raros momentos históricos, de grande unidade cívica, anunciando mudança de regime e… de mentalidades!
            Foi, por conseguinte, numa atmosfera de grande apoteose nacional que a presidência e vereação do Município eborense também se manifestaram pró-Luís de Camões!
            Mas os nossos queridos conterrâneos de então primaram pelo inédito. Adiante…
            Era presidente da Câmara Municipal de Évora o cidadão José Carlos de Gouveia (1844-1903). Porém, surpresa das surpresas, este presidente tinha uma qualidade que o distinguia dos demais: - Escrevia peças de teatro (A sociedade), dramas líricos (O Fantasma de Almourol) e poesias de muito “comprimento”, a Duqueza de Bragança, por exemplo, tinha 8 cantos!
            Pouco sei, talvez porque escassa seja a informação que chegou até aos nossos dias, das largas páginas literárias deste prestimoso autarca… Porém, de repente, a memória puxa-me um pouco pela manga do casaco, para receber ao ouvido estas informações: - José Carlos de Gouveia, morador no Largo Alexandre Herculano, nº 5, proprietário de soberba biblioteca e da mais completa colecção de gravura antiga, foi deputado às Cortes, Governador Civil, Provedor da Misericórdia e da Casa Pia e, last but not least, chefe local do partido do Governo.
            José Carlos de Gouveia não era, portanto, personagem vulgar… Abrigando-se à sombra das comemorações do 3º centenário da morte de Luís de Camões, levou a sua vereação a aceitar que a cidade tivesse participação no acontecimento acima do comum. Recomendou iluminações públicas nas artérias onde tal era possível, engalanou o edifício municipal (gracioso imóvel manuelino na Praça de Giraldo, no local onde se ergue hoje o “pesado” Banco de Portugal), pediu a Lisboa o molde da estátua a Camões e, para os festejos do dia 10 de Junho, fez erguer no centro da Praça de Giraldo um obelisco de madeira, encimado pela réplica da estátua do poeta. Acrescente-se agora ao conjunto o fogo-de-artifício e a interpretação de peças musicais apropriadas, por duas filarmónicas locais. Por fim, fechou o conjunto a execução, patrocinada pela Câmara Municipal de Évora (e a mando do presidente), do busto de Luís de Camões e Vasco da Gama, em mármore da região.
            Quer-se uma página curta, mas com o seu quê de desilusão sentimental, com um pedaço de cor local e soluço reprimido, fazendo arfar o “peito”… às palavras? Ora aí vai emoção! …
            Do conjunto destas remotas comemorações sobraram os dois bustos de mármore (Luís de Camões e Vasco da Gama). Até 1883, os sisudos bustos olharam os circunstantes na sala de sessões do edifício na Praça de Giraldo. Com a demolição dos Paços do Concelho, a queda da Monarquia e mudança de regime político, os bustos também mudaram, passando a habitar o salão nobre da Câmara (1912), sediada desde então na Praça de Sertório… Depois, tombou a República frente ao golpe militar e vieram os 46 anos de ditadura salazarista, os bustos hibernaram não se sabe onde…
Finalmente, após a queda da ditadura, com o regime democrático instalado em Abril de 1974, a presidência e vereação da Câmara Municipal de Évora, no ano de 1975 (não sei como e por que estapafúrdia razão), decidiu acintosamente desterrar, através dos evocativos bustos de mármore regional, os dois “heróis” nacionais, Vasco da Gama e Luís e Camões, colocando-os em local só temporariamente acessível ao comum dos cidadãos: o vestíbulo do 1º andar da Galeria das Damas (vulgo Palácio de D. Manuel) no Jardim Público. No entanto, foi pouco o tempo que os dois bustos puderam aí “descansar” de tanta mudança… política! 
Entretanto, a mais absurda e a mais violenta mudança, se me permitem assim dizer, caíram sobre os dois “camaradas” de infortúnio: - Alguém decidiu atirar os bustos para um desterro menos retórico e mais cru, colocando-os, sobre as suas colunas de pedra, na varanda do 1ºandar do imóvel, mas do lado de fora, ladeando o portal manuelino, para “sofrerem” as intempéries, sujeitos, pois, aos “rigores meteorológicos”, longe do eventual olhar condoído de algum cidadão!
            Passou tempo e passaram executivos de Câmara Municipal de feição comunista, depois socialista, novamente comunista… Mas Luís de Camões e Vasco da Gama continuam desterrados: - Feitas as “contas”, tenho de concluir que esta atitude municipal não é um caso de opinião política deste ou daquele executivo, mas sim uma sucessiva falha de sensibilidade autárquica… e uma injustiça! Quase um insulto a todos quantos, livremente, sem preocupações de agradar aos políticos da moda, prezam as letras portuguesas e apreciam a História da sua Pátria!

            Vai a Câmara Municipal Évora festejar os 500 anos do edifício manuelino do Jardim Público: - Não é preciso estabelecer detalhes nem nomear pourparlers, aproveitem os actuais autarcas a ocasião e libertem do desterro os nossos heróis (que não fizeram mal a ninguém!), e devolva-os a 10 de junho deste ano, com pompa e circunstância, ao lugar que merecem no seio da velha urbe!





Para saber mais: Vd. revista A Cidade de Évora, nº67-68, 1984/1985, edição Câmara Municipal de Évora.

Imagens : busto em mármore de Luís de Camões e Vasco da Gama, edifício manuelino dos Paços do Concelho na Praça de Giraldo. Praça de Giraldo em 10 de junho de 1880.



6 comentários:

  1. No Hospital do Espírito Não Santo o médico quanto menos tempo tiver uma ser doente internado, melhor a sua classíficação, interessa é sair nem que seja para a morgue
    Chocante.
    È desumano tocas as raias da inumanidade porque chamar desumano só a uma atitude destas por parte do Sr Paulo Macedo é pouco.
    Entretanto há dinheiro para o fundo de resolução bancário(3900 milhões de euros), para perdoar 1.8 milhões ao Benfica, 7000 milhões por roubo feito pela camarilha de ex-governantes, Contratos leoninos com as construtoras através de PPPS ruinosas.
    Chega de votar nesta gente que nos leva á pobreza e à morte.
    Queremos homens honrados na Governação, queremos ser parte ativa no destino das nossas vidas

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  2. Desculpa lá Sr. Palminha mas os bustos em questão estão muito bem onde estão, até bem de mais, melhor mesmo só escondidos das vistas dada a sua execrável qualidade que é fruto de exaltações partidárias e de patrioteirismos políticos que espalham destes mamarrachos por todo o lado! Conhece o sr. o busto de Sá Carneiro plantado numa praça de Lisboa? - Uma vergonha! Mas olhe é da mesma família artística destes cabeçudos de pedra que lhe merecem aqui tanta devoção!

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  3. Podem ser colocados numa Praça da Cidade.

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  4. atenção dos consumidores de gaz Natural da diangás.

    DE 2014 para 2015 houve um aumento da taxa de ocupação de solos, vulgo(TOS) que chega em muitos casos aos 500%.a 1000%.
    Falei com a Câmara não foi aumentado o valor a pagar à Dianagás da TOS, concretamente com o gestor financeiro que me disse que o valor aumentou só porque têm mais clientes e isso é repercutido em cada um deles.
    Isto é outro caso como as POrtagens, as multas são na ordem dos milhares por cento e depois ainda põem o Fisco pago por todos nós a fazer as cobranças isto é expolio( roubo) abuso de posição dominante
    A Dianagás perante a pergunta para tal aumento desculpa-se pelo aumento de taxas por parte da CME, o que não corresponde à verdade

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  5. ESte governo é a vergonha de um povo, tudo o que seja bom para o povo os escroques que nos desgovernam acham infeliz
    Juiz Carlos Alexandre estes biltres parece-me mais merecerem prisão do que o vigarista do sócrates

    Governo português critica Presidente da Comissão Europeia
    O ministro da Presidência do Conselho de Ministros e dos Assuntos Parlamentares classificou hoje as declarações da véspera do presidente da Comissão Europeia de infelizes, garantindo que a dignidade de Portugal "nunca foi beliscada" pela ‘troika'.
    "Acho, manifestamente, que é uma declaração bastante infeliz do presidente da CE porque nunca a dignidade de Portugal nem dos portugueses foi beliscada, pela ‘troika' ou qualquer das suas instituições. Só posso classificá-la como declaração infeliz", afirmou Marques Guedes, na conferência de imprensa após o conselho de ministros, em Lisboa.
    O luxemburguês Jean-Claude Juncker afirmou quarta-feira que a 'troika' "pecou contra a dignidade" de portugueses, gregos e também irlandeses, reiterando que é preciso rever o modelo e não repetir os mesmos erros.
    "Pecámos contra a dignidade dos cidadãos na Grécia, Portugal e muitas vezes na Irlanda também", disse Juncker perante o Comité Económico e Social, admitindo que a afirmação pode parecer "estúpida" dita pelo ex-presidente do Eurogrupo.
    "O programa da ‘troika', imposto nomeadamente a Portugal, é um programa bastante duro, cuja dureza tinha a ver com a situação extremamente difícil em que o país se encontrava. É conhecido que Portugal conseguiu, através da credibilidade e confiança que granjeou, ir fazendo correções ao próprio programa, em termos de metas e objetivos", referiu o responsável governamental português.

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