sábado, 17 de janeiro de 2015

Carta de Évora


Joaquim Palminha Silva

O beijo proibido
(como um conto)

«Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo.»

- Florbela Espanca, de «O meu desejo»
in Reliquiæ.

            A história que vou contar é tão verdadeira como o sol. Passou-se há cinquenta anos e teve por palco de origem a mata do Jardim Público de Évora, e por actores um par de namorados…



            Um dia destes, por um feliz acaso, alcancei o mais difícil: regressei à mata do Jardim Público acompanhado dos dois ex-namorados, envelhecidos pelo tempo e, entretanto, separados pelas circunstâncias da vida. Enquanto caminhava com os meus amigos, batiam-me nos ouvidos as palavras da pergunta que andava a arquitectar, desde que havíamos passado o portão do Jardim, frente ao palacete onde está agora o «Tribunal da Relação» … Não resistindo mais, apontei um pitoresco banco da Mata…
            - Lembram-se? Foi ali…
            - É verdade!… Foi ali!... (disse ele acabrunhado).
            - Se me lembro?! Ah!, se me lembro?! (reforçou ela).
            Quantos anos tinham em 1960? Talvez quinze, não mais…
            Ela era aluna do Liceu. Filha da média burguesia de Évora. O pai engenheiro numa empresa da cidade. Ele frequentava o curso comercial na Escola Industrial e Comercial «Gabriel Pereira», instalada no Convento de Santa Clara, filho de modesto funcionário público e de uma ex-empregada da «Arcada de Paris», (Praça de Giraldo).            Uma tarde faltaram às aulas…. Na mata do Jardim havia folhas secas pelo chão, denunciando a tradicional negligência com que o espaço era tratado pelo Município. Tinham então quinze anos e amavam-se de forma tão natural que nenhum dos colegas, maliciosos e brejeiros, encontrava maneira de os apontar a dedo. Ela era duma rara beleza, de todo estranha à Charneca alentejana. Ele era parecido com um jovem poeta, dessas figuras esguias desenhadas nos anos 40 por Júlio (dos Reis Pereira).



            Passearam no Jardim de mãos dadas. O olhar no olhar, numa serena contemplação a escorrer sentimentos de ternura. Para não darem nas vistas dirigiram-se para a mata do Jardim. Sentaram-se naquele banco forrado de azulejos. Que a vegetação em redor quase escondia… Depois, enternecidos acabaram por se beijar. Colaram os lábios, escutando ao mesmo tempo o coração a resfolegar de ansiedade. Naquele instante, o tempo parou! O céu era muito azul. O vento morno, bafejando os verdes ramos, parecia querer avisá-los sem alarde. Ela suava um pouco, sob a bata do Liceu, ruborizada… Ele tinha os cabelos em desalinho… Sobre as suas cabeças caiam penetrantes aromas… Completamente absortos, nem viram…
            Súbito, uma sombra inesperada poisou-lhes sobre as cabeças unidas: - Era o guarda municipal da mata do Jardim! Homem esquisito e de andar aleijado, quase à sua frente, na sua farda de cotim e boné estafados. Rosto incaracterístico, onde avultavam o mau hálito e uns laivos de saliva espumosa aos cantos da boca, como os cães costumam. Uma voz roufenha, como que a rosnar…
            «- Soltou-se o diabo?! Agora é assim? Seus desenvergonhados! Não sabem que isso é proibido!». Em silêncio, nenhum dos dois interrompeu o guarda, que continuou por alguns instantes a fustigá-los com insinuações imundas, repugnantes…
O sistema das proibições, oleado por séculos de conservadorismo e “modernizado” pela ditadura fascista, pôs-se em marcha e transformou, desapiedado, o beijo do par de namorados num caso de atentado ao pudor!
Identificados pelo guarda do Jardim Público como alunos de dois estabelecidos de ensino público da cidade, um dia depois foram chamados perante a autoridade escolar: ele foi levado à presença do director da Escola Industrial e Comercial «Gabriel Pereira»; ela conduzida até ao reitor do Liceu. As horas desse dia foram penosas, com interrogatórios e apresentação de uma panóplia de castigos, se a “pouca-vergonha” se repetisse!
Quantas torpezas lhes foram ditas? O seu singelo namoro foi cercado por mentes imundas, que tentaram parasitar os seus sentimentos, salpicando-os de lama. Uma multidão de ladrões da alegria pavoneou-se então, vitoriosa, a cavalo na sua “moral” de coveiros: - Era proibido beijar!
Os primeiros dias, meses, anos… separaram-nos.
Com o passar do tempo, tudo esqueceu a todos. Até ao dia em que, por um feliz acaso, visitei a mata do Jardim Público com os dois... Contemplei-os, sustendo a respiração. De repente, vi ela aproximar do rosto uma das mãos a limpar furtiva lágrima… Vi que haviam dado as mãos… Olhá-los naquele instante, foi ver a estátua da mágoa fitando com resignada saudade um banco de jardim. Percebi que aquele juvenil amor havia sido feliz acaso da Natureza, desses fenómenos que duram uma vida! Então, senti necessidade de lhes comunicar quanto foram desprevenidos namorados em plena ditadura e, portanto, vítimas do fascismo! Tinham cometido um acto imperdoável, ao ignorarem que era proibido beijar no Jardim Público!
Por pudor, calei em mim o comício e o panfleto político. Afastei-me um pouco daquele par, para não sentir ranger a esperança despedaçada…
A este tempo a sombra do fim-de-tarde tinha já invadido a mata do Jardim Público… À saída, quando passei pelo abrigo do guarda municipal, acudiu-me à lembrança o outro guarda, o aleijado a espumar aos cantos da boca. Parece que morreu contrito (disseram-me depois) e, por isso, se habilitou a entrar no Reino… Se Deus lhe perdoou, delator abominável de miudezas, fechemos-lhe nós também os olhos, pois não passou de um desgraçado… E sem saber porquê, os meus olhos molharam-se: - Fascismo nunca mais!


15 comentários:

  1. Naquele tempo tudo era proibido, desde um simples beijo, até à obrigatoriedade de possuir licença de utilização de isqueiro, passando pela proibição de duas ou mais pessoas pararem na rua para trocar ideias. Era o tempo das trevas, o tempo em que tudo corria certinho e direitinho como alguns gostam de dizer, só que era uma paz podre, cheia de mentiras, tudo ou quase tudo tinha de ser feito às escondidas, onde os pequenos poderes exerciam a sua profissão como se fossem pessoas muito importantes, onde os delatores e bufos proliferavam como cogumelos, coisa que diga-se em abono da verdade, talvez fruto desses tempos, começam a surgir na nossa sociedade. Veja-se o caso das escutas telefónicas, mas que pouca vergonha é esta, nos tempos da pide só aqueles energúmenos tinham poder para escutar m cidadão, hoje porém, talvez frutos das amplas liberdades em que vivemos, todo o mundo escuta todo o mundo, se um pingo de vergonha, até quando esta pouca vergonha?
    MdM

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  2. A culpa é do fascismo, pois então. O fascismo paga tudo e foi culpado de tudo.
    Mas ponham lá a mão na consciência e deixem-se de desculpas e de se fingirem inocentes porque não foi o fascismo que forjou as vossas mentes mas foram as vossas mentes que ditaram o fascismo!

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  3. Porra, isso aconteceu a praticamente toda a gente em todos os jardins que havia! Era um dos ridículos desses tempos e motivo de risota na verdade!
    Diga-se que também teve os seus méritos pois contribuiu para distanciar as pessoas do regime e para o seu isolamento!

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  4. Mdm hoje é uma maravilha
    O aluno não respeita o pai nem o professor nem ninguém. Este aluno vai chegar ao governo um dia e só vai querer orientar a sua vidinha e dos seus. Não há valores, a única interdição é a pedofília e o assassinio, o ocidente está no bom caminho MdM para o caos total

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    1. Claro que hoje não é nenhuma maravilha, basta ler com atenção o fim do meu comentário. Nem oito nem oitenta, mas de quem é a culpa? Se antigamente, no meu/nosso tempo, o prof nos puxava as orelhas ou nos dava umas reguadas, ao chegar a casa os nossos pais anda nos davam uns tabefes, e hoje como é? Se um prof ralha com um menino, o paizinho é capaz de esperar o dito prof á porta da escola para lhe dar uns tabefes. Nesse aspecto tem razão, mas isso é culpa nossa que educamos os nossos filhos como se eles fossem todos principezinhos, quando muitos deles nem vagabundos merecem ser. Porem penso que a nova geração será capaz de dar a volta por cima. Uma coisa lhe posso afirmar, saudosismo do salazarismo, jamais. MdM

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  5. Saudosismo ou nem por isso, é ISTO que mata o país.
    Vive-se do espirito saudosista de ABRIL de 1975 (que diga-se, o país ficou entregue à bicharada, esfarrapando tudo em 2 anos o que o ditador levou 48 a amealhar debaixo do colchão), vive-se do império e do chauvinismo luso colonialista, etc.

    Este país não entende que o passado já foi e o futuro constrói-se hoje.
    Não tenho dúvida que a Esquerda (PC, BE e etc) nunca ganhará a confiança do país para governar sob o jugo duma ideologia marcadamente social comunista, mas é essa Esquerda (em especial o PC via CGTP) que mina qualquer sonho, seja ele liberal seja ele com o espirito de 12 de Março

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  6. Mas o fascismo resume-se a isto?
    A besta fascista, que levou o mundo à guerra mais mortífera e sanguinária, o pior que fez em Portugal, foi proibir os beijos e a cocacola?
    Será licito julgar liminarmente os hábitos, os tabus, os preconceitos, o dogmatismo religioso, de há 60 anos, à luz dos actuais? Até que ponto eram a norma social, ou eram a repressão fascista?
    Não é esta uma forma de branquear os crimes do fascismo contra a humanidade e contra Portugal?

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    1. Você leu, mas não entendeu, chama-se a isso iliteracia...Este texto mostra o ridículo do regime salazarista, não é um texto sobre as arbitrariedades e desmandos do mesmo. Como tal, acho-o brilhante.
      MdM

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    2. É isso mesmo. É como naquele tempo e nessa sacrossanta cidade o dançar agarrado ao par as músicas modernas ter dado processo e consequente expulsão de sócio da avançada SOIR ! Alguém se lembra? Ridículo, sim, e muito mais que isso. Minava a esperança, apagava a coragem, fazia crescer o medo! Por isso só ''alguns'' se atreviam a ir além da mediocridade, que os cobardes sempre foram muitos por aí.

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    3. Sim claro, os cobardes e medíocres de Évora distinguiam-se por isso mesmo: - por dançarem afastados ou por não irem a bailes! E era por causa do fascismo que esses bailes estavam repletos de mães e tias a vigiarem o comportamento das meninas e dos seus pares! (Nesse tempo pais, mães e tias eram todos fascistas como se calcula!)
      Enquanto isso sabia-se da liberdade e progressismo que havia mundo fora pela gana com que os pares se agarravam!
      E tudo isto muito antes da pílula e do colapso da igreja! (que pelos vistos não tiveram nada ver com estas liberdades civilizacionais!)

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    4. (Nesse tempo pais, mães e tias eram todos fascistas como se calcula!)
      É precisamente esse o "fascismo" dos literatos de crescimento infestante.

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    5. (Nesse tempo pais, mães e tias eram todos fascistas como se calcula!), ou seja: – os “nossos” pais, mães e tias eram… É ironia, não se entende?
      E por causa de uma singela ironia disparam-nos logo uma rajada de três tiros – “fascista”, “ literato”, “infestante” ?
      Três balas iguaizinhas, todas fatais… todas de chumbo!
      – Não há cá balas de borracha! Percebeu seu infestante literato e fascista? É como eu achar que é e pronto!
      A reter: - literato, infestante e fascista são atributos que por aqui se ganham facilmente , sem mérito ou esforço, por nomeação!
      Felizmente somos anónimos!

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    6. i·le·tra·do
      (latim illitteratus, -a, -um, sem instrução, analfabeto, ignorante)
      adjectivo e substantivo masculino
      1. Que ou quem tem pouca instrução ou poucos conhecimentos literários. ≠ LETRADO
      2. Que ou quem não sabe ler nem escrever. = ANALFABETO


      Ora leia lá outra vez...

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  7. Nesse caso fique-se com a sua iliteracia, e eu com a minha.

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  8. Esta História é bem verdadeira.
    O pés e chumbo, como lhe chamávamos, levava os dias escondido atras e dentro dos arbutos a espreitar os pares de namorados.
    Qunao a coisa começava a "aquecer" saltava do meio dos arbustos e parecia uma fera enjaulada.
    Deus o tenhs em descanso

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