sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

“Palácio de D. Manuel” ou Galeria das Damas do Paço Real?

Joaquim Palminha da Silva
            Em Lisboa, instituições de Estado, municipais e culturais diversas, comemoram (com restauros!) os 500 anos da construção do Mosteiro dos Jerónimos. Em Évora, o seu Município e serviços culturais comemoram os 500 anos de construção do “Palácio de D. Manuel”! – Mimetismo? Não senhor! Coincidência… Pura coincidência… coincidente!
            Mas vamos ao que interessa…
            1º) Não conhecemos nenhum “Palácio de D. Manuel” em Évora, mas sim um «… pavilhão meridional, a conhecida Galeria das Damas, que desde épocas antigas a coroa entregara ao Conselho de Guerra» (in Túlio Espanca, Inventário Artístico de Portugal, 1966).
            2º) A primeira referência conhecida da existência dos Paços de São Francisco, aparece na Crónica de D. Afonso IV (1336);
            - Há notícia de D. João I ter mandado edificar duas câmaras (1387) e talvez outros espaços, dando início a uma construção palaciana;
            - O edifício é identificado nos textos coevos como «Paço Real de Évora», beneficiando de várias construções no reinado de Afonso V, cerca de 1481;
            - D. João II mandou construir (1490), anexo à horta, um pavilhão em madeira, ricamente decorado, para aí servir a boda dos príncipes D. Afonso de Portugal e D. Isabel de Castela;
- Há notícia de ampliações no Paço Real, mandadas efectuar por D. João II, datadas de 1493;
- D. Manuel I empreendeu obras de vulto, cuja direcção entregou a dois arquitectos portugueses e um espanhol; estas obras compreendem o período que vai de 1507 a 1520 e, segundo Túlio Espanca (obra citada), incluíam o Convento de S. Francisco, a Capela Real e o Paço Real, propriamente dito;
- No reinado de D. João III há notícias de obras de grandes proporções, em duas datas (1524 e 1556);
- Na sequência da entrada de Filipe III de Espanha em Évora, o conjunto de pavilhões e edifícios do Paço Real é entregue aos frades franciscanos (1616);
- Por fim, com a utilização das dependências do Paço Real pelos frades, a sua transformação e/ou destruição, no século XVIII o Paço Real de Évora é já uma ruina completa. O que resta do Paço, a Galeria das Damas, já muito desfigurada e decepada do conjunto monumental, é entregue em 1834 ao Conselho de Guerra para servir de depósito militar.
3º) Como se pode verificar, não aparece nenhuma data que consiga apontar para a efeméride dos 500 anos, da parte que resta do Paço Real.
                                       
                                                           
Esta imagem, da 1ª metade do século XIX, é a que mais se aproxima da configuração original da Galeria das Damas, chamada pelo vulgo erradamente “Palácio de D. Manuel”. No restauro do edifício fizeram desaparecer (escusadamente em nosso entender!) a graciosa escadaria.

Enfim, não há data que garanta os 500 anos! – Na verdade, apesar de mil imprecisões, estas reanimações municipais, mais turísticas do que culturais, são às vezes tentativas que procuram aqui e acolá o caminho que se deve seguir para sair do marasmo, do estafamento de ideias, dos quilómetros de pasmo, dos esquemas gordos da gastronomia e ervas de cheiro que, em fins-de-semana, se oferecem ao forasteiro… até ”dizer chega!”.
Eu não creio que venha mal ao mundo através desta tentativa municipal de criar uma efeméride e, travestindo-a conforme podem, a esticarem durante grande parte do presente ano (2015)! Não há muito rigor no que se diz? – Os factos históricos mencionados, aconteceram em salões e dependências de um palácio real que já não existe? O edifício “aniversariante”, se me é permitido o termo, pela sua própria especificidade, é tema de estudo e visualização mais interessante para arquitectos, engenheiritos civis, historiadores de arte, etc.. Enfim, envolve problemáticas para gente especializada, que enfadam o grande público…
Repito, não vem grande mal ao mundo pela escolha forçada desta “efeméride”… Porém, creio que ainda não foi desta vez que o Município conseguiu captar a alma do evento sui generis! Não foi ainda desta vez que se deu o achamento da receita milagrosa!
            Todavia, uma evidência nos salta à vista… - Festejar os supostos 500 anos da Galeria das Damas no seio do despojado, mutilado, “mal-amanhado” e infecto Jardim Público é manifestamente bezunta e descaradamente obsceno!
            Tragédia irremediável a nossa, alentejanos e portugueses: - Passamos a vida a procurar acontecimentos históricos, grandiloquentes, eventos culturais que nos enalteçam e se possam exportar além-fronteiras e, ao mesmo tempo, somos incapazes de concertar a calçada que pisamos, de lavar e “assear” o WC, de apanhar o papel do chão, etc. … - Enfim, é como se fossemos “receber a medalha” do património imaterial, espalhando à nossa volta o desagradável cheiro da transpiração que se escapa do sovaco!
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Foram consultadas as seguintes obras: Túlio Espanca, Inventário Artístico de Portugal, Concelho de Évora, Lisboa, 1966; Monumentos, nº17, revista da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, Lisboa, 2002; Francisco Bilou, A Igreja de S, Francisco e o Paço Real de Évora, Lisboa, 2014.

DA desta sexta-feira


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

No armazém 8 (Évora): aulas e espectáculo de flamenco este fim de semana

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JRS com todos os tiques que um jornalista NÃO deve ter

Os gregos

As eleições do passado domingo na Grécia revelaram aquilo que o povo grego pensa dos partidos que se foram rendendo no poder e que, de forma subserviente, seguiram os ditames das políticas neo liberais impostas pelos “mercados”.
Mais do que analisar o programa apresentado pelo Syriza, a sua composição ou a opção da coligação com um partido de direita, o que nos interessa é perceber como aquele resultado eleitoral está a transtornar os partidos portugueses que de uma forma ou de outra estiveram sempre do outro lado desta história.
A coisa não é para menos. Sempre nos disseram que não havia alternativa à política de PS, PSD e CDS. Sempre nos disseram que só era possível prometer outras soluções quando se tinha a certeza de não as puder executar.
Quando em Portugal o PCP se bate pelo aumento do salário mínimo, aparecem sempre umas aves que fazem contabilidade de mercearia a garantir que tal é impossível, sublinhando a afirmação com a frase: “e onde é que iriam buscar o dinheiro para isso?”
Pois o governo grego, 48 horas depois de ser constituído, decidiu que o salário mínimo voltava aos níveis de 2012, pondo fim ao corte de 23% imposto pelo anterior governo.
Quando se afirma que é preciso travar os processos de privatização nos sectores estratégicos da economia, logo as mesmas aves vêm defender que esse é o caminho do desastre e que as empresas que querem privatizar desaparecerão se tal não acontecer.
O actual governo grego decidiu travar todas as privatizações em curso.
Tudo isto está a deixar os nossos politólogos de serviço muito nervosos e em busca de explicações que não estão nos únicos manuais que leram.
Ontem o primeiro-ministro classificava o programa do governo grego um conto de crianças, hoje, depois de se saber que os gregos estão a pôr em prática o conto de crianças, imagino que se sinta perplexo e angustiado.
Durante estes dias tenho ouvido muita gente a pedir uma unidade de esquerda que inverta esta desgraçada opção política dos últimos 38 anos. Muitos fazem-no como se isto da unidade de esquerda fosse assim uma plataforma em que forças políticas que se reclamam de esquerda se juntassem apenas por essa razão, sem ter em conta as suas propostas concretas.
Olhemos para as medidas do novo governo grego e perguntemos quem em Portugal as anda a reclamar de forma consequente. Seria uma boa base de convergência para um entendimento mínimo de governação.
Aumento dos salários e pensões, renegociação da dívida nos juros, prazos e montantes, aposta na produção nacional, travar os processos de privatização, travar o ataque aos trabalhadores do Estado e o esvaziamento das suas funções sociais, defender a contratação colectiva, repor as freguesias extintas, investir no serviço nacional de saúde, aliviar a carga fiscal sobre o trabalho e agravar a carga fiscal sobre o capital.
Vamos lá… quem é que alinha com este programa mínimo? Ou o exemplo dos gregos só é bom desde que se fique por lá?
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na Rádio Diana)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Universidade de Évora distingue Lídia Jorge com Prémio Vergílio Ferreira

O júri do prémio
O Prémio Vergílio Ferreira 2015 foi atribuído à escritora Lídia Jorge. Este galardão incide sobre o conjunto da obra de um autor que se tenha distinguido nos domínios da ficção ou do ensaio.
Ficou escrito em ata que “o júri decidiu atribuir o Prémio à escritora Lídia Jorge, autora de O Dia dos Prodígios, e à obra, que até hoje a continuou, dedicada desde então a uma revitalização realista e onírica da vida e da sociedade portuguesa pós-25 de Abril, numa rara convergência entre a singularidade do tempo que é ainda o nosso e a sua vocação de universalidade.”
O júri do Prémio que pretende homenagear o escritor de Aparição é composto este ano pelos Professores António Sáez Delgado (Presidente), Eduardo Lourenço, António Cândido Franco e o diretor do Departamento de Linguística e Literaturas da UE.
Lídia Jorge nasceu em Boliqueime (Algarve), em 1946. Licenciada em Filologia Românica, dedicou-se depois ao ensino. Desde a publicação do seu primeiro romance, O Dia dos Prodígios (1980), Lídia Jorge impôs-se na literatura portuguesa como um dos principais nomes surgidos no pós-25 de Abril, pertencendo a uma geração que vivenciou o período revolucionário e que o problematizou nas suas obras. Além de romancista, Lídia Jorge é também contista e autora de uma peça de teatro (A Maçon, 1997).
A entrega do Prémio realiza-se este ano a 05 de março, na Sala dos Atos da Universidade de Évora, no Colégio do Espírito Santo.
Instituído pela Universidade de Évora em 1997, o prémio Vergílio Ferreira foi atribuído pela primeira vez a Maria Velho da Costa, a que se seguiram, entre outros, Mia Couto, Almeida Faria, Eduardo Lourenço, Agustina Bessa Luís, Vasco Graça Moura, Mário Cláudio, Luísa Dacosta, José Gil e Hélia Correia. (aqui)

Dia 30 no Teatro Garcia de Resende


Mestre António Chainho completa em 2015 cinquenta anos de uma carreira repleta de sucessos. Em Fevereiro edita um novo trabalho “Cumplicidades” com 18 temas inéditos, que contará com a participação de muitos convidados nacionais entre os quais Rui Veloso, Pedro Abrunhosa, Ricardo Ribeiro, Sara Tavares, Helder Moutinho ou Fernando Ribeiro(Moonspell) e internacionais, como Uxia, Kepa Junquera ou Vanessa da Mata. Gente que faz da música a sua arte e que tal como o Mestre, sabe e sente que a Guitarra Portuguesa vai muito para além do Fado e das fronteiras de Portugal. Será no dia 27 de Janeiro, data em que o Mestre António Chainho completa 77 anos de idade, que se iniciarão as comemorações desta já longa carreira. Depois, seguir-se-á uma digressão de norte a sul do país e no estrangeiro. Em palco a acompanhar o Mestre estarão os “cúmplices de estrada” Ciro Bertini, Baixo, Acordeão e Teclados, Tiago Oliveira, Viola, Ruca Rebordão, Percussões, e as vozes de Ana Vieira e Filipa Pais, são eles que irão interpretar os inéditos que farão parte destas apresentações. E porque de “Cumplicidades” falamos, todos os espectáculos contarão ainda com um artista local, das cidades, por onde a tournée passar. Quer seja um talento a despontar ou um amigo de outras aventuras musicais, haverá sempre mais alguém a dar força a essa cumplicidade… O Mestre Chainho, não poderia deixar de destacar o “seu” Alentejo que tanto ama, e que o viu nascer. Por isso, fará uma antestreia exclusiva, em jeito de pré-escuta, especialmente para o público Alentejano, onde apresentará pela primeira vez ao vivo os temas do novo disco “Cumplicidades” e convidará para o palco dois artistas locais para que possam ser escutados nos palcos das suas terras, pelas suas gentes. Tudo começará em Évora, dia 30 de Janeiro no Teatro Garcia de Resende com a participação de Mara, seguindo no dia seguinte (31) para Beja no Teatro Pax Julia, com a presença em palco de Paulo Ribeiro, que assim se juntarão a todos os que regularmente acompanham o Mestre António Chainho nos seus concertos.
http://www.antoniochainho.com
https://www.facebook.com/AntonioChainhoOficial?fref=ts

Eduardo Lourenço hoje na Universidade de Évora


O II Volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço, “Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista e Outros Ensaios”, vai ser apresentado hoje na Universidade de Évora.
A sessão de apresentação, marcada para as 18:00, na sala de docentes, vai estar ao cargo do jornalista e ensaísta António Guerreiro e conta com a presença do autor.
A edição das Obras Completas de Eduardo Lourenço é um projeto promovido e financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito editorial da “Série de Cultura Portuguesa”.

A razão ou a emoção

A vitória do Syriza liderado pelo Alixis Tsipras é a grande notícia do momento político, com os incontornáveis reflexos nos dezanove países do euro grupo. Será no seio destes países que se joga o futuro do euro e sobretudo o da Europa tal como a conhecemos.
As eleições legislativas que decorreram na Grécia no último domingo tiveram um desfecho previsível e esperado. Os eleitores gregos deram uma vitória quase absoluta ao partido da extrema-esquerda que assentou as suas ideias eleitorais, no fim da austeridade e na renegociação da dívida pública. De facto, foram estas as bandeiras eleitorais que tiveram acolhimento maioritário no povo grego.
O certo é que a Grécia tem o desemprego aproximadamente nos 27% da população activa e o desemprego jovem está nos 50%. É, sem qualquer dúvida, uma situação difícil e demasiada complexa do ponto vista social e económico. A sociedade grega está social e politicamente fraturada. Porém, qual o caminho a adotar para levar de vencido este drama e garantir um futuro próspero e digno para o povo grego. Do meu ponto de vista, reside aqui a resposta das respostas para o povo grego e quiçá para os países do sul da Europa.
Sem pretender dar lições a quem quer que seja, até por que não conheço a Grécia, para lá da importância e do contributo deixado pelos autores clássicos na nossa organização politica e social, todavia, não podemos descurar a realidade dos factos. A Grécia tem uma população em número aproximadamente à da portuguesa e tem uma dívida pública três vezes maior do que a nossa, ronda os 500 000ME. A evasão fiscal anda pelos 40 000ME, significando, portanto, mais de metade do nosso produto interno bruto.
Ora, independentemente, dos alegados equívocos compreendidos no plano de austeridade levado a cabo e defendido pela TROIKA, e, admitindo, que, sejam significativos, tanto quanto julgo conhecer, não há no mundo real, credores que pautem a sua atividade em total respeito pelas regras da mais nobre das caridades. Infelizmente a realidade é esta e é dura. E, é mais dura ainda, para com aqueles que presidem as suas vidas de forma reiterada, relaxada e relapsa.
Dito isto, poderá a resposta ao problema da Grécia passar por algumas cedências dos credores, sobretudo dos institucionais. Por exemplo; no prolongamento das maturidades e de baixarem o preço do serviço da dívida. No entanto, os cidadãos gregos e as suas instituições não estão dispensados de colocarem a casa na ordem. Aguardemos para ver.

José Policarpo (crónica na Radio Diana)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Esta sexta-feira protesto pelas obras interrompidas nas estradas do distrito de Beja


Alentejo a muitas vozes este domingo no CCB




Évora: hoje na Harmonia há Alexandre O´Neill

Pole position

Se o estrangeirismo de hoje, pole position, vem do mundo do automobilismo, o assunto da crónica são as eleições na Grécia e a vitória expressiva do Syriza. A pole position é o primeiro lugar na chamada grelha de partida de uma corrida de carros, o lugar destinado ao piloto mais veloz e alcançado, normalmente, em treinos classificatórios.
No que me parece que se tornará uma curiosa, ou talvez não, repetição da história e espécie de fado da civilização, a Grécia reinaugurou a democracia. Não andou para trás, fez antes uma espécie de upgrade, para usar outro estrangeirismo, dessa democracia, primeiros passos gregos que deram no que permite irmos atualmente a eleições escolher quem nos governa, para o bem e para o mal, mas com a possibilidade de, ciclicamente e quando necessário, mudar-se em paz e com regras.
Não que todos tenhamos que ter um Syriza e que passará a haver em cada país desta Europa a que pertencemos, um partido saído da extrema-esquerda a amaciar-se e a deixar de bradar do lado de lá, na oposição, e passe para o centro das decisões a tomar, com o bom senso civilizacional, sem retrocessos. Estou quase absolutamente convencida – há sempre espaço para as surpresas, bem entendido – que se engrossarão as hostes do lado mais à esquerda do que é a imensa massa de moderados que alternam nos governos europeus. E o que irá precisamente acabar são algumas tendências no que aos mais à direita neoliberal diz respeito, e que se juntarão a outros extremismos que também poderão começar a ganhar a sua força. Afinal, o que ouvimos ao Syriza e terá contribuído para que tenha ganho as eleições agora, já ouvimos num documento assinado por muitos que militam e simpatizam com um Partido do chamado “arco da governação”: renegociação da dívida e recusa da austeridade pela austeridade, ou seja como fim em si mesma.
Inquestionável é que a Grécia está agora na pole position para que mude de facto alguma coisa na Europa, o que já começou a acontecer através do BCE. Uma pole position muito bem conseguida pelo Syriza não só pelo lado do sempre popular discurso da contestação, e ainda mais em períodos de crise manifesta, já que latente é ela sempre nestas almas meridionais banhadas pela nostalgia do Mediterrâneo. Foi conseguido também pelas provas dadas enquanto governo local e regional. Na Ática (e noutras regiões das Ilhas Jónicas), o governo Syriza tem sido o laboratório da experiência. E parece ter tido o êxito suficiente (multiplicou por seis o orçamento social apesar do contexto não ser nada amigável, por exemplo) para que a escolha fosse agora para o governo nacional.
Tudo isto requer atenção, porque há mudança nos ares do velho continente e a confiança de nós europeus terá de ser reconquistada. Atenção por parte dos Partidos, que são quem propõe os governantes para irem a votos, mas também por parte dos cidadãos eleitores que têm no voto a sua mais legítima e eficaz arma para que os governantes se comportem. Tudo isto com tempo ainda para cuidarmos do nosso próprio comportamento cívico – quantas vezes, até só por inércia, não pactuamos com situações que não beneficiam em nada o bem comum? Tudo com tempo também, aqui por Portugal (e por que não se gostam e ainda lhes chegam os euros) para uma excursão familiar com a petizada àquilo da Violetta? Tudo uma questão de escolha possível, quando as circunstâncias são oportunas. De qualquer modo, como dizia o slogan do movimento Que se Lixe a Troika retirado do discurso do ator desempregado André Albuquerque de 2013: «Portugal não é a Grécia!».

Cláudia Sousa Pereira (crónica na rádio diana)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Esta terça-feira na Casa da Zorra (Évora)


Évora: comunicado da reunião pública de Câmara de 21 de Janeiro


A Câmara Municipal de Évora manifestou-se contra o aumento do tarifário para abastecimento de água em alta e do saneamento para 2015 imposto pela empresa Águas do Centro Alentejo (AdCA) à população do concelho.
Os atuais preços praticados em alta, aos quais acrescem necessariamente todos os encargos com distribuição em baixa e manutenção das redes, com toda a legislação a apontar para fazer repercutir todos os custos no consumidor final, levam a situações absolutamente incomportáveis para muitas famílias. O valor da atualização é ainda superior à variação do índice de preços no consumidor (IPC).
O Executivo municipal tomou conhecimento do ofício da Direção-Geral das Autarquias Locais (DGAL) a comunicar a retenção de 10% das transferências do Orçamento de Estado, com exceção do Fundo Social Municipal, até ao montante de 146. 075,00 euros, com início em janeiro de 2015. Esta decisão governamental resulta dos incumprimentos na redução dos pagamentos em atraso nos anos de 2012 e 2013. A Câmara solicitou a suspensão da aplicação da retenção prevista ou, no mínimo, a redução do valor, repartida por mais meses, mas a DGAL informou que as alegações camarárias não tinham enquadramento legal.
O Vereador Eduardo Luciano deu conhecimento da assinatura do protocolo entre o consórcio ClimAdaPT.Local e a Câmara. Este visa o desenvolvimento e a incorporação da adaptação às alterações climáticas ao nível local/municipal através da elaboração de Estratégia Municipal, da participação de dois técnicos da autarquia num programa formativo e da participação da Câmara no processo conducente à criação da Rede de Municípios de Adaptação Local às Alterações Climáticas. Refira-se que o programa AdaPT está orientado para o desenvolvimento de projetos de adaptação às referidas alterações em Portugal, sendo o consórcio composto por mais de uma dezena de entidades, entre elas universidades e autarquias locais.
As tolerâncias de ponto para 2015, aprovadas com três abstenções (PSD e PS), são as seguintes: segunda e quarta-feira de Carnaval (16 e 18 de fevereiro) com 50% do pessoal em cada dia, para garantir o funcionamento dos serviços; terça-feira de Carnaval (17 de fevereiro) e segunda-feira de Páscoa (6 de abril) todo o pessoal; Dia de S. João (24 de junho) e Quinta-Feira da Ascensão (14 de maio) com 50% do pessoal em cada dia; e dia 24 e 31 de dezembro todo o pessoal. Será também concedido o dia de aniversário do trabalhador e as tolerâncias decretadas pela Administração Central.
Foi aprovada por unanimidade a assinatura do Acordo de Colaboração para a Educação Pré-Escolar, a celebrar com a Direção de Serviços da DGEstE e o Centro Distrital de Évora do Instituto de Segurança Social, que anualmente regula a participação da Câmara no programa que gere os estabelecimentos do Pré-Escolar da Rede Pública do Concelho, nomeadamente os apoios às crianças e suas famílias.
A Vice- Presidente, Élia Mira, deu conhecimento do relatório do balanço anual das Intervenções realizadas no ano letivo de 2013/14 nas escolas e jardins-de-infância da responsabilidade municipal. Estão contabilizadas apenas as intervenções executadas por administração direta e as aquisições complementares de prestação de serviços e materiais necessários à concretização das mesmas. Foram concretizadas 480 intervenções, sendo o investimento total de 200.019,74 euros.
No Período Antes da Ordem do Dia, a Vice-Presidente informou que a Câmara de Évora foi distinguida como Cidade Amiga da Juventude 2014 pela Casa da Juventude de Guimarães e o Presidente do Município, Carlos Pinto de Sá, explicou que, no âmbito da criação pelo Governo do Fundo de Apoio Municipal, a autarquia eborense não está obrigada a recorrer a este plano. Évora tem de apresentar nos próximos três meses uma proposta de saneamento financeiro, estando o Executivo a preparar uma proposta que melhor defenda os interesses municipais, nomeadamente que respeite a autonomia do Poder Local. (Nota de imprensa da CME)


Lição de Dignidade

Que belo dia de Domingo, que grande vitória do Syriza, e que sinal poder festejar num dia 25.
25 de Janeiro ficará para a história europeia como o dia em que o berço da democracia resgata, para si, o seu futuro.
O dia em que um povo se ergueu e escolheu a dignidade ou invés da chantagem, o futuro em vez do medo. Por incrível que pareça, é esta raridade que torna o dia de ontem histórico.
A comunicação social apressa-se a apelidar o Syriza de partido de esquerda radical. Em que país vivemos, quando a luta pela justiça social, pelo emprego, pelos serviços públicos, contra a austeridade e a ditadura dos mercados, é apelidada de radicalismo?! Meus senhores e minhas senhoras, isto não é radicalismo é dignidade e luta intransigente pelos valores sociais.
Não, o Syriza, como tantos outros partidos, não radicalizam, mas esclarecem, de uma forma muito firme e clara, que há uma linha que separa a vida das pessoas da vida das instituições financeiras.
Não nos iludamos, nem nos deixemos enganar, assim como não somos todos Charlie, como não somos todos Abril, não somos todos Syriza, como possa parecer. Aqueles que de forma oportunista dizem ver com bons olhos a vitória da esquerda na Grécia, que querem diluir o vermelho num branco austeritário, travestindo o vermelho em rosa, estão do outro lado. Àqueles que escrevem nas redes sociais ou afirmam perante os microfones que a vitória do Syriza é um bom sinal, há que perguntar se apoiaram ou não Martin Schulz e depois Jean-Claude Juncker para a presidência da Comissão Europeia, se continuarão ou não a política austeritária (mais ou menos fofinha), se estão dispostos a apoiar a desvinculação de Portugal do Tratado Orçamental, ou se estão dispostos a reestruturar a dívida e enfrentar claramente os mercados e as instituições financeiras.
Eu caminho, de forma solidária, com o povo grego. Que todos saibam que quando nos chamam radicais, nós respondemos com solidariedade. Para os que duvidam, deixo-vos um excerto do discurso de vitória de Alexis Tsipras: "O povo grego, soberano, hoje, deu, sem dúvida nenhuma, uma ordem clara e vira uma nova página. O país rejeita a austeridade. Deixa para trás o autoritarismo, a humilhação e dirige-se para uma Europa que muda. Com este passo histórico o povo grego vai ao encontro dos outros povos europeus. Esta vitória é a de todos os povos europeus que lutam contra a austeridade que destrói o futuro europeu.”
Os dados estão lançados, as barreiras identificadas, os desafios todos pela frente. Agora, bem… agora… está nas nossas mãos!
Até para a semana!

Bruno Martins (crónica na rádio diana)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Capa do Diário do Alentejo de hoje


«Guerra Civil»!

@Joaquim Palminha da Silva

            O que vou escrever não pretende ser uma análise aprofundada.
A crise económica, cultural, política e de mentalidades que se vive em Portugal, neste início do século XXI, deverá um dia ser objecto de estudo documentado e profundo, desde que beneficie de distância histórica suficiente. Vou, pois, analisar, no actual contexto, algo para lá da fronteira do imediatamente visível, naturalmente sob o ângulo da experiência vivida e, é claro, como tantos outros, sofrendo inelutavelmente na própria existência as turbulências do tempo.
            A clássica luta de classes (segundo a definição marxista) não desapareceu de todo, mas foi largamente acrescentada e, por conseguinte, acabou ultrapassada com o aparecimento de novas formas de choque de interesses, luta e combate que lhe subalternizam o impacto.        Comecemos por dizer isto: - A situação actual é o resultado de uma experiência política e social estudada, depois praticada sistematicamente e, finalmente, concluída com sucesso, através da orquestração de um conjunto de forças financeiras, culturais, políticas e sociais a que, à falta de melhor definição, dou o nome de Interterror mercenário ao serviço do Kapital!
Na realidade, a presente situação ultrapassou o modelo repressivo clássico usado em Democracia pluralista, mas limitativa no âmbito institucional e social, e praticado sobre os diversos escalões da população trabalhadora, da pequena-burguesia, mesmo de quadros técnicos e algumas empresas de tipo familiar.
Desde sempre, o Estado e os governos que o usam (e abusam) retiraram a sua sobrevivência parasitária da colecta de impostos e taxas aos cidadãos, devolvendo depois
ao contribuinte (quando devolvem!) a prestação de alguns serviços públicos (ensino, saúde, etc.), naturalmente na sua versão minimalista.
Súbito, esta lógica tradicional e periódica de cobrança de impostos foi alterada. Embora não existam barricadas nas ruas (algum dia as veremos?), não se assista ao marche-marche da soldadesca mercenária, nem a constantes cargas policiais de bastão em punho, desbobinam-se aqui e agora uma série de operações repressivas, seguindo moldes militares, levadas a efeito por comandos treinados na repressão e, pior que tudo, existe do lado do Poder Político e do Kapital um espírito de ataque, de emboscada, de colocação de minas e armadilhas para aniquilar os escassos meios de sobrevivência do cidadão desprevenido. Existe, na verdade, sob uma forma não declarada e ainda não identificada pela população sofredora, um autêntica guerra civil! 
            Entretanto, através do governo que o usa, o Estado criou uma autêntica frente terrorista para executar acções especiais, cirúrgicas, nesta modalidade de guerra civil. Frente terrorista, cuja operacionalidade e eficácia ficou garantida desde o primeiro instante da sua estreia no terreno. Porquê, pergunta-se? – Na verdade, se a alta burguesia nunca se distinguiu por nobreza cavalheiresca na luta de classes, não seria possível que na actualidade isso se viesse a modificar, antes foi acrescentada à sua crueldade e frieza, de forma desapiedada, uma maior dureza na luta, porque este corpo de operacionais do terror foi treinado para servir o Kapital sem obedecer a qualquer moral, exibindo como suplemento um vazio de memória religiosa, cultural e histórica até hoje nunca experimentado em regime democrático (salvo talvez, e de forma incipiente, no período da 1ª República, 1910-1926)! *
           Esta força de operacionais do terror, uma vez instalada no Poder, passou ao ataque das forças do Trabalho de forma violenta e inesperada, levando para o território social um arsenal que possibilita a exterminação determinada de numerosos cidadãos de fragilidades mais acentuadas: - Mês após mês é anunciado inesperado imposto, cobrada insólita taxa moderadora num qualquer serviço de Estado. Mais, e pior, chegam mesmo a retirar dos salários
subsídios tradicionais (Natal e Férias) e, pasme-se, reduzem os próprios salários de forma arbitrária. 
Como se sabe, acções destas nascem da intenção de angariar fundos mas, na medida em que estes visam desesperadamente um fim (suposto pagamento de enorme dívida externa), este encontra-se implícito no desespero violento destas acções de colecta de taxas e impostos. Digamos mesmo, há nestas medidas algo de alucinado, de suicidário! 
            Resumindo, a relação destas acções de colecta violenta com a vida mental que nelas se exprime, é de tal forma constante que nos permite plausíveis radiografias sobre o conteúdo do pensamento dos governantes, e sobre esta sua frente de interterror mercenário! –O fundo aparentemente oculto das suas mentes, aparece à luz do dia pela sua ausência de ética, de humanismo (cristão ou laico), do uso contínuo ora do cinismo ora da mentira no discurso institucional, de Estado. Por outras palavras, estas mentes revelam-se praticantes do fascismo mental a resvalar para um “nazismo caseiro”, digamos, género «Pátio das Cantigas»! 
            A iniciativa desta nova forma de violência está, naturalmente, nas mãos do governo, o que quer dizer que quem leva vantagem nesta guerra civil é o Poder Político que serve o Kapital! 
            O Parlamento apenas regista as lamúrias de uma oposição reformista, completamente aborregada, bem como os seus ralhetes palavrosos, incapazes de motivarem a resistência activa dos cidadãos e, portanto, sem qualquer influência revolucionária nas massas pauperizadas. 
            Quanto aos sindicatos, diga-se que organizam desfiles onde se repetem até à saturação as mesmas lamúrias, os mesmos ralhetes ao governo, que a oposição dos partidos de “esquerda” pratica no Parlamento. Devo acrescentar que a imensa multidão de gente auto-intitulada indignados, com as suas manifestações e desfiles mais ou menos “ordeiros”, acabam por praticar uma espécie de terapia de grupo, boa apenas para o ego dos próprios, nunca por nunca algo que atemorize o Interterror mercenário ao serviço do Kapital, e o faça recuar! 
            Em síntese, a guerra civil está instaurada, mas com o factor surpresa a funcionar em desfavor dos sofredores, do mundo do Trabalho!
O Interterror mercenário, além do apoio táctico e estratégico das força militares e para-militares, dos juízes e tribunais, passou presentemente a beneficiar da impunidade que lhe advém de administrar o País ao serviço de prestamistas estrangeiros, em nome de uma enorme dívida nacional, de contornos mal definidos e pagamento mal explicado e pior organizado. Com este imbróglio na ordem do dia, como factor “natural” impera o reino da “chantagem”, da ameaça velada ou declarada, da perseguição burocrática, do absoluto controlo dos cidadãos através do número fiscal, bem como um sem número de baterias que com o seu fogo podem varrer as “barricadas” dos eventuais insurrectos, mesmo antes que estes levantarem as “barricadas”. 
            A violência, que é lançamento desprevenido de enormes quantidades de cidadãos na precaridade económica e, portanto, a resvalarem para a indigência, desenha-nos um autêntico cenário de guerra civil. Já o dissemos: - Guerra civil com vantagem para os inimigos dos cidadãos, dos trabalhadores, dos contribuintes. O Interterror mercenário está definitivamente instalado! 
            Assim, em meu entender, a visão do momento histórico não pode fugir à figura histórica da guerra civil! 
            Acontece, porém, que a maioria da população, porque ainda não vê o sangue dos combates manchar as calçadas (embora esse sangue já exista!), julga que vive no território da calmaria civil e institucional. Esta ideia não pode estar mais errada! 
            Com efeito, nos nossos dias, existirá algo que não se encontre rodeado de ameaças, incertezas e riscos? – O emprego, a compra de medicamentos, a vida, a escolha dos estudos, a constituição de família, a reforma e pensão disto e daquilo, a emigração de portugueses, os “subúrbios” onde habita toda a miséria; tudo, mas mesmo tudo, é motivo de inquietação e insegurança! 
          O nosso dia-a-dia está povoado de armadilhas. A toda a hora sofremos autênticas emboscadas, planeadas como operações militares (acreditem ou não) a sofrer por todos nós, “declarados inimigos” do Estado e, naturalmente, do governo que o usa. Enfim, quase tudo é motivo de inquietação; quase tudo está armadilhado para nos explorar, para nos surpreender pela negativa, para nos emboscar, com métodos que conduzem ao nosso aniquilamento como seres humanos e cidadãos, cuja designação só encontramos recuando aos anos europeus anteriores a 1945.
Tentacular, omnipresente, o processo de ataque, municiado com um sistema matreiro de minas e armadilhas contra os cidadãos desprevenidos, acabou por transformou o território português num espaço de inquietação, e colocou a própria sociedade a respirar uma atmosfera de receios e temores. 
            Já quase não se acredita num futuro necessariamente melhor que o presente, porque ganham forma todos os dias novos medos ligados à prática governativa actual e àquela que vier no dia de amanhã. 
            Estamos sofrendo todos os dias, porque desapercebidos, uma enorme derrota nesta guerra civil, dado que nos tem faltado o essencial… - A coragem para erguer a barricada (que não é apenas levantar pedras da calçada), criar uma nova e organizada desobediência civil, alternativas sociais concretas e não retórica, criação de estruturas paralelas de sobrevivência, que ignorem o mundo do mercado e do lucro capitalista (ressuscitando um efectivo cooperativismo!) e, finalmente, colocar as renovadas bandeiras negra e vermelha a flutuarem ao vento no campo da imaginação e da nova insurreição!
Nem só de sangrenta violência são feitas as insurreições: - É urgente, como fonte de inspiração, voltar a estudar o exemplo da luta de independência, na Índia do Mahatma Gandhi! 
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* Excluímos o largo período da Ditadura por razões óbvias, entre as quais se salienta o facto essencial de que esse regime foi um absurdo e uma ilegalidade institucional.


Évora: sexta e sábado na Casa da Zorra


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Tertúlia sobre o cante alentejano na próxima quinta-feira na Universidade de Évora



HAJA QUEM CANTE -
TERTÚLIA à volta do CANTE ALENTEJANO com JANITA e VITORINO SALOMÉ

22 de Janeiro, 19:30, Colégio Mateus de Aranda – Sala dos Espelhos (Rua do Raimundo - Évora)
A iniciativa integra-se no âmbito das actividades organizadas a propósito da recente inscrição do Cante na lista do Património Imaterial da Humanidade da UNESCO.
Organização:

Direcção Regional de Cultura do Alentejo e Universidade de Évora

Torquemada



Sobre o atentado de Paris já tudo foi dito. Ou quase tudo. Um vil ataque contra a liberdade de expressão e de imprensa. Sem qualquer tipo de consideração pela vida humana. Bárbaro e inexplicável. Em nome de uma suposta guerra santa contra a iconoclastia ocidental. Enfim, um ato hediondo, desprezível e anacrónico (se é que a violência religiosa em algum tempo fosse justificável). Já sobre as lágrimas que correram após o golpe terrorista e sobre quem as verteu ainda há muito que se lhe diga. De um dia para o outro todos acordámos Charlie. Todos nos arreliámos muito com a estocada traiçoeira que pretendeu vitimar o mais intocável e supostamente bem-amado dos valores ocidentais: a liberdade de expressão. Mas será que estaremos todos, mesmo todos, de facto, interessados em manter uma imprensa livre? Plural? Sem preconceitos? Interventiva? Acutilante? Muito sinceramente, não me parece! Não é necessário recorrer ao exemplo extremo do “Charlie Hebdo”, que tem aquela capacidade de nos desafiar a nós próprios, os nossos preconceitos, muitas vezes roçando o mau-gosto, outras galgando a cerca do bom senso, para perceber isso. Mesmo o mais pequeno jornal de província, ou principalmente esse, sofre diariamente as mais vis sevícias contra a sua autonomia editorial. Não nos iludamos do contrário. A dependência crónica dos meios de comunicação social face aos poderes económicos e políticos cria um tipo de terrorismo invisível e indizível que chega a ser sufocante. Confrangedor. Manhoso. É triste constatá-lo, mas a liberdade de imprensa não tombou a 7 de janeiro de 2015, em Paris. Como agora a choramos. A liberdade de imprensa, se é que alguma vez tenha existido em toda a sua plenitude, há muito que estava enterrada. E agora, pela violência dos factos, apenas foi feito um elogio póstumo à sua memória. Mais nada. Desde o dia em que as notícias passaram a ser simples produtos de mercearia. Desde a altura em que os jornalistas mais “incómodos” foram afastados e as redações se encheram de estagiários e de trabalhadores precários. Desde o preciso instante em que as direções dos meios de comunicação passaram a ser meros fantoches nos dedos das administrações, a liberdade de imprensa sucumbiu. E esse instante, esse dia e essa altura aconteceu há muito tempo atrás. Sem ser necessário disparar um único tiro de metralhadora. Hoje impera no jornalismo a teoria do “respeitinho”. Da dependência. Do medo. Do terror. Da autocensura. Impera no jornalismo a narrativa dos terroristas de Paris. Que é, na visão inversa dos atores, a narrativa de Torquemada. Em pleno século XXI.

Paulo Barriga (editorial da última edição do "Diário do Alentejo")

sábado, 17 de janeiro de 2015

Carta de Évora


Joaquim Palminha Silva

O beijo proibido
(como um conto)

«Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo.»

- Florbela Espanca, de «O meu desejo»
in Reliquiæ.

            A história que vou contar é tão verdadeira como o sol. Passou-se há cinquenta anos e teve por palco de origem a mata do Jardim Público de Évora, e por actores um par de namorados…



            Um dia destes, por um feliz acaso, alcancei o mais difícil: regressei à mata do Jardim Público acompanhado dos dois ex-namorados, envelhecidos pelo tempo e, entretanto, separados pelas circunstâncias da vida. Enquanto caminhava com os meus amigos, batiam-me nos ouvidos as palavras da pergunta que andava a arquitectar, desde que havíamos passado o portão do Jardim, frente ao palacete onde está agora o «Tribunal da Relação» … Não resistindo mais, apontei um pitoresco banco da Mata…
            - Lembram-se? Foi ali…
            - É verdade!… Foi ali!... (disse ele acabrunhado).
            - Se me lembro?! Ah!, se me lembro?! (reforçou ela).
            Quantos anos tinham em 1960? Talvez quinze, não mais…
            Ela era aluna do Liceu. Filha da média burguesia de Évora. O pai engenheiro numa empresa da cidade. Ele frequentava o curso comercial na Escola Industrial e Comercial «Gabriel Pereira», instalada no Convento de Santa Clara, filho de modesto funcionário público e de uma ex-empregada da «Arcada de Paris», (Praça de Giraldo).            Uma tarde faltaram às aulas…. Na mata do Jardim havia folhas secas pelo chão, denunciando a tradicional negligência com que o espaço era tratado pelo Município. Tinham então quinze anos e amavam-se de forma tão natural que nenhum dos colegas, maliciosos e brejeiros, encontrava maneira de os apontar a dedo. Ela era duma rara beleza, de todo estranha à Charneca alentejana. Ele era parecido com um jovem poeta, dessas figuras esguias desenhadas nos anos 40 por Júlio (dos Reis Pereira).



            Passearam no Jardim de mãos dadas. O olhar no olhar, numa serena contemplação a escorrer sentimentos de ternura. Para não darem nas vistas dirigiram-se para a mata do Jardim. Sentaram-se naquele banco forrado de azulejos. Que a vegetação em redor quase escondia… Depois, enternecidos acabaram por se beijar. Colaram os lábios, escutando ao mesmo tempo o coração a resfolegar de ansiedade. Naquele instante, o tempo parou! O céu era muito azul. O vento morno, bafejando os verdes ramos, parecia querer avisá-los sem alarde. Ela suava um pouco, sob a bata do Liceu, ruborizada… Ele tinha os cabelos em desalinho… Sobre as suas cabeças caiam penetrantes aromas… Completamente absortos, nem viram…
            Súbito, uma sombra inesperada poisou-lhes sobre as cabeças unidas: - Era o guarda municipal da mata do Jardim! Homem esquisito e de andar aleijado, quase à sua frente, na sua farda de cotim e boné estafados. Rosto incaracterístico, onde avultavam o mau hálito e uns laivos de saliva espumosa aos cantos da boca, como os cães costumam. Uma voz roufenha, como que a rosnar…
            «- Soltou-se o diabo?! Agora é assim? Seus desenvergonhados! Não sabem que isso é proibido!». Em silêncio, nenhum dos dois interrompeu o guarda, que continuou por alguns instantes a fustigá-los com insinuações imundas, repugnantes…
O sistema das proibições, oleado por séculos de conservadorismo e “modernizado” pela ditadura fascista, pôs-se em marcha e transformou, desapiedado, o beijo do par de namorados num caso de atentado ao pudor!
Identificados pelo guarda do Jardim Público como alunos de dois estabelecidos de ensino público da cidade, um dia depois foram chamados perante a autoridade escolar: ele foi levado à presença do director da Escola Industrial e Comercial «Gabriel Pereira»; ela conduzida até ao reitor do Liceu. As horas desse dia foram penosas, com interrogatórios e apresentação de uma panóplia de castigos, se a “pouca-vergonha” se repetisse!
Quantas torpezas lhes foram ditas? O seu singelo namoro foi cercado por mentes imundas, que tentaram parasitar os seus sentimentos, salpicando-os de lama. Uma multidão de ladrões da alegria pavoneou-se então, vitoriosa, a cavalo na sua “moral” de coveiros: - Era proibido beijar!
Os primeiros dias, meses, anos… separaram-nos.
Com o passar do tempo, tudo esqueceu a todos. Até ao dia em que, por um feliz acaso, visitei a mata do Jardim Público com os dois... Contemplei-os, sustendo a respiração. De repente, vi ela aproximar do rosto uma das mãos a limpar furtiva lágrima… Vi que haviam dado as mãos… Olhá-los naquele instante, foi ver a estátua da mágoa fitando com resignada saudade um banco de jardim. Percebi que aquele juvenil amor havia sido feliz acaso da Natureza, desses fenómenos que duram uma vida! Então, senti necessidade de lhes comunicar quanto foram desprevenidos namorados em plena ditadura e, portanto, vítimas do fascismo! Tinham cometido um acto imperdoável, ao ignorarem que era proibido beijar no Jardim Público!
Por pudor, calei em mim o comício e o panfleto político. Afastei-me um pouco daquele par, para não sentir ranger a esperança despedaçada…
A este tempo a sombra do fim-de-tarde tinha já invadido a mata do Jardim Público… À saída, quando passei pelo abrigo do guarda municipal, acudiu-me à lembrança o outro guarda, o aleijado a espumar aos cantos da boca. Parece que morreu contrito (disseram-me depois) e, por isso, se habilitou a entrar no Reino… Se Deus lhe perdoou, delator abominável de miudezas, fechemos-lhe nós também os olhos, pois não passou de um desgraçado… E sem saber porquê, os meus olhos molharam-se: - Fascismo nunca mais!


Hoje no Teatro Garcia de Resende "Camino del Paraiso"


TEATRO GUIRIGAI APRESENTA
“CAMINO DEL PARAÍSO”
Agustín Iglesias

DIA 17 DE JANEIRO, às 21h30
TEATRO GARCIA DE RESENDE

O frade Panurgo anuncia a sua chegada para cozinhar a famosa Caldeirada do Peregrino. Pede favores, carnes e bom vinho em troca de conseguir um lugar no Paraíso.
Depois dele vem o sacamuelas Monipodio, com as suas canções satíricas, poções milagrosas, instrumentos cirúrgicos e vários segredos para aliviar dores, endireitar ossos e cuidar dos crânios.
Une-se à alegre sarabanda Inés de Los Vivos, perfumista e Mestra em óleos, tinturas e cremes.
Competem entre si: burlas, jogos, seduções, alianças, escaramuças, exorcismos, fábulas e versos. O seu objectivo é cozinhar a Caldeirada mais saborosa. Para prová-la organizaram uma rifa à maneira italiana: A Lotaria da Caldeirada, onde participarão todos os espectadores.

Texto e direcção: Agustín Iglesias
Interpretação: Agustín Iglesias Novillo, Raúl Rodriguez e Elisa Espinosa

M/12 anos
Duração: 70 min.

Preço: 4 €
Crianças até 12 anos: 3€
Funciona o PassaporTeatro Estudante: 3€
Funciona o PassaporTeatro Sénior

Espectáculo realizado no âmbito do Circuito Ibérico de Artes Cénicas
Apoio: Câmara Municipal de Évora
Organização: Cendrev – Centro Dramático de Évora