quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Natal

Escrever uma crónica que vai para o ar no dia de Natal não é uma tarefa fácil para mim, que tenho numa relação estranha com o que se vive nesta época.
Gosto dos cheiros e das cores do Natal. Gosto das luzes e dos cânticos, gosto dos olhos brilhantes das crianças que ainda acreditam no pai natal, gosto do frio próprio da época, gosto de ficar aflito no dia 23, sem saber que vou fazer para o comer no dia 24 e de ir ao supermercado ainda na véspera porque me esqueci de quase tudo.
Gosto de revisitar a minha infância e de descobrir que as coisas não até nem foram más de todo e quando o foram teve a ver com o facto de eu não ser propriamente uma criança fácil.
Gosto de imaginar que toda a gente guarda para este período um tempo de reflexão, de olhar mais aprofundado para o que a rodeia, desliga a televisão e fica a olhar a vida.
Sei que não é assim e é por isso que todos os anos se repetem as mesmas frases e se vai imaginando que nada mudou, excepto os lugares na mesa que ficaram vazios.
Depois há um outro Natal, que eu presenciei no almoço da véspera. O Natal em que dezenas de pessoas se sujeitam a que lhes ofereçam uma refeição, gente que o passado parece ter empurrado para um presente sem perspectiva de futuro.
Gente que tem de se sujeitar ao discurso dos seus benfeitores, que os infantiliza ao ponto de perguntar “sabem porque estamos aqui hoje?”.
Gente que leva a 24 o almoço de 25, em sacos de plástico azuis, um por cada pessoa, devidamente controlados por uma lista que não deveria existir.
Apesar de tudo isto, não é possível não elogiar as organizações que promovem este tipo de intervenção, sem a qual muita gente não comeria nem no Natal nem em muitas outras épocas do ano, apesar de se perceber que algumas motivações individuais nada têm a ver com a ajuda aos que foram atirados para o limbo da sobrevivência.
Das muitas pessoas que estavam a ajudar na confecção e na distribuição do almoço foi perfeitamente possível distinguir os que ali estavam por sentirem que deviam estar próximos de outros seres humanos, num momento em que todos os sinos tocam a mesma música, uma música que os mais pobres não podem acompanhar e aqueles para quem aquele é um momento em que se olham ao espelho repetidamente para reverem a sua bondade.
Como se notam esses tiques?
Quando num simples discurso de distribuição de tarefas pelos voluntários a palavra “eles” é repetida vezes sem conta.
Quando em cada conjunto de alocuções há pelo menos um preconceito presente, seja a propósito da quantidade de comida, seja a propósto das rotinas das pessoas que ali estão para almoçar.
Quando deixam de ter um ar incomodado por existirem seres humanos que necessitam do apoio de instituições de solidariedade social e passam a ter o ar de quem se acha imprescindível para esse fim.
Quando aceitam a pobreza como uma inevitabilidade.
Quando ficam felizes por ajudar, quando deveriam ficar infelizes por existirem pessoas que precisam dessa ajuda.
Infelizmente a sociedade baseada na busca do lucro e na crença de que essa busca individual resultará sempre em melhores condições de vida para todos, leva milhões de pessoas à miséria extrema da humilhação diária para uma refeição quente.
Pergunto-me: sem a resposta destas instituições como seria o dia a dia de pessoas de todas as idades, muitas delas sem nenhum meio de subsistência?
Nesta altura o meu filho mais novo diz-me “acende a luz, pai”.
A metáfora é boa filho, mas há coisas que o pai não é capaz.
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na Rádio Diana)

15 comentários:

  1. Mas há algum Cristão que acredite que a pobreza é uma inevitabilidade?
    Só na cabeça destes gajos...
    Quantos milhões de pessoas no mundo que são cidadãos de países comunistas não têm nada para por no prato? Venezuela...Cuba...China... etc e tal.

    Quem lê estes tipos e não os conheça ideologicamente de lado nenhum, até julga que está perante virgens puras e castas.
    Por isso acho os comunistas os maiores fingidos dentro de todas as ideologias

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  2. Francisco foi bastante frontal para aqueles que só conhecem os palácios dourados do vaticano ,acusou de sofrer de "Alzheimer espiritual"........""tentam preencher o vazio existente arrebanhando bens materiais"..........,Francisco tem pela frente uma Luta dificil,contra os vendilhões do templo que tomaram de assalto o vaticano,e pelo mundo são autênticos caciques em muitas paróquias,gostam de fazer caridadezinha e pouco mais,é contra esse tipo de igrega o grande combate do Papa FRANCISCO.

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  3. 21:17,meu caro se é Cristão não parece,quantos milhões em todo os paises do mundo passam privações,sujeito a humilhação da sopa dos pobres ?

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    1. aprenda a ler e aponte depois...

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  4. Não sou comunista, sou Social democrata de esquerda como diz o Daniel Oliveira.
    O nosso mal no Ocidente foi a queda do muro de Berlim, o capitalismo deixou de ter contra-poder, explora, escraviza e um dia vai eliminar, não tenham dúvidas.
    Hoje o contra-poder ao capitalismo, é IS o extremismo islâmico, o regime coreano, ou seja é pior a emenda que o soneto

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  5. A pobreza não é uma inevitabilidade, mas para fazer um rico é preciso criar muitos milhares de pobres.

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  6. Beija-mão às grades O ex-primeiro-ministro José Sócrates, preso em Évora, inaugurou uma nova prática: a de conceder audiências na cadeia. 27.12.2014 00:30 José Sócrates, preso em Évora, inaugurou uma nova prática: a de conceder audiências na cadeia. As peregrinações de inúmeras figuras públicas à penitenciária de Évora, sob a capa aparente de visitas de apoio e solidariedade, mais não parecem do que exercícios de vassalagem. Ao longo de anos e enquanto governante Sócrates garantiu ganhos milionários a alguns dos maiores grupos económicos, em particular na Finança e nas Obras Públicas. Todos aqueles que Sócrates beneficiou estarão agora a ir à cadeia beijar-lhe a mão. Será uma questão de gratidão. Por lá passaram e continuarão a passar os concessionários das parcerias público-privadas (PPP), a quem Sócrates garantiu rendas obscenas em negócios sem risco. Assim, não será de estranhar que o todo-poderoso Jorge Coelho, presidente durante anos do maior concessionário de PPP rodoviárias, o grupo Mota-Engil – tenha rumado a Évora. Também lá esteve em romagem José Lello, administrador, durante os governos socialistas, da construtora DST, que muito ganhou também com PPP. Não deixa de ser curioso que cheguem apoiantes de todos os setores que Sócrates tutelou. O líder do futebol português, Pinto da Costa, foi mais um dos que manifestou o seu apoio público. Afinal, Sócrates foi o ministro do desporto que trouxe o Euro 2004 para Portugal. Um Euro que valeu muitos milhões de euros aos clubes de futebol e seus dirigentes. Mais um gesto de vassalagem. Para ser visitado e apoiado, a Sócrates bastará enviar a convocatória. Todos aqueles cujos podres Sócrates conhece, os que usufruíram de benefícios ilegítimos pelas suas decisões – todos aparecem ao primeiro estalar de dedos. Todos temem Sócrates, pois sabem que se ele resolver falar, desmorona o seu mundo de promiscuidades entre política e negócios. Com estas convocatórias e manifestações de apoio, o ex-primeiro-ministro pretende manipular a opinião pública, vitimizando-se; bem como condicionar a Justiça, através da sua manifestação de força e influência. Mas o que não faz e deveria fazer é aproveitar o acesso direto aos media para explicar quais os bens de fortuna que lhe permitiram, sem rendimentos compatíveis, manter, durante anos e depois de sair do poder, uma vida de ostentação.
    Paulo Morais

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    1. Esse Paulo Morais já se tornou um escarro...condena ele primeiro e a justiça faça-se depois. Qual o problema de um prisioneiro - a quem ainda não foi apontada qualquer culpabilidade - receber visitas?

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    2. A questão não é ele receber visitas.
      O facto é que as visitas estão envolvidas nos negócios escuros do detido.
      Se não percebeste à primeira, lê outra vez o Paulo Morais.

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    3. O Paulo Morais é do PSD e odeia o Sócrates. Estivesse ele em Paris ou na cadeia...está tudo dito. Se não percebes, não posso fazer mais nada.

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  7. Papa Francisco: "Cristãos devem ser coerentes"

    basta ver muitos padres e leigos da nossa terra ,vivendo nos seus palacetes,organizando cruzeiros para alguns "cristãos"..................como eles gostam dos "seus" pobrezinhos.......

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  8. A longa fila no beija mão mafioso
    é friso de criminosos
    demónios, monstros, gárgulas medievais
    em pose de corpo inteiro
    com as garras na ogiva da governação.

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  9. É tudo muito bonito quando se lê um texto como este do senhor vereador Luciano em véspera de Natal.As palavras levam o vento, só gostaria também ter lido alguma coisa sobre aqueles desempregados que trabalharam durante o ano para a CME ao abrigo de um protocolo com IEFP e que no mês de Dezembro viram-se no desemprego outra vez, por terminação de contrato. Digo eu, em véspera de Natal não deveria o senhor vereador Luciano tomar conhecimento dessas pessoas, quais as suas necessidades, se iriam ter algum meio de subsistência, como iriam passar o Natal, não ninguém da CME se preocupou com essa gente e agora vem o senhor vereador Luciano falar do Natal e dos pobrezinhos "coitadinhos", como se não soubesse nada daqueles que a própria instituição pública que ele representa mandou para o caminho da miséria sem qualquer meio de subsistência em vésperas de Natal, BEM HAJA SENHOR VEREADOR LUCIANO!

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  10. Além de tudo o mais, a crónica é incoerente, tem ideias contraditórias. Por que não fica o snr. Luciano embevecido nas falas da sua criancinha e não larga o tacho? Quem é que o manda ir a actos de caridadezinha? Então a esmola não atrasa a revolução? Se é o que acha, por que vai assistir? Ora o que havia de acontecer aos eborenses: vereador de quê ?

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