domingo, 14 de dezembro de 2014

A questão dos autores anónimos nos “blogues”


©Joaquim Palminha Silva
A ausência de noção do que seja a crítica, com a consequente utilização de réplica argumentativa, minimamente estruturada, não entrou em crise através da Internet. Esta crise cultural e de mentalidades existia há muito. Aconteceu apenas que, com as novas tecnologias da informação e sua utilização sem freio algum, só agora começamos a ter uma ideia aproximada da multidão de ineptos mentais e atrevidos que povoam o País e, dentro deste, umas cidades mais do que outras. O que nos proporciona a visão aterradora do estado cultural e mental em que se encontra a população de Portugal, independentemente da religião que professam, das classes sociais, do partido com que simpatizam, do sexo e da idade.
            Não se pode levar a efeito um blackout sobre os comentários produzidos por ineptos mentais que aparecem nos “blogues”, porque a natureza democrática deste meio de informação não o autoriza, sob risco de cair no autoritarismo, na sua própria negação. De resto, isso não serviria de nada.
            Penso que deveremos recomendar aos produtores de escritos e comentários sob o título de anónimos o regresso aos bancos de escola ou outro tipo de formação pós-laboral. Por exemplo, as “Universidades” seniores poderiam ser um excelente meio de esclarecimento, em vez da palhaçada das excursões e outras habilidades e exibicionismos de entretém.
            Porque devemos recomendar este retorno à escola? Por duas razões.
            1º- Porque os autores anónimos de comentários, precisam de perceber que chamar “nomes” às pessoas, insinuar isto ou aquilo, sem qualquer fundamento, apenas enraizados na má-fé e em palpites, é irresponsável, calunioso mesmo e, em determinados casos, passível de recurso aos Tribunais, nunca por nunca poderá assemelhar-se a uma crítica.
            2º - Esta multidão que confunde a crítica com o mexerico, demonstra que não sabe o que seja dignidade, nem princípios éticos, ao usar o anonimato para praticar as suas diatribes, método de efectiva e grande irresponsabilidade (e cobardia!), que nos revela como o espírito da denúncia anónima, fomentada no tempo da Inquisição, reaparecida com o anti-clericalismo de Afonso Costa na I República, aberrantemente enaltecida com a ditadura salazarista, com a sua multidão de denunciantes e “bufos”, continua a ser utilizado entre nós.
            O que nos assusta, não é a existência de ineptos e mal-intencionados, o que nos causa terror é o seu esmagador número nos alvores do século XXI, num país supostamente europeu como é Portugal. Todos os “blogues” produzidos evidenciam a existência desta praga psicótica.
            Este fenómeno é revelador de que uma população que procede maioritariamente assim, não sabe o que seja cidadania, acabando por se aproximar da antiga populaça, da turbamulta de séculos idos, que se autoflagelava nas procissões e, depois, corria os bairros de Lisboa a “matar” judeus: homens, mulheres e crianças!
            Esta gente anónima não foi ensinada na escola ou esteve desatenta nas aulas, também não aprendeu nem aprende nada sobre dignidade humana, ética e espírito crítico se militante de partidos, pois estes não se fundaram para ensinar as pessoas a serem cidadãos. Só, pois, o próprio “blogue”, onde surge o comentário anónimo e insultuoso, pode exercer alguma profilaxia sobre estes trogloditas que ignoram conscientemente responsabilidades cívicas e éticas, sob risco de o próprio “blogue” pertencer ao clube fatídico dos indolentes ou, pior, identificando-se com o “anonimato” e acreditando que este seja modalidade democrática, assumindo, assim, por conseguinte, tremendas responsabilidades na deformação da mentalidade corrente dos cidadãos menos letrados, e contribuindo ao cabo e ao fim (seja o “blogue” de esquerda ou não) para a manutenção do subdesenvolvimento cultural!
            Compreendo estes comentaristas anónimos, mas isto não quer dizer que os desculpe. Trata-se de grupos de pessoas que se sentem desiludidas, estão mal consigo e com a vida que têm, não sabem pensar, raciocinam com dificuldade e, por isso, escrevem com deficiência, redigem mal. São pessoas que nos últimos anos receberam da Sociedade, do Estado e dos Governos menos do que aquilo que esperavam e, por isso, decidindo “castrar-se” mentalmente, querem arreliar os que julgam bem-sucedidos, adoptando uma linguagem agressiva, de regateira, que pensam incomodar todos os “outros”. Porém, pessoas medrosas, se gostariam de “punir” os “outros”, por sua vez têm medo de ser punidas, de serem votadas ao ostracismo nos locais de residência e de trabalho, de serem por sua vez acusadas como difamadoras… Por isso são anónimas!
            Chegou o momento de se perceber que são estas pessoas que dão a vitória ao regime do facto consumado. São estas pessoas que, julgando fazer oposição e crítica, escondendo-se sob o anonimato desacreditam alguma coisa que, apesar de tudo, possam dizer (escrever) com algum acerto.

            É preciso que os organizadores dos “blogues” não pactuem com os “aleijões” dos fenómenos de massas que usam e abusam das novas tecnologias, e existem desde que o mundo é mundo! Torna-se importante que os responsáveis pelos “blogues” reconheçam que «nenhum homem é uma ilha… Nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram: eles dobram por ti»!

1 comentário:

  1. Sr. Silva,

    não deverá com esta prosa que se vai livrar da “multidão de ineptos mentais” como entende chamar a “uma população que procede maioritariamente assim” no drama que parecem ser para si os comentários em blogs!

    Gosta de regras? Quer ser respeitado? - É fácil: dê-se ao respeito, comece por respeitar os hipotéticos leitores que inadvertidamente o possam ler em vez de insultar sem saber a quem… a não ser que queira sobre si a ira de quem o lê para depois se contentar com lamúrias e queixas por não obter o reconhecimento e apreço que espera e que certamente, imagina serem-lhe devidos!

    Reconhecimento? Apreço? Elogios? - … primeiro há que merecê-los, concorda Sr. Silva?

    Ass.: anónimo por direito próprio, levemente irritado com a pesporrência do que leu e ainda mais irritado por ser "apagado" por quem insulta a inteligência alheia.

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