quarta-feira, 19 de novembro de 2014

         
©Joaquim Palminha Silva










O Hino da Alegria

 (aos meus colegas da escola salesiana no ano lectivo de 1953/1954)


          Sempre que recordo os anos 50/60 do extinto século XX, quando escolar no externato salesiano Oratório Festivo de S. José, vulgarmente chamado na cidade de Évora “escolas dos padres”, vêm-me à memória os sons épicos, esfuziantes, do «Hino da Alegria» de Beethoven… Foram então tempos quase completamente felizes!
            Foram tempos de fé viva, expurgados da asquerosidade do dia-a-dia mesquinho, maldizente, das cobiças, do individualismo tacanho e do orgulho exagerado, por obra e graça da lição dos padres salesianos.
            Todas as manhãs, ao toque mágico da sineta, as imagens desconsoladas que a maioria dos miúdos transportava consigo, como hoje o creio, desapareciam por um movimento habitual do espírito e do corpo, este para se erguer são e fraterno, aquele para orar e, naturalmente, aprender as primeiras letras e os rudimentos da matemática…
            Acredito que nessa época, o externato salesiano para crianças do sexo masculino, era uma das mais engenhosas e admiráveis obras de pedagogia que aconteceram na cidade de Évora na 1ª metade do século XX. Obra de pedagogia especialmente vocacionada para resgatar do “mau-viver” da rua os miúdos de “pé-descalço” do mais pobre proletariado da cidade, que os “doutores” da burguesia republicana de um fundamentalismo escusadamente anti-cristão (de coloração maçónica), por vezes violento, haviam deixado “para trás”, apesar dos seus falaciosos “projectos” culturais laicos e democráticos…

O Pe. Vicente Morais numa imagem de 1926, com um grupo de crianças do coro infantil (uma destas crianças é o futuro musicólogo e investigador de História da música sacra em Portugal, Cónego José Augusto Alegria, 1917-2004).  

            Estou a ver, à Porta de Alconchel, e fora da cintura de muralhas, aquele grande espaço “multiusos” como não havia outro na cidade, com a sua modesta capela todas as manhãs repleta dos clarões brandos das vozes dos mais dotados para o canto piedoso, os campos e as arejadas salas de aula, imaginadas e traçadas pelo génio arquitectónico dessa figura singular que foi o Pe. Vicente Morais, a horta os espaçosos recreios, os campos de jogo (pião, berlinde, etc.) improvisados nesses espaços pelos miúdos. Espaços de jogos de futebol onde, aos domingos de manhã após a missa, acontecia a fantástica e pitoresca réplica do «campeonato nacional de futebol» que, graças à filantropia dos «benfeitores da obra salesiana», apresentava meia-dúzia de equipas de futebol compostas de airosos miúdos, que eram autênticas “miniaturas” dos grandes clubes nacionais (verdes, azuis, encarnados, preto e branco), e com todo o equipamento a rigor… Dizia eu, engenhosa obra de pedagogia… Porquê?


              
Porque, entre outras peripécias que não vem a propósito, os padres salesianos do Oratório Festivo de S. José, mercê de uma habilidade diplomática discreta, embarcavam tanto quanto podiam o caminho à propaganda militarista da ditadura, do «Estado Novo» sobre as crianças.
E assim, sem nunca falarem de política, souberam ensinar aos filhos das “classes” trabalhadoras eborenses, além dos rudimentos das leis materiais do Universo, as revelações do espiritualismo católico, numa tradução risonha, aluminada e variegada. Desta forma recordo o ensino religioso, talvez porque tudo era então cinzento e “marcava passo”, enquanto dos portões do colégio salesiano para dentro existia um prisma infantil de sete cores que saudava em Jesus Cristo um Amigo mais velho e, em S. João Bosco, um pai compreensivo.
Recordo, pois, o ensinamento dos imperativos da fraternidade entre os homens, a alegria colectivamente partilhada, ligada por mútuos direitos e deveres, com exclusão dos conceitos egoístas dos pequenos chefes, dos clãs e das tribos agressivas, além da exclusão declarada da concorrência, do ímpeto ambicioso dos mais dotados ou insofridos sobre todos os outros. Lembro, suplementarmente, que aprendemos que os homens são todos filhos de Deus e, portanto, todos iguais, pretos e brancos, orientais e ocidentais… Nós até tínhamos, então, um professor negro! Sim! – O racismo não conseguia abrir caminho no nosso seio!
Se todos tínhamos de aprender e estudar, nas horas próprias, também todos tínhamos de folgar nos campos de jogos e recreio, e se acaso, flutuando à bolina como um barco que perdeu a âncora, aparecia um miúdo com angústias vindas da alma à superfície, vagueando pelos cantos murcho e tristonho, logo um padre atento estabelecia diálogo com ele, de forma a dar curso fácil à dobadoira do entendimento da criança e, desta forma, indagando da origem da tristeza da criança, integrá-la no todo ou descontraí-lo, segundo ocaso… Que “espírito-santo-de-orelha” ensinava aos padres salesianos a psicopedagogia, numa época e num País em que tal era matéria pouco conhecida?
Nesse tempo, aquilo que poderemos chamar de “país escolar”, aquilo que era o compêndio e a aprendizagem cívica, estavam completamente dominados pela ideologia do «Estado Novo» que, para crianças e jovens, se exprimia na frequência obrigatória da «Mocidade Portuguesa», organização militarizada onde, além de se ensinarem “estórias” da História de Portugal, vozes esganiçadas de comando e chefia, aprendiam-se as doutrinas de latão da hierarquia, a marcha cadenciada e a linguagem de caserna, e afinavam-se os tenros braços na saudação-continência fascista, tomada de empréstimo às “juventudes” de Mussolini (o ditador italiano), tudo isto praticado às quartas-feiras de tarde e, se bem me lembro, aos sábados de manhã.
Na verdade, enquanto os alunos das escolas ”oficiais”, fardados ou não, afinavam o passo pelo diapasão de um «chefe de quina» ou «comandante de castelo», entoando o hino composto pelo poeta bejense Mário Beirão (Lá vamos, cantando e rindo,/Levados sim,/Pela voz de som tremendo/ Das tubas, - clangor sem fim…), os rapazes da “escola dos padres” salesianos desconheciam a “prática” da dita «Mocidade Portuguesa» … Desengonçados e felizes, acordavam, pois, todas as quartas–feiras para um dia de jogos colectivos, ensaio de canto coral (profano e religioso) e de caixas e clarins da sua luzidia fanfarra de gala, que tinha como supremo objectivo abrilhantar as procissões da cidade e, é claro, justificar face às “autoridades” do regime a ocupação das crianças todas quartas-feiras, sem comandantes e sem saudações guerreiras, com um treino pacífico e a alegria colectiva de se saber outras coisas da , da aprendizagem e da ©vida…

Por tudo isto, 60 anos depois, vem-me sempre à memória o «Hino da Alegria» de Beethoven…

3 comentários:

  1. Aqui só se admite incenso e comentários louvaminhas?

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  2. Não lhe parece orgulho injustificado querer elevar-se louvando os méritos da educação que teve, desmerecendo a educação de outros jovens do seu tempo só porque eles participaram das actividades da “Mocidade Portuguesa” e você não?

    Desses outros jovens, aliás a maioria dos seus contemporâneos, muitos recordam com saudade o companheirismo, a brincadeira, as actividades, o ar-livre, as regras, a disciplina, a religião, o respeito pelos mais velhos e o cuidado com os mais novos, o canto coral, a ginástica, a fanfarra, a aventura, os desportos desde o aeromodelismo à vela passando pela inevitável bola… e ao contrário do que supõe, a “Mocidade Portuguesa” não fez deles fascistas, militaristas nem de modo nenhum pessoas submissas ou agressivas! Alguns envaideciam-se com a farda e outros odiavam-na como com certeza alguns dos seus companheiros gostaram e outros detestaram e tiveram vergonha de depender dos padres. Alguns até talvez sonhassem ser da “ Mocidade” e fardar: normalíssimo, eram rapazes! Assegura-nos que nunca teve essa inveja: - ainda bem para si mas olhe que nesse tempo seria bem compreensível que a tivesse!

    Pergunte aos homens do seu tempo que passaram pela “Mocidade Portuguesa” o que pensam e o que colheram dela! Pela vida fora alguns terão sido adeptos do regime e outros opositores. Os que ainda estão vivos são ou foram trabalhadores, patrões, doutores disto e daquilo, militares e até gente da Igreja! Quando há eleições votam PSD, PS,CDS, PCP, BE… conforme cada um entende as coisas! - O mesmo por acaso não se passará com os seus antigos companheiros da “escola dos padres”?

    Nos dias de hoje ser pobre não é vergonha nem falta de mérito; porque raio então, passado tanto tempo, denota ainda esse sentimento de estigmatização? - É que sem querer e certamente sem se dar conta, no seu texto subsiste latente uma antiga e escondida acrimónia pelos meninos da “Mocidade Portuguesa”! - Mas, caramba homem… já lá vão 60 anos!

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  3. Pois eu ainda recordo os anos 60 e as estaladas que levei dos "senhores padres" nos "treinos pacíficos" por não saber marchar.

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