domingo, 30 de novembro de 2014

Portugal: fase terminal?

Joaquim Palminha Silva
           Grande percentagem da actividade dos últimos governos de Portugal foi regida por tendências acentuadas para a delapidação do património nacional, e em larga medida para a execução de obras públicas faraónicas, absolutamente dispensáveis ou inúteis, num pobre País saído de uma desnecessária e esgotante guerra colonial em três frentes. País com atrasos e deficiências a vários níveis, em relação ao conjunto dos países “democráticos” da Europa ocidental.      
            Não penso que a expressa malignidade e o egoísmo puro e duro tenham sido sempre conscientes, propositados, por parte das amálgamas partidárias e burguesas que ocuparam o Poder, mas a própria natureza de classe dessas formações de fresca data a isso conduziu inelutavelmente, após cerca de meio século de abstinência político-partidária.
            Na verdade, tal um homem com uma ideia fixa há-de arranjar sempre maneira de ver os factos, seja eles quais forem, como ele os quer ver, assim veio a acontecer com os partidos que usaram (abusaram) do Poder de Estado, o qual entendiam (entendem), primeiro que tudo, ser “justo” sujeitar às necessidades de subsistência material e política das suas hostes e só depois, por acréscimo ou suplemento “caritativo”, se poderiam efectuar ao acaso alguns trabalhos de proveito nacional, cujo efeito imediato, mesmo assim, se sujeitava (sujeita) a beneficiar clientelas económicas e “grupos de pressão”, a quem o partido no Poder devia (deve) inconfessáveis favores. A ideia fixa dos partidos que usaram o Poder foi, pois, de que este mesmo Poder existia para se servirem dele e não para o partido, através dele, servir a Nação e o seu Povo, segundo a vontade expressa nas urnas de voto.
            Tudo isto, de resto, legitimado por uma Constituição que, elaborada exclusivamente pelos partidos políticos a seguir à queda da ditadura, colocava (coloca) estas formações civis na posição de exclusivos “usufrutuários” do Poder de Estado e, naturalmente, da imensa máquina administrativa dos respectivos Ministérios e Municípios, com seus apetecidos orçamentos e estruturas burocráticas. Esta ideia de “usufrutuários” do Estado (não de servidores da República), instalou-se de tal modo nas mentalidades correntes dos militantes partidários no Poder ou na Oposição (de passado político e intelectual muito duvidoso, como se tem verificado), que estes legislaram, governaram (desgovernaram) e administraram o País como se este fosse uma colónia ultramarina africana (ideia oriunda do recente passado histórico) a explorar paulatinamente em favor da metrópole (isto é, de si mesmos), de que se poderiam descartar a qualquer momento enquanto, por consequência, a população desta suposta “colónia”, apenas “pobres indígenas” sem instrução, sem hábitos cívicos e sem qualquer préstimo para o “civilizado” Ocidente, só prestava (“presta”) para sofrer a sua “democracia”, entretanto “sagrada” pelas sucessivas eleições.
            A somar ao que venho de sintetizar, temos as géneses históricas e sociais dos partidos políticos que ocuparam o Poder de Estado (central e local) nas últimas décadas, comprovam-nos como os seus modelos societários, inscritos no respectivo «programa político», foram várias vezes traídos, negligenciados, remendados, alterado o seu conteúdo e a sua forma e, finalmente, quando no terreno da prática governativa, todos os dias completamente esquecidos, quando não esfarrapados ou guardados no armário dos esqueletos da arqueologia democrática.
            O resultado deste imbróglio de décadas está à vista de qualquer atento observador: - Ficamos a sobreviver com enorme dificuldade num território completamente hipotecado ao estrangeiro, obrigados a trabalhar para o pagamento de dívidas de Estado “inexplicáveis” (incluindo a crueldade dos seus juros!), de que então não nos apercebemos. Para não alongar a lista estatística das desgraças, basta referir que na Saúde, a despesa pública já é inferior à média da OCDE, o que, segundo o relatório desta organização, «está a ultrapassar os limites de segurança».
            Se até há pouco tempo estávamos à beira de nos obrigarem a abdicar de liberdades democráticas perante a ditadura de impopulares e inexplicáveis necessidades materiais, entretanto, já descaradamente o Estado, ocupado por um governo autoritário, com fortes tintas de características fascistas, nos submete como escravos, nos explora como pobres “indígenas de colónia africana”. O que deveria ter sido, após Abril de 1974, o caminho para a possível felicidade dos portugueses, com a melhoria da sua qualidade de vida, perdeu-se não sabemos “quando e como”, para começarmos a retroceder, a recuar cada vez mais assustadoramente para as proximidades daquela abjecta situação que condena a maior parte da população à pobreza.
                                                                                                                            


            O actual Parlamento está esvaziado de substância política autónoma, não é livre, portando, no que se refere a representar e defender os anseios e reivindicações do eleitorado que elegeu os seus deputados. Todas as funções da maioria parlamentar limitam-se a obedecer à disciplina de voto recomendada pelo Governo que, por sua vez, obedece aos prestamistas estrangeiros. As reformas da máquina administrativa da República são “sugestões” políticas imperativas, redigidas por estrangeiros que nada sabem de Portugal, mas que o Governo se esforça por cumprir, às vezes com excesso de zelo (o secretário de Estado, até ao ano de 1640, Miguel de Vasconcelos, não fez pior nem foi menos eficaz ao serviço de Espanha!). Seja como for, os votos de uma maioria confortável fazem que sejam aprovadas todas as aberrações legislativas, todas as traições à integridade, relativa independência e recuperação económica de Portugal. Enfim, afigura-se urgente encetar uma reforma que consiga desenfeudar o Parlamento da tutela de governos anti-patrióticos!
            Falemos da Oposição…
            Devido às condições a que tem estado subordinada a vida política nacional, vive-se um efectivo rotativismo no exercício do Poder, já entretanto experimentado na 2ª metade do séc. XIX. Acontece, por conseguinte, que se têm alternado no uso e abuso do Estado o PS e o PSD, pelo que a suposta “oposição” do PS ao PSD e vice-versa é uma ficção no que respeita ao conteúdo, embora as formas babilónicas pareçam desiguais. Assim sendo, esta “oposição” não é susceptível de uma interpretação séria, a menos que se queira entrar no palco e participar na tragicomédia que vimos encenada e representada há décadas.
            A oposição de esquerda ainda inclui em Portugal, com alguma preponderância, o tradicional partido comunista e agrupamentos alternativos com assento no Parlamento. Porém, estes últimos, de ideologia política heterogénea, difícil de classificar, e sem qualquer significado de classe, bem como em relação à tomada do Poder, não são formações políticas credíveis, actuando mais como grupos de pressão dotados de alguma organização.
            O desaparecimento das sociedades alternativas alicerçadas no marxismo, que pudessem ser consideradas representativas de modelos alternativos às sociedades capitalistas e liberais do Ocidente, nem por isso provocou o desaparecimento dos modelos explicativos que o marxismo da 1ª metade do século XX havia proposto. Pelo contrário, o modelo contínua a ser utilizado por várias gerações de militantes comunistas que, diga-se, passam uma esponja sobre as barbáries, abastardamentos e reformismos acontecidos, e até já conseguem ver no cruel despotismo chinês, de um hediondo e primário capitalismo, uma “variante” do socialismo.    
            Os ideólogos e pensadores marxistas e comunistas portugueses, desde há algum tempo que sentem dificuldades em determinar o seu papel na sociedade portuguesa, esquecida e arrumada nas gavetas da história a áurea da resistência heroica contra a ditadura. Entretanto, a tarefa política dos comunistas tornou-se paradoxal, uma vez que o partido pretende conservar o seu assento parlamentar a todo o custo, e a sua feição de formação responsável aos olhos do Kapital e dos lacaios portugueses dos prestamistas estrangeiros. A situação de partido “respeitável” e fiável (embora no presente espectro figure para o conservadorismo idiota como oposição “radical”), capaz de formar governo a qualquer momento, naturalmente dentro do actual redil constitucional, torna-se cada vez mais intransponível
A sociedade liberal moderna e o seu regime democrático tratam bastante bem quem lhe apaparica o sistema (mesmo das bancadas oposicionistas), tornando todos os seus directos colaboradores, situacionistas ou oposicionistas, beneficiários de “gordos proventos” políticos e materiais, quando não a nível central, a nível regional ou municipal.
            Entretanto, o uso excessivo da central sindical na organização de sucessivas greves gerais, completamente despidas do seu original carácter revolucionário, tendo resultado em desgastantes fracassos para o fim a que se propunham, o despesismo estapafúrdio em muitas Autarquias de gestão comunista e formações acompanhantes (em muitos casos, agravado depois pelos socialistas), e um estilo de oposição parlamentar que se caracteriza pelo interminável ralhete ao Governo, no tom de “encarregado de educação” que surpreende o educando em plena prevaricação e, portanto, o repreende, explicando-lhe depois como se devem fazer os “trabalhos de casa”, prenderam de tal forma os comunistas às “regras do jogo” que, mesmo justificados e esclarecedores, os seus discursos perderam qualidades mobilizadoras e, um dia (2012), aconteceu o inevitável: - Cerca de 150 a 200 mil manifestantes, entre si mobilizados através das denominadas “redes sociais” (Internet e Compª. Lda.), desfilaram em Lisboa, completamente à margem da organização comunista e da central sindical sob sua influência, gritando as suas reivindicações que são, afinal de contas, as reivindicações de todo o povo trabalhador!
            Enfim, ultrapassado (“à esquerda”?) pelas massas populares, queira ou não reconhecer o fenómeno, o partido comunista enfrenta um dos momentos mais graves da sua história. Que fazer? – Cabe a este partido responder…
Chegado a este ponto da exposição, é útil concluir…
           O diagnóstico da situação portuguesa já foi feito e, todos os dias, é actualizado por especialistas de vários quadrantes políticos. A crise pode estar controlada, mas continua a ser ameaçadora, pois ela é para os prestamistas estrangeiros um “modo de vida” lucrativo…
            Cada vez o jogo se torna mais arriscado e as apostas mais elevadas. Vão aumentar nos próximos meses taxas disto e daquilo, impostos directos e indirectos, taxas moderadoras na saúde, preço dos artigos de consumo de primeira necessidade. Vão aumentar as importações de produtos alimentares, de medicamentos, de tecnologia, etc..
            Portugal asfixia! E como a situação é esta, o fosso entre o que seria necessário e o que é possível evidencia-se como uma imensidão. Entretanto, mesmo se a consciência da obrigação de superar a crise é real, faltam-nos os meios para o fazer.
            A razão e a lógica conduzem-nos ao pessimismo, que é fruto da lucidez. Todavia, sem recusar a lucidez, precisamos de fazer renascer o optimismo da vontade revolucionária!
            Sem vontade de ruptura cultural, política, institucional e social, não haverá mudança!      Na fase terminal em que o País se encontra, que é que Portugal perde, se o seu povo trabalhador, organizado para a luta radical, amanhecer a levantar barricadas?!

            

sábado, 29 de novembro de 2014

Évora: exposição de fotografia inaugurada esta tarde


Exposição "Évora e o Cante" , 16H

Data: 29 de novembro a 31 de dezembro 

Local: Teatro Garcia de Resende (Pç. Joaquim Ant.º d'Aguiar) 

Exposição de fotografia no âmbito da comemoração da classificação do Cante Alentejano como Património da Humanidade. Fotografias de Carlos Gasparinho, Luís Garcia, Rui Diogo Castela e Telmo Rocha. O programa de inauguração inclui a apresentação da brochura "Évora e o Cante, Patrimónios da Humanidade" e participação dos Cantares de Évora. 

Horário: INAUGURAÇÃO: 29 NOV. SÁBADO 16:00 
Aberta dias úteis: 9:30-13:00 | 14:00-17:30
Contacto: 266 703 112 | geral@cendrev.com
Site: http://www.cendrev.com/
Org.: Câmara Municipal de Évora
Apoio: CENDREV
Entrada Livre

https://www.facebook.com/events/673224122791640/

Esta manhã na "é neste país"


29 de Novembro de 2014 . 11:30H

Trulé

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Amanhã aniversário de dois espaços culturais em Évora: Imaginário e Armazém 8

Hoje no Garcia de Resende espectáuclo com canções de Ary dos Santos


QUE NOS ENCANTE O CANTE

foto: António Cunha
Alentejo ai Alentejo
terra de Sol e Suão
quanto mais eu te desejo
menos são os que cá estão
esvazia-se a Terra - o chão
de gente todos os dias
como bolas de sabão
em tardes de ventania
cada vez menos searas
cada vez menos rebanhos
cada vez mais estranhas caras
de fulanas e fulanos
investidores gente rica
que traz à Terra milhões
quanto mais traz menos fica
para os velhos aldeões
Alentejo ai Alentejo
terra de Sol e Suão
quantos mais vêm cá ver-te
menos são os que cá estão

António Saias (aqui)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Ou não fosse na Ovibeja que há quase duas décadas nasceu o "Canto do Cante" por iniciativa do José Luís Jones


Tema central da Ovibeja 2015 homenageia Cante Alentejano

A Comissão Organizadora da Ovibeja congratula-se com a classificação do Cante Alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade e anuncia que o Cante Alentejano vai ser um dos temas centrais da 32ª edição da Ovibeja que se vai realizar de 29 de Abril a 3 de Maio. Entre as iniciativas que estão a ser preparadas contam-se uma exposição interactiva sobre o tema, a intervenção de especialistas na matéria, o desfile e a actuação de vários grupos corais.
Classificado hoje pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) como Património Cultural Imaterial da Humanidade, o Cante Alentejano assenta as suas raízes nos trabalhos do campo, marcando a identidade de uma região, os princípios das suas gentes, a sua coluna vertebral.
Em sintonia com o “canto da terra”, a Ovibeja constrói-se e desenvolve-se em respeito à mais pura ruralidade a partir das sinergias geradas por todos os que nela participam. A grande feira do Sul é motor impulsionador das diferentes dinâmicas por que é composta a sociedade, uma feira que inova num apelo constante à participação activa, ao exercício da cidadania, à construção de mais-valias resultantes de todos os sectores de actividade. A Ovibeja é uma feira que nasce na terra e se desenvolve na cidade, afirmando as diferentes dinâmicas, sejam do sector agrícola e agro-pecuário, dos desenvolvimentos tecnológicos, da investigação científica, do saber fazer e do saber ser.

Comissão Organizadora da 32ª Ovibeja

Capa do Diário do Alentejo de amanhã


E já está: o cante alentejano é Património Imaterial da Humanidade

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Diário do Alentejo: Crónica de Paulo Barriga, em Paris, enquanto se espera pela classificação do Cante como património da humanidade


Crónica de uma candidatura anunciada

Paulo Barriga

Paris, 26 de novembro. Hoje é quarta-feira. E isso é um problema levado da breca. Não é que as quartas-feiras não sejam dias tão benignos e indispensáveis como todos os outros. Antes pelo contrário. Mas foi hoje, que é quarta-feira, que ficamos a saber que Portugal fica algures situado entre a Polónia e o Qatar. Um rasgo geográfico improvável que advém da organização do mundo por ordem alfabética. Uma simpatia da Unesco para como os seus estados membros, quando todos eles se juntam em Paris, debaixo do mesmo telhado. Zangas e amuos à parte.
Não há nada de especial, e muito menos de reprovável, em ensanduichar Portugal entre a Polónia e o Qatar. O problema é que hoje é quarta-feira e para escrever a palavra Portugal começa-se com um “pê”, que é a décima sexta letra do abecedário, tomando como válida e necessária a existência do "capa" no nosso alfabeto. O que implica também que Portugal apenas será chamado a dizer de sua justiça perante o comité intergovernamental de salvaguarda do património cultural imaterial lá mais para diante. Exatamente na sua alfabética vez. Embora hoje seja quarta-feira.
A sorte, se é que sorte se lhe pode chamar, é que a Polónia, vizinha do lado esquerdo de Portugal na bancada geoestratégica da Unesco, não trouxe qualquer bem para inscrever na lista representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade. Portugal sim, trouxe o cante. Mas antes do cante soar em Paris temos que saber o que dizem os membros desta sessão, a nona, sobre as festividades da Virgem da Candelária de Puno, que acontecem no Peru. Ou sobre as expressões jocosas que se dizem tradicionalmente no Níger. Ou sobre os rituais em busca da chuva no Irão. Ou sobre a tradição da sauna de fumos na Estónia. Ou tão apenas sobre o reconhecimento da roda de capoeira do Brasil. E hoje é quarta-feira.
Bem vistas as coisas ou bem-feitas as contas, antes do cante subir ao palco, os holofotes do comité da Unesco vão pender, primeiramente, sobre 34 bens culturais originários de todas as partidas do mundo (são 45 as nomeações, mas 10 vem depois do cante ser anunciado, como é o caso da arte da sagacidade no Uzebequistão, e nessa altura já será rija a festa). E depois sim, o aguardo anúncio tão exaustivamente prognosticado desde finais de outubro, quando uma comissão internacional de peritos nestas matérias do imaterial se pronunciou favoravelmente acerca da mundividência dos cantares do Alentejo. 
O problema, bem se sabe, é que hoje é quarta-feira e talvez o expediente dos trabalhos desta sessão não seja rápido o suficiente para avaliar o cante durante o dia de hoje. O que acontecerá necessariamente amanhã. Mas hoje é que é quarta-feira. Mesmo. Nem terça, nem quinta: quarta-feira. O dia em que as notícias, as fotografias, os desenhos e tudo o mais que está dentro das páginas deste jornal, inclusivamente esta crónica tão ansiosa como desnecessária, vão para dentro dos rolos da máquina impressora. É assim a vida aflita e alvoroçada do único “diário” do mundo que fecha a edição à quarta e sai à sexta-feira.

Já está: a roda de capoeira já é património imaterial da humanidade

Livro sobre "Militares e Política: o 25 de Abril" vai ser apresentado amanhã em Évora


A sessão sobre o livro decorrerá amanhã, quinta-feira, dia 27 de Novembro, às 16h, no Auditório do Colégio do Espírito Santo (Largo dos Colegiais, 2).

Militares e Política: o 25 de Abril

Introdução - Luísa Tiago de Oliveira
Abertura: Grândola Vila Morena. Cinco instantes para uma canção - Carlos de Almada Contreiras

Parte I - Ramos Militares e 25 de Abril
Capítulo 1: Caracterização sociológica do Movimento dos Capitães (Exército) - Aniceto Afonso
Capítulo 2: A Marinha e o dia 25 de Abril de 1974 - Pedro Lauret
Capítulo 3: Força Aérea Portuguesa: uma realidade militar e sociológica - Luís Alves de Fraga

Parte II - Rupturas iniciais com o Estado Novo
Capítulo 4: O fim da PIDE/DGS e a libertação dos presos políticos - Luísa Tiago de Oliveira
Capítulo 5: A descolonização: libertação dos presos políticos e fim da PIDE/DGS nas colónias de África - Ana Mouta Faria



terça-feira, 25 de novembro de 2014

Évora: "Viridiana",hoje na Igreja de São Vicente



25. novembro. 21,30h
Luis Buñuel, Viridiana (1961)

Uma obra-prima de Buñuel, marcada pelo grotesco e pela paródia transgressora. O filme foi objecto de censura pelo papa João XXIII, considerado blasfemo e indecente. Em Espanha apenas exibido a partir de 1977, bem depois da morte de Franco. Deixem-se tentar…


https://www.facebook.com/events/273063072876616/

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Sócrates em prisão preventiva


Vamos a ver o que isto dá. Será como de costume: muita parra e pouca uva?
Para ir acompanhando: http://www.publico.pt/sociedade/noticia/socrates-1677309

... e deverá vir para Évora...

Sócrates deverá ir para Évora
O ex-primeiro-ministro deverá ficar detido em Évora, onde existe um estabelecimento prisional destinado não apenas a polícias e outras pessoas que exercem ou exerceram funções nas forças e serviços de segurança como a quem necessitar de “especial protecção”.
A decisão cabe ao director-geral de reinserção e serviços prisionais, que terá de avaliar se a segurança de José Sócrates fica posta em causa caso seja colocado numa prisão comum.
É também em Évora que está detido preventivamente o ex-director do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, Manuel Jarmela Palos, suspeito de corrupção passiva no caso dos vistos dourados.

Estrela Faria (a esquecida)

©Joaquim Palminha Silva

   





      Artista plástica de múltiplas aptidões, e um dos nomes da pintura portuguesa da 1ª metade do século XX. Natural de Évora, onde nasceu a 10 de Outubro de 1910.
     Em 1928, Estrela Faria começou a frequência da Escola de Belas artes de Lisboa, diplomando-se em 1935. O seu quadro «Donae» (1934) foi galardoado com um 1º prémio pela mesma «Escola…».

«Donae» (1934)

Desde então a sua carreira abriu-se ao mundo. Foi artista convidada para inúmeras obras públicas, em Portugal e no Brasil. Ganhou medalhas de ouro em certames internacionais. Expôs em Évora algumas vezes, e aqui deixou a marca do seu talento no Palácio da Justiça, sala de audiências. Exposição do Mundo Português, 1940 (colaboração de 12 arquitectos, 19 escultores e 43 pintores). Entretanto (1937), já havia uma obra sua (um painel) no edifício da Caixa Geral de Depósitos, em Oliveira de Azeméis. Em 1938 foi bolseira, classificada em 1º lugar, do Instituto de Alta Cultura, partindo para Paris. Interrompida a sua estadia por causa da ocupação de França pelas tropas (nazis) do III Reich, retornou ao País, onde teve de imaginar formas de subsistência que se enquadrassem com a sua arte: fundou uma pequena oficina (Benfica, Lisboa) onde fabricou modelos em gesso para as montras das lojas de roupa de Lisboa e, pasme-se, eram de tal forma graciosos os seus modelos femininos que os transeuntes paravam face às montras, para admirar a beleza escultural destes!

Estrela Faria no seu “estúdio” em S. Paulo (Brasil) decada de 50 do séc. XX.

            Data desta altura o seu pioneirismo, no provinciano panorama português, como “vitrinista”, decoradora e excelente executante da denominada “arquitectura de interiores”. A indústria de “lingerie” feminina requisitou o seu talento: loja «A Pompadour» (”Rua Garrett, Lisboa) e «Sapataria Europa» (1943/1945).
Mas a verdadeira vocação de Estrela Faria, a “grande obra pública”, iniciou-se com as pinturas a fresco para a sala «Alentejo» do Museu de Arte Popular (1948),


a que se seguiram outras obras de grandes proporções, considerando-se o seu apogeu, a vasta decoração, e arquitectura de interiores, do emblemático paquete transatlântico (hoje desaparecido) Vera Cruz!


            A obra da eborense Estrela Faria, dispersa pelo País e Brasil (sabe-se lá onde mais), está injustamente esquecida, começando vergonhosa e institucionalmente na sua própria cidade natal, que tanto amou e onde tanta exposição e obras produziu!
            Estrela Faria faleceu só e esquecida, em Abril de 1976. Todavia, dela disse Maria Lamas (in Modas & Bordados,4/7/1945): «Pintora, decoradora e ilustradora, Estrela Faria impõe-se pelo seu talento, vibrante de originalidade, e pela sua actividade incansável, num meio, como é, infelizmente, o nosso, onde são poucos os amadores de arte verdadeiramente conscientes. A independência artística desta rapariga que tem vencido por si própria, sem transigir com a incompreensão da maioria, pode apontar-se como nobre exemplo».
            Acontece que este esquecimento parece que lhe persegue a existência física das suas inúmeras obras, mesmo depois da pintora eborense não estar mais entre nós! – Hoje, 2ª feira, dia 24 de Novembro de 2014, a jornalista Alexandra Prado Coelho preenche duas páginas do diário Público com um trabalho sobre os 55 anos de vida do Hotel Ritz.
            São lembrados nesse artigo arquitectos, mestres ceramistas, pintores, etc. ... Mais uma vez, inusitadamente, nem uma palavra é dita sobre Estrela Faria, que executou para o citado Hotel cerâmica policromada, desenho de mobiliário, pintura decorativa e tapeçarias…Corria o ano de 1958-1959…
            Trabalhadora incansável, como a classificou a escritora Maria Lamas, aqui temos Estrela Faria “a testemunhar o seu trabalho sobre um escadote”, Hotel Ritz, 1959! Para que conste e, mais uma vez, envergonhe os desmemoriados dos jornais e desta “ingrata” cidade!





Todos iguais, mas uns mais do que outros


Aníbal Fernandes, no JN, 24/11/2014

Hoje há espectáculo comemorativo de Évora Património da Humanidade no Teatro Garcia de Resende

Opiniões & Opiniões

Joaquim Palminha Silva

  Desde quando os portugueses se encontram exilados da Filosofia e mergulhados no pântano das opiniões e comentários?
  Os antigos ainda cultivavam o terreno da inquietação existencial, exercendo a sua prática as mais das vezes nos vastos campos da religião, em conformidade com a gnose cristã…
  Depois da nossa antiguidade medieva e renascentista só nos aconteceram intermitências, fogos-fátuos, digamos assim: - Antero de Quental, Sampaio Bruno, António Sérgio, Leonardo Coimbra, Joaquim de Carvalho, Vieira de Almeida, Eduardo Lourenço, e pouco mais…
    Na realidade, a implacável roda do tempo provocou desde sempre mau ambiente para a sobrevivência das correntes de pensamento que vão mais longe e, passando a superfície da alma, mergulham fundo no leito das suas inquietações. Há, pois, uma longa desabituação do pensamento português, sempre a correr atrás do movimento incessante da vida, sem tempo, portanto, para arquitectar uma estrutura cultural que lhe perspective o futuro. Em termos lusitanos, se assim posso dizer, existe um contínuo conflito entre a vida e a cultura… Se uma avança, a outra parece que fica quieta, imutável.
            A causa principal desta ligeireza do “pensamento” lusitano deve estar directamente relacionada com as Descobertas e a Expansão Ultramarina. Absorvido pelas viagens e extasiado pelo achamento de “mundos novos”, de tão atarefado, o português nunca mais teve vagar para pensar, para “se pensar”! Enfim, em contacto com o mundo, o português andarilho consumiu-se paulatinamente pelos cinco continentes…
            Desde então, processou-se uma reviravolta no “pensamento” português, baralharam-se as ideias, e a opinião instalou-se a vários níveis como corrente de substituição. Acessível ao maior número, menos trabalhosa de praticar, por certo pouco artilhada de dialéctica, e, por isso mesmo, fácil de desbobinar… A partir daí abriu a opinião o seu caminho em plena liberdade. Se pouco ou quase nada penetramos no interior dos territórios que íamos descobrindo; se pouco reflectimos, tivemos em contrapartida mil opiniões sobre terras e gentes, fundamentadas em impressões de superfície. A literatura dita Ultramarina é, pois, um imenso catálogo de opiniões…turísticas e missionárias!
            Houve portugueses de entendimento desempoeirado, cultos e viajados, de boa têmpera cerebral, que não perderam de vista uma relativa racionalidade na investigação sobre o outro, seus costumes e pensamento, sua religião e rituais cívicos. O Padre António Vieira poderá ser arrolado nesta curta lista, bem como o Pe. Luís Fróis com a sua «História de Japam» (finais do século XVI), publicada pela 1ª vez completa e em edição cuidada no ano de 1976, sob o patrocínio da Direcção-Geral do Património Cultural/ Biblioteca Nacional de Lisboa. Todavia, apesar destas excelentes tentativas de dois jesuítas, a opinião prevalece sobre a indagação filosófica.
            Na verdade, a opinião é o macaco da Filosofia!
            Esperando aprender alguma coisa dos “segredos” desta última, a opinião chegou mesmo a desposar uma ou outra ideia filosófica. Porém, estas ideias já se encontravam metamorfoseadas pela secular viuvez do seu conteúdo original, pelo que o resultado final foi um campanário paroquial barafustando com cem repiques. Faz-se hoje muito barulho por azinhagas e subúrbios, mas o ruído das opiniões ainda não produziu um esboço filosófico, um pensamento original…
            Depois de várias peripécias: raptos de ideias, reabilitações de velhas opiniões, vadiagens opinativas, intrujices diversas, os adeptos da opinião viram a consagração institucional desta última. Chegou, hoje, portanto, ao auge da sua existência usada pela multidão de charlatães dourados que vendem, sob diversos travestismos, a ideia de que estão em contacto com a «pedra filosofal» …
            Por fim, como se o “destino” caprichasse em harmonizar a vulgaridade com a charlatanice, o homem (ou mulher) de opinião acabou por alcançar um estrondoso êxito intelectual e social: - Transformando em político votado, director-geral, membro de governo, administrador de empresa pública, director e editorialista de revista e jornal, animador de programa na televisão.
            Empresário de jogos de palavras, de disparates nunca aferidos, sem correr qualquer risco ou dissabor, o homem de opinião entrou na História ao ritmo das engrenagens espectaculares, colecionando paradoxos, “ditos de espírito”, sobretudo, cultivando a sua obra-prima: - Tornar incompatível com a existência soberana da opinião o simples exercício do pensamento!
            Com o tempo e os sucessos da Democracia “administrativa” (formal mas não social), o contingente dos homens de opinião aumentou, fez-se exército. Manobra hoje na parada do Poder, dos jornais, do Parlamento, onde papagueia as suas habilidades.
            Todos nós assistimos, impávidos e serenos, às evoluções desta gente de opinião, dando-lhes às vezes a honra de nos comandar, de nos arbitrar.
            Portugal é, pois, um país de opiniões! Enfim, homens e mulheres que opinam agasalhados pela demissão dos poucos que pensam… - Aconteça o que acontecer…Lá vem a opinião do dia!

            Muitas vezes temos de fazer alto na nossa corrida do dia-a-dia, para que o homem de opinião possa mandar aplanar o caminho e, assim, poder rodar aliviado sobre a nossa existência, sobre o nosso pensamento… Lázaro de todo, o País já nada estranha, mas sempre sente a falta uma “boa” opinião, logo pela manhã…

domingo, 23 de novembro de 2014

Há tanto tempo que o cante é património da humanidade!... (mas parece que há alguns que não sabem...)


A Saída dos Homens do Cante

O convite chegou por telefone. Uma conversa simples. Em poucas palavras se disse o necessário. 
O dia, a hora. Sim, haveria um desfile, coisa curta. E atuação em palco. Três modas e a de despedida. 
E transporte? Perguntava a voz do lado de lá, na fala de um alentejano que deixou o Alentejo. Façam uma carta ou mandem por email que a gente pede o autocarro.
Faltavam três meses e três dias para o encontro. Os homens do grupo convidado ficaram a saber no ensaio, não no da semana do convite que esse foi desmarcado. Tinha morrido um familiar. Foi na terça-feira a seguir. 
Formem lá. Antes de começarmos temos aqui informação. Recebemos um convite. 
Há condições para irmos?
Então não havemos de ir porquê?! 
Então isso mete desfile? 
Mete. 
Acho que são 7 grupos, dizia o homem que tinha recebido a chamada. O homem que organiza o grupo. O homem que quase lê os pensamentos dos outros homens que formam diante de si. Na sala de ensaio. Que vê os seus rostos e os seus trejeitos. O homem que tem de aguentar mais que os outros. Porque o cante dá trabalho, dá moengas. Tem de haver alguém que tenha jeito e paciência.
O tempo passou porque o tempo não para.
Quem é que não pode ir? Há alguém que não vai? Acompanhantes? Duas? Não há problema. Já sabem. Sábado, à hora combinada!
Partiram. 12h30. Abalaram para a margem sul. Desta vez não passavam a ponte. Cafézinho tomado. Um jornalinho para ler, A Bola. A malta nova ainda meio ensonada. Os velhos fartos de estar já acordados. Primeira paragem. Alcácer do Sal. A estação onde se fuma e outras coisas se fazem porque o corpo e o organismo assim o pedem. 
Pouco tempo, não se vá chegar atrasado. Sim, homem! 
No rádio tocavam músicas seguidas, dizia a voz da rádio. 
Saíram da autoestrada.
Chega lá mais perto o autocarro? Não chega! Chega! Há aqui um homem que não pode andar. Chegou. 
Teve de se desviar um contentor do lixo. Desceram-se dois homens ainda sem chapéu na cabeça. Encosta mais à esquerda! Passa, passa.
Passou. Mais 300 metros a pé. Já se viam as mulheres de um coral, de malas ao ombro. 
Porra que chegamos sempre atrasados! Lá estás tu! 
30 minutos depois começou o desfile. Já tinha sido entregue a ordem dos grupos. Já os homens tinham bebido minis, copos de vinho, uns de branco, outros de tinto. Já se tinham cumprimentado alentejanos e alentejanas. Tantos familiares, alguns afastados outros chegados. Netos e netas, moços e moças de uma outra geração, que já não nasceram em Beja, ou em Évora, nasceram ali naquelas bandas. Nas cidades de tanta gente.
Nas ruas, os passeios eram plateias. Às janelas dos andares mais baixos, algumas mulheres viam os alentejanos da sua rua a apreciar o cante. 
Mais ao fundo, esvoaçava a bandeira da sede da associação recreativa e desportiva. Ao lado, um palco com cobertura para o sol, ou para a chuva. O som propagava-se bem. A voz era forte combinando bem com o rosto largo e um bigode farfalhudo do homem que apresentava o encontro. Tinham tantos microfones. Assim, sim. Por ali foram passando os seis grupos. Um tinha faltado. Ali se interpretaram as modas escolhidas nos ensaios. Repetiram-se algumas. 
Alentejo, Alentejo foi cantada duas vezes. Tão e que tem lá que se cante, cada um canta de maneira diferente! 
O cozido de grãos tinha sido bom, no ano passado. Desta vez tinha sido carne de porco à alentejana. Comeram bem. O vinho, bem, uns gostaram outros não, mas todos beberam bem. Um cafezinho. Um bagacinho. Um desvio, um poste, um chichi escondido e apressado. Seguiram viagem. Duas paragens. Desviaram para a nacional. Mimosa foi a última paragem antes de chegarem a casa. Chegaram todos bem. Cantaram toda a viagem. 
Temos de convidar a malta para vir ao nosso encontro!
Bem, não se esqueçam que para a semana há ensaio! Saúde!
Filipe Pratas (aqui)

sábado, 22 de novembro de 2014

José Sócrates detido esta noite no aeroporto de Lisboa


José Sócrates foi detido esta sexta-feira no Aeroporto da Portela, em Lisboa, quando chegava de Paris. A Procuradoria-Geral da República (PGR) explica que a detenção surge no âmbito de um processo de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal. O inquérito está a ser conduzido pelo procurador Rosário Teixeira.
Em comunicado, a PGR diz que há mais três detidos além do ex-primeiro-ministro, sem nomear quais - serão quadros do grupo Lena. O mesmo comunicado diz que a presente investigação não teve origem no processo Monte Branco.
Em causa estará uma casa avaliada em três milhões de euros que o ex-primeiro-ministro habitou quando tirou um curso em Paris depois de deixar o governo. Os investigadores querem saber de onde veio o dinheiro para comprar a casa. Sócrates disse sempre que pediu um empréstimo ao banco para poder pagar o aluguer do apartamento. 
Em Agosto, a revista "Sábado" escreveu que Sócrates estava a ser investigado no âmbito de um processo extraído do caso Monte Branco. A Procuradoria-Geral da República desmentiu que o ex-primeiro-ministro estivesse a ser investigado


O comunicado da PGR:


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Teatro no Imaginário: de hoje a domingo



A Associação Do Imaginário apresenta, em reposição, BARRACAS/OCUPAÇÃO. Uma fábula teatral na celebração dos 40 anos da revolução de 25 de Abril de 1974. 

HORÁRIO: 20, 21, 22 às 22 horas e 23 às 16h.
TEL.: 266704383/962667914
EMAIL: doimaginario@doimaginario.org
ORGANIZAÇÃO: do IMAGINÁRIO/associação cultural

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A Igreja das Mercês estará à mercê

Ainda no âmbito das vistas partidárias levadas a cabo pela concelhia de Évora do Partido Social Democrata, na passada sexta-feira desloquei-me à Igreja das Mercês para poder inteirar-me dos danos de que foi alvo durante o decurso das obras que deram lugar ao hotel contíguo. Para quem desconhece, esta igreja fica na rua do Raimundo.
Na verdade, pude constatar que a referida igreja aparenta várias rachas em várias paredes do seu interior e, até, para um leigo em matéria respeitante à engenharia civil, as rachas e fendas existentes nas paredes da Igreja das Mercês, podem e/ou significam algo de muito preocupante se não houver uma intervenção de fundo que evite o avolumar dos danos existentes.
Não é minha intenção fazer aqui um juízo de culpabilidade no que concerne aos responsáveis pelos danos existentes na estrutura da respectiva igreja, para isso existem as entidades administrativas e judiciais. Porém, como cidadão eborense tenho a obrigação e o dever cívico de chamar à atenção para aquilo que está a suceder com a degradação de um património secular e que é da pertença de todos. A igreja das Mercês está classificada como património da humanidade.
Por outro lado, aparentemente, as medidas que foram adoptadas para que os danos existentes não se avolumem, para um homem médio, nem muito entendido, nem destituído de sentido de observação, confrontado com a amplitude dos danos existentes, aparentemente, são inadequadas por serem demasiado paliativas. Por exemplo, não existe um escoramento das paredes. Mas, repito, não sou técnico e devemos presumir que as entidades responsáveis estão a realizar um trabalho adequado e proporcional à natureza e à gravidade das coisas.
Pese embora a presunção de que tudo está a ser feito para que a igreja das Mercês não venha a desmoronar-se e que a segurança dos cidadãos que todos os dias atravessam a rua do Raimundo, quer a pé, quer de automóvel, não está em causa, deixo aqui uma pergunta final; porque é que Câmara não coloca outro tipo de protecção pedonal, que impossibilite o acesso ao passeio que confina com a igreja e suprime os estacionamentos que se situam em frente.

José Policarpo (crónica na Rádio Diana)

Livro sobre "Cantores de Abril" apresentado amanhã em Évora


"Estimadas(os) Amigas(os)

Vou estar na próxima 5ª feira, dia 20, às 18h30, na Biblioteca Pública de Évora, na apresentação do meu livro Cantores de Abril, com prefácio de Manuel Alegre, distribuído com o Jornal Público no dia 25 de Abril.
A apresentação está a cargo de Margarida Morgado, num programa, em anexo, com a participação dos Jograis do Alentejo, da Directora Regional da Cultura do Alentejo, Ana Paula Amendoeira e do Vereador da Cultura Eduardo Luciano.
Gostaria muito de contar com a V/ presença Amiga, para partilharmos juntos momentos de fraternidade e de afirmação dos ideais do 25 de Abril.
"Traz outro Amigo, também"

abraço fraterno do
Eduardo M. Raposo"
         
©Joaquim Palminha Silva










O Hino da Alegria

 (aos meus colegas da escola salesiana no ano lectivo de 1953/1954)


          Sempre que recordo os anos 50/60 do extinto século XX, quando escolar no externato salesiano Oratório Festivo de S. José, vulgarmente chamado na cidade de Évora “escolas dos padres”, vêm-me à memória os sons épicos, esfuziantes, do «Hino da Alegria» de Beethoven… Foram então tempos quase completamente felizes!
            Foram tempos de fé viva, expurgados da asquerosidade do dia-a-dia mesquinho, maldizente, das cobiças, do individualismo tacanho e do orgulho exagerado, por obra e graça da lição dos padres salesianos.
            Todas as manhãs, ao toque mágico da sineta, as imagens desconsoladas que a maioria dos miúdos transportava consigo, como hoje o creio, desapareciam por um movimento habitual do espírito e do corpo, este para se erguer são e fraterno, aquele para orar e, naturalmente, aprender as primeiras letras e os rudimentos da matemática…
            Acredito que nessa época, o externato salesiano para crianças do sexo masculino, era uma das mais engenhosas e admiráveis obras de pedagogia que aconteceram na cidade de Évora na 1ª metade do século XX. Obra de pedagogia especialmente vocacionada para resgatar do “mau-viver” da rua os miúdos de “pé-descalço” do mais pobre proletariado da cidade, que os “doutores” da burguesia republicana de um fundamentalismo escusadamente anti-cristão (de coloração maçónica), por vezes violento, haviam deixado “para trás”, apesar dos seus falaciosos “projectos” culturais laicos e democráticos…

O Pe. Vicente Morais numa imagem de 1926, com um grupo de crianças do coro infantil (uma destas crianças é o futuro musicólogo e investigador de História da música sacra em Portugal, Cónego José Augusto Alegria, 1917-2004).  

            Estou a ver, à Porta de Alconchel, e fora da cintura de muralhas, aquele grande espaço “multiusos” como não havia outro na cidade, com a sua modesta capela todas as manhãs repleta dos clarões brandos das vozes dos mais dotados para o canto piedoso, os campos e as arejadas salas de aula, imaginadas e traçadas pelo génio arquitectónico dessa figura singular que foi o Pe. Vicente Morais, a horta os espaçosos recreios, os campos de jogo (pião, berlinde, etc.) improvisados nesses espaços pelos miúdos. Espaços de jogos de futebol onde, aos domingos de manhã após a missa, acontecia a fantástica e pitoresca réplica do «campeonato nacional de futebol» que, graças à filantropia dos «benfeitores da obra salesiana», apresentava meia-dúzia de equipas de futebol compostas de airosos miúdos, que eram autênticas “miniaturas” dos grandes clubes nacionais (verdes, azuis, encarnados, preto e branco), e com todo o equipamento a rigor… Dizia eu, engenhosa obra de pedagogia… Porquê?


              
Porque, entre outras peripécias que não vem a propósito, os padres salesianos do Oratório Festivo de S. José, mercê de uma habilidade diplomática discreta, embarcavam tanto quanto podiam o caminho à propaganda militarista da ditadura, do «Estado Novo» sobre as crianças.
E assim, sem nunca falarem de política, souberam ensinar aos filhos das “classes” trabalhadoras eborenses, além dos rudimentos das leis materiais do Universo, as revelações do espiritualismo católico, numa tradução risonha, aluminada e variegada. Desta forma recordo o ensino religioso, talvez porque tudo era então cinzento e “marcava passo”, enquanto dos portões do colégio salesiano para dentro existia um prisma infantil de sete cores que saudava em Jesus Cristo um Amigo mais velho e, em S. João Bosco, um pai compreensivo.
Recordo, pois, o ensinamento dos imperativos da fraternidade entre os homens, a alegria colectivamente partilhada, ligada por mútuos direitos e deveres, com exclusão dos conceitos egoístas dos pequenos chefes, dos clãs e das tribos agressivas, além da exclusão declarada da concorrência, do ímpeto ambicioso dos mais dotados ou insofridos sobre todos os outros. Lembro, suplementarmente, que aprendemos que os homens são todos filhos de Deus e, portanto, todos iguais, pretos e brancos, orientais e ocidentais… Nós até tínhamos, então, um professor negro! Sim! – O racismo não conseguia abrir caminho no nosso seio!
Se todos tínhamos de aprender e estudar, nas horas próprias, também todos tínhamos de folgar nos campos de jogos e recreio, e se acaso, flutuando à bolina como um barco que perdeu a âncora, aparecia um miúdo com angústias vindas da alma à superfície, vagueando pelos cantos murcho e tristonho, logo um padre atento estabelecia diálogo com ele, de forma a dar curso fácil à dobadoira do entendimento da criança e, desta forma, indagando da origem da tristeza da criança, integrá-la no todo ou descontraí-lo, segundo ocaso… Que “espírito-santo-de-orelha” ensinava aos padres salesianos a psicopedagogia, numa época e num País em que tal era matéria pouco conhecida?
Nesse tempo, aquilo que poderemos chamar de “país escolar”, aquilo que era o compêndio e a aprendizagem cívica, estavam completamente dominados pela ideologia do «Estado Novo» que, para crianças e jovens, se exprimia na frequência obrigatória da «Mocidade Portuguesa», organização militarizada onde, além de se ensinarem “estórias” da História de Portugal, vozes esganiçadas de comando e chefia, aprendiam-se as doutrinas de latão da hierarquia, a marcha cadenciada e a linguagem de caserna, e afinavam-se os tenros braços na saudação-continência fascista, tomada de empréstimo às “juventudes” de Mussolini (o ditador italiano), tudo isto praticado às quartas-feiras de tarde e, se bem me lembro, aos sábados de manhã.
Na verdade, enquanto os alunos das escolas ”oficiais”, fardados ou não, afinavam o passo pelo diapasão de um «chefe de quina» ou «comandante de castelo», entoando o hino composto pelo poeta bejense Mário Beirão (Lá vamos, cantando e rindo,/Levados sim,/Pela voz de som tremendo/ Das tubas, - clangor sem fim…), os rapazes da “escola dos padres” salesianos desconheciam a “prática” da dita «Mocidade Portuguesa» … Desengonçados e felizes, acordavam, pois, todas as quartas–feiras para um dia de jogos colectivos, ensaio de canto coral (profano e religioso) e de caixas e clarins da sua luzidia fanfarra de gala, que tinha como supremo objectivo abrilhantar as procissões da cidade e, é claro, justificar face às “autoridades” do regime a ocupação das crianças todas quartas-feiras, sem comandantes e sem saudações guerreiras, com um treino pacífico e a alegria colectiva de se saber outras coisas da , da aprendizagem e da ©vida…

Por tudo isto, 60 anos depois, vem-me sempre à memória o «Hino da Alegria» de Beethoven…