sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O português tal qual pensa, fala e actua


©Joaquim Palminha Silva
  
            O que escrevo a seguir não é uma nova armadura literária, apenas desejo ser objectivo e sincero. Este português de que falo não é nenhuma ave rara, mas um pacato cidadão a quem apoquentam problemas de reflexão como toda a gente, mas que em vez de entrar no reino de pensamento de chapéu na mão, disposto a escutar a voz da razão, vira as costas desdenhoso à porta do raciocínio e parte noutra direcção, assobiando sabe-se lá que música, a refazer o mundo à sua imagem e semelhança.
            Escutemo-lo pois, antes que ele abale para outro sítio. Talvez da sua pobre confusão nos venha alguma luz…sobre todos nós!
            «Não há-de ser nada!». Expressão muito vulgar no linguajar de rotina da lusa gente. Para perscrutar os recantos da alma portuguesa não há melhor que estas frequentes expressões, estas frases-feitas que traduzem a vibração da tosca forma de pensar da gente comum. Podemos considerar que, conscientemente ou não, a expressão encerra, em simultâneo, duas garatujas vagabundas da inspiração “filosófica” lusitana.
            A primeira, supõe a expressão com qualidades reconfortantes perante a adversidade. A segunda, supõe que a mesma expressão possui o condão mágico de apelar a ignorados “espíritos protectores”, para que amparem algo que se sabe de antemão não reunir condições de êxito. «Não há-de ser nada!», é o mesmo que pedir ao acaso que proteja a insuficiência, ao “destino” que seja tolerante para com a leviandade sistemática, a imprevidência continuada.
            No geral, acalcanhado pelo fatalismo, o português acredita que se salva das situações embaraçosas encontrando a expressão mágica adequada, que salvará a Pátria e os desprevenidos compatriotas pelo bom uso que souber fazer, em dado momento, de uma frase inspiradora. Por si mesma, a expressão define a fase que atravessa a sociedade portuguesa. «Não há-de ser nada!»: - O mesmo é dizer que se espera o pior! O mesmo é dizer que já estamos no começo do fim de tudo! 
          Parece que os portugueses andam sempre à procura de acidentes, desastres, azares, infelicidades que os tornem solidários. Só assim conseguem demonstrar ao mundo como são amigos uns dos outros: - Somos o povo do triunfo na derrota; da ascensão na queda, da saúde doentia, da infeliz felicidade! Enfim, não é por acaso que gostamos tanto do fado, essa canção tão chorada, tão sofrida…
            Para estas situações que pedem ligaduras sociais, adesivos políticos, almofadas repousantes de Bancos, desinfectantes orçamentais e ajudas de custo milionárias, temos vários fragmentos “raciocinantes”, retirados da “enciclopédia” que alberga a teia interpretativa lusitana. Um destes fragmentos é a expressão «Depois logo se vê».
            Com esta frase embainhada como uma espada, estabeleceu-se uma tendência para esgrimir na atmosfera a hipotética acção prática. O investigador atento notará logo que a frase denúncia quanto a acção foi levada a efeito com preparativos trémulos, e de duvidosa continuidade no espaço e no tempo. Porque este «Depois logo se vê» é a sonolência do consciente dos lusitanos depois de encetada uma obra, independentemente das características desta. Sonolência que acaba por adormecer por completo a visão do imprevisto, que se compraz no sentimento de satisfação da produção circunstancial, e se entusiasma com os dados imediatos do senso impressionável, sem mais indagações, contente com os pontos de vista familiares, com a rotina. Como custa a compreender que toda a obra não se esgote após a sua realização, e nada se programa para depois (a curto, médio e longo prazo), por exemplo, face a eventuais emergências, o português só consegue imaginar, para descansar a cabeça, a existência da almofada: «Depois logo se vê»!
            Por muito desassombrado de influências alheias que seja o espírito português, este não consegue permanecer insensível à obra de fachada (quando é que o português se não preocupa com o exterior das coisas?!), nada há de mais deslumbrante do que a sua sofreguidão dos sentidos. No festim da vida trata primeiro que tudo de fartar-se, de encher a sua existência de impressões súbitas, desejos primários e obras de pompa e circunstância. Depois, ai de quem se atreva a pensar melhor do que ele ou diferente dele! Ai de quem o queira prevenir, lembrando-lhe o dia de amanhã.
            «Depois logo se vê»!
            Dotado desta curta visão, mais tarde ou mais cedo acorda cariado pelo depressivo regime do improviso. E à violência do despertar no seio do desastre, junta-se-lhe a imagem ineficaz dos seus desejos impotentes, porque de curtas vistas… Por fim, o descolorido «Depois logo se vê», transforma o português num passarito apanhado na rede que implora que o salvem. Os seus soluços desesperados têm o som excêntrico de chuva que tomba num telheiro de zinco… E os olhos, afogados em lágrimas, já não o deixam ver nada…  

(enviado por email)

4 comentários:

  1. É um pouco assim.
    Até no futebol, balança entre os melhores do mundo(80), ou raça de sornas(8).
    Estratégia, planeamento não existe.Basta ver o orçamento de estado para 2015(feito em 18 horas) à pressa e em cima do joelho.

    Basta ver as leis, ainda não saíram já têm uma correção ou adenda

    Não há volta a dar... ditados desses há aos montes. Leva a vida a brincar, pois por muito a sério que a levas não vais sair vivo dela

    ResponderEliminar
  2. Há gente assim "de curta visão" e "desejos impotentes"... que cada um fale por si mas o que não vale a pena é tanta prosa só para mendigar dos outros cumplicidades para os seus (maus) estados de alma!
    Não pega! Nem todos são choramingas!

    ResponderEliminar
  3. Os outros são sempre o problem, são sempre os ignorantes, sempre os parvos e reguiçosos que arrastam isto tudo. EU, EU, EU é que sou o bom e esperto, o que eu queria realmente mas não o posso aqui dizer é que todos fizessem o que eu digo, e me deixassem pensar por todos.

    Obrigado A Cinco Tons e já agora Mais Évora por me deixarem fazer essa propaganda politíca

    ResponderEliminar
  4. O senhor Joaquim Silva poderá ter razão com este artigo, enquanto autor de uma peça jornalística, pelo imediatismo de certa forma apaixonado, com que os jornalistas hoje em dia encaram o que observam no quotidiano.

    No entanto, para se entender a idiossincrasia deste povo terá que se entender o que deu origem Àquilo que este povo é hoje.

    Por princípio sou opositor de maniqueísmos quando se trata de referir o papel do homem nas suas múltiplas actividades (papéis) dentro de uma sociedade.Como tal não entendo que possa ser «bom» ou «mau» o procedimento de um meu semelhante sóporque teve oportunidades distintas das que eu tive.

    A História poderá, com a sua multiplicidade de meios de análise interpretar mais fielmente aquilo que o homem é,emfunção do que poderá ter sido.

    Considero que somos realmente distintos dos Franceses ou dos Alemães,mas fizemos ao longo dos séculos um percurso diferente no ponto de vista, económico, cultural, religioso de que resultou aquilo que somos hoje.

    Mas de maneira nenhuma eu tenho o direito de,uma vez integrado,na mesma sociedade daqueles que critico, mem armar em detentor de uma Verdade que todos procurámos com os mesmos meios definidos que estavam os mesmos fins ou a ausência deles.

    Emanuel

    ResponderEliminar

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.