quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Nomes de terras, heróis e pícaros anónimos, ditos, adágios e juízos


©Joaquim Palminha Silva

  Desde há muito que me sinto atraído pela graça sentenciosa, quase sempre contraditória e difícil de interpretar dos ditos e adágios populares. Seduzido pelas ditados, juízos, sentenças e atributos dos nomes das terras, pícaros anónimos e heróis de que ninguém conhece o paradeiro, debrucei-me sobre a profusão deste tema, talvez tão velho que remonte aos tempos dos reis godos, e encontrei-me no reino da barafunda, tal é a quantidade temática das contradições manifestadas …
           Como entender e aquilatar do mérito, do ambiente moral, constituição e crescimento das terras (vilas, cidades e regiões) de Portugal com ditados deste quilate colados à sua identidade?
            «Quem tolo vai a Santarém, tolo de lá vem»; «A quem Deus quer bem, levou a morar entre Lisboa e Sacavém»; «Aonde is? A Évora Monte fazer barris»; «Quem não viu Coimbra, não viu coisa linda»; «Para cá do Marão, mandam os que cá estão»; «Justiça de Barcelos, fugi dela». Este pedaço da imensa lista de arrazoados sobre localidades assenta em que factos reais? Que experiências tão acintosas testemunham estes juízos para caírem, de geração em geração, no adagiário popular que nem sopa no mel?! Por exemplo, este ditado terá origem na igreja da Praça de Giraldo? «Por dar dão, dizem os sinos de Santo Antão». Provavelmente nunca saberemos a verdadeira origem destes ditados que o povo memorizou…
            Fenómeno multifacetado, mesmo misterioso, é o aparecimento de heróis e pícaros anónimos (filhos de pais incógnitos?) no rifoneiro tradicional português. Alguém consegue averiguar qual a terra de origem, tão carente de rei, a que se refere: «Nem rei, nem Roque»? Haverá alguém quem saiba a identidade real desta da personagem deste ditado: «Vai-te Vicente, para Benavente»? Citado antigamente com alguma frequência, como se fosse da família, dizia-se não sei a que propósito, «Achou Pedro o seu cajado». Será este figurão amparado a seu cajado o apóstolo S. Pedro, a caminho de Roma? De resto, o adagiário popular reserva vários desempenhos para Pedro interpretar, veja-se: «Pedros, burros velhos, terras por cima de regos, burra que faz “im”, e mulher que sabe latim, nem comprá-los nem vendê-los, mas sempre é bom em casa havê-los!»
A desgraça tem servido de travesseiro a muito incauto e desprevenido, razão porque o personagem já existia no século dos Descobrimentos, e assim era chamado: «Pedro Sem, que já teve e nada tem». Há mesmo um aviso popular que nos acautela: «Diferença há de Pedro a Pedro» …


            Há nomes que ficaram para sempre (que é muito tempo!). Diz Teófilo Braga (I vol. de O Povo Português). Apoiado por Leite de Vasconcelos, que no Alentejo havia o costume de o padrinho do casamento, das janelas altas da casa onde decorria a boda, atirar aos rapazes da terra «confeitos e dinheiro» miúdo, sob risco de não o fazendo receber mimos destes: «Desde que morreu o Félix, nunca vi casamento tão reles». Pergunta-se: - Quem foi este Félix?
Nesta linha de pensamento, sejamos cristãos, e sirva-nos de consolação que «Ninguém empobrece por ter dado muito»!
            A multidão de personagens dos ditos, adágios e provérbios populares deu origem a rudimentar “filosofia” de vida em Portugal. “Filosofia” responsável por formas de vida, medidas de prudência, sentenças oportunas, “receitas” médicas, espírito crítico e, como as moedas velhas que tinham duas caras, uma no rosto do metal e outra diferente no verso, também estes ditos tem o seu contrário, o seu oposto, a sua negação. Um ditado popular anula outro, uma sentença nega outra, um juízo escamoteia outro. Enfim, não há como os portugueses para serem eles próprios e o seu contrário: «Aprendiz de Portugal não sabe coser e quer cortar».
Apraz-nos terminar aqui esta breve incursão pelo mundo da «cultura popular», dizendo como os de Melgaço que, ao levantarem a mesa, por graça, costumavam dizer: 

«Graças a Deus para sempre,
              Que já comi eu e toda a minha gente:
              Levanta a mesa, Maria Vicente.».

Joaquim Palminha da Silva (por email)

1 comentário:

  1. Pois fique-se pelo rifoneiro Sr. Palminha que v. quando se mete em filosofias e políticas estatela-se ao comprido, dá cabo da paciência dos outros e estraga a ideia que quer dar de pessoa culta!

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