terça-feira, 28 de outubro de 2014



Bondade de Estufa


A sociedade contemporânea está organizada para o cultivo incessante da bondade de estufa. O que é a bondade de estufa? – Explico já a seguir, exemplificando…
            1. Às vezes vem ao nosso encontro uma dessas criaturas que nos aborrece ou exaspera, “caindo sobre nós” num péssimo momento. O impulso inicial (verdade da alma e dos sentidos) empurra-nos para despachar a criatura ou voltar-lhe as costas com manifesta indiferença… Porém, uma camada de verniz (digo, hipocrisia) cobre a nossa existência. Uns chamam-lhe cortesia, outros, boa educação, entretanto adquirida com anos de treino (aulas teóricas e acção prática). Os nossos lábios são impedidos, assim, de praguejar, e vimo-nos obrigados a esboçar um sorriso, enquanto o tal verniz nos persuade a ouvir com “mártir” benevolência o que a palradora criatura tem para dizer, suportando a sua tagarelice fatigante com uma máscara de simpatia. Eis, pois, que acabamos de praticar uma das várias modalidades da bondade de estufa.
            2. No meu estado de saúde e doença mortal e a prazo (só Deus sabe até quando!), algumas vezes tenho ouvido (sem que eles saibam que os escuto), a alguns zelosos “samaritanos” que me são próximos, estas significativas palavras: «Não quero ficar com remorsos! Até que a vida lhe dure, farei tudo o que me é possível: quero que todos saibam que estou de consciência tranquila!». Como se pode verificar é significativa, esta aberta confissão: - Estas ”piedosas” almas, não pensam propriamente em aliviar o sofrimento de uma vida que supostamente lhes é querida; antes pelo contrário, estão sumamente interessadas em salvarem-se a si mesmas das amarguras de um futuro arrependimento, do aguilhão dos remorsos; estão preocupadas com o seu enorme “ego” e, por acréscimo, em não desiludirem a comodidade social que estima e louva esta caridade encenada, cultivada e sulfatada a tempo e horas. Enfim, eis a bondade de estufa!
            3. A educação social e os conceitos correntes que nos obrigam a ser bondosos à tarefa e a tantas horas/ano, como essa publicitada e multifacetada prática de voluntariado que invadiu a sociedade portuguesa, não é genuína, pura e desinteressada bondade. De facto, os seus efeitos práticos, exibidos publicamente (como uma passagem de modelos ou promoção de saldos num super-mercado), assemelham-se bastante à solidariedade humana. De tudo isto podemos concluir que a bondade de estufa abunda nos países onde a sociedade provoca mais desigualdade, onde a genuína caridade está mais exausta e os costumes mais corrompidos.
            A bondade de estufa “ensina” que, à força de fazermos de obsequiosos, nos podemos tornar respeitáveis e misericordiosos; que à força de agir como se fossemos naturalmente simpáticos, nos libertamos da nossa rudeza e nos transformamos em pessoas afáveis; que à força de nos mostramos disponíveis, e abafarmos o nosso egoísmo, escondendo as nossas reais intensões, nos tornamos pessoas amorosas, prontas a ajudar o próximo. Porém, tudo isto são mentiras ou, dito de outra forma, intoxicações espirituais, compartimentos de dissimulação, que tornam menos repugnante a convivência com o egoísmo e indiferença social. A bondade de estufa é uma mímica da decência moral e, como as flores criadas em cativeiro climatizado, não tem o mais leve perfume…de amor autêntico!
Conclusão: - A verdadeira bondade não é exibicionista! Mais: a verdadeira bondade detesta a exposição pública da sua acção prática! Porque a única, preciosa e genuína bondade é a que nasce espontânea da alma, sem necessitar dos “cosméticos” do “voluntariado” e seus diplomas, para lhe emprestem as cores da solidariedade humana. A verdadeira bondade não nasce forçada pelas convenções sociais, é radicalmente desinteressada e, bela como como o amor, não espera que lhe deem ordens para aparecer e actuar; não se deixa arregimentar e, porque é simples e pura, não convive bem com o autoritarismo das organizações de “solidariedade social”, com os seus “chefes”, hierarquias, “desfiles de caridade” e “marchas de misericórdia”! A verdadeira bondade é libertária!

            Na verdade, para obter e praticar a autêntica bondade é preciso cumprir, antes de mais, a única e difícil tarefa que Jesus Cristo reclamava a todos: - Conseguir ter boas maneiras de coração, antes do exercício dos gestos convencionais, da exibição pública dos rituais; amar o próximo como a si próprio, sem nada esperar em troca. 

Joaquim Palminha Silva

1 comentário:

  1. E que propõe? Que se acabe com o voluntariado?
    Concordo com muito daquilo que transcreve, mas em tempos aguardava pela reforma para poder praticar voluntariado, aos sem-abrigo ou no IPO.
    Muitas vezes dei comigo a pensar porque, seria mesmo uma vontade genuína de ajudar o próximo ou necessidade de alimentar o ego?
    A vida colocou-me à prova, com o falecimento da minha mãe, ficou o meu pai órfão, porque nos meus "cânones" colocar um pai num lar era algo que não ligava com "candidato a voluntariado", avisei meus irmão não "creche" não, eu fico com ele.
    Agora chega a parte mais difícil de dizer, sete anos após reclusão voluntária a coisa começa a ser difícil, há dias em que penso desertar, já nem sei se o que me mantem fiel se é "A bondade de estufa é uma mímica da decência moral e, como as flores criadas em cativeiro climatizado, não tem o mais leve perfume…de amor autêntico!" como diz, ou algum resto do amor filial por alguém que muito admirei.
    Conquanto, tenha muitas das dúvidas que refere no seu post, abençoados sejam os que dispõem de algumas das suas horas de lazer, para conforto de quem necessita.

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