sábado, 6 de setembro de 2014

A DIREITA EBORENSE E O ESTADO NOVO (2): O NAZI GUSTAVO CORDEIRO RAMOS


JOSÉ FROTA*

Gustavo Cordeiro Ramos foi um dos mais brilhantes alunos e mais tarde, ainda que por pouco tempo, professor do Liceu Nacional de Évora. As notas biográficas existentes no Parlamento retratam-no como «um dos principais ideólogos da formatação da política de Educação no Estado Novo tendo por referência o modelo nazi». Por três vezes foi o Ministro da Instrução no tempo da Ditadura Militar e durante cerca de 4 meses exerceu a mesma função já no primeiro governo do Estado Novo. Subitamente Salazar substituiu-o. Gustavo não conseguia controlar a sua homossexualidade desregrada o que comprometia a imagem do governo. Mas o ditador não o deixou cair por completo. Na sombra e como procurador à Câmara Corporativa e professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa continuou a construir o novo paradigma da educação nacional que a chamada reforma Carneiro Pacheco institucionalizou em definitivo.
Abraçou entusiasticamente as teses de Adolfo Hitler e foi multi-condecorado e distinguido pelo governo alemão nacional-socialista pelos relevantes serviços prestados à causa. Dele se disse que o foi o único português a conhecer pessoalmente o Fuhrer. Uma coisa é certa: ele foi sem sombra de dúvida o maior apoiante do regime nazi em Portugal.

1. Os tempos de Évora

Gustavo Cordeiro Ramos viu a luz do dia, na cidade de Évora,  a 8 de Março de 1888 sendo um dos quatro filhos de Augusto José Ramos, um médico natural de Gouveia que se fixara na cidade, e de Ana Maria Cordeiro Vinagre, herdeira de uma família abastada residente no concelho (1) . Todos os  irmãos frequentaram o Liceu de Évora para realizarem os seus estudos à excepção da única menina, cujo único objectivo era apenas o de concluir o curso geral.
Desde a escola primária que Gustavo se veio a revelar como dotado de uma inteligência viva, brilhante, fulgurante mesmo. Terminou os estudos secundários em 1905 com a mais elevada classificação de sempre atribuída nesse primeiro quinquénio do século passado. Foi então para Lisboa ingressando no Curso Superior de Letras onde veio a confirmar as suas superiores capacidades licenciando-se em Filologia Germânica, de novo com uma classificação extremamente elevada. Já então os seus conhecimentos da língua e da cultura alemãs eram impressionantes.
Regressou a Évora em 1909  ascendendo de imediato a professor efectivo do Liceu. Tinha apenas 21 anos . Aqui se manteve, porém, por pouco mais de um ano. Para tão curta permanência contribuiu em muito o Professor Doutor José Maria Queiroz Veloso., também docente no Liceu (2) e que acabaria por abalar para Lisboa a fim de ir dirigir o Curso Superior de Letras , o qual em 1911, com a reforma republicana viria a dar.  origem  à Faculdade de Letras.
Queiroz Veloso que tinha sido  docente no Liceu de Évora durante 14 anos e havia sido seu professor e depois colega, conhecia-lhe bem os méritos e por tal não teve dúvidas em convidá-lo , apesar da sua juventude,  para integrar o quadro de professores da nova instituição universitária, entregando-lhe a docência das disciplinas de Literatura Alemã e Gramática das Línguas Alemãs.
Entretanto os seus irmãos mais velhos, Mário e Raul Cordeiro Ramos optaram pela carreira militar tornando-se oficiais do exército. A irmã Judith viria a consorciar-se com o médico veterinário António Piteira de Figueiredo, lavrador e proprietário na zona de Montemor-o-Novo  Quanto a ele , monárquico convicto e católico indefectível aderiu ao Integralismo Lusitano no seguimento de uma escolha efectuada em 1908 quando decidiu associar-se no Centro Académico Monárquico onde pontificavam entre outros Carneiro Pacheco, Fezas Vital e Alberto Monsaraz (3).


2. A paixão pela Alemanha nazi

Pela Faculdade de Letras se manteve até 1922, ano em que decidiu ir para Leipsig a fim de aprimorar os seus conhecimentos da língua e cultura alemãs e preparar a sua tese de doutoramento sobre o poema dramático “Fausto” de Johann Wolfgang von Goethe, não sem que antes se tivesse filiado no Centro Católico Português em que militavam Oliveira Salazar e Gonçalves Cerejeira (4)
Em Leipsig tomou contacto com o ideário do Partido Nacional-Socialista, fundado em 1921, e com a Juventude Hitleriana, criada no ano seguinte para treinar e integrar politicamente as crianças e os adolescentes para serem colocados ao serviço do partido. Consoante a sua idade os jovens  eram organizados em grupos ou milícias  paramilitares.
Por lá se manteve durante cerca de quatro anos num ambiente que o seduzia dos pontos de vista intelectual, pessoal e afectivo. Já então corriam rumores sobre eventuais tendências homossexuais, uma vez que  tinha 34 anos e não se lhe conheciam amizades ou afectos femininos. Em 1926, com a queda da República e a subida  da  direita ao poder em consequência do golpe militar do 28 de Maio, regressa a Portugal para apresentar a sua tese de doutoramento na Faculdade de Letras tornando-se ainda nesse ano seu professor catedrático (5).
Em 1928 responde afirmativamente ao convite do coronel Vicente de Freitas para fazer parte do 2º. Ministério da Ditadura Militar pós Carmona- entretanto nomeado Presidente da República- com a missão de sobraçar a pasta da Instrução. O governo toma posse a 18 de Março mas vem a cair seis meses passados a pretexto de uma questão religiosa mínima mas que Oliveira Salazar (nas Finanças) e Cordeiro Ramos aproveitam para esticar a corda em demasia visando provocar a demissão do coronel, o que conseguem (6). Em sua substituição é nomeado o general Ivens de Freitas, também de índole moderada, mas os ministros de direita não o deixam sossegado impedindo-o de levar a efeito uma política conciliatória entre todos os portugueses.
Entretanto começa a gizar o seu plano de implantar em Portugal o modelo nazi de educação, cultura e instrução, criando a Junta de Educação Nacional (JEN) (7). O seu fito era o de «fomentar uma intensa e  eficaz formação dos nossos investigadores que permitisse,   em colaboração  com os de outros países, recuperar o nosso atraso científico». Para que tal se tornasse viável caberia à JEN promover a melhoria das condições materiais e morais de estudantes, jovens  professores e investigadores (entre eles estiveram Agostinho da Silva, Delfim Santos e José Rodrigues Miguéis) que quisessem participar nesse movimento de cooperação intelectual fazendo estágios, participando em congressos ou quaisquer outras reuniões e  eventos de carácter científico. Aos  candidatos a beneficiários a este apoio era sugerida a preferência pelo encaminhamento para a Alemanha. Cordeiro Ramos e a maioria da jovem intelectualidade nacional  viam na Alemanha o novo farol da cultura, da ciência e da arte à escala mundial 7.
Antes porém  reintroduzira o Alemão como língua obrigatória nos cursos complementares dos liceus com uma carga horária de quatro horas para os alunos de Letras e três para os de Ciências por entender que os governos republicanos a haviam desvalorizado ao extremo de limitar o seu ensino a duas horas semanais e apenas para os cursos científicos (8).

3. O reconhecimento do Liceu e a acusação de plágio

A nível de Évora, Gustavo teve um papel decisivo na resolução que constituía a não ocupação de grande parte do Colégio do Espírito Santo. Quando da sua instalação em 1841 o edifício estava na posse da Casa Pia que para o efeito houve de ceder várias das suas salas, sob contrato de arrendamento. Sucede que passados cerca de 80 anos a situação não se alterara e a frequência do Liceu crescera desmesuradamente pelo que se tornara ainda mais premente aumentar o seu espaço e ampliar as suas instalações.
O problema alastrava-se a outras cidades do país (Lisboa, Porto, Coimbra, Castelo Branco, Lamego, Santarém e Beja)  em que as instalações eram demasiado exíguas para as necessidades, de forma geral com os respectivos liceus implantados em imóveis muito antigos e deteriorados que já reuniam as condições mínimas indispensáveis para suportarem e alojarem o crescente e imparável número de alunos que os procuravam. A solução era óbvia e passava pela criação de novos liceus. Ciente disso, Cordeiro Ramos, conseguiu obter junto de Oliveira Salazar, Ministro das Finanças, uma verba vultuosa para a consecução desse objectivo.
Mas António Bartolomeu Gromicho, reitor do Liceu de Évora por si nomeado e seu amigo pessoal, não queria que este saísse do carismático Colégio do Espírito Santo. Cordeiro Ramos fez-lhe a vontade negociando a saída da Casa Pia para outro local e fazendo reverter o imóvel para a posse do Estado. Removido assim o obstáculo impeditivo o edifício foi entregue ao Liceu  pelo que Gromicho pôde protagonizar a sua total recuperação e procedendo ao progressivo alargamento da área ocupada que se foi verificando ao longo da década e meia seguinte  (9).
Ivens Ferraz porém não gostava dele e acabou por substituí-lo.
Foi durante este período que Gustavo Cordeiro Ramos conheceu nova contrariedade. O professor Santana Carlos acusá-lo-á na revista literária “Águia" (10) de ter plagiado partes substanciais da sua tese de doutoramento, de lições  sobre “Fausto” de Goethe ministradas numa Universidade francesa. A acusação causou escândalo nos meios intelectuais e políticos. A revista acabará suspensa temporariamente e proibida de voltar a referir-se ao assunto. Pensou-se que a boa estrela, que o tinha acompanhado, empalidecera.
Mas Gustavo só esteve fora do Ministério da Instrução pouco mais de quatro meses porque o próprio general foi apeado do lugar de chefe do governo e substituído por outro general, Domingos Augusto Alves da Costa Oliveira, muito mais chegado à direita. E com ele Gustavo Cordeiro Ramos voltou ao comando do Ministério da Instrução, onde se iria manter por dois anos e meio.




4. O lançamento do modelo nazi de educação

Mais. Domingos de Oliveira  deu-lhe carta branca para desmantelar toda a estrutura educativa ainda sobejante da governação republicana e conferiu-lhe o seu aval para implantar um modelo semelhante ao alemão, Cordeiro Ramos não perde tempo e o seu afã reformador não conhece limites. Em 1931 cria a Universidade Técnica de Lisboa e  institucionaliza a profissão de regente escolar, permitindo que o ensino primário chegue aos locais mais recônditos e atrasados do país a fim de diminuir a taxa de analfabetismo, flagelo  que os governos republicanos não haviam conseguido atalhar de forma significativa apesar das múltiplas promessas e dos esforços desenvolvidos nesse sentido.
Na primeira metade de 1932 desdobra-se na apresentação de diversas iniciativas. É o autor do projecto de criação da Liga da Mocidade Portuguesa cujo objectivo é o de colaborar no «robustecimento e elevação pelo espírito de disciplina e energia das novas gerações pelo espaço e moral que elas praticam em nome da defesa da ordem pública   da defesa da Nação» e estará na base da criação da Mocidade Portuguesa em 1936
A sua audácia e arrojo vão ao ponto de mandar publicar em Diário do Governo o Decreto 21.000, por si assinado e emanado do seu Ministério , um regulamento de educação física a ser obrigatoriamente implantado em todos os liceus, atendendo a que« até hoje o ensino tem sido feito às avessas prejudicando a educação física e intelectual». O regulamento que  ensina e exemplifica mesmo com gravuras os exercícios que devem ser praticados estende-se por 32 páginas da folha oficial11.Ele vai ser igualmente o principal impulsionador do escutismo católico ao criar e oficializar a Organização Escutista de Portugal nomeando como seu delegado e presidente o também germanófilo Vítor Braga Paixão.
Tudo parecia correr de feição para Gustavo Cordeiro Ramos quando inclusive o seu amigo Oliveira Salazar o mantém como Ministro da Instrução Pública quando da sua primeira nomeação para Presidente do Conselho. Mas quatro meses depois o homem de Santa Comba Dão, após uma remodelação ministerial, afasta-o do cargo e nomeia para o seu lugar, o já referenciado Carneiro Pacheco.
A decisão deixou perplexa e espantada toda a gente, incluindo o ministro  que foi oficialmente foi informado de que a mesma se devia à contestação de muita gente que o acusava de estar a politizar o ensino, nomeadamente, o  primário. De facto Cordeiro Ramos tinha chegado ao ponto de tornar obrigatória a inserção nos manuais escolares de textos de autores como Benito Mussolini, Quirino de Jesus, Alfredo Pimenta, Pequito Rebelo, Alberto de Monsaraz e António Sardinha. E havia quem torcesse o nariz a esta proliferação de textos doutrinários oriundos da mais reaccionária extrema-direita.
A justificação apresentada pelo ditador pareceu pouco convincente. Gustavo Cordeiro Ramos defendeu-se junto do ditador dizendo-se vítima de uma armadilha que fora urdida pelos seus detractores pelo facto de ele perfilhar ideais de extrema-direita o que não era bem visto por alguns apoiantes do Estado Novo. Acontece que Cordeiro Ramos acabou por aceitar bem a sua saída do governo e reforçou ainda mais os seus laços de fidelidade a Oliveira Salazar.

5. Homossexualidade afasta-o do Governo mas não do regime

A moderna historiografia tem outra explicação.Cordeiro Ramos foi traído pela sua homossexualidade que deixara de ser discreta e cuidadosa na escolha dos seus parceiros para começar a ser muito conhecida e comentada fora da elegante esfera burguesa onde era muito bem tolerada.. Mas tal como no Partido Nazi,  também no Estado Novo podia ser-se homossexual mas sem se infringir as regras  do decoro ou do recato público (12) Vícios privados, públicas virtudes, era a regra. Ora Gustavo Cordeiro Ramos havia perdido a noção das conveniências e fora por duas ou três vezes interceptado em rusgas a urinóis públicos ou pensões rascas na imediações do Príncipe Real, perto do próprio Ministério (13).
Salazar viu-se assim obrigado a decidir-se pela sua não manutenção no governo mas não o deixou cair e na sombra manteve-o como verdadeiro ministro da Instrução. Os seus substitutos, Alexandre de Sousa Pinto e depois Eusébio Tamagnini, ambos nacionalistas e seus velhos conhecidos do Integralismo Lusitano não colocam quaisquer entraves o  a que Gustavo continue a desenvolver o plano de reforma educativa por  congeminado e gizado. Assinale-se que Cordeiro Ramos havia voltado à Faculdade de Letras e fora nomeado procurador à Câmara Corporativa na sequência das eleições legislativas de 1934 (14). . Aliás essa reforma teve de passar pelo crivo deste órgão tendo sido o próprio Gustavo Cordeiro Ramos o relator do parecer final.
Mas para a implementar Salazar precisava de alguém de pulso forte e politicamente capaz. Foi assim que em 1936 nomeou para o lugar Carneiro Pacheco. A reforma 15 veio a ser conhecida pelo seu nome mas para qual se limitou a assegurar a sua execução e a mudar a designação do Ministério que passou a chamar-se da Educação e da Junta da Educação Nacional que viu o seu nome alterado para Instituto de Alta Cultura. De resto a introdução do livro único, a obrigatoriedade da aposição do crucifixo nas salas de aula e a sujeição do casamento das professoras à autorização do Estado (16) tudo foi da lavra de Cordeiro Ramos que defendia. ser urgente criar pela educação «um homem novo português.»
Disse-o claramente ao defender que : «Sob o disfarce do laicismo fez-se uma obra criminosa , anti-social e anti-patriótica de descristianização. (...) A religião tem de ser considerada como uma necessidade do Estado. A ordem nova com os seus conceitos dominantes de autoridade e de nação só se compreende admitindo uma ordem superior». Por outro lado Carneiro Pacheco  compreendeu que «as transformações educativas precisavam de um discurso de suporte » que valesse «sobretudo pela atribuição de sentidos á acção escolar e à política educativa».
E isso só Cordeiro Ramos lho podia assegurar, nomeadamente quando num discurso intitulado “Os fundamentos éticos da Escola no Estado Novo” (17) vincou o primado da educação sobre a instrução : « Alargou-se a acção da escola, cujo fim não é apenas ensinar, mas sobretudo educar e educar politicamente, no sentido nobre da palavra, isto é, transmitir conhecimentos que não contrariem, antes favoreçam os fundamentos morais do Estado».




 6. O amigo dos nazis e o agradecimento de Hitler

 Nesse ano de 1936 desloca-se à Alemanha para assistir  aos Jogos Olímpicos de Berlim. Estreita ainda mais as relações que teve com elementos do Partido Nazi e consegue mesmo que no ano de 1938 Joseph Goebbles, o famigerado Ministro Alemão da Propaganda, escreva o prefácio de uma antologia de textos e discursos de Salazar, com prólogo da sua autoria, numa edição que é patrocinada pelas autoridades nazis (18).
Entretanto a partir da sua cátedra continua a tecer os maiores louvores e elogios ao regime nazi  e ao ditador germânico que vivem os seus dias de glória afirmando a sua superioridade rácica, cultural e intelectual sobre todos os outros países do mundo. Faz visitas cada vez mais demoradas à Alemanha, vela pelos interesses germânicos e difunde por toda a parte as virtudes do povo teutónico . Em tudo o que diz respeito a assuntos entre Portugal e a Alemanha  ele é o interlocutor escolhido por Salazar para o representar dada a confiança que o próprio Hitler nele deposita. Cordeiro Ramos terá sido mesmo o único português a conhecer pessoalmente o ditador.
Tido pelo pelos germânicos como « o Amigo da Cultura Alemã » receberá as mais elevadas distinções e condecorações atribuídas a cidadãos estrangeiros. Assim será nomeado senador honorário da Universidade de Colónia e sócio honorário da Academia Alemã de Munique e receberá a Medalha de Goethe de Mérito Científico e Artístico e Artístico, a  Medalha de Ouro de Leibniz da Academia das Ciências da Prússia e a Placa de Honra da Cruz Vermelha Alemão. Mas a maior das distinções será a concessão da Grã Cruz da Ordem da Águia Alemã, aposta pelo próprio Adolfo Hitler e destinada a premiar os excepcionais serviços prestados ao III Reich por cidadãos amigos de outros países (19).
Em 1942 foi nomeado Presidente  do Instituto de Alta Cultura, designação que passara a ter a J.E.N., por ele criada como atrás se referiu. Celestino Costa, o médico de Coimbra que era titular do cargo desde a sua reconversão, proferiu publicamente algumas palavras que desagradaram a Salazar que o exonerou designando Gustavo Cordeiro Ramos para o lugar. A intelectualidade coimbrã não aceitou de bom grado esta decisão e escreveu ao homem de Santa Comba Dão a pedir que reconsiderasse pois ele era «germanófilo, hitlerófilo  e fama de homossexual pelo que a sua nomeação causara uma péssima impressão na comunidade científica» (20).
Mas Salazar não ligou à missiva. E em retaliação contra Celestino Costa, encarregou o Ministro da Educação, Mário de Figueiredo, de o demitir de director da Faculdade de Medicina de Lisboa.

12. A queda  no ostracismo

O Instituto de Alta Cultura começou a partir daí a perder influência, declínio que a vitória dos Aliados no conflito mundial e a derrocada do Reich veio a acentuar. Assistiu amargurado à queda da Alemanha, à quase destruição de Berlim e à sua divisão pelas forças aliadas enquanto a sua amada Lepsig, igualmente esburacada por bombardeamentos sucessivos, era incorporada na República Democrática da Alemanha de dominação comunista. Arrepiou-se com os suicídios de Hitler e do seu particular amigo Goebbels. E seguiu com angústia o julgamento de Nuremberga, onde alguns dos seus conhecidos vieram a ser condenados à morte por enforcamento
Para se recompor veio passar uma temporada larga à casa de família que manteve em Évora, situada na Rua do Conde da Serra da Tourega. Apesar de ter caído em desgraça o ditador manteve-o  contra tudo e contra todos na direcção do Instituto de Alta Cultura até 1962. Na Câmara Corporativa permaneceu até 1958. Por essa altura já estava bem avançado na idade anos e não passava de uma figura decorativa, embora fosse mau adereço, do regime, que começava a abrir brechas por todos os lados.
A evolução do salazarismo fê-lo cair no esquecimento. Tinha muito quem politicamente o detestasse. Como pessoa igualmente. Quando saía, já sem protecção policial, ouvia nas suas costas, os piores insultos. Conhecidos de outros tempos ignoravam-no, desprezavam-no e nem queriam sequer ouvir falar dele. A verdade porém é que a reforma educativa que empreendeu primeiro e  que depois fomentou e alargou, embora fora do Ministério, manteve-se praticamente inalterada até 1973, quando já no consulado de Marcelo Caetano, o ministro Veiga Simão a varreu do  panorama educativo português
Gustavo Cordeiro Ramos morreu em Lisboa a 13 de Novembro  do ano seguinte com a proveta  idade de 86 anos e meio mas ainda com a lucidez suficiente para se aperceber que o regime autoritário, repressivo e  nacionalista que ajudara a fundar ruíra de podre. A seu pedido foi sepultado em Évora junto das campas dos pais e irmãos. Solteiro e sem descendentes foram a irmã e uma sobrinha que mandaram inscrever na respectiva pedra tumular a extensa lista de distinções e condecorações com que o governo do III Reich o agraciara e que agora com a passagem do tempo começam a tornar-se menos perceptíveis embora ainda legíveis. A sua derradeira morada é fácil de localizar.Fica num quarteirão na ala direita do cemitério, mesmo ao lado do artístico mausoléu onde jaz o desafortunado António Borges Barreto, o piloto eborense da Ferrari falecido prematuramente em 1957, em França, vítima de um acidente ocorrido num treino quando preparava  a sua estreia em grandes prémios de fórmula 1.
Em testamento Gustavo deixou um legado de 150.000 escudos à Universidade Técnica que esta por determinação do Ministro Valente de Oliveira, decidiu em 1979, converter em certificado de renda perpétua. Com o rendimento daí adveniente foi criado um prémio com o seu nome  que é atribuído anualmente ao melhor aluno daquela instituição (21).

*Jornalista

Notas

1      Biografia Parlamentar e Geneall.net- Portal de Genealogia.
2      David, Celestino in “Reitores, Professores e Alunos do Liceu de Évora” (1841-1941) em “O Corvo” Número especial do 1º. Centenário do Liceu de Évora. Queirós Veloso foi, antes disso, em Évora, Director da Escola de Habilitação para o Magistério Primário e Director da Biblioteca Pública. Ver também Espanca, Túlio in “ Subsídios para a História da Biblioteca de Évora (1804-1950), “A Cidade de Évora”, números 63-64, 1980-1981.
3     Quintas, José Manuel, “ Os Filhos de Ramires – As origens do Integralismo Lusitano”, Editorial Nova Ática, Lisboa. 2004.
4      Biografia Parlamentar
5      História da Faculdade de Letras de Lisboa.
6      Rosas, Fernando, Nova História de Portugal, Vol.XII, “Portugal e o Estado Novo (1930-1960) “, Editorial Presença, Lisboa, 1992.
7      Ramos, Gustavo Cordeiro, “Objectivos da Criação da Junta da Educação Nacional-Alguns aspectos do seu Labor”, Lisboa, 1951.
8      Carvalho, Ana Maria Marques Carvalho, “O ensino do Alemão nos Liceus Portugueses entre 1926 e 1949”, Tese de Mestrado, Universidade de Aveiro, Departamento de Línguas e Cultura, 2013.
9      Gromicho, António Bartolomeu in “Cem anos de vida do Liceu” (1841-1941), idem 2.
10    A Revista “Águia” foi uma publicação bimensal e depois mensal, de literatura, filosofia e crítica social que foi editada entre 1910 e 1932 pelo movimento nacionalista Renascença Portuguesa.
11    Decreto 21.000 emanado do Ministério da Instrução Pública e publicado em Diário do Governo de 16/4/1932.
12    Dacosta, Fernando, “Máscaras de Salazar”, 2ª. Edição, Casa de Letras, Lisboa 2007.
13    Almeida, São José, “Homossexuais no Estado Novo”, Editorial Sextante, 2010.
14    Rosas, Fernando, “As I eleições sobre o Estado Novo-As eleições de Dezembro de 1974, Edições O Jornal, Lisboa, 1985.
15    Lei de Bases do Sistema Educativo
16    Artº. 9º. da  citada Lei. Para contrair matrimónio com uma professora do ensino primário o pretendente deveria ter bom comportamento moral e civil e possuir vencimento ou rendimentos, documentalmente comprovados, em harmonia com os vencimentos da professora.
17   “Uma série de conferências” , Colectânea editada pela União Nacional, 1937.
18   Ver “O devir de um Novo Estado-Discursos e Documentos” editado na Alemanha pela Essener Velgastat. Cf. Medina. João, “Salazar na Alemanha : acerca da edição de uma antologia salazarista na Alemanha” in “Análise Social “ nº.145, 1998.
19   A ordem de Mérito da Águia Alemã foi criada em 1937 por Adolf Hitler e destinava-se a galardoar cidadãos estrangeiros que contribuíssem para a divulgação e apoio incondicional à Alemanha nazi. A Grã-Cruz era o seu grau mais elevado e embora não se sabia o número de pessoas que com ela foram contemplados, estima-se que não tenha ultrapassado uma vintena. 
20     Rezende, Jorge “ Sobre as perseguições a cientistas durante o fascismo” , Revista Vértice, nº.166, Lisboa , 2012.
21     Portaria publicada em Diário da República 193/79, I série.


relacionado: A DIREITA EBORENSE NO ESTADO NOVO (1)

17 comentários:

  1. Muito bom Frota.
    As coisas que um Jornalista consegue "desenterrar".

    Interessante era fazer uma coisa semelhante relativamente ao Estalinismo/Cunhalismo e PCP

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    1. A gente bem percebe onde te dói.
      A gente bem percebe que, lá no fundo, toleras (aprecias?) o nazismo e seus sucedâneos. Só te falta a coragem e a frontalidade de o assumires em público.

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    2. A ti é que te dói..doi-te tudo: alma e consciência. A menos que sejas comunista convicto e sem vergonha da história recente. Nazismo? Para mim tão maligno quanto o teu Estalinismo. Isso da propaganda contraditória como a tua, foi chão que deu uvas em Portugal até inicio dos anos 80. Qualquer gaiatinho da primária sabe quem foi essa gente...só lhe falta mesmo relacionar o Cunhal e os comunistas Portugueses militantes na podridão dessa utopia canceriana.

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    3. o Estaline e o Hitler até eram grandes amigos. Fizeram uma aliança contra os imperialistas (pacto Ribentrop-Molotov)

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    4. A tua ignorância (ou será má-fé?) sobre a história que precedeu a 2. Guerra brada aos céus.
      Não fosse o heroísmo do povo russo e a sua luta contra o nazismo e o fascismo e provavelmente o destino da Europa seria outro, bem diferente daqueles que conhecemos.

      Já agora, antes de escreveres mais baboseiras, aconselho-te a estudares os acontecimentos que culminaram na anexação da Áustria e na ocupação da Checoslováquia por Hitler. Bem como as posições de Clemanceau, da Inglaterra, e Daladier, da França, durante a conferência de Berlim, com Hitler, que precedeu a invasão da Polónia...
      As razões da exclusão da Rússia dessa conferência também não são difíceis de entender... para qualquer razoável entendedor...

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  2. Denunciar fascistas do passado...muito bem. Que implicações deverá ter essa denuncia nos atuais familiares?
    Porque não fazer o mesmo com os comunistas de Évora que estagiaram na URSS do Estaline (onde iam ao beija mão da ideologia comunista) esse escroque que mandou fuzilar milhões). A Verdade é que um nazista vale exatamente o mesmo que um comunista Estalinista...e Évora está cheia deles. Nenhum comuna Eborense (e não só) que eu saiba, se envergonha da obra do Estaline.

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    1. A gente bem percebe a tua admiração por Hitler e seus sucedâneos.
      Felizmente, a luta dos povos, com especial destaque para o povo russo, desfez em pó as veleidades dos facínoras e criminosos fascistas.

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    2. Gostas do escroque do Estaline? Ficaste foi todo arrepiadinho quando se põe o teu partidinho da ditadura proletária...
      Eu Nazista? "deixa-me rir...".
      É a tática à lá PCP...sempre. Já não resulta meu...moderniza-te. o Estaline foi 1º que o Cunhal...que a terra nunca lhes seja pesada. A minha solidariedade apenas porque penou na prisão...tal como tantos outros que nem comunas eram.

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    3. Nazista ou estúpido és de certeza...
      Pelo menos a julgar pelas patacoadas que escreves.

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    4. Combater as ditaduras...todos os dias da vida é o meu lema. A Nazista é Igual à Estalinista, a tua.

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    5. Caça às bruxas? Bora lá.
      Vamos agora aos Estalinistas do PCP

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    6. Chavões e só chavões.
      O inteligente não sabe o que diz. Como papagaio que é, limita-se a repetir os chavões que vai ouvindo.

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  3. Não vejo interesse em estudar o estalinismo coisa que não tem qualquer interesse para Évora ou para o Alentejo.
    Na sequência desta biografia do nazi fascista Cordeiro Ramos, seria muito mais interessante estudar a relação entre o governo fascista, o poder local, e as "famílias", donos da terra e da produção.

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  4. Meterem na bulha agora tempos passados quando presentemente se vive no Mundo cenas isoladas de grande dimensão e outras encobertas onde os jornalistas não entram , muito ... mas muito pior que o tempo Nazi ou Fascista de Salazar .

    No presente vive-se em determinados países um aniquilar da raça humana ao segundo !

    Tenham vergonha de meter Salazar ao engodo , não sou Fascista e admiro o grande político que foi em meter ordem em Portugal ... bastou cair da cadeira , tal como a morte de líderes do Oriente , para passar tudo á catanada !


    Jorge

    ( ciclista )

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  5. A quem interessa as lutas fratricidas que proliferam por esse mundo fora?
    Ele são por causas religiosas, politicas ou territoriais, uma coisa é certa, actualmente existem dezenas de guerras espalhadas por todo o mundo, (ver mapa: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Map_of_sites_of_ongoing_armed_conflicts_worldwide.png ), nomeadamente: Afeganistão, Nigéria, Iraque, Palestina, Líbia, Síria, Sudão, na Colômbia, Turquia (independência do Curdistão), o genocídio de Darfur, Chechénia, Moldávia, e mais recentemente na Ucrania. (ver : http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_guerras#S.C3.A9culo_XXI
    Qual a razão de ser de em pleno século XXI existirem tantos conflitos, para alem das já indicadas, e certamente a mais importante é a ambição a ganância por parte de algumas nações, já que a maior parte destas guerras foram, são e hão-de ser fomentadas pelos donos do mundo. Quem foi que colocou as talibans no poder? Lembram-se, pois certamente já estão esquecidos mas foram os Americanos; Quem fez a guerra no Iraque, pois mais uma vez foi a américa, lembram-se o motivo? Era para tirar um tirano do poder, Saddam, e implementar a Democracia naquela região, todos sabemos como se encontra a situação actual naquela região. Nem vale a pena falar na Síria, outra guerra fomentada pelos EU, e por ai foram.
    Mas o mais extraordinário, é que em todas as guerras espalhadas por esse mundo causam a destruição de nações e provocam milhares de mortes e estropiados. Pode faltar a água, pode faltar o pão, mas uma coisa nunca falta, de parte a parte dos contentores, SÃO AS ARMAS, não há pais, não há grupo de guerrilhas que não possua boas e grandes quantidades de armamento.
    Pois é, essa é a grande questão e dai a minha anterior afirmação de que tudo isto tem a ver com a ganância e a ambição, pois basta uma pesquisa na Net para sabermos quem são os países fabricantes de armamento. Claro que não são os povos que andam em guerra, e sofrem os horrores dos conflitos, nem Árabes, nem Africanos, os grandes fabricantes de armamento são os Estados Unidos, a Alemanha, a Inglaterra, a Rússia, Israel e até Portugal veja aqui: (http://pt.wikipedia.org/wiki/Arma_de_fogo#Fabricantes_de_armas_de_fogo)
    Afinal a quem interessam os conflitos armados? Pois claro aos grandes senhores da guerra, os atrás mencionados, que para além de fornecerem armamento aos contentores (normalmente aos dois lados), depois ainda vem intoxicar a opinião pública, surgindo como os salvadores do mundo, acabando por imiscuir-se com forças de Intervenção directa quer através da NATO.
    Se na verdade estas nações donas do mundo quisessem acabar com os conflitos e impor a paz, era muito simples, deixavam de fornecer armamento aos contentores e uma coisa é certa, se alguém queria lutar contra outrem só tinha uma forma de o fazer, à moda antiga, através dos seus punhos, o que duvido, pois não estou a ver os senhores de colarinho branco a lutar entre si.
    Deixem de ser hipócritas e acabem de uma vez por toda com a ganância e a ambição e se querem um mundo em paz e harmonia DESTRUAM as vossas fábricas de armamento e dediquem-se a fabricar alimentos para distribuir pelos mais necessitados.
    É certo, sou um pouco utópico, mas sou dos que acredita no ser humano.
    MdM

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  6. Quem foram os "adeptos" de Estaline em Évora? que poder tiveram na CME e continuam a ter? Quais deles foram ao Beija mão e idolatram o Cunhal?

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  7. Quando é que se faz um manicómio em Évora?

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