sábado, 23 de agosto de 2014

Israel encurralado pelo Hamas? A lição esquecida de Massada.


A ideia parece absurda: não são Gaza e os seus habitantes, não é o Hamas que está encurralado  por Israel no enclave que se tornou campo de concentração ou pelo menos prisão ao ar "livre"?

Se considerarmos a situação e a relação de forças militares, é claro que quem está "encurralado" é o Hamas. Mas a maior parte dos jornalistas que vão dando notícias e até dos analistas, esquecem o conceito básico do Clausewitz: "a guerra é noventa por cento política e dez por cento militar", escrevia ele mais ou menos.
Do ponto de vista militar, a desproporção das forças dificilmente poderia ser maior e é tão óbvia que nem vale a pena evocar o armamento ofensivo de Israel, e o seu "Domo de Ferro" defensivo, que intercepta 99% dos roquetes artesanais disparados pelos Palestinianos de Gaza. A chamada "retaliação" por Israel por cada disparo do Hamas (mesmo que não provoque vítimas nem estragos) é de tal ordem, que a contagem das vítimas (90% de civis, como não podia deixar de ser bombardeando cidades) mal consegue dar a medida da disparidade: mais de 2000 mortos e dezenas de milhares de feridos, milhares de habitações destruídas do lado Palestiniano, 67 mortos dos quais 3 civis (ou agora 4, com a morte duma criança israelita) do lado de Israel.
Perante esta realidade terrível, torna-se difícil entender que o Hamas negoceie de modo tão firme, sem renunciar à sua reivindicação principal - o fim do cerco ao enclave - e tome até a iniciativa de romper as tréguas. Cada novo "rocket" artesanal desencadeia dezenas de raides israelitas e dezenas de mortos em Gaza. Mas interpretar a resistência do Hamas e a continuação do combate como simples sinal do seu fanatismo é demasiado fácil, e sobretudo é falso.
Sem retomar a visão estratégica de Israel desde a sua formação, uma coisa é clara: Israel, que se fundara com a ideia sionista de dar um porto de abrigo aos Judeus perseguidos, fechou-os num território rodeado de vizinhos que soube tornar seus inimigos. A sua história é um longo caminho de armamento (incluindo o nuclear), de militarização cada vez mais profunda da sociedade israelita, e uma subordinação do conjunto das vidas sociais e individuais à paranóia anti-palestiniana. Árabes "do interior" - cidadãos de Israel, ou do exterior (territórios ocupados e/ou anexados), dos países limítrofes, Israel vive no estado de espírito e na realidade do encurralamento. Este tem sido o principal argumento dos extremistas judeus: é matar ou morrer, o estado de guerra é permanente.
Voltemos a Gaza, onde mais dum milhão e meio de habitantes sobrevive em condições terríveis e à estratégia do Hamas. Essa organização sabe muito bem que por cada foguete disparado Israel dará uma resposta desproporcionada: por cada disparo, dezenas de mortos e feridos. Será o Hamas louco? Depois de mais de 2000 mortos, ainda não compreendeu que Israel pode esmagar o enclave? Que os bombardeamentos de cidades e zonas habitacionais, e até escolas da ONU, que poderiam desencadear uma reação maciça da opinião mundial, apenas têm provocado reacções limitadas? O Hamas, em meu entender, sabe tudo isso. Se ele prossegue os tiros, mesmo sem qualquer resultado militar ou outro, sabendo que Israel vai esmagar mais bairros e casa sob as bombas, é porque para ele o limite se encontra do lado israelita e não do lado palestiniano. Esse limite é o extermínio total dos gazauis. Ora, se a "opinião mundial" reage pouco a dois mil mortos, há um limite que, ao aproximar-se, fará bascular a situação de modo radical. Ao atirar cada novo foguetão, ao recusar a trégua, o Hamas encurrala Israel na sua própria táctica: resposta desproporcionada, automática, sempre idêntica. Bombardear mais, destruir mais casas, mais infraestruturas, matar mais combatentes e mais civis: impor um "preço" muito alto ao inimigo. A hipótese que está por trás desta táctica é a de que a população civil possa acabar por atribuir ao Hamas e à sua "intransigência" os terríveis custos humanos que suporta, desligando-se dele e, quiçá, opondo-se a ele.  É difícil ignorar (e supor que os militares israelitas ignoram) que o que se passa em Gaza é precisamente o contrário. Perante o excesso de violência, a desproporção das "retaliações", a crueldade de que dão provas os militares quando invadem, humilham, matam, os habitantes de Gaza acabam (mesmo os que não eram partidários do Hamas) por reconhecer que é essa organização que representa o seu desespero, a sua última dignidade, a resistência. Já Lawrence da Arábia dizia que era um erro tremendo subestimar os combatentes árabes (indisciplinados, imprevisíveis) quando eles estão nas situações de combate por vezes sem saída: são combatentes terríveis.
Ao adoptar uma estratégia que consiste em afirmar (e demonstrar) que estão prontos a morrer, todos, se necessário, que é a estratégia que T. Schelling designava como a "do louco" (sou louco, estou pronto a tudo, não calculo perdas, nem o que quer que seja), o Hamas encurrala Israel na sua própria lógica: retaliar sem fim e sempre mais violentamente. O Hamas sabe, como nós sabemos, que o extermínio (que pode não estar tão longe) da população inteira de Gaza é inaceitável para o mundo; o que Israel não quer saber, é que esse genocídio é "aceitável" para os Gazauis. Entendamos-nos: que eles estão prontos a morrer, TODOS, se for preciso.
Então e qual é a visão estratégica, política, dos dirigentes do estado de Israel? A resposta é: não têm. A táctica (retaliar, esmagar) tem lugar de estratégia. Como vêem eles, no futuro, uma situação política mais estável, mais aceitável para Israel, em relação aos Gazauis? Não vêem. Com aquela população nunca mais haverá nada a fazer.
As potências ocidentais compreenderam o que Israel não quer ver e insistem fortemente em conseguir e preservar as "tréguas", de modo a parar a escalada ISRAELITA já que o Hamas dificilmente pode fazer mais do que faz: uns foguetões artesanais aqui ou ali. Mas o Hamas entendeu (e é um entendimento aterrador para quem observa de fora), que as "tréguas" apenas jogam a favor de Israel; por isso as rompem e romperão qualquer que seja o custo, de modo a não deixar sair Israel da sua lógica binária: foguetão --> raids aéreos, invasão, etc. Israel, na verdade, ficou sem alternativas. Não aceita negociar o que para o inimigo é essencial - vital. Não tem solução política a propor. 60% dos Israelitas judeus são contra a solução dos "dois estados" e 70% seriam favoráveis à deportação massiva de todos os Árabes do "grande Israel" (incluindo Gaza, Cisjordânia, Golan e dos próprios concidadãos árabes israelitas).
Resta como único horizonte, meramente táctico, o esmagamento, esperando que a população se revolte... contra o Hamas. Mas este adquire uma legitimidade acrescida a cada raide, a cada morto e a cada ferido. Israel "promete" vingança terrível DA criança israelita morta nestes dias. O desprezo pelo inimigo, que espera pelo momento de vingar as centenas de crianças mortas pelos bombardeamentos israelitas, FECHA o Estado de Israel numa fortaleza mental que a táctica do Hamas tende a reforçar cada dia. A evidência impõe-se: Israel NÃO PODE deixar de ripostar de maneira cada vez mais forte a cada... morteiro do Hamas. O Hamas IMPÕE a escalada a Israel, cuja população exige que o "castigo" seja sempre mais mortífero. Mas a realidade interna do ódio aos "Árabes" (que tantos testemunhos credíveis sublinham), que empurra o governo militar israelita para acções cada vez mais extremas ("Chumbo Endurecido" parecia ser um limite: não era; o que está a ocorrer é pior), essa realidade interna entala o Estado de Israel na NECESSIDADE da escalada sem fim, entre o desejo de extermínio, a irredutibilidade da resistência palestiniana e do Hamas e a IMPOSSIBILIDADE (moral, política) da única "solução final" que se perfila, a destruição do milhão e meio de Gazauís.   
Os Judeus de Israel e de outros sítios, fariam bem em recordar Massada: cercados no cimo dum estreito planalto no ano 70 d.C., os Judeus preferiram morrer em vez de se renderem aos Romanos. Lembrar Massada traz uma dupla lição: uma colectividade perseguida pode no seu todo suicidar-se, preferindo a morte à indignidade - assim Gaza. Mas a outra escala, é o Estado de Israel que está cercado, e constrói uma fortaleza inexpugnável. contra tudo e contra todos: táctica eficaz, estratégia suicidária.
Cercado pela sua superioridade militar, pelas fronteiras invisíveis do desprezo pelos  vizinhos Árabes, Israel esqueceu-se de Massada. 
JRdS
Évora, 23 de Agosto de 2014. (por email)

10 comentários:

  1. É obvio que os Palestinianos não merecem aquele Hamas e nem os Israelitas decentes merecem que os encurralem...mas atenção...não são descabidas as noticias que têm vido a público sobre a velha ideia do grande estado Jihadista onde se inclui a Península Ibérica. Pessoalmente julgo que "Atocha" não irá acabar nas próximas gerações.

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    1. Não há nada mais estúpido (mas perigoso) do que a ignorância presumida

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    2. Mais estúpido ainda é a ignorância pseudo intelectual

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  2. A estratégia foi repetida vezes sem conta.
    Mudam os tempos, mudam as pessoas, mas o embuste é sempre o mesmo.
    Os professores de história deviam saber.

    Para se apropriarem dos territórios e das riquezas alheias nada melhor do que inventar papões, invocar a religião, mentir, provocar golpes de estado, fazer de vítima, para depois invadir, matar, e roubar.
    Há muitos anos que assistimos aos avanços do império para os territórios que ainda escapam à pilhagem.
    A informação é abundante e está disponível,
    A onda que varreu todo o Norte de África da Tunísia ao Egipto, a Palestina, a Síria o Iraque, o Irão, a Ucrânia. Na Europa o monstruoso crime da Jugoslávia, a destruição e venda a retalho de Portugal e Grécia. Tudo acompanhado pela instalação de governos fantoches fascistas.

    O sonho da razão produz monstros.
    Fechados numa bolha, enredados nos argumentos do embuste, incapazes de vislumbrar a realidade, ali à vista de todos.

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  3. A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
    Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.

    Guerra Junqueiro, in 'Pátria (1896)'

    Um texto de Guerra Junqueiro bem actual sobre a realidade portuguesa, na altura como agora, para além da instabilidade governativa, havia rotativismo partidário, o resultado foi o fim do regime vigente. Finis Patriae. Chegamos ao ponto de não retorno.

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  4. Fala-se muito neste blog de Países fascistas como é os EUA quase todos os Países da Europa e mais alguns que já não me lembro.
    Mas ninguém aqui fala dos Países que sobre regimes ditatoriais de esquerda onde nem existem eleições exploram o seu próprio povo em seu beneficio e da sua família.
    Fica uma pergunta: Quais os Países verdadeiramente Democráticos para estes comentadores?

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    1. A comunalha não gosta muito de falar disso e tentam fazer passar a questão ao lado. Assim como não lhe interessa o massacre diário que os cristãos sofrem um pouco por todo o mundo, da Argélia à indonésia.

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  5. Évora está cada vez mais uma grande Aldeia. Parada no tempo, sem qualquer perspectiva de desenvolvimento, das poucas “modernizes” que foram surgindo, vão a pouco e pouco definhando e mesmo desaparecendo.
    O Shopping já era;
    A Moviflor, segundo parece vai encerrar no final do mês;
    O Izibuild, ainda vai funcionando, mas sem praticamente nada nas prateleiras, parece uma loja CUBANA;
    O IP2 parou às portas da cidade;
    O TGV ou comboio rápido ou lá o que fosse Zero (dizem que não há dinheiros para este tipo de investimentos), será que os 4,9 mil milhões dados ao BES (desculpem ao “novo “banco) não daria para construir uma infra-estrutura ferroviária que permitisse a ligação à europa?;
    Pior, se as entidade públicas, CME incluída, nada fazem, do lado privado continuam a viver como se ainda estivéssemos no século passado, há cerca de uma semana adquiri um electrodoméstico na Worten, ficaram de o montar no prazo máximo de 48 horas, pois bem só oito dias, sim oito dias depois é que foi possível a sua montagem, justificando-se esta demora por durante esta semana, não haver em Évora uma única firma que pudesse efectuar a referia instalação, pois estavam fechadas para férias!!!! Foi necessário vir um técnico de uma Vila deste distrito. Lamentável. Mas é a cidade?? que temos.
    Já ponho em dúvida se realmente se trata de uma cidade e não de um Monte grande…
    MdM

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  6. O povo palestiniano pagou um preço muito alto pela sua liberdade e pela sua independência, mas mostrou a todos os povos do mundo que não há no universo nenhuma força capaz de derrotar um povo que quer ser independente e livre.

    A presente guerra dos sionistas judeus contra o povo palestiniano da Faixa de Gaza começou no dia 7 de Julho, com a decisão do governo israelita do primeiro-ministro Netanyahu de lançar sobre a Faixa de Gaza uma ofensiva aérea denominada Barreira de Protecção, destinada pura e simplesmente a destruir edifícios públicos e habitacionais e a matar civis inocentes e desarmados, nomeadamente crianças.

    Vejam os leitores os números: dois mil e trezentos mortos, quase um quarto dos quais (536) crianças!...
    Na história do Mundo, não há registo de uma única guerra onde tenha sido tão clamoroso o genocídio das crianças. Nem os nazis fizeram alguma vez aos judeus o que os judeus fizeram agora às crianças de Gaza.

    A esmagadora maioria dos órgãos de comunicação social imperialistas, muitos deles assentes em mãos de capitalistas judeus, como acontece em Portugal, passaram os dois últimos dias a apresentar o cessar-fogo permanente obtido anteontem no campo de batalha como uma vitória do sionismo israelita ou, no mínimo, como um empate.

    Mas não há nem vitória nem empate para o governo e forças sionistas. Com efeito, onde está a vitória ou o empate de um exército que, sendo um dos mais bem apetrechados e sofisticados do mundo, só pode apresentar no seu palmarés o genocídio de 536 criança, assassinadas nas suas escolas e jardins-de-infância, e o crime de homicídio genocida de uma população dentro dos seus hospitais, das suas mesquitas e dos seus postos de abastecimento de víveres, alguns desses postos montados e geridos por funcionários da Organização das Nações Unidas, que também aí encontraram a morte sob o cego e odioso bombardeamento de bárbaros e cobardes.

    E onde está a vitória de um corpo-de-exército de 30.000 homens que invade, com o apoio dos melhores blindados actuais, um território minúsculo de 365 km2 – menos de metade da área da Ilha da Madeira – e é daí escorraçado, com o rabo entre as pernas, deixando no terreno 64 soldados mortos, verdadeiramente apanhados à mão, pelo cinturão, por jovens palestinianos, homens e mulheres, exiguamente armados com uma simples espingarda.

    Para saber quem ganhou e quem perdeu a última guerra da Faixa de Gaza, não vale a pena perder tempo a lembrar que Netanyahu e o seu governo sionista não só não conseguiram liquidar como nem sequer desarmar o Hamas. Bastará consultar a imprensa israelita de ontem. O diário Yedioth Ahronoth, onde pontifica o moderado analista Simão Schiffer, diz simplesmente isto:

    “Depois de 50 dias de campanha militar, durante a qual uma organização terrorista matou dezenas de soldados e civis, destruiu a rotina diária israelita e mergulhou o país em dificuldades económicas extremas (...) esperávamos muito mais do que um anúncio de cessar-fogo. Esperávamos que o primeiro-ministro fosse à residência presidencial informar o presidente da sua decisão de se demitir do cargo.”

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  7. EUA E UCRÂNIA OCULTAM DADOS RELATIVOS À QUEDA DO BOEING MALAIO

    O jornalista nipónico, Kazuo Kobayashi, sustenta que os EUA e a Ucrânia não se mostram interessados em descobrir a verdade sobre o trágico acidente, receando que tais informações possam pôr em causa as acusações e sanções lançadas ultimamente contra a Rússia. Diz ele:

    – O mais estranho nesse caso é que nem os EUA, nem o governo ucraniano, tenham apresentado quaisquer provas, inclusive as que pudessem tirar as dúvidas da Rússia. É muito estranho. Na realidade, se os EUA declaram que a aeronave teria sido abatida pelo sistema de mísseis Buk russo ou teria sido vítima do fogo de artilharia antiaérea aberto por milicianos apoiados pela Rússia, seria ótimo que Washington e Kiev avançassem provas destas versões.

    Por mim, o problema é que o governo ucraniano dispõe dos dados relativos ao incidente, mas não quer que esses dados sejam tornados públicos, quer ocultá-los. É um ponto de vista meu. Provavelmente, caso os dados sejam divulgados, ninguém poderá culpar a Rússia.


    – Por que é que os países que tinham acusado a Rússia, de repente, se calaram?

    – Porque não puderam apresentar provas convincentes da culpa da Rússia. Se tivessem provas, teriam divulgado informações sobre o Boeing acidentado e o caça Su descoberto ao lado da aeronave.

    – Quais suas previsões para este caso tão invulgar?

    – Não posso fazer previsões. Se os dados ao dispor dos EUA e da Ucrânia mostram que o avião não tinha sido abatido por milícias pró-russas, isto irá abalar todos os fundamentos para a acusação da parte russa e a aplicação de sanções. Mas a Ucrânia e os EUA não querem que tal cenário aconteça. Eles não estão interessados na divulgação de dados contrários às suas afirmações e às hipóteses anteriores. Por isso, as dúvidas sobram. No entanto, à Rússia convinha apresentar novas provas à comunidade mundial, relacionadas com o acidente.

    Kazuo Kobayashi não é um único jornalista ocidental que põe em dúvida a eventual culpa da Rússia nesse incidente. Hoje, vai crescendo o número dos que partilham da sua opinião.

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