quinta-feira, 3 de julho de 2014

A cultura, essa incompreendida

As figuras ligadas à cultura são notícia de abertura de noticiário em dois momentos distintos. Quando morrem ou são homenageadas a título póstumo, ou quando obtêm reconhecimento internacional.
Esta semana tivemos as duas situações, com a trasladação de Sophia para o Panteão e com a atribuição a Carlos do Carmo de um prémio atribuído pela Latin Academy of Recording Arts and Sciences pela sua carreira ao serviço da música.
Dos mortos não se diz mal e enaltecem-se as suas qualidades, mesmo os que nunca leram uma só palavra ou os que lendo muitas palavras não lhe retiraram nenhum sentido. Vendem-se livros apenas porque se sentiu naquele momento a curiosidade de saber por que carga de água tanta gente elogia o génio da falecida.
O cantor, tantas vezes ostracizado das rádios e televisões, teve direito a um dia inteiro de elogios com a sua fantástica voz a ecoar nos nossos ouvidos. Tudo isto porque, numa visão provinciana, é um português reconhecido “lá fora” e ainda por cima este “lá fora” é o centro do império.
Nas cerimónias de trasladação de Sophia ouvimos discursos emocionados, citações de poemas seus, o enaltecer da poetisa como símbolo da cultura do país. Discursos que saem da boca dos que são incapazes de alocar 1% do Orçamento de Estado à cultura e que tratam os criadores como párias que querem uma fatia dos nossos impostos para fazerem coisas sem terem em conta o gosto dominante, não querendo perceber que a cultura ou é paga por todos ou apenas uns poucos a ela conseguem aceder.
Claro que numa sociedade onde se educa para a “empregabilidade” e se instroem gerações para as necessidades dos “mercados”, o resultado será sempre a incompreensão da maioria perante a importância das artes e da cultura na educação integral dos seres humanos.
Disse Sophia: “a cultura é cara, a incultura é mais cara ainda”. Tão cara, diria eu, que produz mais consumidores que cidadãos e gente insuspeita capaz da argumentação mais básica colocando em alternativa aquilo que não pode estar em alternativa.
Fechar os olhos e ouvir a “Estrela da Tarde” na voz de Carlos do Carmo, percebendo todas as sílabas do poema de Ary, poderá ser colocado como alternativa a qualquer outra coisa, ou será sempre algo que nos completa?
E a cultura enraizada nas tradições populares, poderá ser varrida para debaixo do tapete ou engolida pelo entretenimento de massas?
Poderemos perceber-nos no mundo, para além da sobrevivência, se não nos conseguirmos emocionar, ainda que em dimensões diferentes, sonhando ser “o pirata“ fotografado pela sensível lente de Sophia?

“Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.”

Já sei, já sei… como diria o outro, que felizmente se reformou, tudo isto são coisas de elitistas que se custam a perceber, cultura é a Arena cheia para aplaudir o Tony Carreira.
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na rádio diana)

10 comentários:

  1. Carlos do Carmo ostracizado? Ó camarada Luciano, essa é um bocadinho demais. Serão efeitos do comboio presidencial? E o camarada e amigo começa a precisar de alguma reciclagem no contexto marxista-leninista da luta de classes, que tudo define: afinal o que é para si cultura? Haverá outra a não ser a cultura colectiva das massas?

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  2. Atenção dos serviços de higiene e limpeza.

    Urge constituir uma brigada para corte e limpeza das ervas dentro e fora das muralhas.

    Évora Cidade Património Mundial,não Merece.

    È VERGONHOSO.

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  3. Veremos se os comentários a este post se inclinam para o conteúdo da crónica ou para ataques pessoais profícuos em linguagem ordinária que o 5 tons não é capaz de banir deste blogue. Haja coragem, senhores gestores deste blogue ! Haja coragem de reabilitar o blogue para a discussão séria que volte a motivar pessoas interessadas em discutir os assuntos em vez de virem, sob o anonimato, insultar quem se expõe publicamente.

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  4. Votem no Costa que ele promete albergar os pedintes do PS em bons ordenados ao fim do mês .

    Atenção !

    Iminente golpe de "estado ( canalha ) # dentro do PS !

    Nem os de dentro se entende e querem que os diferentes se entendam em Portugal ... metam os políticos e toda a escumalha a receber o ordenado mínimo , para verem quem anda lá pela camisola !


    Tenho pena dos doentes , idosos e pessoas normais que já tinham um dia algo e pela crise apregoada por esta cambada NAZI , uns cometeram suicídios ou os mataram em hospitais e lares .

    Tenham vergonha , e um dia façam o que os negros fizeram em África aos brancos , cortem com uma CATANA as cabeças dos capangas do poder em Portugal !

    Jorge

    ( ciclista )

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  5. Não seria possível postar aqui a entrevista que Eduardo Luciano concedeu ao semanário católico " A defesa", realizada por Pedro da Conceição sob a orientação ideológica de Joaquim Palminha da Silva e saída como suplemento à edição das ditas Festas da Cidade? (será que ninguém deu por isso?) Aí os eborenses poderiam a ficar da orientação que o vereador imprimiu e vai continuar a imprimir durante o seu mandato. A coisa saiu tão vazia de conteúdo, tão frouxa, tão piobrezita, coitada, que nem a própria "a defesa" chamou a atenção dos eborenses para ela, através da sua página facebookiana onde semanalmente faz o destaque de cada edição.Repito, pode ser aqui postada, para elucidação geral? Ou tratava-se de mera publicidade paga pelo município com a colaboração do respectivo semanário?

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  6. Anónimo03 Julho, 2014 12:34 e tu não estás aqui também como anónimo ? Não me recordo de te identificares....
    Quem já está a descer de nivel,és tu. E quem pensas que és para vires tentar condicionar este blog? O teu critério,tipo anjinho,tem somente o objéctivo,de calar a voz do povo.Não tens o mais évora? Não te chega? Diz ao jerónimo ou ao ex vendedor de melões de alpiarça,que já tentastes tudo mas não consegues impedir que as pessoas escrevam neste blog. No maisévora apagas,mas aqui não.
    A tua esperteza saloia está a falhar....Viva a Liberdade de Expressão! Camarada...desculpa lá esta....

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  7. 14:07
    Depois da "excelência" cultural que tivemos durante 12 anos qualquer coisa que venha a seguir terá de ser "pobrezita"...
    Nem todos podem estar ao nível de suas excelências e seus capachos...

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  8. Eduardo Luciano estremeceu nessa entrevista , quando se tocou na palavra cendrev monopolio do teatro garcia de resende,parecia uma barata tonta a rodar na cadeira a procura de uma justificação que saiu vazia e oca,pudera.

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    Respostas
    1. Se não existisse o CENDREV o Teatro Garcia de Resende seria hoje uma ruína semelhante ao Salão Central.
      Mas estes "críticos" da treta, além da falta de vergonha também lhes falta a memória. Senão, lembrar-se-iam do estado lastimável em que se encontrava o TGR a seguir ao 25 de Abril.

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