quinta-feira, 5 de junho de 2014

Gestos que dão confiança no futuro

Ontem à tarde tive que ir ao centro histórico. Parei junto à Sé e fui fazer o que tinha que fazer. De regresso ao carro, parei num café para beber uma bebida e tirei o dinheiro da carteira onde tinha todos os documentos.
Voltei para o carro e atravessei a cidade para ir ao Parque Industrial. Lá chegado vi que não tinha a carteira. Pensei que a teria deixado no café, mas não: a proprietária, em quem confio, disse-me que ali não a tinha deixado. Julguei que me a tinham roubado ou, eventualmente, que me tinha caído no breve trajecto até ao carro.
Foram momentos de aflição, porque na carteira tinha todos os documentos de identificação, todos os cartões bancários, a carteira profissional, etc., para além de 40 euros.
Durante duas horas tentei descobrir o rasto da carteira, mas nada. Na Policia disseram-me que o melhor era ir pensando em tirar nova documentação porque era difícil a carteira aparecer.
Por volta das 8 da noite decidi dar baixa dos cartões bancários. Estava a ligar para o serviço de anulação dos cartões quando tocaram à porta. Eram dois indivíduos do sexo masculino, na casa dos 40 anos, que perguntaram pelo meu nome e se eu morava ali.
Disse que sim e perguntaram-me se não tinha sentido falta de nada. Claro que me apercebi logo de que falavam da carteira. Disseram-me que a tinham encontrado na estrada, junto à curva do NERE, no Parque Industrial. Que tinham parado o carro quando viram a carteira no chão e que, através da minha carta de condução, tinham localizado a minha direcção e através do GPS tinham chegado até mim.
Foi um alívio, como imaginam. A questão que se me colocou é que alguém me poderia ter roubado a carteira e atirado para a estrada. Mas não: todo o dinheiro, os cartões e os documentos estavam ali. Por incrível que pareça, devo ter deixado a carteira no cimo do carro, ao entrar, e ela aguentou ali, desde a Sé, até junto ao NERE, tendo então caído.
Mas este meu testemunho não tem a ver com isto. Tem a ver, sim, com o gesto desinteressado destes dois homens, que não conhecia de parte nenhuma, e que não descansaram enquanto não entregaram a carteira a quem sabiam pertencer.
São gestos destes, altruístas e desinteressados que, no meio de tanta baixeza e desonestidade, ainda nos dão forças para acreditar no futuro da espécie humana.
Obrigado aos dois, que continuo a desconhecer quem são (no meio da minha atrapalhação só consegui dizer: temos que beber um copo, e eles abalaram, sem deixarem qualquer indicação de que eram).


MJ (recebido por mail)

6 comentários:

  1. MJ

    Ainda há gente de bem...e este país melhor ficaria se o funcionalismo público tivesse a mesma produtividade que o setor privado!

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  2. Esses dois senhores é que deviam receber a Grã-Cruz da Ordem da Honestidade no dia 10 de Junho, Há poucos portugueses honestos, mas ainda os há.
    Pessoas com gestos destes é devia saber-se quem são, para ser exemplo, neste País cada vez mais falho de valores de ética, altruismo.
    Bem hajam

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  3. MJ do texto - interessante, razoável, comedido
    é o mesmo JM do primeiro comentário?
    o que é que a devolução de uma carteira por dois cidadãos anónimos
    tem a ver com a vantagem apregoada de produtividade do setor privado sobre o "funcionalismo"?

    há cada uma

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  4. Se fossem o Paços Coelho e o Portas a encontrar, adeus carteira e adeus 40 euros....

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  5. Passos e Portas são verdadeiros carteiristas ao Serviço dos Bancos. Senão acreditam, leiam:

    A pedido da Associação Portuguesa de Bancos, o PSD e o CDS revogaram um artigo que obrigava as instituições financeiras a devolver o dinheiro em casos de utilização fraudulenta de cartões de débito e de crédito nos contratos à distância.

    No mesmo sentido, na próxima semana entrará em vigor o decreto-lei 24/2014, que transpõe para a legislação nacional a directiva 2011/83 da UE, convenientemente amputada do seu artigo 18, através do qual se protegia os consumidores quando fazem pagamentos de bens ou serviços pela Internet no âmbito de contratos à distância ou fora do estabelecimento. A maioria diminui a protecção aos consumidores na mesma medida que a concede aos bancos.

    O decreto-lei que transpõe para a ordem jurídica interna o novo enquadramento comunitário em matéria de serviços de pagamento é pouco claro em termos de responsabilização dos bancos ou instituições emissoras de cartões em situação de fraude com cartões em transferências pela Internet. Em algumas situações, as perdas dos clientes estão limitadas a 150 euros, suportando o banco o restante. Noutras situações, o cliente pode ter de suportar integralmente as perdas, ou repartir esse custo com o banco, agora com plenos poderes para fixar as condições dessa repartição.

    Os bancos podem desinvestir em sistemas de segurança. O ónus da prova em caso de fraude passa para o cliente.

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  6. A honestidade ainda existe felizmente. Pena é que achemos que é excepção quando deveria ser a normalidade.

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