quarta-feira, 18 de junho de 2014

Carlos Júlio



Ponho de lado quase 25 anos de fortes laços. Deixo à margem a amizade profunda. Deixo de lado os afectos normalmente causadores de olhares enviesados, apreciações subjectivas, análises injustas.

O jornalismo no Alentejo é alvo de profundos abanões nos últimos quatro, cinco anos. Sem perder tempo a enumerar os problemas, sigo directo ao assunto: Com o despedimento de Carlos Júlio a TSF acaba de cravar fundo o machado na delicada raiz do jornalismo que por cá se vai fazendo.
Se é uma má notícia para a região, é uma péssima notícia para o jornalismo deste país, que se vê privado de um dos seus maiores profissionais dos últimos 30 anos, figura incontornável da rádio, um dos obreiros da construção da TSF - daquela TSF que lá atrás foi farol para a renovação do jornalismo no Portugal democrático.
Ao serviço da RDP, primeiro e da TSF há quatro anos, foi distinguido com o mais alto galardão do jornalismo em Portugal, o Prémio Gazeta, sendo dos poucos no país com duas distinções.

Carlos Júlio é marca de seriedade. De competência. É sinónimo daquela que é a mais importante e difícil qualidade no jornalismo e que hoje em dia escasseia nas redacções: CREDIBILIDADE.
Credibilidade não é algo que se compre na drogaria, se estude na faculdade, se embrulhe em qualquer mestrado ou doutoramento. A credibilidade conquista-se com anos e anos de trabalho sério e continuado.
Numa altura em que o jornalismo é diariamente vilipendiado por gente que despudoradamente o maltrata por incompetência, medo e suborno, o jornalismo deixa de contar com uma personalidade frontal, convicta do papel e do poder do jornalista. Alguém que não se verga aos interesses partidários/políticos/económicos. Que faz da independência escudo para o exercício da arte de informar.

Carlos Júlio É, pois, um grande jornalista. Não foi mais além nas hierarquias, sei-o bem, primeiro por ser contrário ao seu feitio. Também porque decidiu um dia deixar a confusão da cidade grande e rumar ao sul. Ao seu Alentejo onde ficou e permanece preso de Amores.
Nos últimos 30 anos além do Alentejo fez reportagem em todos os cantos do país. Esteve em alguns dos mais marcantes momentos da vida política e social de Portugal. Fez inúmeras campanhas eleitorais. Realizou dezenas de programas por todo o país, chegando a ser companhia permanente no “Terra a Terra” nas manhãs de sábado.
Ao longo de quase um quarto de século na TSF, Carlos Júlio não foi correspondente em Évora. Carlos Júlio foi, é, repórter do mundo. De todo o mundo por onde passou cobrindo conflitos, as mais sangrentas guerras.
Esteve mais que uma vez, sempre que os tiros soaram, em Timor, na Guiné, em São Tomé e Príncipe. Passou semanas no Afeganistão. Esteve na ex-Jugoslávia, no sangrento conflito do Kosovo – onde viu a morte perto quase atingido por fogo “amigo” cuspido por F16 americanos que acabaram por matar o seu guia/motorista.
Do México a Cabo Verde e por muitos outros países, calcorreou quilómetros Espanha adentro sempre em reportagem. Por onde passou Carlos Júlio pintou retratos do quotidiano, da actualidade que marca a vida das populações.
Fez do jornalismo e da rádio a sua paixão maior.

A TSF não extinguiu um posto de trabalho. A TSF pôs na rua um profissional de créditos firmados. Marca de seriedade. De competência. De credibilidade.

A TSF não extinguiu um posto de trabalho.
A TSF deu um passo largo rumo à extinção.

Pelo contrário, Carlos Júlio há-de continuar jornalista. Junto com ele, meu grande mestre desta arte efémera como tão bem a descreveu Pedro Ferro, havemos ainda de pautar o andamento das notícias nesta nossa Pátria.

10 comentários:

  1. Lamento e não lamento. A primeira, porque estas coisas não se fazem! Particularmente a quem deu e fez tanto por nós. A segunda porque já não identificava o Carlos Júlio com esta TSF. Fez parte de uma rádio a sério e que já não existe. Aquela que me acordava pela manhã e que me impedia de dormir sem ouvir a última notícia à hora. Aquela que me era vício. Esta não. De há dois anos a esta parte não lhe sinto grande falta. É-me relativamente indiferente. O Carlos Júlio, não. Sinto-lhe a falta todos os dias. Mesmo quando estou com ele. Há verticalidades e clarividências que nos fascinam. O Carlos Júlio perdeu o salário. A TSF perdeu muito mais.
    Gonçalo Guedes

    ResponderEliminar
  2. Adeus Espanha. Os PIGS vão todos com os porcos.

    ResponderEliminar
  3. No início de um novo ciclo político em Évora,era bom que sim.
    Não falo do grave problema financeiro,mas porra as leis em vigor na autarquia tem que ser cumpridas,acampamentos de droga lixo ervas e construções clandestinas com queixa nos vereadores e autarquia em que nada é feito.
    Este novo pcp é um fomentador de criminalidade e de trafico de estupefaciente e clandestinidade urbanística???
    Pinto de Sá não é uma criança na politica e esta a ser comido como tal.

    ResponderEliminar
  4. A Palavra, despedida…
    (Para Carlos Júlio, jornalista, Prémio Gazeta)


    Esfarrapados os mantos da censura
    que aumentou o grito
    na palavra plural que se fez livre
    correndo o mundo,

    palavras agitando velhas águas
    saltando antigos muros
    escorrendo daí canções e poemas embalados
    cantando as diversas gentes
    contando o largo mundo
    espalhando sementes,

    enxada nesta terra madura de ternura
    que este tempo austero mais desfigura,

    tempo dorido, terra sofrida,
    Pátria nossa ressequida,
    lágrimas roladas de mágoas,

    ainda assim um abraço sorrido
    logo erguido se por força caído
    num laço solidário que perdura
    na planície mais longe e muda,

    ainda assim levantado do chão
    porque enxada e gente e pão…


    José Rodrigues Dias, 2014-06-18


    Aqui, no meu blog "Traçados sobre nós"

    http://joserodriguesdias.blogspot.com

    ResponderEliminar
  5. Chegado de Lisboa, deparo com "isto". Paulo, Gonçalo, José R. Dias: que hei-de dizer senão que não sei que responder às vossas palavras que me fazem corar? A vossa generosidade é de tal ordem que apenas posso dizer - obrigado, amigos.

    ResponderEliminar
  6. Excelente Paulo! O Carlos Julio é isso e muito mais, o problema do Carlos Julio e dos que se encontram nesta situação é serem bons profissionais e a TSF de hoje, tal como tantas outras não querem isso, querem coscuvilhice e de gente obediente. O Carlos Julio nunca conseguiria por mais que tenta-se desempenhar esses papeis!
    Lurdes

    ResponderEliminar
  7. Carlos, quem faz açordas com grão como tu fazes e empilha carapaus, como tu empilhas, jamais será ignorado no mundo do jornalismo e da intervenção social.
    Um abraço de solidariedade

    Emanuel

    ResponderEliminar
  8. Tenho voz na matéria !
    Sou do tempo da Rádio ( pirata) … a Rádio Jovem no seu começo e sei o que é fazer programas e passar música , acresce na altura a forma de dar notícias e seu conteúdo .
    Hoje , verifica-se em Portugal que na maioria ou quase 99 % das rádios denominadas Nacionais , algumas untadas por dinheiros públicos , mostram-se ao povo Português . na maior estupidez alguma vez vista , dou pequenos exemplos ;
    Algumas abrem blocos de notícia de hora em hora com matéria da Ucrânia … e outras por tras do Sol posto que só interessa a meia dúzia de gente que ocupa Portugal .
    Outras , alegadamente feita por gente que agora até na TV dá a cara , passa o tempo a contar histórias particulares da vida deles e falando de orgias e ao fim de duas palavras , sempre a indicar sexo .
    O Estado devia fechar as rádios que tem neste sentido e dar opinião e informação a outras , só que a chatice maior , é que as administrações estão cheias de mandantes partidários que vão a todo o custo calando o que se passa no interior de Portugal e travestindo as rádios numa espécie de CNN , onde nem sequer os políticos Portugueses dão conta do recado por cá e no entanto , somos pioneiros em informar os Portugueses de porcarias acontecidas , não aqui ao lado , mas por vezes a milhares de km´s … na minha altura , chamava-lhe : meter PALHA !

    Jorge

    ( ciclista )

    ResponderEliminar
  9. Caro Carlos Júlio,
    Soube pelo A5T a notícia do seu despedimento: como se fosse algo que apenas diz respeito a Évora e ainda mais restrito, aos leitores do seu blogue. Mas não é e ninguém fala, que eu saiba, dessa destruição dos media que mantinham alguma independência e capacidade crítica. Vamos sabendo coisas a conta-gotas, mas a destruição resulta manifestamente dum plano concertado que abrange todos os meios de informação. Começaram pelo pessoal sem vínculo sólido, e pouco a pouco vão atacando os profissionais seniores, aqueles que não só granjearam respeito, como tinham sido a base sobre a qual os media se construíram - e o caso da TSF é ainda mais claro que outros. Tudo o que eu possa dizer do respeito que tenho por si enquanto profissional e enquanto pessoa será pouco. E sobretudo, pouco útil face à situação pessoal que lhe criaram. O modelo mediático construído como um negócio igual a qualquer outro, com a esperança de que uma coisa (neutra) é vender informação e calcular custos, outra recolhê-la, elaborá-la e transmiti-la, esse modelo faliu. E faliu no essencial, que é o do papel da informação na preservação dos aspectos democráticos das nossas sociedades e no seu aprofundamento. Hoje, o seu despedimento chama a atenção para um escândalo cada dia mais intolerável: o de um aparelho ideológico inteiramente votado à intoxicação dos cidadãos. Manipula-se a informação, altera-se a língua, corrompem-se as palavras, inunda-se o espírito dos cidadãos com torrentes de lama pseudo-informativa, de "comentários", de distracção e "entretenimento", mantém-se "entretida" uma população (nem digo já sequer um "povo"), enquanto a verdadeira revolução conservadora que não é menos radical que a dos anos 1930 desbarata o que tinha sido construído, por mais incompleto que fosse.
    A questão que me veio imediatamente ao espírito ao saber que tinha sido brutalmente despedido, com uma ausência de fundamentação que bem denuncia a arbitrariedade do acto, a questão foi esta: como construir, a partir duma situação intolerável como a nossa, novos órgãos de informação crítica, que sejam elementos, ainda que pequenos, para a reconstrução da democracia?
    Receba um abraço solidário e amigo. JRdS

    ResponderEliminar

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.