terça-feira, 8 de abril de 2014

Sem-abrigo

Os sem-abrigo são a face mais visível da miséria na sociedade e existem porque o homem se sedentarizou e estabeleceu regras de convivência e funcionamento que nem todos têm como forma de vida desejada ou permitida. Em maior número nas grandes cidades, mais raros nas cidades médias, onde muitas vezes são figuras conhecidas, a razão de ser dessa sua condição difere e distribui-se, quase como numa taxonomia, em vários casos.
As afirmações do secretário-geral do maior partido da oposição, relativamente a estes já mais de 4000 cidadãos portugueses que vivem nestas condições, levantou vozes de acusação pelo irrealismo que a sua promessa de debelar este problema social, quando for governo, parece conter. Mas levantou também um alerta para estes milhares de cidadãos nestas condições específicas. Ora, é sabido, e é também a isso que se referia Seguro, que a falta de emprego e um deficiente acompanhamento, e até acesso, a cuidados de saúde são, na esmagadora maioria das vezes o que provoca a instabilidade e empurra para a miséria os muitos sem-abrigo pelo mundo inteiro. Resolver o problema dos sem-abrigo é também não deixar que estes problemas aumentem.
O “sem-abrigo”, nome generalizado que de certa forma substituiu a palavra “mendigo”, é aquele que, por uma ou mais razões, não tem, nem procura solução, para o seu problema habitacional. É o que faz da rua o seu lugar de vida a tempo inteiro. E se alguns são resilientes adaptados a uma vida onde foram parar sem querer, habituando-se a lá ficar numa reação que não pode servir de desculpa ao resto da sociedade para não tentar contrariar, outros parecem assumir o estatuto como uma filosofia de vida que, quem o não é e siga modelos de vida ditos normais, dificilmente entenderá. Mas também aqui, não há como não tentar que estas pessoas tenham a oportunidade de escolher outra forma de vida.
Conhecendo casos de diferentes lugares, aqui e no estrangeiro, a quem, oferecida solução esta foi recusada, os sem-abrigo têm também o dom de nos confrontar, quando com eles nos cruzamos, ou encontramos mesmo, com uma face da loucura que nos coloca problemas de reação. Já que um sem-abrigo por convicção é sempre alguém que desafia uma ordem, não sabemos se consciente ou não desse desafio, vivemos entre a dificuldade de os considerar diferentes ou iguais perante os deveres e, por isso também, perante os direitos, os deles e os dos outros.
Anatole France, autor e crítico francês do virar do século XIX, pega precisamente na figura do sem-abrigo para falar desta dificuldade em generalizar, mas da necessidade de o fazer, sobre o que esperar de um sem-abrigo convicto. Ele afirma numa das suas obras que "a majestosa igualdade das leis, (…) proíbe tanto o rico como o pobre de dormir sob as pontes, de mendigar nas ruas e de roubar pão." Longe de pensar que a filosofia do sem-abrigo é uma excentricidade de ricos e pobres, ou arriscava-me a pertencer ao clube de boutades Jonet, tantas vezes penso que há leis que ao proibirem têm mesmo a função de obrigar o legislador a encontrar a solução antes, ou pelo menos ao mesmo tempo, de punir os seus infratores. E esta é uma frincha do mundo da justiça por onde às vezes passam os casos mais injustos.
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na rádio diana)

4 comentários:

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  2. Drª. vejo que a Senhora está preocupada com os sem abrigo, desde já merece todo o meu apreço, mas deixe-me fazer-lhe uma pergunta. - Por acaso a Senhora vê alguma solução para o "jovem" que dorme todas as noites debaixo das arcadas por detrás dos correios acompanhado do de um cão ? Bem sei e tal como muitos dizem, é cigano, não merece nada. Eu pergunto, não é um ser humano ?
    Vá lá Srª. Drª. dê lá uma maozinha ! !
    bruno

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  3. Os governos do PS, do PSD e do CDS são a maior "fábrica" de pobres, e de sem abrigos, deste país. Nas promessas do Seguro, acreditam os patetinhas. Os mesmos, a avaliar pelo que têm escrito, que acreditam nisto:
    http://www.diariopernambucano.com.br/noticias/coreanos-serao-obrigados-a-reduzir-o-tamanho-do-penis-para-que-nao-ultrapassem-kim-jong-un/

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  4. Sr. Bruno esta senhora não esta interessada nos sem abrigo nem nunca esteve.
    Esta senhora teve um alto cargo na Câmara e nunca vez nada agora é que esta preocupada. Se tivesse um pingo de respeito por ela própria estava calada que nem um rato mas por aqui se vê quem nos governou durante 12 anos. Falta de respeito.

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