terça-feira, 22 de abril de 2014

Livros e profissionais aprendizes

Amanhã comemora-se mais um dia mundial do livro e dos direitos de autor, data escolhida pela Unesco e que coincide com aniversários, de nascimento e morte, de vários autores de entre os quais os grandes Shakespeare e Cervantes.
Parece que este ano a figura estandarte da comemoração é a cinquentona Mafalda de Quino. Pacifista e contestatária, confesso que esta menina me ocupou larguíssimas horas da minha juventude e contribuiu em muito para que hoje tenha esta profissão de ensinar os livros e a sua leitura como um passo para se ler o mundo e o que nele acontece.
Não tenho como não ligar quase sempre a leitura ao trabalho de aprender, até porque quando abrimos um livro aprendemos sempre alguma coisa, nem que seja que não nos agradou. Nestes casos, estamos a aprender sobre os nossos próprios gostos e a encontrar os argumentos para justificar esse (des)gosto. Também é porque se aprende com os livros que ler dá mais trabalho do que aqueles que o fazem com um imenso prazer podem por vezes supor, não conseguindo pôr-se na pele dos que têm a leitura numa outra prioridade da vida.
Tenho essa imensa sorte de poder trabalhar com uma das atividades que mais me dá prazer fora das horas de trabalho e que é ler. E, acima de tudo, o privilégio de poder tentar contagiar os outros com este gosto. O Pessoa deu um conselho sobre esta ligação do trabalho e do gosto em tê-lo que diz assim: «Não é o trabalho, mas o saber trabalhar, que é o segredo do êxito no trabalho. Saber trabalhar quer dizer: não fazer um esforço inútil, persistir no esforço até ao fim, e saber reconstruir uma orientação quando se verificou que ela era, ou se tornou, errada.» Será também por isto que quando se trabalha se deve estar sempre disponível para aprender.
À volta do livro há vários trabalhadores: autor, por vezes ilustrador que é também autor, editor, livreiro e, acho eu, também o leitor. O leitor recebe o trabalho dos outros na forma do livro e acrescenta-lhe o seu trabalho, ler, valorizando-o.
Aqueles e aquelas que gostam de ler e que tenham a oportunidade de o fazer quando querem, que gostam de falar sobre o que leem hão de sentir-se, como eu e outros que somos profissionais da leitura de livros, que nos tornamos todos aprendizes quando lemos um livro pela primeira vez, pelo menos. Quando ensinamos a ler os livros ou os discutimos entre leitores, estamos a lidar com objetos que nos chegam daqui de ao pé de nós e da nossa realidade, ou dali do outro lado do mundo de onde só temos notícia por outros. Estamos a ouvir falar de circunstâncias do agora ou do antigamente e por isso estamos a aprender com os livros uma forma de olhar para aqueles mundos metidos lá dentro, através da leitura. E é por isso que saber ler um livro é uma boa aprendizagem para sabermos ler o mundo, a vida real. Porque às pessoas em geral, como aos leitores, o que importa é a vida real. E os livros são mais um lugar de trabalho em que se preparam os leitores, cidadãos, para o mundo.
Boas leituras!

Cláudia Sousa Pereira (crónica na rádio diana)

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