sexta-feira, 7 de março de 2014

A MINHA AVÓ CONEGUNDES






A minha avó materna chamava-se Conegundes. Precisamente. Conegundes Antónia da Silva Avó.
Com um nome destes já certamente intuíram, que não foi uma mulher vulgar. Não é que eu defenda que o nome marque o futuro de alguém. Mas, neste caso, estou em crer que sim.
Minha avó Conegundes que se fosse viva já teria mais de 120 anos, teve 14 filhos, dos quais sobreviveram 9. Nasceu e cresceu em S. Miguel de Machede, tendo tido, em menina, uma professora em casa que lhe ensinou a ler e escrever, coisa inédita naqueles tempos e lugar, como podem deduzir. Quero crer que foi esta misteriosa professora que lhe talhou o ser.
Em pleno Alentejo rural, em meados do século XX, a minha avó era uma mulher diferente. Não ia à missa (anti-católica ferrenha), anti-salazarista convicta (contudo, sem qualquer actividade política), fumava (!!!!), lia compulsivamente e…deitava cartas e fazia responsos. Há mesmo quem diga que fazia bailar uma cadeira. Mistérios!
Com este perfil, já os meus amigos podem imaginar qual o estatuto que a aldeia lhe conferiu. Isso mesmo: a minha avó Conegundes era BRUXA.
Se fosse hoje, seria vidente, cartomante, ou até mesmo astróloga, enfim, designações bem mais elegantes e, por isso, dignas de figurarem nas notas biográficas dos seus descendentes. Muito custou à minha mãe e às minhas tias conviver com este legado materno. Comprometedor, no mínimo…
Desde pequena este seu lado misterioso e excêntrico, sempre me fascinou. Convenhamos, eu tinha uma avó diferente. Guardo viva a imagem dela sentada à chaminé, numa cadeirinha baixa, a enrolar um cigarrito (que a maior parte das vezes lhe morria nos lábios até a cinza cair), a ler um livro e bebendo uma caneca de café. E que não a moessem! Mulher sábia, como já perceberam…
A minha avó era uma excelente contadora de histórias e, por isso mesmo, eu deleitava-me a ouvi-la. Mas, também neste campo ela fugia à norma. Os seus contos eram diferentes. Neles não havia lugar para Gatas Borralheiras, Capuchinho Vermelho, Três Porquinhos…
Não, eram histórias de amor que ela me contava, como reais, se bem que acontecidas já há muito tempo. Amores proibidos, paixões não correspondidas, padres que pecavam, desfilavam aos meus ouvidos, pausados pelo enrolar de mais um cigarrito ou por um golo de café. E como ela sabia render a coisa, fazê-la durar, criar expectativa.
Só muito mais tarde, já por volta dos meus 15, 16 anos, ao ler Camilo de Castelo Branco, Eça de Queirós, Aquilino Ribeiro e outros, reconheci as histórias da minha avó e percebi também porque é que o meu pai lhe chamava Velha Cogula
Morreu-me cedo. Quando eu começava a ter condições para a entender e mimar as suas diferenças.
Outro dia sonhei com ela. Estava sentada comigo à chaminé e eu era criança. Pouco a pouco começaram a chegar visitas. Todas mulheres. Algumas eu conhecia, outras deduzi quem eram, porque traziam na mão livros com o seu nome na capa: Rosália de Castro, Cecília Meireles, Clarice Lispector…
- Carminho, esta quem é?
- È a Mercé Rodoreda, é catalã, sua antepassada, portanto. Escreveu um romance que a avó adoraria ter lido – A Praça do Diamante.
- Ah, sente-se D. Mercê. É um prazer.
Depois, chegaram umas senhoras elegantíssimas. Segredei-lhe ao ouvido:
 -  São a Sophia  de Mello Breyner Andersen e a Maria Theres Horta, poetas, e as outras são a Maria Lamas e a Agustina Bessa Luís...
Não tive tempo de dizer mais nada, porque a minha avó saudava a todas efusivamente e todas, de imediato, se começaram a tratar por tu.
E foram chegando umas e outras e, a certo momento, já não estavam à chaminé, mas sentadas na minha sala. Mas eu continuava criança. Vocês sabem como é isto dos sonhos.
A minha avó falava com umas e outras, dos seus romances, de como lhe tinha custado ser diferente no seu tempo. A certa altura a minha avó puxou do seu tarot e começou a deitar cartas: Espadilha afirma!
Não sei se foi por causa disso, mas começaram a entrar na minha sala personagens de romances: primeiro chegou a Blimunda. A festa que a minha avó lhe fez. Depois chegou a Francisca, a Maria Moisés, a Joaninha dos Olhos verdes,  a Sofia (a do romance Aparição, lembram-se?) e depois… depois a Mulher de Porto Pim . Ah. A Mulher de Porto Pim!
A confusão era muita, mas como sabem nos sonhos é mesmo assim. Naquela altura, já não estávamos na minha sala, mas numa sala grande que eu não consigo identificar.
Então começaram a chegar as varinas da foto do meu perfil do face book, trabalhadoras rurais alentejanas, varinas da Nazaré, mães com filhos ao colo e …e…a certa altura, gelou-se-me o sangue: entre flashes entravam a Berenice Abbott, a Dorothea Langue, a Diana Arbus, a Tina Modotti e as fotografias voavam, voavam e eu ouvia perfeitamente o disparar de muitas, muitas máquinas fotográficas.
A minha avó debruçada sobre uma mesa, com um sorriso deleitado, olhava, olhava. Percebi que todas sorriam e trocavam fotografias entre si. Espreitei e sorri também.
 E depois deram um cravo vermelho à minha avó e começaram a falar de direitos de mulheres, de igualdade de género, de misogenia …
-  Carminho o que é isso?
Depois, depois… eu já não era eu quem estava outra vez sentada à chaminé com a minha avó, mas sim a minha filha que lhe ouvia contar o enredo da Praça do Diamante da Mercê Redoreda, enquanto feliz eu assistia e pensava com os meus botões: ainda bem que lhe dei a conhecer este romance.
 Entretanto, acordei.
Nos últimos dias tenho andado a pensar no sentido de tudo isto. Para além, obviamente,  da grande saudade da minha avó.
Em vésperas do Dia da Mulher decidi partilhar convosco este meu sonho a que acrescentei algumas das fotografias que imaginei que a minha avó e as suas amigas tinham partilhado no meu sonho.

2 comentários:

  1. Textos destes, e sonhos assim, queremos mais. Que ou o feitiço nos salva, ou nos mata, mas morrer é humano também.
    Parabéns, Carmem Almeida. Um abraço
    JRdS

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  2. Num dia antes de adormecer o menino,a mãe escreveu um poema, intemporal,como sem tempo são os poemas que falam de meninos e meninas.

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