quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O País ideal

Anda um homem a tentar convencer a malta que as políticas que resultam da conjugação de esforços entre a troika interna é o melhor para o povo e vem um correligionário desfazer, com uma frase cheia de boas intenções, esse castelo de boas ideias.
Um militante do PSD afirmou, talvez de forma irrefletida, que a vida das pessoas não está melhor, mas o país está muito melhor.
Esta frase reflecte de forma precisa o pensamento de quem a proferiu. O País é, para o autor, uma entidade vazia e abstracta, sem pessoas que trabalham, que sobrevivem, que sonham, que desesperam.
O País é assim como que uma folha de cálculo que fica melhor ou pior conforme o deve e o haver se aproxima ou afasta do equilíbrio sonhado num qualquer curso de “boas maneiras” orçamentais.
Por isso é possível dizer, sem corar, que o país melhora com as pessoas a viver pior, ou que a retoma económica é qualquer coisa que se nota nas páginas dos jornais e não se nota na mesa da maioria dos portugueses.
Esta ideia, expressa de forma cristalina, não é mais do que aquilo que os nossos credores e os seus sicários vão repetindo em discursos onde se enaltecem os sucessos do resgate ou ajustamento, como eufemisticamente chamam ao empobrecimento generalizado das famílias que vivem do trabalho.
A ideia não é nova e os mais velhos lembrar-se-ão dos milagres do “mago das finanças” que impôs uma ditadura ao serviço dos mesmos que hoje beneficiam com as melhorias do País. O “País estava muito bem”, a ausência de liberdade, a miséria generalizada, o analfabetismo, os elevados índices de mortalidade infantil, a ausência de serviço nacional de saúde, a cultura relegada para o canto dos luxos e no entanto o velho das botas dizia “está tudo bem assim e não podia ser de outra forma”.
Podem não ser herdeiros directos do homem, mas servem os mesmos senhores e, diria eu, com um certo ganho de eficácia.
Parece que passaram da sinceridade do “quero que se lixem as eleições” à sinceridade do “quero que se lixem as pessoas” e vão imaginando um País sem gente enquanto se esforçam para nos transformar em gente sem País.
Este descolar da realidade levará à queda desta gente e ao recuperar do País por parte daqueles em quem reside a soberania, o povo.
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na Rádio Diana)

2 comentários:

  1. Houve alguém que ao falar da sua juventude disse, “eu não tive sonhos nenhuns. Quando era jovem apenas tentava arranjar trabalho”.
    Li esta frase no dia em que um indivíduo qualquer, associado da firma que detém a actual concessão, afirmou para quem o quis ouvir que o país está melhor, as pessoas é que não.
    Veio-me há memória a infância num país em que de facto se acreditava que só roubando os sonhos à maioria, seria possível alimentar os ideais de grandeza bacoca de uma infíma minoria.
    Claro que isto foi antes dos cravos, na época dos bons chefes de família, do Deus, Pátria e Autordade, em que existia um Portugal dos pequenitos espalhado pelos cinco continentes e os cidadãos eram uma espécie indistinta de servos, todos vistos por atacado, contemplados do alto, como as formigas num carreiro, sem diferenças, sem singularidades, com vida apenas para trabalhar e dobrar a cerviz à voz do amo.
    Na época das fardas e dos bibes escolares, feitos á medida das maleitas que se pretendia encobrir. Foi no tempo da modesta casinha, do aniki bobo, do sr regedor e da polícia política, foi quando o movimento nacional feminino e a federação nacional da alegria no trabalho, ficavam ao lado dos grémios da lavoura e das sedes da legião portuguesa, no tempo do cantando e rindo lá vamos nós para os calabouços da pide, ou para as “colónias” que também são Portugal e necessitam de ser defendidas dos terroristas e do perigo vermelho que infecta o mundo e come criancinhas ao pequeno almoço, logo depois da injeção atrás da orelha aos velhotes inúteis, que mais não fazem do que passar os dias em repetidas queixas.
    Nesse tempo a escola era um luxo, uma coisa supérflua para a maioria, porque era o trabalho que forjava os homens, e o trabalho era a enxada e a pá e a fábrica e o Toino fostes ao mar Toino!
    Passar além da quarta classe, aprender para lá do dois mais dois, dos rios Tejo e Zambeze e do pico do Ramelau, das paragens e apeadeiros da linha de Benguela, ou das traulitadas do Santo Condestável... Isso só para quem pagasse, porque bibes no liceu, apenas para as meninas prendadas, já que os meninos uniformizavam de Lois ou de Levis e quem quisesse fugir a isso só no seminário, entre padres e batinas e rezas matinais com sotaque beirão nas prédicas dos evangelhos.
    As Universidades, essas... eram negócio de família, com os rebentos a seguir os estudos dos papás, escoltados por polícias de choque ou da secreta sempre dispostos a zurzir matematicamente o lombo dos prevaricadores.
    A saúde era uma questão de fé, porque as enfermeiras eram freiras e os hospitais da misericórdia, muito bem equipados com tesouras e esparadrapos, a curar as feridas da miséria.
    Era assim porque o sonho possível era o trabalho, feito das amarras do emprego sempre nas baias do medo, porque quem não sabe não sonha, não imagina, não suspeita sequer que existe vida para além da cenoura que lhe põem à frente do nariz.
    Porque quem não sonha não sabe que existe escola para além dos excelentíssimos dinossauros que ladeiam a cruz nas salas de aula fascistas.
    As dignas percursoras das salas de agora, que tão pressurosamente os concessionários se apressam a recuperar.
    Porque quem não sonha, apenas procura trabalho, e sem gente que sonhe, o país continuará bem, apesar da miséria, da repressão, da continua tortura de não haver amanhã diferente do hoje.
    Que ingénuos! Que burros fomos! Quando pensamos que esse tempo não voltaria mais...

    ResponderEliminar

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.